sábado, 11 de março de 2017

Como as acusações contra Obama ameaçam virar-se contra Trump

 

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No Twitter, Trump acusou Obama de ter colocado os seus telefones sob escuta na Trump Tower durante a campanha para as presidenciais

© Reuters No Twitter, Trump acusou Obama de ter colocado os seus telefones sob escuta na Trump Tower durante a campanha para as presidenciais
O porta-voz de Barack Obama garantiu que nem o ex-presidente nem a Casa Branca alguma vez mandaram escutar um cidadão americano. James Clapper, o antigo diretor dos serviços secretos, explicou na NBC que "não houve qualquer atividade de escuta montada" contra Donald Trump durante a campanha presidencial. E o atual diretor do FBI, James Comey, terá pedido ao Departamento de Justiça para rejeitar as acusações do presidente contra o antecessor. Mas quer seja verdade quer não, o tweet em que Trump garante "Acabo de descobrir que Obama mandou escutar os meus telefones na Trump Tower antes da vitória" pode rapidamente virar-se contra ele.
Denunciando um novo Watergate e comparando os métodos de Obama ao macarthismo, a caça às bruxas dos anos 1950, quando o senador Joseph McCarthy perseguia comunistas, Trump não apresentou provas que confirmem as acusações contra Obama. Mas no domingo o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, anunciou que o presidente pediu ao Congresso para investigar se o governo federal ordenou escutas a responsáveis da sua campanha no âmbito do inquérito ao envolvimento russo nas presidenciais.
Os rumores sobre um "golpe silencioso" de Obama contra Trump surgiram primeiro no site de notícias Breitbart News (ligado à extrema-direita e cofundado pelo agora estratega principal da Casa Branca Steve Bannon) e pelo animador de rádio conservador Mark Levin.
As ligações entre a campanha de Trump e a Rússia foram assunto dominante na corrida às presidenciais de 8 de novembro. Fosse pelos negócios do republicano com Moscovo, por o seu então diretor de campanha, Paul Manafort, ter trabalhado para um partido pró--russo na Ucrânia ou por um dossiê organizado por um ex-agente secreto britânico a pedido de opositores ao milionário ter revelado que "o regime russo apoiou Trump durante pelo menos cinco anos".
Apesar de nada ter sido confirmado - e de parte até ter sido negado -, nos últimos meses surgiram notícias, sobretudo na imprensa britânica, de que as autoridades americanas estariam a tentar obter autorização da justiça para investigar membros da equipa de Trump ligados a Moscovo. Em janeiro, o The Guardian escrevia que, no verão de 2016, o FBI teria pedido um mandado ao tribunal FISA (Foreign Intelligence Surveillance Act) para monitorizar as comunicações de quatro membros da campanha de Trump suspeitos de contactos irregulares com responsáveis de Moscovo. O pedido terá sido negado, ao contrário de um segundo, aprovado em outubro e que visava apenas dois bancos russos, suspeitos de transferirem dinheiro para os EUA.
Para emitir um mandado a autorizar escutas a cidadãos americanos, o FISA teria de considerar haver causa provável de que esses indivíduos estavam a agir como "agentes ao serviço de uma potência estrangeira". Por isso, se o mandado de outubro autorizasse escutas aos bancos russos - mesmo que as comunicações envolvessem sujeitos americanos -, isso não contradiz Clapper.
Sendo assim, se Trump estiver correto e o governo federal tiver conseguido um mandado para o escutar, significa que havia suspeitas fundadas de que estaria a agir ao serviço de uma entidade estrangeira. O que obrigaria o Congresso, na investigação que o próprio presidente pediu, a esclarecer os contactos entre a sua campanha e Moscovo. "Será mesmo o que a Casa Branca quer?", interroga-se a New Yorker.
Já se Trump estiver errado e as acusações contra Obama forem falsas, o presidente arrisca-se - segundo a Bloomberg - a ter de responder por abuso de poder.
Um cenário alternativo seria as escutas terem sido feitas ilegalmente. Mas aí estaríamos mesmo diante de um novo Watergate - as escutas à sede democrata na campanha presidencial de 1972 que obrigaram Richard Nixon a demitir-se para escapar à destituição.
Num caso como no outro, não faltam analistas a falar num possível processo de destituição de Trump. Apesar de com um Congresso dominado pelos republicanos as hipóteses de sucesso serem mínimas.
Uma baixa e uma escusa
Já com Trump na Casa Branca, a ligação à Rússia continuou a fazer estragos. Primeiro foi Michael Flynn, o conselheiro para a segurança nacional a ser afastado do cargo. Tudo porque não comunicara ao vice-presidente Mike Pence que nos encontros que mantivera na campanha com responsáveis russos discutira as sanções a Moscovo. Já nesta semana, depois de o Departamento da Justiça ter divulgado que o tenente-general na reserva trabalhara como lobista para o governo turco através de uma empresa sediada na Holanda, a Casa Branca garantiu que Trump "não sabia" que Flynn fora agente de um governo estrangeiro antes de o nomear.
Já o procurador-geral Jeff Sessions pediu escusa de qualquer investigação às alegadas ingerências russas na campanha depois de vir a público que se encontrara com responsáveis de Moscovo na campanha. A oposição democrata pede a sua demissão, acusando-o de mentir sob juramento no Senado.
 
Ovar, 11 de Março de 2017
Álvaro Teixeira