quarta-feira, 8 de março de 2017

A tourada (estátuadesal)

 

(Por Estátua de Sal, 08/03/2017)
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          Passos, o bandarilheiro
O Pan e outros grupos de cidadãos, preocupam-se com a defesa dos animais e com o sofrimento dos touros e propõem e defendem que se acabem com as touradas por estas serem uma manifestação de selvajaria primária. O tema gera sempre alguma controvérsia, porque há sempre argumentos para todos os gostos e as touradas ainda vão perdurando, para mal dos touros.
E de tal forma perduram que hoje a tourada saiu, levada em ombros pelo PSD, do Campo Pequeno para a Assembleia da República. Foi no debate quinzenal com o primeiro ministro, ao qual assisti na íntegra nas televisões. O que se passou então?
Pedro Passos Coelho considerou ser um insulto pessoal que António Costa tivesse ligado a não divulgação da lista de transferências para offshores - da lavra até ver, de Paulo Núncio -, e do não escrutínio fiscal de parte dessas transferências, a uma falha da sua governação. Pelo que se insurgiu por Costa não lhe apresentar desculpas. Costa retorquiu que o insultado tinha sido ele, que foi caracterizado por Passos como sendo vil, reles e soez, logo ele sim, teria que receber um pedido de desculpas. Tudo isto, num ambiente de grande pateada e sururu, com a bancada do PSD em alvoroço, mais parecendo uma turma de putos imberbes da escola primária em desatino completo.
E as duas faenas seguintes foram de almanaque. Coelho pede a palavra para defesa da honra.  E que disse Coelho? Nada de jeito. Que criticar politicamente a sua péssima governação é um ataque à honra. Extraordinário. A minha pergunta é como é que se pode defender aquilo que não se tem. O Coelho parecia o D. Quixote a terçar armas em prol de moinhos de vento. Quer Passos convencer-nos que roubou os portugueses, cortou salários e pensões, e que o fez com muita honra. Lindo. É como um carteirista dizer que nos roubou a carteira e que se nos insurgirmos e o criticarmos estamos a atacar a sua honra de bom profissional do ramo. Perante este mundo bizarro e deprimente que a direita serve em directo ao país na Assembleia da República, acho mais urgente varrer de vez Passos da cena política, do que acabar com as touradas, desculpem-me lá os touros.
De seguida veio Montenegro, e também pede a palavra para defesa da honra, não dele próprio, mas da bancada do PSD que ele dirige, porque Costa tinha dito que os deputados do PSD andam ressabiados. Eu esta, confesso, deve ir para os anais. A honra da bancada não sei bem o que seja, já que eu julgava que a honra seria um atributo pessoal, do carácter e da personalidade de cada um e não um atributo colegial. Mas enfim. E que diz Montenegro em sua defesa? Nada de jeito. Conclui apenas que o primeiro ministro é mal educado. Sim, com todas as letras, Montenegro chamou mal educado ao primeiro ministro.
Costa, o único a quem já chamaram, mentiroso, vil, soez e agora mal educado, e que nunca ripostou de forma sequer aproximada a tais mimos, vejam bem, tem uma paciência de santo para conseguir aturar a cáfila que (des)governou o país durante quatro anos. Quando a direita acha que criticar as suas políticas é um ataque à honra e quando acha que atacar a honra de terceiros é um ataque às políticas, estamos perante um caso de doença aguda do foro psiquiátrico a necessitar de internamento urgente. Transfira-se pois a bancada do PSD em peso, de São Bento para o Júlio de Matos.
A direita anda, portanto, perdida nas sua diarreia mental. Depois de ter feito penar os portugueses ainda queria que o país lhe agradecesse pelos sofrimentos. Queria, e julgava que tinha a seus pés, um país de masoquistas e de bois mansos, que depois das bandarilhas no lombo ainda iria lamber a ponta da espada de Passos Coelho envergando traje de luzes, e armado em grande toureiro.
Enganou-se. Os portugueses recusaram os ferros de Passos Coelho e fizeram-no morder o pó da arena. E o personagem, mesmo perante todas as evidências, ainda continua a não querer acreditar que foi corneado pelo país e que só lhe resta ser levado em maca para fora do palco para ser tratado urgentemente.
 
Ovar, 8 de março de 2017
Álvaro Teixeira