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sábado, 1 de setembro de 2018

Entre as brumas da memória


Foram diferentes os Maios

Posted: 31 Aug 2018 02:29 PM PDT

Amanhã andarei por Leiria, no Fórum Socialista 2018 do Bloco de Esquerda, onde partilharei uma sessão com Mário Tomé sobre «O Maio de 68 e as consequências em Portugal». O que direi encontra-se resumido neste texto escrito para o efeito.

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O 50º aniversário dos acontecimentos de Maio de 1968 em França foi amplamente assinalado em Portugal, num notável número de seminários, debates, documentários, entrevistas e textos. Informação disponível não falta, portanto, e não retomarei relatos mais do que conhecidos de factos, relações entre o que teve início no meio estudantil e se estendeu depois ao operariado, nem as eternas discussões sobre sucessos e razões para fracassos.

Se regresso hoje ao tema, faço-o exclusivamente porque este texto servirá de base a uma intervenção minha numa das sessões do Forum Socialismo deste ano, organizado pelo Bloco de Esquerda.

Que o 68 francês «chegou» a Portugal não parece oferecer dúvidas, embora nem todas as leituras coincidam. De um modo geral, no entanto, parecem congregar-se na opinião de que foi no ano seguinte que as influências mais se fizeram sentir, nomeadamente no meio estudantil com as lutas académicas em Coimbra e em Lisboa. Oiça-se, por exemplo, uma boa síntese feita por Fernando Rosas em As lutas de 68, por Fernando Rosas e Mamadou Ba (a partir do minuto 48).

Prefiro chamar a atenção para um «outro mundo», pouco ou nunca abordado e no qual então me movia: o de uma esquerda que não estava à época enquadrada em partidos ou movimentos marxistas-leninistas, PC e outros, e para a qual 1968 teve uma influência decisiva que não esperou por 69 e que veio para ficar com consistência.

Mais concretamente, estou a falar, não só mas sobretudo, do universo dos chamados «católicos progressistas», então no início de um processo de ruptura com a Igreja, moribundas que estavam as esperanças depositadas no Concílio Vaticano II e num qualquer posicionamento dos bispos portugueses contra o fascismo. Note-se que a esta mancha da esquerda se juntava, em muitas acções, um grupo razoável de activistas não católicos, sobretudo herdeiros da crise académica de 1962 e não enquadrados em estruturas partidárias ou movimentos afins.

Este conjunto de pessoas, maior do que se pensa embora de difícil quantificação, já se encontrava há alguns anos activo em várias plataformas interligadas, umas mais culturais como a revista O Tempo e o Modo, outras de intervenção social e política, como as cooperativas Pragma e Confronto, ou clandestinas como O Direito à Informação que divulgava informações verdadeiras sobre a guerra colonial.

Agia-se como se podia contra essa guerra e protestava-se contra a do Vietname, era-se a favor de todos os Luhter King do universo, com uma maior abertura a latinidades (sul-americanas ou francesas) do que a bater de asas em Moscovo, Pequim ou Tirana. Seguia-se a Primavera de Praga com entusiasmo, mas sem grandes surpresas com a invasão soviética do mês de Agosto e sem o traumatismo que outros experimentaram por causa da mesma. Cuba e os seus heróis, sim, estavam bem presentes no horizonte de todas as utopias.

100% francófona, foi uma população que viveu os acontecimentos de Paris com um entusiasmo certamente um tanto pueril mas garantidamente genuíno, não só no plano cultural, mas também na intensificação das relações com organizações francesas já anteriormente apoiantes da luta antifascista portuguesa.

Também a nível dos comportamentos se acelerou uma já iminente libertação. Os tabus ligados à família e à sexualidade vinham a ser especialmente reprimidos desde há algum tempo, sendo um exemplo típico a apreensão pela PIDE, em Março de 1968, de um número especial da revista O Tempo e o Modo sobre «Casamento». Os acontecimentos parisienses de Maio encontraram terreno fértil neste plano, para que saltassem tampas de repressões várias. E se estas não eram apanágio dos meios católicos, tomavam nestes maiores proporções pelo peso da educação, pelas poucas ou nenhumas aberturas da Igreja nesta área, pela inexistência de divórcio para quem se tivesse casado pela Igreja. Vacilaram casamentos, caíram alguns, multiplicaram-se «uniões de facto» mais do que condenadas pelas autoridades religiosas, foram-se casando os primeiros padres. (Nunca esquecerei o relato que um amigo me fez há poucos anos: desterrado na Guerra Colonial quando tudo isto aconteceu, e embora fosse seguindo de longe os acontecimentos e mantendo os contactos, encontrou no regresso o seu mundo de sempre «de pernas para o ar», incluindo o próprio casamento que acabou por colapsar.)

