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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

“Oh não! Outro filme de adolescentes”

por Sérgio Barreto Costa

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A justiça portuguesa está nas mãos de adolescentes. É um retrato preocupante mas não vejo outra forma de interpretar aquilo que os nossos dois semanários de referência – o Sol e o Expresso –, noticiaram nas suas últimas edições. O primeiro relatava o entendimento existente entre a procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, e a sua grande amiga Francisca Van Dunem, ministra da Justiça. O segundo narrava o confronto aberto entre as duas magistradas, descrevendo-as como grandes rivais. Acreditando eu nas competências de investigação dos hebdomadários em causa, só posso concluir que Marques Vidal e Van Dunem eram as melhores amigas na altura em que os jornalistas do Sol pegaram no tema e, um ou dois dias depois, quando o Expresso se debruçou sobre o assunto, se tinham já transformado em inimigas figadais. E, como todos sabemos, só as adolescentes são capazes de uma variação dessa magnitude em tão curto espaço de tempo. Agora é só uma questão de confirmar se foram vistas com sapatos novos iguais durante a última semana e tudo passa a fazer sentido. É esta a grande vantagem de termos uma comunicação social à moda antiga: informação útil e esclarecedora, sem ficarmos na mão das redes sociais e dos seus constantes boatos e futilidades.

Diga-se de passagem que não é a primeira vez que sou visitado por esta suspeita relativa à idade mental dos nossos altos dignitários. Quando o ex-presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o ex-procurador-geral da República decidiram destruir as escutas que envolviam o camarada José Sócrates, recordei, com saudade, os meus anos de liceu, em que usava todo o tipo de artimanhas, tretas e estrangeirinhas para safar os amigos dos castigos dos progenitores ou da ira das namoradas ciumentas. E aquelas que me despertam as mais gratas lembranças são as totalmente estapafúrdias, como quando afirmei à professora de História ter assistido com os meus próprios olhos ao momento em que o pastor-alemão Alarico devorou o trabalho que o meu colega João tinha feito sobre a brutalidade das invasões bárbaras. “Levou a peito”, disse-lhe, enquanto tentava puxar uma lágrima. Há poucas coisas mais bonitas do que a solidariedade entre portadores de acne e de hormonas instáveis.

As 10 estradas mais perigosas de Portugal

por admin

O trânsito frenético, o estado do piso, a sinalização e a incúria dos condutores, coloca estes 10 exemplos entre as estradas mais perigosas de Portugal. O problema da sinistralidade em Portugal continua a ser grave. O asfalto tem melhorado e os indicadores mostram evolução positiva, mas continuam a existir “pontos negros” e vias particularmente mortíferas. Conheça 10 das estradas mais perigosas em Portugal e, se costuma conduzir em alguma delas, deixe-nos nos comentários o relato da experiência.

Nos últimos anos assistimos à redução de cerca de 40% no número de vítimas, mas 2017 trouxe novo aumento. Segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), no final de Novembro já tínhamos mais 53 mortos e 1.900 acidentes do que em igual período do ano passado. Até os acidentes com motociclos e ciclomotores, também em quebra anteriormente, voltaram a aumentar em número de mortos e feridos.

São 460 mortos e 118 mil acidentes mas a lista negra não se distribui igualmente por todo o país. No topo aparecem, por ordem de vítimas, Porto, Setúbal e Lisboa, ficando o fim da lista para o interior. Portalegre e Bragança são as regiões com menos mortes. Lisboa, por seu lado lidera na contabilidade de feridos graves e número total de acidentes, seguido do Porto.

Além da distribuição geográfica, o tipo de estrada é também muito relevante quando analisamos estes números. Segundo a ANSR, 36% das vítimas mortais acontecem em Estradas Nacionais, 33% em arruamentos, 9,2% em auto-estrada, 9,2% em estradas municipais, 5,9% em Itinerários Complementares e 1,9% em Itinerários Principais. Para quem conhece a realidade das estradas portuguesas, não é surpresa que as Nacionais apareçam no topo da lista. É, contudo, um perfeito indicador do tipo de acções que ainda são necessárias para debelar a questão. Velocidade excessiva, consumo de álcool e condução perigosa são parte do problema, mas o mau estado do piso e a falta de estruturas de segurança ajudam a criar os infames “pontos negros”

1. Estrada Nacional 1

CoimbraCoimbra - Alfredo Mateus

Antes da construção da A1 e da migração de parte substancial do tráfego para essa via, a EN1 era a principal via de ligação com o Norte do país. Passa por uma série de grandes e pequenas localidades, mas o trânsito que foge às portagens parece esquecer-se disso. Muito tráfego, peões a atravessar e má sinalização transformam alguns dos seus pontos em armadilhas.

