por estatuadesal
(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 12/10/2019)
Então, do A em diante foi assim que vi as legislativas de 2019:
ABSTENÇÃO Antes, durante quase todo o dia de voto e até depois, é a grande vedeta das notícias, e os seus anónimos representantes são alvo de todas as preocupações e mimos. Acho que já chega: os abstencionistas devem ser tratados como aquilo que são — auto-excluídos da democracia. E se não os querem penalizar, como eu acho que deveriam ser, ao menos que não os transformem em personagens principais de um momento de alegria cívica do qual não querem fazer parte.
AMBIENTE Outro ausente omnipresente destas eleições. De repente, toda a gente acordou para a “emergência climática” — ou para a necessidade, mais imediata, de não deixar o espaço todo para o PAN. Mas, de facto, desde Gonçalo Ribeiro Telles que não há em Portugal um pensamento sério e estruturado sobre política ambiental. Sabem o que é a nossa política ambiental? São €5,3 mil milhões em “impostos ambientais” a troco de nada.
ANTÓNIO COSTA E O PS O copo meio cheio ou meio vazio? Ganhou 150 mil votos em relação a 2015 e foi o único partido da coligação a ganhar votos, ou perdeu uma oportunidade única de ter maioria absoluta? Partiu para estas eleições com o mérito de ter resultados bem melhores para apresentar do que qualquer outro primeiro-ministro desde há muito tempo. Mas fez uma má campanha, em que o seu melhor cartaz, que às vezes pareceu único, se chamou Mário Centeno.
ASSUNÇÃO CRISTAS E O CDS Paradoxalmente, o seu desastre anunciado começou nas autárquicas e nos 20% pessoais que recolheu em Lisboa e que a levaram a perder a humildade e a sonhar mais alto do que a capacidade de voo que demonstraria. Não aprendeu com o aviso da desastrada campanha europeia de Nuno Melo, no mesmo registo de falta de humildade, e espalhou-se ao comprido nos dossiês dos professores, dos enfermeiros e dos camionistas, em que a ânsia de fazer oposição a tudo a levou a trair o próprio eleitorado natural. O desespero com que se agarrou ao affair Tancos, no final da campanha, foi a prova que faltava de que não tinha qualquer mensagem alternativa para passar.
BLOCO DE ESQUERDA Anunciado como um dos vencedores, acabou afinal por perder 60 mil votos. Há alguns sintomas de cansaço, visíveis no tom de catequista do regime que é o actual registo de Catarina Martins. Tanta virtude tão politicamente correcta também cansa.
CAMPANHA ELEITORAL Já vi pior, bem pior, e já me dou por satisfeito por as redes sociais não terem ditado o desfecho, como sucede noutras paragens nos dias de hoje. Desta vez, os jornalistas — que tanto gostam de dizer mal das campanhas eleitorais — não têm razões para se queixarem e até lhes ficaria mal morder a mão que lhes deu de comer durante tantas semanas.
CHEGA Quem chega ao Parlamento é uma facção de fanáticos do SL Benfica e do “Correio da Manhã”. Posso estar enganado, mas não temo por aí além que o contágio ideológico seja perigoso: para isso seria preciso alguma substância mais do que a da ideologia de café.
DERROTADOS Sem sombra de dúvida, o CDS, o PCP, Santana Lopes (mas com brio e dignidade) e Marinho e Pinto (este derrotado e humilhado com nove mil votos: apesar de tudo, disse-lhe o povo, há limites para o descaramento). Dependendo do ponto de vista, também terão sido derrotados o PSD e o PS.
EUROPA (E, JÁ AGORA, TAMBÉM O MUNDO) Foi como se não existisse nestas eleições. Nenhuma surpresa nisso: se nem nas europeias se discute a Europa, porque se haveria de discutir agora? E, todavia, ela existe: começa já a 180 quilómetros de Lisboa. Quanto ao resto do mundo, esse, creio que coube todo no Instagram.
GOVERNO Acredito que será de geometria variável e navegação à vista, pois ainda me custa a crer que, depois de ter passado toda a campanha a avisar para o perigo que o BE representaria, António Costa esteja agora disposto a casar só com ele, de papéis e tudo. Seja qual for a solução, se os alemães não abandonaram a sua religião financeira à Tio Patinhas, terá mais dificuldades em cumprir esta legislatura do que a anterior. Os 45% de abstencionistas (ou os 50% de isentos de IRS) mais os 18% de votantes à esquerda do PS não estarão dispostos a aceitar que não haja dinheiro nos cofres do Estado para satisfazer as suas reivindicações.
