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sexta-feira, 20 de abril de 2018

A política por outros meios

por estatuadesal

(António Guerreiro, in Público, 20/0472018)

Guerreiro

António Guerreiro

No tempo em que os media eram designados como o quarto poder, eles serviram muitas vezes de estação elevatória do jornalismo à política (desse movimento, foi Paulo Portas o mais eloquente exemplo). Tratava-se, segundo o imaginário mais comum, de um movimento ascensional.

Quando os media tradicionais começaram a perder força e deixou de ser pertinente falar no quarto poder, o movimento inverso tornou-se muito mais frequente: a grande aspiração dos políticos passou a ser a de prolongar as suas actividades por meio da intervenção nos media, ocupando o lugar outrora reservado a intelectuais e a uma elite jornalística, que foram forçados ao exílio ou à extinção. E aí temos uma numerosa milícia de políticos que fazem esse trânsito para a condição de activos reformados, de falsos estagiários, de carismáticos senadores, de profissionais em reciclagem, de almas em processo de purificação, de aves migratórias em preparação para voos mais altos.

Ainda na semana passada foi reforçado o contingente com a entrada, no Expresso, de dois novos elementos, um de elevada patente, Luís Montenegro, e outro elevado e patente, Sérgio Sousa Pinto. Trata-se de continuar a fazer política por outros meios? Isso é o que se diria no tempo em que política e jornalismo eram actividades autónomas, embora servindo os mesmos fins e dotadas dos mesmos ideais. Mas agora devemos reconhecer que o actual processo dominante consiste numa homogeneização dos dois campos, o que permite aos políticos fazerem jornalismo por outros meios. De tal modo que quando são recrutados pelos media estão apenas a entrar numa relação de verdade consigo próprios e com os seus eleitores: de um modo geral, eles sempre fizeram algo que entra no âmbito das atribuições jornalísticas, mesmo quando pareciam estar a tempo inteiro na política. Praticaram uma sutura dessas duas esferas e trouxeram a ambas a mesma linguagem. Vemos isso perfeitamente quando o jargon jornalístico se tornou comum ao jargon político e os políticos parecem conhecer tão bem a redacção dos jornais e os estúdios da rádio e da televisão como estes conhecem os meandros mais ocultos do mundo político.

Vem assim à luz uma inconfessada fraqueza do poder que já foi quarto, antes de se ter dado uma viragem na escala e de a distribuição e hierarquização dos poderes se apresentar de maneira diferente. Na verdade, os media não perderam poder, mas quem tomou conta desse poder não são as mesmas instâncias que o geriram quando ele estava distribuído segundo o ideal de uma esfera pública transparente. Aos jornalistas com a ambição de entrar na política sucederam os políticos que ascendem quando entram no jornalismo do comentário e da opinião. E isto é um sintoma de que há um novo regime de experiência e de poder que já foi designado com um neologismo: mediarquia, o governo dos media (mas também a arqueologia dos media).

Os media funcionam hoje como distribuidores de poder relativamente aos quais deixaram de ser adequadas as formas tradicionais de crítica (sobretudo aquelas que faziam a crítica dos meios de comunicação de massa). Daqui decorre que aquilo a que chamamos hoje democracia está longe de ter o mesmo sentido que o conceito tinha nos antigos tratados de teoria política.

E, de maneira concomitante, a crítica aos media também já não pode seguir as mesmas vias de análise. Questões como as da mentira e massificação deixaram completamente de ser pertinentes. O que importa agora analisar é uma complexa estrutura cujo poder está disseminado ou não se situa no lugar onde parece situar-se.

Presidente angolano promove José Eduardo dos Santos a general antes de o reformar

HÁ UMA HORA

O Presidente angolano, João Lourenço, promoveu José Eduardo dos Santos ao grau militar de general de Exército, com a sua passagem à reforma.

MARCO LONGARI/AFP/Getty Images

Autor
  • Agência Lusa

    João Lourenço promoveu o ex-chefe de Estado José Eduardo dos Santos ao grau militar de general de Exército, passando-o à reforma, de acordo com a decisão publicada em Diário da República.A decisão consta da Ordem 9/18 do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Angolanas, e Presidente da República, a que a Lusa teve esta sexta-feira acesso.

Durante 38 anos, José Eduardo dos Santos, atualmente com 75 anos, foi Presidente da República, e por inerência de funções comandante das Forças Armadas Angolanas, mas nas eleições gerais de 2017 já não concorreu ao cargo, a que sucedeu João Lourenço, também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

Contudo, José Eduardo dos Santos mantém-se na liderança do MPLA, onde João Lourenço é vice-presidente, e admitiu que poderá apenas retirar-se do poder no partido que suporta o Governo apenas em 2019.

Numa outra ordem, 12/18 de 19 de abril, foi confirmada a já anunciada promoção de António Agostinho Neto, primeiro Presidente angolano, que faleceu em 1979, naquelas funções, ao título póstumo igualmente de general de Exército.

A decisão, agora oficializada, de promover o primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto, ao grau militar de general de Exército foi aprovada a 9 de março, em reunião do Conselho de Segurança Nacional.

Democratas processam Rússia, Wikileaks e campanha de Trump

20/4/2018, 17:00

Partido democrata deu entrada com um processo contra a Rússia, a Wikileaks e a campanha de Donald Trump, alegando que conspiraram para influenciar o resultado das eleições que deram a vitória a Trump.

JIM LO SCALZO/EPA

Autor
  • Nuno André Martins

O Partido Democrata deu entrada com um processo num tribunal federal norte-americano contra a Rússia, a campanha de Donald Trump e a Wikileaks, onde alega que as três partes conspiraram contra Hillary Clinton e para influenciar o resultado eleitoral de novembro de 2016, que deu a vitória a Donald Trump.