2. Estrada Nacional 125

Tavira - Joe Price

A EN125 atravessa longitudinalmente o litoral sul do Algarve, ligando Vila do Bispo a Vila Real de Santo António. Trata-se de uma via com uma elevada taxa de sinistralidade rodoviária, agravada pela existência de diversos pontos negros. Com a introdução de portagens na A22, tornou-se uma alternativa gratuita a esta autoestrada, tendo o acrescento de tráfego resultado num aumento de 30% na sinistralidade em 2012. Como a EN1, é na passagem por zonas residenciais que se torna particularmente perigosa.

3. Estrada Nacional 2

Ponte de TrajanoPonte de Trajano - Fernando Ribeiro

A EN2 atravessa Portugal de Norte a Sul e é a estrada de maior extensão do país, tendo o seu início em Chaves e fim em Faro, no Km 738. Devido às suas características, é comparada (a uma escala menor) à Ruta 40 (Argentina) ou à Route 66 (E.U.A.). Passa por 11 distritos, oito províncias, quatro serras, 11 rios e 32 concelhos. Não é de admirar portanto que tenha troços em diferentes estados de manutenção e perigosidade.

4. Estrada Nacional 10

locais para visitar na Serra da Arrábida

Castelo de Sesimbra

No seu troço original, ligava Cacilhas a Vila Franca de Xira. Porém, após a construção do 1º troço da A1, a EN10 foi reclassificada em 1961, indo até Sacavém, aproveitando o troço velho da N1. Ao ligar uma série de concelhos muito povoados da margem sul e norte à A1, A12, A2 e A9 é muito concorrida. A sua zona mais perigosa ocorre ao quilómetro 128, na margem norte, entre Forte da Casa e Alhandra.

5. Estrada Nacional 118

Alamal - Gavião

Construída para ser a Marginal de toda a margem esquerda do Rio Tejo, desde a fronteira até Lisboa. Servia como alternativa à N3, que resume o mesmo objectivo que a N118, mas na margem oposta do Tejo. É das Estradas Nacionais mais fáceis de conduzir, devido ao seu traçado quase sempre plano e rectilíneo. Só mesmo um pequeno percurso na zona do Tramagal (Abrantes) é muito sinuoso. Apesar disso, com 44 mortos entre 2010 e 2015, entra para lista negra das mais mortais em Portugal.

6. Estrada Nacional 13

Caminha

Até à entrada em funcionamento da A28, a EN13 era a via principal de comunicação entre o Minho e o Porto, e uma das principais ligações rodoviárias entre Portugal e Espanha. Após a entrada em funcionamento da A28, a EN13 foi progressivamente adaptada para trânsito local, fazendo actualmente parte da área urbana de muitas localidades no seu trajecto. É nestas zonas densamente povoadas que o percurso se torna mais perigoso.

7. Estrada Nacional 109

Figueira da Foz

A Estrada da Costa da Prata começava no Porto, logo à saída da Ponte Luís I, e rodeava o Cais de Gaia, rumando depois para Leiria. Passa por muitas praias da Costa da Prata como Valadares, Espinho, Esmoriz, Ovar, Mira, Figueira da Foz e Termas de Monte Real. Mau estado do piso, excesso de velocidade em algumas das rectas e ultrapassagens com pouca visibilidade obrigam a atenção redobrada.

8. Estrada Nacional 18

Guarda

A Estrada do Interior vai de Ervidel à Guarda e atravessa o Rio Tejo na Ponte de Portas de Ródão. Depois de começarem as portagens na autoestrada da Beira Interior (A23), o tráfego automóvel da EN18 disparou. Particulares e empresas começaram a optar por esta via e o estado do piso é desigual ao longo do percurso. Há zonas densamente arborizadas e outras são demasiado estreitas para deixar passar dois veículos pesados. Torna-se ainda mais complicada no pico do inverno.

