quarta-feira, 12 de abril de 2017

Rui Rio não faria melhor

 


miguel guedes
 
Após a apresentação pública do candidato do PSD à Autarquia do Porto, tudo indicava que assistíramos a uma encenação particular com notas de autor e requintes de estratégica malvadez. Rui Rio não faria melhor. Promovendo ou apoiando um candidato convenientemente inexistente aos olhos da opinião pública, o PSD de Rio afluiu em peso para uma iniciática demonstração sobre a falta de peso específico do candidato Álvaro Santos Almeida (ASA). Uma apresentação sem candidato. Qualquer notícia que tenha reproduzido uma ou duas frases de ASA terá pecado manifestamente por excesso. Rui Rio não usou da palavra (não se comprometendo em demasia, exercício de estilo que demarca o autor da criação), acomodou-se na cadeira ao lado de Passos Coelho (solidariedade institucional com o líder, motivando aplausos) e reafirmou (antes da chegada de Passos) que concorrerá à liderança do partido caso não surja uma alternativa credível que permita ao PSD mobilizar o eleitorado. Num par de horas, sempre a somar pontos.
Até ao KO. O momento zen no pleno da roleta programada acontece quando Rio assiste e resiste - sem riso aparente - ao momento em que Passos Coelho assegura que "o Porto está parado há quatro anos", vivendo da "herança que foi recebida e do adiamento" numa altura em que "nada se passa". Ainda não há delegados eleitos para o Congresso, Rio não foi eleito líder do partido, ASA ainda não é deputado da nação ou cargo análogo pela mão-promessa do criador, mas já Passos assina mais uma metáfora da vida para aqueles que não entendem ter morrido politicamente de forma nada prematura. O lado risível da declaração não se confina aos seus termos. É quase cândida a forma como Passos não aceita que o país tenha mudado sem ele. É quase infantil como Passos definha na liderança do partido à espera que os adversários internos - que agora elogia pela caução positiva do passado - lhe façam a trama.
Passos Coelho comporta-se como um candidato a monarca sem reino que não resiste a cumprir o protocolo de Estado. Intrigante como não assinou, a bem da simetria, a Petição que defende a "Inclusão do Duque de Bragança na Lei do Protocolo de Estado". Por absurdo, seria bem menos risível do que as suas declarações sobre a herança duma cidade que ainda há dois anos via bem governada. Com boa parte da Direita militante reunida à volta da memória que honra a descendência e representação dos reis de Portugal, a ausência do líder do PSD faz-se notar. É que a descendência no mais-representativo-partido-da-oposição-apesar-das-sondagens já é um processo degenerativo: não há memória de uma coisa assim.
O autor escreve segundo a antiga ortografia
* MÚSICO E ADVOGADO
 
Ovar, 12 de abril de 2017
Álvaro Teixeira