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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Um dia destes, acordamos em 1984

17/09/2018 by João Mendes

Cartoon via Madrid me Mata

Pensava eu que Espanha era um Estado laico, e não uma daquelas tiranias teocratas onde o comum cidadão pode ser preso por satirizar figuras religiosas, cuja simples existência não reúne sequer unanimidade. Anda a Europa às aranhas com Orbáns e quejados, e eis que um cidadão espanhol, o actor Willy Toledo, se vê na situação de ter que responder perante um juiz por, alegadamente, ridicularizar Deus e a Virgem Maria. Não sei bem porquê, mas vem-me imediatamente à cabeça imagens de fundamentalistas islâmicos a pedir a cabeça de cartoonistas que ousam ridicularizar o profeta Maomé e outros símbolos do Islão.

Não é a primeira e, pelo andar da carruagem, não será a última vez. E estas porras são contagiosas. Da música ao teatro de fantoches, a Santa Inquisição dos tempos modernos tem sido implacável, e a Amnistia Internacional já veio expressar a sua preocupação pelas restrições que a liberdade de expressão enfrenta em Espanha. Aqui e agora, na Europa Ocidental que se horroriza em permanência com a censura praticada a leste.

O caso de uma estudante espanhola, Cassandra Vera, condenada a um ano de pena suspensa e proibição de exercer cargos na função pública durante 7 anos, por ter feito piadas com o atentado que vitimou o dirigente franquista Carrero Blanco, choca os mais sensíveis. Um estado que oprime quem satiriza um tirano presta-lhe homenagem. E não, não estamos a falar do Irão, da Venezuela ou da Arábia Saudita. Não estamos sequer a falar da Hungria ou da Polónia. Estamos a falar de Espanha, uma democracia liberal que integra a União Europeia desde 1986.

A liberdade de expressão é um direito fundamental e um dos pilares da União Europeia. Porém, perante esta sucessão de casos de opressão, que trazem à memória o obscurantismo de outros tempos, nem uma palavra da União. Da União que ainda na passada semana despoletou um processo de sanções sem precedentes contra a Hungria, um processo que de resto acabará por bater numa parede chamada Polónia, que já avisou que usará o seu direito de veto para proteger o regime autoritário de Viktor Orbán. Vivem-se dias sombrios, naquele que é o último bastião daquilo que resta da democracia. Um dia destes, acordamos em 1984.

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