Translate

terça-feira, 2 de abril de 2019

Ladrões de Bicicletas


Memória de mais uma entrevista

Posted: 02 Apr 2019 12:09 AM PDT

Depois de António Costa, Teresa de Sousa entrevistou Marcelo Rebelo de Sousa. A entrevistadora e o entrevistado são, uma vez mais, a expressão do europeísmo em crise. Dado que Marcelo Rebelo de Sousa borboleteia sobre muitos temas, pousando rapidamente numa ou noutra ideia convencional, basta sublinhar meia dúzia de coisas de forma igualmente rápida.
Em primeiro lugar, uma das preocupações do Presidente da República de Portugal é que daqui a uns anos não haja qualquer potência europeia no G-7, o que diz obviamente tudo sobre a confusão entre os interesses do centro europeu e os interesses específicos desta periferia num mundo felizmente mais multipolar.
Em segundo lugar, reconhece que a integração europeia não tem outra potência hegemónica que não seja a alemã – “o eixo Berlim-Berlim”, como apoda certeiramente, embora suspire pela liderança de Merkel. Entretanto, a política externa alemã resume-se por aqui ao objectivo de manter trancados muitos países europeus numa prisão monetária. Porque será?
Em terceiro lugar, fingindo subestimar a lógica política e das políticas inscrita nas regras da União Europeia, em geral, e da Zona Euro, em particular, fala de um “projecto de valores” e da sua “pedagogia”, sem se atrever, no entanto, a elaborar. Na realidade, os “valores” já existem e são os da concorrência de mercado sem fim. Marcelo substitui o antagonismo político por uma versão aparentemente afectuosa de paternalismo.
Em quarto lugar, fala do espectro dos populismos e do colapso do chamado extremo-centro, convocando um dos seus grandes pensadores, popular à direita e entre certa esquerda – o comissário Carlos Moedas –, quando este defende que o problema são “os medos”. O problema, na realidade, é que gente como este antigo e talvez futuro quadro da Goldman Sachs tem ainda nulas razões para ter medo.
Em quinto lugar, o balanço do triunfo institucional do bloco central europeu, que Marcelo tão bem encarna e que tão afanosamente tenta manter por cá, não é reconhecidamente o melhor: “Temos uma Europa com mais clivagens, mais divisões, com lideranças mais fracas, com novos problemas e velhas questões sociais”.
Finalmente, vem a solução: “A Europa continua a ser fundamental para Portugal”. A geografia não é destino político, claro. Em Marcelo, tudo é aparência; até a falta de ideias.

O elogio da troika onde não era suposto

Posted: 01 Apr 2019 11:16 AM PDT

Acabei de ler neste documento do governo que a economia portuguesa continua a ter constrangimentos à melhoria da produtividade, “apesar de algum progresso verificado nos anos mais recentes, na sequência de um conjunto de reformas implementadas no âmbito do Programa de Assistência Económica e Financeira”.
Li o documento todo à procura de dados ou estudos que apresentassem evidências claras da relação entre as "reformas" adoptadas no tempo da troika e o desempenho económico actual. Não encontrei.
Compreende-se que as instituições da troika e os membros e apoiantes do governo anterior insistam na ideia mítica de que a política de austeridade e a desestruturação das regras laborais são responsáveis pelo actual desempenho da economia portuguesa. É a forma de tentarem legitimar o que andaram a fazer ao país.
Que essa tese seja subscrita por um organismo conjunto do Ministério das Finanças e do Ministério da Economia do actual governo - ainda por cima iludindo o facto de muitas das reformas referidas (na educação, na modernização administrativa, na segurança social, na inovação, etc.) terem sido introduzidas antes da troika - não compreendo.
Este 1º Relatório do Conselho para a Produtividade é um documento estranho. Alterna passagens de análise económica rigorosa e sofisticada, com passagens que não são mais do que puro preconceito. Não deixa de ser uma boa iniciativa. Só espero que a segunda edição aprofunde o que é bom e deixe cair o resto.

Sem comentários:

Enviar um comentário