9. Estrada Nacional 103

Bragança

Começa em Neiva, perto de Viana do Castelo, onde entronca com a EN13, e prolonga-se pelo Este do Alto Minho e por toda a zona Norte de Trás-os-Montes, passando por localidades como Braga, Chaves e Vinhais, até acabar em Bragança. Pela sua dimensão e localização, a EN103 oferece uma viagem dura e sinuosa mas de um encanto ímpar. O gelo no inverno e o reduzido número de locais de ultrapassagem justificam a inclusão nesta lista.

10. Estrada Nacional 4


Estremoz

A Estrada do Alentejo Central liga o Montijo à parte final da A6, perto de Montemor-o-Novo. Seguindo em paralelo com esta auto-estrada, é uma alternativa para o não pagamento de portagens. Bastante concorrida por pesados, tem zonas do pavimento muito degradado, desníveis e lombas de grandes dimensões e sinalização defeituosa.

Fonte: quilometrosquecontam.com

Sidónio e batatinha

por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/01/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Tendo Passos Coelho dado ao PSD um cunho ideológico que nunca tivera, seria expectável que o debate da sucessão passasse pelo recentramento da sua identidade. Pelo contrário, a grande discussão entre Rui Rio e Santana Lopes foi saber qual dos dois foi mais fiel às posições do líder cessante. Porque não há identidade alguma para discutir.

Costuma dizer-se que o PSD é o mais português de todos os partidos. De facto, do ponto de vista das grandes famílias políticas europeias, é filho de pai incógnito. Isto resulta do contexto histórico em que se fundou: quando ser de direita era impensável, quis aderir à Internacional Socialista enquanto herdava grande parte da base de apoio do Estado Novo.

Os contactos internacionais de Soares permitiram que fosse o PS a ocupar o espaço que Sá Carneiro desejou e os combates do PREC determinaram que fosse o PS a liderar o combate aos comunistas e à extrema-esquerda. Para o PSD ficou uma função: ser alternativa ao PS. Do ponto de vista prático, é o grande partido da direita portuguesa. Só que o equívoco do seu nome e da sua fundação e a necessidade de falar para uma maioria social de esquerda impedem-no de construir um discurso coerente. As suas lideranças formam-se nesta crise identitária que erradamente se toma por pragmatismo. E nesta disputa isso foi muito evidente, até porque Santana representa a tralha “passista” com a qual teve uma relação distante e Rio não parece querer representar nada.

Não é por serem do mesmo partido que Rio e Santana não conseguiram discutir grandes diferenças políticas. Até dentro dos pequenos partidos elas existem. A ausência de clivagens com substância não resulta da falta de clivagens, resulta da falta de substância. Sobrou o estilo e esse foi miserável. Por isso, nos dois penosos debates televisivos, ficámos a saber, para além de uns vaguíssimos estados de alma sobre economia, com quem Rui Rio foi almoçar e quantas vezes Santana disse que ia sair do PSD.

O problema não é os debates terem sido violentos. Ficaram a léguas do momento em que Seguro acusou Costa de representar os negócios. Mas essa acusação tinha interesse para o conjunto dos eleitores. As conversas entre Rio e Santana ficaram ao nível da concelhia e não deviam ter saído das sedes. A violência supera-se, a me

PSD e PS passam, ciclicamente, por momentos em que nos perguntamos se alguma vez recuperarão. Quando estão na oposição quase todos os candidatos a líder parecem péssimos. Depois, se o poder lhes cai no colo, logo ganham uma certa gravitas. O único a quem isso não aconteceu foi mesmo Santana Lopes. Só que se olha para estes dois e percebe-se que não vai sair daqui o próximo primeiro-ministro. Rui Rio, que cheguei a pensar que seria um autoritário destinado a representar o cansaço com regime, não tem carisma para ser o Sidónio Pais modernizado que desejava. O que diz de extravagante, que costuma vir de candidatos antissistémicos, não o diz por ser um populista, que até mostrou não ser. É só a autoconfiança de um amador a falar. E Santana continua Santana, um bobo cheio de malícia que, não sendo levado a sério, sabe que nem as suas baixezas o prejudicam. É uma anedota demasiadas vezes contada da qual já ninguém se vai rir. O que a campanha revelou dos dois explica porque se discutiu tanto o que cada um fará se perder as eleições. É, se formos realistas, o tema mais relevante para o futuro próximo do PSD.