Também se iam agravando os conflitos com os bispos portugueses, nomeadamente com o cardeal Cerejeira, que não perspectivavam qualquer distância em relação ao fascismo em geral e à guerra colonial em particular e que geriam com mãos de ferro os conflitos crescentes, não só com leigos mas também com uma camada de padres e seminaristas jovens e progressistas, que, a pouco e pouco, foram deixando a Igreja. Quando, em Julho de 68, Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae sobre sobre a regulação da natalidade, onde eram condenados todos os métodos anticoncepcionais, pílula incluída, esperar que a mesma fosse acatada, mesmo por alguns católicos com responsabilidades especiais nas estruturas da Igreja, era pedir que se voltasse a acreditar no Pai Natal. A Humanae Vitae funcionou como a gota de água que faltava a muitos para a desilusão definitiva e mesmo para o corte com qualquer prática religiosa. (O padre Anselmo Borges publicou, muito recentemente, um interessante texto sobre o tema.)

Em resumo, a claustrofobia em que se vivia em Portugal, sem as liberdades mínimas e com sete anos de guerra colonial, escancarou as portas para que a contestação de todos os poderes se instalasse, a nível da oposição ao regime – e à Igreja – e no plano dos costumes. Luta pela liberdade e luta por todas as liberdades passaram a fazer parte de uma mesma batalha. Claro que tudo acontecia apenas a nível de elites em (poucos) centros urbanos. Mas eram elites francófonas e francófilas, para quem Paris já era, e passou a ser ainda mais, o que de mais parecido havia com o paraíso na terra... Por outras palavras, estou a dizer que foi provavelmente a faceta contestatária e libertária do Maio de 68, que mais influenciou esta esquerda não muito «ideológica», longe de grandes ortodoxias e ansiosa por passar à prática, e que marcou a sua maneira de agir em todo o período marcelista. Não foi certamente por acaso que um número significativo de ex-padres, seminaristas, católicos e ex-católicos aderiu a organizações como a LUAR e o PRP/BR, e só excepcionalmente ao PCP ou às então novíssimas organizações maoistas, nos últimos anos da década de 60 e nos primeiros da que teve início em 1970.

Com o 25 de Abril e o PREC foram vários os caminhos seguidos, mas arrisco dizer que o ano de 68 e os que se lhe seguiram deixaram uma marca que continua a reflectir-se, para muitos, num certo modo de estar na vida e na política.

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No dia em que Sérgio Godinho faz 73

Posted: 31 Aug 2018 11:25 AM PDT

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Quase 2/3 dos jovens admitem prescindir de ter emprego fixo

Posted: 31 Aug 2018 08:25 AM PDT

Cátia Mateus no Expresso diário de 30.08.2018:

«Foi a “Forbes” quem lançou o alerta já no ano passado: em 2020 os millennials - a geração de profissionais nascida entre a década de 80 do século passado e a viragem do milénio - vão representar 40% da força de trabalho mundial. Em 2025 serão 75%. E mais do que os números, foi a análise realizada pela publicação de gestão que fez soar o alerta entre os gestores: “Quer se goste ou não, os millennials serão ativos críticos para a sustentabilidade dos negócios. Se eles não quiserem trabalhar para as vossas empresas, o vosso negócio morre”. O que a consultora Deloitte agora demonstra é que este afastamento das gerações mais jovens - não só da geração millennial, mas também da sua sucessora geração Z (nascidos entre 1995 e 2012) - já está a acontecer.

O mais recente Millennial Survey, o estudo anual da consultora que analisa a prestação desta geração no mercado de trabalho, agora divulgado, revela que globalmente os millennials e a geração Z estão menos leais às empresas, confiam menos nos seus líderes e na ética das organizações. O resultado desta descrença traduz-se em números: 62% dos profissionais encara a hipótese de trabalhar em regime de freelancer como uma alternativa ao emprego a tempo inteiro, apesar da instabilidade associada a modelos de trabalho flexíveis.

Esta nova realidade marca uma inversão face ao foco na estabilidade que caracterizou gerações anteriores. Os novos profissionais não só não querem “criar raízes” nas empresas, como se orientam por outros valores que não os da estabilidade. Segundo o relatório da Deloitte (sustentado em entrevistas a mais de 10 mil millennials e 1850 jovens da geração Z em 36 países), 43% dos profissionais nascidos na até à viragem do milénio ponderam abandonar o seu emprego atual nos próximos dois anos e para 72% é proibitivo permanecer cinco ou mais anos na mesma organização. Na geração Z não há referências a um horizonte temporal de cinco anos. Mas sabe-se que 61% dos nascidos a partir de 1995, que já estão no mercado de trabalho, querem mudar de emprega até 2020.

O que afasta esta geração?

Todos os estudos apontam na mesma direção: não é o dinheiro que move estes profissionais, ou melhor, não é apenas o dinheiro. Destas gerações de profissionais sabe-se que são mais ambiciosas do que as anteriores e que têm maior consciência do seu valor profissional. Mas sabe-se também que para eles, tão ou mais importante do que trabalhar para garantir um salário, é trabalhar de forma ética, com líderes inspiradores e em empresas que gerem impactos sociais positivos. E é aqui que as organizações estão a perder pontos na retenção dos millennials e Z's que preferem assumir os riscos de trabalhar de forma independente.

