Ladrões de Bicicletas
Posted: 03 Apr 2019 02:50 PM PDT
Resumo numa frase do artigo de Álvaro Vasconcelos no Público de hoje: o europeísmo em crise anda à procura de idiotas úteis para acompanhar o neoliberalismo maquilhado de Macron e julga tê-los encontrado em certos sectores da esquerda dita alternativa.
Não vou contrariar Vasconcelos nesta sua realista aspiração. O europeísmo realmente existente é institucionalmente resiliente e, apesar da crise de legitimidade, mantém uma grande capacidade de cooptação e de diluição. Onde o vou contrariar, de forma breve, é na amálgama, na dicotomia e na invenção políticas que constituem uma parte do seu artigo.
Amálgama: juntar a proposta de um New Deal verde, consequente programa mínimo surgido da renovação e reforço do movimento socialista nos EUA, às manifestações objectivamente reacionárias dos que querem repetir referendos até dar o resultado desejado agora no Reino Unido. De resto, e tal como o New Deal original, a sua versão ecológica exige um Estado com instrumentos de política, o que não é dissociável de um novo processo de desglobalização. A anti-keynesiana UE não é um Estado, mas sim a manifestação institucional blindada da mais intensa globalização no continente.
Dicotomia: teríamos uma esquerda toda moderna, cosmopolita, jovem, culta e tal e uma “esquerda nacionalista conservadora”, velha e relha. Se a realidade política deste lado se resumisse a esta dicotomia simples e requentada, desde já digo que optaria pela última, mesmo que só me reste imaginar aquilo em que Vasconcelos estará a pensar. Afinal de contas, onde nos levaram “uma outra Europa é possível”, o alter-globalismo e suas derivações europeias, os partidos e fóruns sociais europeus ou Tsipras e a patética lista, em 2014, com o seu nome noutro país? Haja memória da tragédia, atentando-se nas ruínas gregas e italianas, até para colocar, por exemplo, as actuais farsas políticas no seu lugar. Sim, estou a pensar, por exemplo, em Varoufakis na Alemanha.
Invenção: regressar aos “valores fundadores” da UE, baseados na democracia e na justiça social. A UE foi desenhada para esvaziar as democracias e os Estados sociais realmente existente, como se vê ao longo da sua breve história. Se quer democracia e justiça social, Vasconcelos terá de regressar então ao Estado nacional e a menor e mais variável integração.

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