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terça-feira, 26 de março de 2019

Memória de uma entrevista

Ladrões de Bicicletas


Posted: 25 Mar 2019 06:04 PM PDT

A entrevista de António Costa ao Público merece três ou quatro comentários esperançosos e três ou quatro sem ilusões e sem preocupações de ser exaustivo.
Em primeiro lugar, reconhece a realidade ululante: “o euro foi o maior bónus que a Europa ofereceu à Alemanha”. Eu adicionaria a dimensão de classe à da geopolítica; falaria, por exemplo, de capital financeiro alemão e das duas alas do partido único exportador alemão, mas não quero ser picuinhas.
Em segundo lugar, vem reconhecer a inevitabilidade da “geometria variável” das alianças entre Estados, abrindo campo para várias velocidades e até direcções, perante a realidade do desenvolvimento desigual, da crescente heterogeneidade social e política da União Europeia, mesmo que seja para superar “paralisia” da integração. As ilusões não acabam todas de uma vez.
Em terceiro lugar, parece reconhecer a medo que nacionalismos há muitos e que a dicotomia liberal dos “abertos” e dos “fechados” representa um estreitamento perverso do combate político, embora por vezes caia nessa dicotomia habitual.
Em quarto lugar, reconhece que a integração europeia estreitou os termos do combate político. Quando Tsipras e Macron, o perigoso plástico político que ainda flutua, são as componentes de uma suposta aliança progressista está tudo dito sobre os destroços de uma social-democracia afundada pela UE.
Em quinto lugar, Costa continua a estar disponível para novas perdas de soberania, em nome de potenciais avanços progressistas na UE. Nem ele próprio pode acreditar numa loucura com cada vez mais condicionalidades depois de todos estes anos; de todas estas décadas, na realidade.
Em sexto lugar, mantém a esperança na União Bancária, quando está farto de saber que Portugal, também graças ao seu governo, foi uma cobaia para mecanismos perversos com lastro, onde o Estado português continuará a pagar e os estrangeiros cada vez mais a mandar.
Finalmente, quando a lógica realista das grandes potências as impele a defender as suas indústrias, continua a achar que Portugal beneficiará da abertura irrestrita. Desta forma, continuaremos sem instrumentos decentes de política industrial, monetária ou comercial para gerir o grau de abertura em função de algo tão irremovível quanto potencialmente objecto de deliberação democrática: o nem sempre convocado interesse nacional.

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