Oh, how I love the smell of napalm in the morning!

por estatuadesal

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/01/2018)

mst

Miguel Sousa Tavares

1 Não há como passar um tempo fora da querida pátria para voltar e perceber que nada do que acontece no mundo é mais importante do que os ‘casos’ que nos consomem e ocupam um dia atrás do outro. Qual ameaça norte-coreana, qual acordo de Governo na Alemanha, qual discussão aberta sobre a sanidade mental do Presidente americano, qual guerra surda de poder no Médio Oriente, qual desmoronar da catástrofe chamada Theresa May, qual visita de Macron à China, no papel de Senhor Europa? Nada disso serve para ocupar a primeira parte de um telejornal, a primeira parte de um jornal diário. Deixemos o mundo de fora, temos coisas bem mais urgentes e interessantes com que nos ocuparmos!

Por exemplo: o suicídio público a que o PSD se entregou, numa longa, absolutamente indigente e, portanto, palpitante, campanha eleitoral para escolher quem será o cordeirinho que António Costa irá comer de ensopado daqui a menos de dois anos. Mas essa palpitante campanha acontece apenas entre eles, como se ganhar o partido fosse suficiente para ganhar o país. Na TVI, apesar dos esforços de Judite de Sousa, nenhum dos dois candidatos pareceu preocupado em atrair a atenção do país. Um peru e um galo combatiam dentro de uma capoeira — que é, por definição, um local fechado. E o tema principal da discussão remetia-nos de volta a 2004 e às “trapalhadas” do Governo de Santana ou a saber quem tinha sido mais leal ao Governo de Passos Coelho. Mas haverá por aí alguém que tenha saudades de 2004 ou de 2014?

2 Grande questão jurídico-constitucional é saber se a PGR pode ou não ser reconduzida após o mandato de seis anos previsto na Constituição. Como sempre os nossos mestres juristas gostam que as leis nunca sejam claras, mas sim ambíguas, o que lhes dá duas oportunidades de brilhar: quando as escrevem e, depois, quando são chamados a interpretar o que escreveram. Não é, seguramente, deficiência técnica: é um modo de vida. Neste caso concreto, a ambiguidade consiste em a letra da lei permitir a recondução e o espírito da lei apontar para o oposto. O que deixa a questão para ser resolvida no âmbito de uma decisão política, que cabe ao Governo e ao PR.

Eis o que o PSD — que nomeou a actual PGR — mais queria. Não podendo agora reconduzi-la como fez com o governador do Banco de Portugal, que reconduziu sem saber se voltaria a ser Governo, o outro “partido de governo” quer, todavia, manter um “direito de pernada” sobre a nomeação de futuros PGR. Eles podem nomear; quem vier a seguir só pode reconduzir quem eles nomearam, sob pena da mais grave das suspeições: querer controlar o Ministério Público. Ora, eu acompanho o consenso geral sobre a boa prestação de Joana Marques Vidal — sobretudo sobre a discrição e ausência de vedetismo com que vem exercendo o cargo e a sabedoria com que gere essa ingovernável instituição que é o MP. Mas já não acompanho o resto, que é apenas um argumento ad terrorem: o de dizer que a sua não-recondução equivaleria a afastar quem se atreveu a “enfrentar os poderosos”. Tal não é verdade, desde logo porque Sócrates, por exemplo, já tinha sido alvo do MP no processo Freeport. Mas não é verdade, sobretudo, porque nenhum PGR controla, de facto, o Ministério Público. Com maior ou menor protagonismo, limitam-se a desempenhar o papel de uma rainha de Inglaterra, com direito anual a um Discurso da Coroa escrito por ela. Duvido que, enquanto magistrada, Joana Marques Vidal tivesse deixado a investigação da ‘Operação Marquês’ durar tanto tempo e atravessar tantas peripécias que em nada prestigiaram a instituição. Ou que tivesse subscrito a junção da ‘Operação Marquês’ à do BES e da PT, que nada têm que ver com ele directamente e que apenas servirá para eternizar o julgamento, criando um daqueles megaprocessos que tanto se diz deverem ser evitados, mas imposto pela tentação de um magistrado de se arvorar em justiceiro de todo o regime. Ao contrário do que os juízos apressados gostam de concluir, no nosso sistema judiciário, o perigo não está em o PGR ficar dependente do poder político, mas sim em ser dependente e refém dos magistrados que alegadamente chefia. E isso faz da escolha de um PGR uma questão menos importante do que se quer fazer crer.

