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sábado, 28 de julho de 2018

Desembrulhar

Ladrões de Bicicletas


Posted: 27 Jul 2018 03:40 PM PDT

Eu bem sei que um jornal de terça-feira já só serve para embrulhar peixe, mas quero chamar a atenção para duas peças do Público desse dia.
“Isto é de pessoas para pessoas”, resume de forma ternurenta uma empresária do alojamento local numa reportagem. Da autoria de Cristina Moreira, esta reportagem podia ter sido escrita pela Associação do Alojamento Local, ou por uma empresa de comunicação contratada por esta, de tal forma assume apenas as dores dos proprietários e, implicitamente, das multinacionais de um sector “que trouxe aspectos positivos, aos quais, como em tudo, se agarram alguns negativos”. Como em tudo, notem. Como em tudo, há aqui uma perspectiva de classe associada ao nexo turismo-imobiliário. Os interesses dos que necessitam de uma casa para nela viver, e cuja vida tem sido dificultada, não são tidos nem achados. Como em tudo?
É impressão minha ou as lógicas do suplemento comercial do imobiliário, que sai à quarta-feira no Público, e dos interesses do sector que nele se manifestam a favor dos direitos de certa propriedade, desprovida de obrigações e de limitações, parecem cada vez mais invadir o resto do jornal? E esta operação de propaganda, centrada no romance dos pequenos empresários do alojamento local, como se mesmo estes não pertencessem a grupos relativamente privilegiados, destina-se a combater alterações legislativas, que eventualmente se traduzirão num certo regramento municipal deste sector.
Por falar no poder ideológico do capital, veja-se a entrevista ao novo “director de estudos” da fundação pingo doce, “que promete pôr o país a pensar”, garante-nos a jornalista; a pensar, por exemplo, sobre a privatização do Estado social, ou seja, sobre a transferência de riscos para os indivíduos assim vulneráveis. Afinal de contas, “as pessoas terão de contar muito mais consigo próprias”. As pessoas, sempre as pessoas. No fundo, à boleia de um suposto destino demográfico, quer colocar mais pensões no casino da especulação. Em modo de pilares do Banco Mundial no ponto alto da confiança neoliberal, com mais custos de transação e de instabilidade económica, tal solução tornaria tudo pior.
À boleia “de uma corrida global pelo talento”, Gonçalo Matias defende também o aprofundamento da lógica vergonhosa subjacente aos vistos gold e ao regime fiscal do residente não habitual. Uma corrida para o fundo em termos fiscais só possível porque se aceita o predomínio do capital sem fronteiras. E depois diz que o Estado não terá capacidades, nem recursos. Nada que deva surpreender, dada a autonomia cada vez mais diminuta dos campos. Afinal de contas, em última instância, por trás de uma fundação com milhões está um império económico, de milhares de milhões, sediado na Holanda: sabe mesmo bem pagar tão pouco. E saberá bem entrar em sectores ainda muito socializados. Já têm clinicas e certamente que são de pessoas para pessoas. A crise do SNS, induzida pelo austeritarismo com escala europeia, é uma oportunidade também. A crise induzida na escala certa é sempre uma oportunidade.
Em duas peças, toda uma economia política desembrulhada. Embrulhe-se de novo?

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