Mais uma vez, os números da Deloitte demonstram-no. 52% dos jovens profissionais ouvidos no estudo não reconhecem um comportamento ético nas empresas e 56% também não identificam qualquer interesse em criar impacto positivo na sociedade por parte dos líderes. Resultados que segundo Sério do Monte Lee, partner (sócio) da Deloitte, “devem servir de alerta para os líderes empresariais” porque, refere, as novas gerações “sentem que os líderes estão muito focados nas agendas das suas empresas e pouco preocupados com o seu contributo para a sociedade”.

Uma orientação que está a ditar o seu afastamento das empresas e não é de agora. Em 2014, num artigo publicado na Harvard Business Review, Julia Fetherston e Vilas Dahr demonstravam que “a maioria dos millennials acredita que as empresas, e não os governos, terão o maior impacto na resolução dos principais problemas sociais” e defendiam que uma das grandes ambições desta geração é ser parte ativa nesse processo. Uma visão também corroborada pelo partner da Deloitte que acrescenta que “para conquistar a confiança e lealdade destas gerações, as empresas devem encontrar formas de impactar positivamente as comunidades locais e forcar-se em questões como a diversidade, inclusão e flexibilidade”.

Organizações com um propósito e líderes com forte vocação social são parte do caminho para reter uma geração que em breve dominará o mercado de trabalho mundial. A outra parte, conclui o estudo, passa por “conduzir uma atividade que seja capaz de gerar um impacto positivo na sociedade e no ambiente, ser um acelerador de ideias, produtos e serviços inovadores, ter um plano de carreiras que desenvolva e melhore, na prática, a vida dos seus profissionais e construir um ambiente de trabalho inclusivo”.»

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O truque dos 50% de IRS

Posted: 31 Aug 2018 03:23 AM PDT

«Por estes dias o Governo português transformou-se em David Copperfield e tentou fascinar-nos com um truque de ilusionismo: os portugueses qualificados que tivessem emigrado durante os tempos austeros de Passos Coelho, iam ser motivados a regressar.

Qual é o doce? Pagar só metade do IRS. Não se imagina que, nesse mesmo dia, milhares de emigrantes se tenha dirigido a correr para as embaixadas portuguesas no mundo para regressarem a Portugal perante tão generosa oferta. É um logro. É a outra face da moeda da política de incentivo à emigração de quadros qualificados fomentada pela troika e por Passos Coelho, quando achavam que Portugal deveria ser um país onde, por via da mão de obra barata, íamos concorrer com os fornecedores do Sudoeste Asiático. Dessa desastrosa ideia ficaram os salários baixos, mas não surgiu o investimento. E Portugal tornou-se ainda mais pobre, económica, científica, social e culturalmente devido a essa política que se tornou um dogma. Agora a mão que diz querer emendar o passado percorre os mesmos caminhos: como é possível incentivar o regresso com truques mágicos como este? Quem tem um salário decente na Europa, com perspectivas de futuro, irá trocar isso por um país onde é impossível viver nos centros urbanos devido ao preço da habitação, com tempo de transporte insuportável de casa para o trabalho, sem qualidade de vida, com baixos salários, e sem investimento visível no talento ou na criação de condições para a investigação, ou outras? Uma quimera. Vamos continuar a gastar alegremente dinheiro público e privado para criar quadros que irão embora?

Nada de novo por aqui. A emigração sempre foi a nossa indústria mais produtiva. Basta pensarmos nos dados de início da década de 1970: só para França seguiram, em 1970, 255 mil portugueses e 218 mil em 1971. Era a época da política de portas abertas do Estado Novo, depois de, até 1965, emigrar ilegalmente ser um crime. A emigração passou a ser vista como um factor de progresso e desenvolvimento. E não o investimento em áreas determinadas. A situação vinha do passado: em 1916, Bento Carqueja calculava que, nos anteriores 40 anos, 900 mil portugueses tinham abandonado o país. O Brasil era, na maior parte, o destino. Razão? Alexandre Herculano já o dizia há muito: "a insuficiência dos salários entre nós", escrevia nos "Opúsculos". Mais: "a miséria de um ou de outro indivíduo pode derivar da culpa própria: a que expulsa uma parte notável da população de um país, onde esta, considerada colectivamente, está longe de superabundar, é sempre resultante de um defeito ou de uma perturbação nos órgãos da sociedade". Poucos anos depois Oliveira Martins escrevia: "a emigração portuguesa é o barómetro da vida nacional, marcando nas suas oscilações a pressão do bem-estar metropolitano". Mais: o "mau negócio" da emigração era "uma fatalidade desde que nós não sabemos governar, nem soubemos resolver o problema fundamental da nossa economia demográfica". Nada mudou. E a culpa não é de quem emigra.»

Fernando Sobral

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