Novo artigo em BLASFÉMIAS
por rui a.
A direita portuguesa está – finalmente – fragmentada em, pelo menos, quatro grupos com pretensões de poder: nos seus dois partidos históricos, o PSD e o CDS, no novo partido de Pedro Santana Lopes e num conjunto de pequenos partidos ou proto-partidos de matriz liberal (Iniciativa Liberal, Democracia 21, Partido Libertário).
Isto é, ao contrário do que se poderá julgar, uma boa notícia para a direita portuguesa e para o regime democrático.
Primeiro, porque PSD e CDS estavam, desde há muito, completamente anquilosados, não traziam nada de novo para o país e as pessoas, e, por esse motivo, dificilmente cresceriam. Ora, como a geringonça demonstrou, a direita só voltará ao poder se conseguir uma maioria absoluta parlamentar (115+1), o que PSD e CDS, nestas circunstâncias, muito dificilmente atingiriam. Se estes novos partidos conseguirem alguma representação parlamentar – e, pelo menos, o de Santana Lopes é uma incógnita e poderá até ser uma surpresa (não o desvalorizem…) – poderão vir a somar votos e deputados aos dos dois partidos tradicionais.
Em segundo lugar, a concorrência apura a qualidade e o facto de aparecerem novos partidos, com novas mensagens programáticas, onde a abertura ao liberalismo poderá ser muito importante, contribuirá para aumentar a exigência dos eleitores do PSD e do CDS. Se a mensagem liberal e popular começar a ter receptividade pública, PSD e CDS certamente que se interessarão por ela. Veja-se o que está a suceder com o Partido Popular espanhol, que aproveitou a mudança do líder para fazer uma inflexão ideológica do centrismo para o liberalismo. Poderá ser que, finalmente, a direita indígena perca os complexos de esquerda e assuma o liberalismo como uma componente ideológica própria. E, como este é politicamente transversal, poderemos ter grupos liberais expressivos em qualquer uma das formações partidárias.
Por outro lado, a saída de Pedro Santana Lopes do PSD, poderá permitir que Rui Rio centre a posição ideológica do partido que lidera num centro-esquerda à nórdica, competindo mais directamente com o PS e roubando-lhe votos de uma área onde sobretudo se encontram os funcionários públicos que se consideraram maltratados pelo PSD de Passos Coelho. Deste modo, o PSD poderá perder votos à direita, mas ganhará à esquerda. O que eleitoralmente é bom para a direita: quebrará o tabu do voto do funcionalismo público no PSD, aumentará a expressão parlamentar da direita no seu conjunto, e poderá reduzir os votos (e mandatos?) do PS.
Por último, há uma imensa abstenção, e muita dela resulta do desinteresse que a política tradicional provoca nos eleitores. Novos partidos, novas mensagens e novos protagonistas poderão ir buscar alguns votos aí, e ampliar o eleitorado da direita.
Em conclusão, dificilmente a direita regressaria ao poder com os dois partidos do costume. A geringonça entender-se-á sempre, desde que forme maioria no parlamento, para manter o poder e para evitar que isso aconteça. Dividida em vários partidos, a direita portuguesa poderá, por paradoxal que pareça, regressar ao poder com mais facilidade.
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