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terça-feira, 19 de junho de 2018

Os Reguladores, regulam?

  por estatuadesal

(Por Demétrio Alves, in Blog Praça do Bocage, 18/06/2018)

palhaço

O mês de Maio de 2018 foi, em termos de preço da eletricidade transacionada no mercado grossista (MIBEL/OMEl), o mais caro desde 2008, apontando para os 62 €/MWh.

Aliás, em 2017, o MIBEL foi a segunda “bolsa” de eletricidade mais cara da Europa, com um valor ponderado anual de 53 €/MWh, que compara, por exemplo, com os 45€/MWh, valor correspondente em França!

Estamos com preços altíssimos e fortes repercussões socioeconómicas para os quais são necessárias explicações claras e urgentes.

Os fervorosos adeptos do mercado diziam, há alguns anos atrás, que a liberalização e privatização das empresas de eletricidade traria o paraíso aos consumidores e aos contribuintes portugueses.

Sabemos que, na realidade, isto não é verdade. As tarifas/preços da eletricidade (e do gás natural) são, em Portugal, das mais elevadas no contexto europeu.

Na vida real as grandes empresas instaladas no setor energético têm tido, nos últimos anos, incluindo aquelas que atuam a coberto do lobby das energias renováveis, lucros que, pela sua escala, são escandalosos e atentatórios dos interesses comuns. Isto para além da hipótese de haver atuações que venham a ser merecedoras de condenação judicial. De facto,  o que se passa à sombra da legalidade construída é, em si mesmo, politicamente criminoso, porque o conteúdo  dos diplomas legais fundamentais violenta grosseiramente os interesses nacionais.

Em princípio, de acordo com a teoria dos mercados, a formação dos preços da eletricidade seria influenciada por vários fatores, designadamente:

  • A estrutura de produção em termos de tecnologias empregues (mix tecnológico);
  • Os preços e condições de energia primária;
  • O regime hidrológico;
  • O mercado de licenças de emissão de CO2;
  • A procura de eletricidade;
  • A capacidade/disponibilidade produtiva.

A constituição do parque electroprodutor é crítica na formação dos preços de eletricidade na medida em que pode condicionar a sua vulnerabilidade a aspetos específicos das energias primárias ou das condições hidrológicas, solares e eólicas.

A maior parte da eletricidade produzida em Portugal é, em termos do diagrama de base, proveniente de centrais térmicas, nomeadamente de centrais a carvão e gás natural, e, também, da produção hidroelétrica. Isto, não obstante a crescente produção a partir de centros produtores eólicos estimulados e protegidos por preços subsidiados numa proporção artificialmente empolada.

Em Portugal, como em outros países, estamos sujeitos à volatilidade dos preços dos mercados internacionais de energia primária, sendo a formação dos preços de eletricidade no mercado grossista influenciada quer aqueles preços.

Como a eletricidade não nos pode chegar de camião, navio ou avião, a capacidade de interligação à rede espanhola e, indiretamente, francesa e europeia, é decisiva. Coisa que não é dominável unilateralmente, não obstante as declarações políticas muito esperançosas repetidas nos últimos tempos.

A acrescer aos preços internacionais de energia primária, o “mercado” das emissões de CO2 veio a criar um mecanismo que pressiona os preços finais da eletricidade, isto porque a questão climática (diferente da ambiental) passou a refletir-se na estrutura de custos das centrais térmicas, nomeadamente nas centrais a carvão, onde o nível de emissões de CO2 é mais elevado.

Este novo “custo”, internalizado no preço final da eletricidade, veio a constituir-se como um importante factor na definição de políticas energéticas tendo em consideração a preocupação, muito acarinhada na Europa, a respeito das alterações climáticas.

Na produção em centrais hidroelétricas, a valia da água tem um custo de oportunidade, que varia com o nível de armazenamento e o regime hidrológico verificado (ano húmido ou seco).

No presente, o preço do petróleo está nos 68 USD/barril quando já esteve, há alguns anos atrás, bem acima do 100 USD/barril. O preço do carvão importado (steam coal) têm variado, com tendência a descer desde dezembro de 2017 e inclinando-se mais recentemente para os 65 €/ton.

Ficou registado que o mês de Maio de 2018 foi, em termos de preço da eletricidade transacionada no mercado grossista (MIBEL/OMEl) o mais caro desde 2008. Ora, naquele ano, havia menos 30% de capacidade de produção eólica instalada em Portugal, ou seja, chegava ao mercado grossista muito menos eletricidade desta origem.

Por outro lado, a hidraulicidade está, em 2018, 20% acima do ano médio, havendo, portanto, muito potencial elétrico armazenado nas albufeiras.

No dia 10 de junho, domingo e feriado, a eletricidade chegou a cerca de 63 €/MWh às 23 horas, quando havia grande produção eólica.

Desconhecem-se restrições nas interligações entre Portugal e Espanha, e, também não há registo de indisponibilidades significativas no parque electroprodutor ibérico, inclusive nas centrais nucleares.