3 Verdadeiramente menor, mesquinho mesmo, é o caso da ida ao futebol do ministro Mário Centeno com o filho. O jornalismo terrorista do “Correio da Manhã” e a turba-multa das redes sociais acham que um ministro só tem duas hipóteses: ou não vai ao futebol ou vai para a bancada para ser sovado durante 90 minutos pela coragem colectiva dos pacatos cidadãos que habitam os nossos estádios. Depois admirem-se se qualquer dia só quiser ser governante quem tiver a ganhar com isso. Aí está o PSD para o exemplificar.

4 O primeiro presidente do Novo Banco, Vítor Bento, veio agora admitir que a resolução do BES, que lhe deu origem, vai custar-nos dez mil milhões (menos um do que a minha própria estimativa). Mas, acrescentou ele, não havia alternativa. Como? Terei lido bem? Dez mil milhões é alternativa a alguma coisa? Gostaria agora de ouvir agora a opinião dos que louvaram a “coragem” da “solução” que Carlos Costa, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque encontraram para o BES... E isto não é um julgamento sobre a gestão do BES, mas sobre a sua resolução e a forma como foi criado e gerido o Novo Banco. Acharam que era só mudar a administração e o nome e emprestar-lhe cinco mil milhões — que, depois, seriam obviamente devolvidos aos contribuintes. O resultado está à vista. Mas não há maneira de aprendermos: aí está o Montepio para o exemplificar, mais uma vez.

5 Nos Globos de Ouro de Hollywood o traje obrigatório para as mulheres era o vestido preto, símbolo da campanha “Time’s Up”, contra os violadores, os abusadores, os assediadores sexuais machos da indústria cinematográfica americana. Na plateia — onde, segundo a nova polícia de costumes, se sentavam e aplaudiam alguns deles ainda não expostos publicamente — tudo o que era actriz consagrada, actriz na berra ou candidata a actriz usava o símbolo da campanha: #metoo. Todas — as passadas, as presentes e as futuras — autodeclaradas vítimas dos abusos de Harvey Weinstein e outros abusadores como ele. Todas jurando agora terem sido alvo de propostas desonestas, beijadas sem consentimento, apalpadas, encostadas à cama sem defesa. E quantas, pensei para comigo, treparam assim no meio sem nunca terem aberto a boca antes de treparem? E quantas, no clima de caça aos abusadores agora instalado, se atreverão a não dizer “me too” e a vestir a farda oficial se quiserem trepar no meio? Pensamentos obscenos, reconheço, que provavelmente me tornarão alvo de uma denúncia-crime da nossa sempre vigilante Comissão para a Igualdade. Mas eis que o manifesto das 100 actrizes, escritoras e produtoras francesas foi muito além dos meus obscenos pensamentos, ao denunciar “as mulheres auto-retratadas como pobres indefesas sob o mando dos diabos falocratas... numa nova moral vitoriana oculta sob esta febre de levar os porcos ao matadouro”. Ou, como disse a escritora Abnousse Shalmani, uma das signatárias, “este feminismo transformou-se num novo estalinismo, com todo o seu arsenal: acusação, ostracismo, condenação”.

Para já, boicota-se o Polanski, esse porco violador que deixou uma obra inesquecível no cinema. A seguir, virá o Nabokov e a sua “Lolita”, o Hemingway e sua jovem italiana da Finca Vigia, o García Márquez e a sua jovem puta triste, e por aí fora — na literatura, no cinema, na pintura — até que não reste memória de algum génio considerado lascivo. E viveremos todos de consciência tranquila. Até mesmo as mulheres que assediam homens e que oficialmente não existem.

(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)

Entre as brumas da memória


Espanha, se as legislativas fossem amanhã

Posted: 12 Jan 2018 01:49 PM PST

Os Ciudadanos somam e seguem para a frente do pelotão.

