Ladrões de Bicicletas
Posted: 20 Jul 2018 05:05 PM PDT
Pelo menos duas questões continuam hoje a dificultar a compreensão do problema dos incêndios florestais no nosso país. A primeira não é de agora e prende-se com a ideia, que os dados há muito refutam, de que a maioria dos fogos tem origem em mão criminosa. A segunda, mais recente, prende-se com a desvalorização da importância crescente do clima e da meteorologia, apesar das evidências nesse sentido que os grandes incêndios do ano passado nos deixaram.
Vale por isso a pena reter um dado essencial, relativo aos grandes incêndios de 17 de junho e 15 de outubro, indissociáveis da ocorrência de fenómenos atmosféricos extremos e excecionais, na sua natureza e intensidade (como o downburst em junho ou as dinâmicas associadas à passagem do furacão Ofélia, em outubro): se descontarmos a área ardida nestas duas datas, 2017 pode ser considerado um ano «normal», face a anos anteriores. Isto é, em vez dos históricos 248 mil hectares de área ardida, sem os grandes incêndios destes dois dias passamos a falar em menos de metade desse valor: cerca de 170 mil hectares, em linha com os 160 mil de 2016 ou os 150 mil ardidos em 2013.
De forma mais circunstancial, a relevância dos fatores climáticos fica aliás patente na diferença abissal entre o primeiro semestre deste ano e o primeiro semestre de 2017, em termos de temperatura, precipitação e humidade no solo, permitindo compreender por que razão, até agora, 2018 é um ano à partida muito menos propício à propagação rápida e desgovernada de focos de incêndio. De facto, ao contrário do que sucedeu em junho de 2017, quando a maior parte do território nacional se encontrava em seca severa e extrema, no mesmo mês de 2018 nenhuma parcela do continente está em situação de seca, graças a um inverno e primavera mais pluviosos que no ano anterior.
Uma melhor perceção, pela opinião pública, do peso relativo das diferentes causas dos fogos (em que se destacam os comportamentos negligentes, mais que a criminalidade deliberada) e da relevância crescente dos fatores climáticos (que colocam novos problemas e desafios muito mais complexos), é pois essencial tanto na perspetiva da prevenção como do combate. Mas, para isso, seria importante que o debate público não continuasse tão centrado na discussão das «falhas» e valorizasse também, para além do que é profundo e estrutural, as alterações climáticas e os fenómenos que se lhes associam (que os relatórios dos incêndios de 17 de junho e 15 de outubro analisam e documentam).
Bem sabemos que nem tudo interessa à vertigem sensacionalista da comunicação social. Mas se um dia se proceder a uma análise, objetiva e sistemática, da cobertura mediática dos grandes incêndios de 2017 (e, em especial, das notícias que se seguiram à divulgação dos relatórios técnicos então produzidos), talvez se perceba que a sobrevalorização das «falhas» - o tema primordial dos noticiários, diretos e programas de comentário e debate - não ajuda a uma compreensão mais ampla, e a um alcance mais pedagógico, do significado dos grandes incêndios do ano passado.


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