Não obstante a hidroeletricidade e eólica disponíveis, e tendo ainda em conta que o custo marginal da eletricidade produzida na central de Sines (a carvão) andará nos 42 €/MWh, os preços estão nos já referidos valores.

Como se explicam tais preços elevadíssimos? Que tipo de anomalias estão a ocorrer? As autoridades reguladoras, ERSE e Autoridade da Concorrência, já indagaram? E, se já analisaram a situação, quais são as conclusões?

O atual “mercado” grossista de eletricidade é uma coisa opaca, difícil de “ler” e dominada por meia dúzia de centros de decisão empresarial (há três fornecedores e cerca de trinta comercializadores, mas, de facto, centros empresariais independentes são muito menos).

Tudo parece indicar que há, no mínimo,  uma falha grosseira de mercado.

Acrescentar que os célebres CMEC –  que os consumidores portugueses pagam através da aditividade dos CIEG – estão “apenas” relacionados com as centrais hidroelétricas. Que pertencem, no fundamental, à EDP.

Assim, quanto maior for o preço da eletricidade comercializada na pool/MIBEL mais a EDP ganha, independentemente do preço das matérias primas energética (gás natural e carvão) nos mercados internacionais.

Sabendo-se que o preço no MIBEL esteve acima dos 50 €/MWh durante o ano de 2017 (continuando à volta dos 60 €/MWh em 2018) e, por outro lado, continuando em vigor o enquadramento legal relativo aos CMEC, pergunta-se: quem é que tem “autorizado” a EDP a receber o subsídio indemnizatório CMEC? A ERSE? A secretaria de Estado?

A EDP deveria, de facto, retornar dinheiro ao sistema, sempre que a eletricidade estivesse acima dos 50 €/MWh. Isto de acordo com o que está legislado, que, a não ser respeitado, nos conduz a rendas não só excessivas, como, também, abusivas!

Os fundamentalistas do mercado neoliberal acham que os Reguladores têm nas suas mãos a resolução destes problemas.

Mas, será que os Reguladores, regulam bem?

Mais, há que perguntar se, na matriz das entidades Reguladoras, está, de facto, a defesa dos interesses comuns.

Entre as brumas da memória


Sporting: de desgraça em desgraça

Posted: 18 Jun 2018 01:18 PM PDT

Fascista, machista e racista. Eis o novo treinador do Sporting.
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Dica (773)

Posted: 18 Jun 2018 10:51 AM PDT

Rise of the machines: has technology evolved beyond our control? (James Bridle)

«Technology is starting to behave in intelligent and unpredictable ways that even its creators don’t understand. As machines increasingly shape global events, how can we regain control.»

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Legislativas 2019 – Nova sondagem

Posted: 18 Jun 2018 05:34 AM PDT

(Clicar na imagem para ver melhor)

A ler: PS está mais longe da maioria absoluta.

«Neste inquérito da Aximage, é o Bloco de Esquerda que melhores resultados obtém. O partido de que Catarina Martins é coordenadora recolhe mais três décimas do que há um mês, ao conseguir a simpatia de 10,3% dos inquiridos».

Num comentário no Facebook, li o seguinte comentário: «O BE ainda tem uma percentagem elevada. Isso não é bom.» Claro que não é bom, é óptimo e espero que cresça.

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A vaca Penka e a UE

Posted: 18 Jun 2018 03:00 AM PDT

«No passado mês de Maio, uma simpática vaca búlgara, de nome Penka, decidiu abandonar o seu país natal, mas também a União Europeia. Por razões desconhecidas entrou em território da Sérvia.

Recolhida, foi devolvida aos seus proprietários. Mas aí começaram os problemas. As autoridades sanitárias búlgaras, considerando que Penka tinha ido dormir a um país alheio à UE, julgaram que ela tinha sido "importada", quando regressara à Bulgária, e deixara de ter as autorizações sanitárias necessárias. Veredicto cruel: Penka deveria ser abatida. O seu proprietário decidiu lutar e Penka tornou-se um símbolo nacional, mostrando o grande absurdo que é parte da legislação europeia, cega e surda. Em Portugal, sentiu-se isso na pele quando, por exemplo, se destruíram formas de produção tradicional de queijos, doces ou enchidos, porque não estavam consoante a "legislação europeia". A Europa de Bruxelas e da legislação que aplica as mesmas regras a países e culturas diferentes é um dos maiores atentados à soberania. Tal como foi aplicar receitas iguais, em forma de austeridade, a países e situações diferentes. Só para salvar os países do centro da crise de 2010.

A retirada, até ao fim do ano, do programa de compra de activos por parte do BCE, é uma nova versão da célebre canção dos ABBA: "Money, Money, Money/Must be funny/In the rich man's world." Num clima de incerteza, até perante a guerra comercial com os EUA, retirar o tapete aos países do Sul da Europa pode ter consequências imprevisíveis. Como reagirá Itália, cada vez mais eurocéptica, se isso afectar a sua já gritante dívida externa e uma economia periclitante? Itália responderá cada vez mais numa lógica de Aquarius: a Europa atira-nos com problemas e não nos traz soluções. Imagine-se que Itália, seguindo as pisadas da vaca Penka, decide ignorar as regras orçamentais dos célebres 3% de défice? O que fará Bruxelas? A UE continua firme a ler um ensaio sobre a cegueira. Feito num Excel.»

