21.08.1986 – O dia em que Alexandre O'Neill se foi embora
Posted: 22 Aug 2018 10:11 AM PDT
Alexandre O'Neill morreu há 31 anos e a melhor maneira de o recordar é regressar a textos seus. Aqui fica um.
Idiotia e Felicidade
Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela.
Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.
Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.
Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.
Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.
Alexandre O'Neill, in Uma Coisa em Forma de Assim
.
Posted: 22 Aug 2018 08:21 AM PDT
Centeno e a tragédia grega (Anselmo Crespo)
«Centeno, o presidente do Eurogrupo, nada tem a dizer sobre isto. Mas Centeno, o economista que ajudou a construir o programa do PS, tinha várias teorias sobre a economia europeia e sobre o que de errado estava a ser feito. Era aliás, todos se lembrarão, um crítico feroz das políticas impostas pela troika, em Portugal como na Grécia. E um crítico ainda maior da forma como a Europa assobiava para o lado quando alguém tentava discutir o problema da dívida pública. Mas isso foi antes. É história. Faz parte do passado. Agora, Centeno é o presidente do Eurogrupo - e parece bastante satisfeito com o trabalho que a troika fez na Grécia.»
.
Posted: 22 Aug 2018 07:52 AM PDT
Presta-se a muitas reflexões, mas a primeira que me veio à cabeça foi esta: o jeito que isto me dava cá em casa para ser obrigada a fazer exercício físico antes de chegar à rua!
.
Centeno encontra-se com Mr. Hyde
Posted: 22 Aug 2018 03:12 AM PDT
«Há encontros mais prováveis do que outros. Mas o de Mário Centeno com Mr. Hyde não cabe apenas numa canção dos saudosos Ban. Não se sabe se Centeno é, de dia, o Dr. Henry Jekyll e, de noite, o ruim Mr. Hyde. Ou melhor, se é Jekyll quando está no Ministério das Finanças do Governo PS e Hyde quando está sentado na cadeira dourada do Eurogrupo. Esta confusão de personalidades é, claramente, desgastante. Porque, às tantas, não sabemos já quem é Mário Centeno. Duvida-se mesmo de que Mário Centeno saiba quem é Mário Centeno. Centeno queria ser um pauzinho na engrenagem mas, depois do seu teledisco sobre a Grécia, tornou-se na engrenagem que devorou o pauzinho. Sabia-se que quando se sentasse na cadeira da presidência do Eurogrupo, Mário Centeno iria transformar-se num sorridente Jeroen Dijsselbloem, também ele uma voz do Partido Trabalhista holandês. Mas não se julgava que o choque eléctrico criasse um problema de duplicidade de identidade. Centeno, depois de dizer que "a Grécia voltou à normalidade", deixou de ser especialista em finanças: é um ilusionista com diploma passado por uma universidade alemã. Nada que admire.
Grécia e Portugal foram os bodes expiatórios da incompetência e dos dogmas económicos e culturais de Bruxelas e Frankfurt para enfrentar a crise financeira global. Foram os sacrificados para salvar Itália e Espanha. Se era necessária austeridade, ela tornou-se uma obsessão que corroeu a sociedade e todos os contratos sociais. Na Grécia, começou-se por salvar os bancos alemães e franceses. Depois foi o PIB a cair a pique, as centenas de milhares de gregos a sair do país e a "recuperação", com uma dívida externa que nunca poderá ser paga, uma economia sufocada e salários cada vez mais baixos. E já nem se fala na forma como a gentil Europa abandonou os gregos nos dias mais críticos da chegada de migrantes às suas costas. O caldo de cultura perfeito para o crescimento da extrema-direita. O custo social da tragédia grega é a maior dívida da Europa a esse país. Só Mr. Hyde não a vê.» .



Sem comentários:
Enviar um comentário