De acordo com o processo, que deu entrada esta sexta-feira num tribunal federal em Manhattan, os democratas acusam a liderança da campanha de Donald Trump de conspirar com o governo russo e a agência de informação do Exército russo para prejudicar Hillary Clinton, a candidata democrata, e virar o resultado eleitoral a favor de Donald Trump, com o ataque informático aos computadores do Partido Democrata.

Entre os principais acusados estão o filho de Donald Trump, Donald Trump Jr., o associado de longa data Roger Stone, e o genro do presidente dos Estados Unidos, Jared Kuchner.

O regime da irresponsabilidade

Rui Ramos

20/4/2018, 6:38162

Tal como o PS apagou as suas responsabilidades na bancarrota de 2011, o PSD pretende apagar as suas responsabilidades na saída limpa de 2014. Daí os "acordos" desta semana.

Os acordos do PSD com o PS são um dos factos mais bizarros da política portuguesa, não em si, mas pelo realce que o PSD decidiu dar-lhes. Entendimento para subtrair dinheiro aos alemães e intenções sobre a “descentralização” sempre houve. Porquê esta encenação? Percebemos para que serviu ao PS, ao PCP, ao BE e até ao CDS. Mas para que serviu ao PSD? O PS, com acordos à direita e à esquerda, é agora a “força de equilíbrio”; o PCP e o BE provaram que só eles impedem uma recaída direitista no PS; o CDS, claro, é a única alternativa. E o PSD? Só estava a pensar em Portugal, como jurou Rui Rio?

Não, não estava. Para compreender isso, é preciso compreender a grande questão do regime. Chamemos-lhe a “questão da responsabilidade”. Há quase vinte anos que o país diverge da Europa, arrastando-se entre austeridades maiores e menores. De quem é a responsabilidade? O Partido Socialista é o suspeito mais evidente: governou a maior parte do tempo, e quando não governou, condicionou a governação, quer com as dificuldades que legou em 2002 e em 2011, quer com a oposição aos ajustamentos de Ferreira Leite e de Vítor Gaspar. Mas eis o mesmo pessoal político que chegou com Guterres e esteve com Sócrates outra vez no governo, e de que se fala? Do tamanho da sua maioria no próximo ano. Alguém lhes pergunta pelos PEC de 2010 e 2011? Não. Em contrapartida, toda a gente sabe que o PSD cortou pensões e aumentou impostos. O PS nunca deu “más notícias”: Guterres saiu antes de o país perceber o que se passava, e o memorando da troika, quando José Sócrates teve de o apresentar, era “um bom acordo”. Passos Coelho, pelo contrário, fez questão de não criar ilusões. Quis ser responsável – e foi responsabilizado. Porque houve austeridade em Portugal? Por causa do PSD.

A preocupação de Rui Rio não é recuperar a “social democracia”, que foi sempre o que pôde ser, ou fazer o Bloco Central, que ficará para o próximo resgate. É outra coisa: tal como o PS apagou as suas responsabilidades na bancarrota de 2011, o PSD pretende apagar as suas responsabilidades na saída limpa de 2014. Ter poupado o país ao fado da Grécia é bom, mas melhor ainda será fazer esquecer o que teve de ser feito para conseguir isso. E para mudar de marca, não haverá melhor truque do que tornar-se mais um conviva na comédia de “acordos” e de “distribuições” do actual governo. É preferível passar por “muleta do PS”, do que carregar o “odioso” das últimas décadas.

Mas Mário Centeno? Não está ele, com as suas resistências orçamentais, a dar um sinal de “responsabilidade”? Não, não se trata de responsabilidade, mas apenas de medo. Centeno, que teve esta semana o cuidado de se apresentar como um simples “agregador” das decisões dos outros,  sabe que a prosperidade, pelo que deve à conjuntura, não pode continuar a ser “distribuída”, sem o risco de catástrofes quando a conjuntura virar. Mas tendo medo, também Centeno não deseja ter responsabilidade. Daí a austeridade dissimulada e indirecta, aproveitando a hipocrisia de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa, decididos desta vez a não reparar na “destruição do Estado social”.

A economia portuguesa é uma das que menos cresce na Europa, apesar dos juros baixos, do petróleo barato e da enchente de turistas. Mas a oligarquia prefere fingir que “reformas” querem dizer “salários baixos”, e dar assim à inércia uma boa consciência (quando é precisamente a falta de reformas que obriga o país a competir com baixos salários). A lição foi sempre clara: nunca tomes para ti as responsabilidades que podes deixar para os outros. O PSD julga que já aprendeu.

Banqueiros filhos da puta

Novo artigo em Aventar


por João Mendes

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A organização terrorista Goldman Sachs, que entre outros fundamentalistas emprega o mordomo-lobista Durão Barroso, elaborou um estudo onde conclui que "as curas de doenças podem ser más para negócios no longo prazo". O documento, sugestivamente intitulado "Curar os pacientes é um modelo de negócios sustentável?", é todo um hino à lógica predatória que assiste ao capitalismo selvagem, onde o lucro se sobrepõe à dignidade do ser humano, pedra basilar do doentio liberal-fascismo.

Eis o mais perigoso inimigo de uma humanidade livre e emancipada. Não mata como Assad, Putin, Salman ou qualquer presidente norte-americano, mas tem um projecto esclavagista a longo prazo, infinitamente mais perigoso e melhor elaborado que qualquer estratagema saído da cabeça de um político corrupto ou tirano sanguinário. Até porque são estes tipos que compram políticos corruptos e tiranos sanguinários, não o contrário. Não, Pedro Pinheiro Augusto, não podemos confiar nestes banqueiros filhos da puta.