INICIATIVA LIBERAL Se souberem aproveitar bem o seu único deputado, deixarão o CDS a roer as unhas por ter deixado fugir este espaço. O dos contribuintes contra a ganância fiscal, o dos civis contra o excesso de Estado. Haverá muita demagogia, mas a mensagem criará raízes.
JOACINE KATAR MOREIRA É bem-vinda ao Parlamento, tal como as duas outras deputadas negras eleitas pelo BE e pelo PS. Mas o excesso de vedetismo de que, a meu ver, em tão pouco tempo já deu mostras pode sair-lhe pela culatra. Caramba, senhora deputada, a nossa democracia não começa com a sua chegada à Assembleia da República!
JOVENS Serão o futuro, mas no presente contam-se como os maiores abstencionistas. Na sua maioria, aprendem política nas redes sociais e, quando se dignam votar, votam no PAN, no BE ou no André Ventura. Se é por eles, os amanhãs não cantam.
MARCELO REBELO DE SOUSA Apetece citar João Cabral de Melo Neto: “Do alto de sua montanha/ numa lenta hemorragia/ do já folgado esqueleto/ a cidade se esvazia.” E, vendo do alto do seu palácio, esvaziada a maioria absoluta mas também uma oposição fortalecida, a cidade fica exposta. O Presidente/comentador vai voltar ao activo e encontrar tempos de deleite pela frente.
PAN Foi o único vencedor incontestável das legislativas. Em 2015 descobriu o pequeno nicho dos animais, suficiente para eleger um deputado. Nas europeias deste ano teve a esperteza e o sentido de oportunidade de aliviar o animalismo e expandir-se pelo ambientalismo, agora traduzido em nada menos do que 1200 propostas — absolutamente esmagador. Para o seu sucesso contou com o alheamento e o temor de todos os outros partidos, com a excepção parcial do BE e, em particular, com a absoluta inutilidade de Os Verdes —, como o demonstrou o “despedimento” da eterna Heloísa Apolónio de um lugar elegível nas listas da CDU. A distracção e reverência alheia valeram-lhe agora quatro deputados, mesmo que o seu ambientalismo, contaminado pelo animalismo, o impeça de entender, por exemplo, o que é o mundo rural. Mas os seus votantes também não entendem e nem querem saber disso.
PCP (OU CDU) Perdeu 115 mil votos em quatro anos e dos dez concelhos que ainda eram seus só lhe restam dois: Avis e Mora, vizinhos e cúmplices. Se Rui Rio pareceu o perdedor mais feliz da noite, Jerónimo de Sousa pareceu o mais aliviado. Vai levar as hostes comunistas de volta ao lugar onde elas parecem ser mais felizes e o Comité Central estar mais tranquilo em as ver: na oposição de rua. Entre as diversas e habituais justificações para a derrota, houve uma de Jerónimo de Sousa que, francamente, não entendi: as manobras do “capital monopolista e seus instrumentos”. Como disse?
RUI RIO E O PSD Perdeu, mas feliz; ou ganhou, mas sem ninguém lhe dar os parabéns. Porém, fez abanar Costa como nunca no debate a dois e ressurgiu do vazio na campanha eleitoral. Duvido que alguém lá dentro conseguisse melhor. O que não impede, é evidente, que a agremiação social-democrata se lance agora naquelas longas noites de facas-longas que fazem a delícia dos jornalistas e estão no ADN do partido. Não nasceram para passar muito tempo afastados do poder e isso deixa-os impacientes e deprimidos. Segundo Cavaco, por exemplo, entre outras coisas, Rio é culpado de ter desprezado o inestimável contributo e popularidade de Maria Luís Albuquerque — aquela deputada-múmia que passou os últimos quatro anos no Parlamento sem produzir trabalho algum nem abrir a boca, mesmo quando a sua gloriosa e saudosa herança à frente das Finanças do país era tão injustamente vilipendiada. Ah, Santo Deus, haverá pior emprego no mundo do que ser presidente do PSD na oposição?
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
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