Além disso: «Resulta revelador que la suma del centroderecha supera a las fuerzas de izquierdas en unos 14 puntos, y rompe así el convencionalismo aceptado durante años de que en España era mayoría el electorado de centroizquierda. El retroceso de Podemos, apenas cuatro años después de su sorprendente irrupción en la política, y el estancamiento del socialismo liderado por Pedro Sánchez obligan con más urgencia que nunca a la izquierda española a replantearse sus prioridades y proyectos en la España del siglo XXI.»

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Onze anos depois do referendo sobre a IVG

Posted: 12 Jan 2018 11:15 AM PST

Santa Maria fecha consulta de interrupção de gravidez.

Quase 11 anos depois do referendo sobre a IVG, isto é triste e grave, muito grave. Sejam quais forem os fundamentos pata o emaranhado de razões e responsabilidades apontadas neste texto, regredimos – sem desculpas aceitáveis.

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Trump: e o mundo assiste a isto, impotente

Posted: 12 Jan 2018 06:28 AM PST

Nações Unidas dizem que palavras de Trump são "racistas".

«"Por que razão queremos pessoas do Haiti e de 'países de merda' em vez de noruegueses?", disse o presidente dos EUA.»

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Votei, mas não inalei

Posted: 12 Jan 2018 03:03 AM PST

«Ontem debateu-se (escrevo esta crónica na quarta-feira) na Assembleia da República as propostas do BE e do PAN sobre os projectos de lei para legalizar a canábis para fins medicinais. O CDS e o PSD estão contra. É pena. Até porque a primeira autorização para plantação de canábis para fins de medicinais em Portugal, para exportação, foi dada em 2014.

Acho que o PSD e o CDS podiam ter sido convencidos se lhes disséssemos que é tradição fumar charros em Portugal. Nas Festas de Reis, na aldeia de Vale Salgueiro, em Mirandela, as crianças são encorajadas a fumar cigarros, uma tradição que teve direito esta semana a uma reportagem da Associated Press. "Pais encorajam os seus filhos, alguns com menos de cinco anos, a fumar cigarros." A reportagem salienta que a idade legal para adquirir tabaco em Portugal é 18 anos, "mas ninguém proíbe os pais de darem cigarros às crianças e as autoridades não intervêm para parar esta prática". Os entrevistados justificam a mesma com os costumes locais. Que fixe. Se calhar, os miúdos injectam-se no Carnaval e vão às meninas na Páscoa.

Nada como imaginar um roteiro tradicional, como as crianças a arder de Vila Nova de Sardão, o "striptease" forçado de septuagenárias em Poço de Sete Mães ou a largada de cabrestos e grávidas bêbedas de Fonte de Castelo Coiso.

Os deputados do PSD, pelo menos alguns dos que conheço, votam contra a canábis para uso medicinal, mas usam para fins recreativos. O PSD e o CDS são contra a utilização em Portugal de canábis para fins medicinais, mas autorizaram plantações onde produzimos canábis para venda para fins medicinais noutros países. É espectacular, somos grandes exportadores de marijuana para uso farmacêutico, mas segundo o PSD e o CDS aquilo só faz mal. Ainda recentemente, a maior plantação de canábis em Portugal foi anunciada no Web Summit. É proibir essa malta toda de cá entrar e deitar fogo a estes projectos todos. Porque não vamos deixar produzir cá uma coisa que até é proibida para efeitos medicinais.

Recordo que, em 2012, a JSD, na altura liderada por Duarte Marques, apoiou a Marcha Global da Marijuana em Lisboa. Grande maluco. A desculpa do PSD para chumbar a legalização da canábis para uso medicinal é: "Pode causar habituação." Ou seja: "Coitados, é verdade que a canábis ajuda no sofrimento de cancros terminais, mas depois essas pessoas podem ficar agarradas." Provavelmente, vão para o céu fazer filtros.

Resumindo, no país de horas e mais horas de publicidade ao cogumelo do tempo e ao Calcitrin, que é vendido directamente ao público, sem intermediação das farmácias, nem pensar em permitir a canábis para efeitos terapêuticos. Não aguento tanta hipocrisia, preciso de fumar uma.»

João Quadros