Fernando Sobral

Os INCENDIÁRIOS já começaram a trabalhar

Estátua de Sal

por estatuadesal

(Dieter Dellinger, 18/06/2018)

odivelas

Zona da Ramada bem perto de Lisboa. Ainda não há fotos do eucaliptal a arder.

Um incêndio numa zona de eucaliptal e silvas na zona de Montemor, freguesia da Ramada e Caneças, concelho de Odivelas, está hoje a ser combatido por um meio aéreo e 77 elementos, disse à Lusa fonte da Proteção Civil (Ver notícia aqui ).

O presidente da Associação de Bombeiros Profissionais disse há tempos que este ano havia muito perigo de incêndio na zona de Lisboa e confirma-se a previsão do homem que deve saber do que fala, ou seja, quem está a pagar a INCENDIÁRIOS para que haja fogo nas freguesias de Ramada e Caneças.

Admito como hipótese não muito provável que haja um ou outro sapador que não quer ser deslocado para zonas distantes e daí nada melhor que encarregar alguém de fazer o trabalhinho perto da capital para permanecer a pouca distância das suas casas. Deve o referido presidente ser ouvido pelo Guerra se o homem do DCIAP for um bom profissional.

Como o Guerra só quer condenar o Sócrates, admito que ele, pode a PÁTRIA arder,  não se deve importar. Tal como o Guerra, o Alexandre e a Joana, também tenho o direito de pensar e deduzir, no sentido da defesa da PÁTRIA, que é o meu único interesse como habitante de uma freguesia muito urbana de Lisboa.

O Expresso do Sábado passado listou 20 locais onde iria haver incêndio. O pessoal PPD do semanário se escreveu essa lista é porque sabe. Os INCENDIÁRIOS encomendados por Rui Rio devem receber ordens através da lista publicada pelo jornal, já que não têm grande lógica os locais indicados.

Curiosamente, fizeram um mapa com zonas de grande probabilidade de fogo e estão lá a zona do sapal de Castro Marim e de Vila Nova de Cacela que conheço bem e que sei que não há muita floresta e o terrenio é essencialmente constituído por rocha metamórfica xistosa, além de que o sapal está cheio de água.

Só pode arder o Pinhal que vai de Montegordo ao dique do farol de Vila Real de Santo António onde está um grande parque de campismo e onde foram este ano abertas estradas de acesso à praia que não era utilizada, a não ser por quem viesse a pé de Montegordo ou do dique onde está o farol.
Mas, nessa zona, não há abandono como fala o MRS e no verão está repleta de veraneantes e que eu saiba nunca aquilo ardeu.

O autor do artigo é o jornalista Amadeu Araújo e está nas páginas 6 e 7 da parte principal. O homem deveria ser ouvido pelo DCIAP para que a Justiça (se existisse) soubesse a razão porque salienta aquela zona do extremo sul e leste de Portugal e se é uma ordem à Associação Terrorista dos Incendiários políticos.

Temos de ripostar fogo a fogo e acusar sempre INCENDIÁRIOS desconhecidos para nós porque há quem os conheça e pague. Nem o Rio nem nenhuma autoridade nem a Comunicação Social podem ficar fora desta critica à politização que incentiva ao fogo posto. Nada arde por si próprio.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Em busca de Outros Iluminismos

  por estatuadesal

(Boaventura Sousa Santos, in OutrasPalavras, 18/06/2018)

BOAVENTURA1

Apoiando-se na Razão e na Ciência, as Luzes europeias enfrentaram a servidão — mas também sacrificaram todas as demais formas de conhecimento. Em contrapartida, é preciso afirmar, a partir das lutas, as Epistemologias do Sul


A conhecida revista de arte norte-americana Artforum solicitou-me um curto texto sobre o tema “O que é o Iluminismo?” Este é o título do famoso texto de Immanuel Kant publicado em 1784, glosado desde então por muito autores, inclusivamente por Michel Foucault. A editora da revista queria especificamente que eu abordasse o tema a partir da minha proposta das epistemologias do sul (Epistemologies of the South: Justice against Epistemicide. Nova Iorque, Routledge, 2014; The End of the Cognitive Empire: The Coming of Age of the Epistemologies of the South. Durham, Duke University Press, 2018.). Eis a minha resposta.

Em 1966, um dos mais inovadores intelectuais ocidentais do século XX, Pier Paolo Pasolini, escreveu que somos muitas vezes prisioneiros de palavras doentes. Referia-se a palavras que parecem plenas de sentido, mas que, de fato, estão desprovidas dele ou, talvez mais precisamente, palavras que possuem conotações vagas e misteriosas, mas nos deixam muito inquietos, dada a sua aparência de estabilidade e coerência. Pasolini refere três palavras doentes—cinema, homem e diálogo—, insistindo no fato de existirem muitas mais. Penso que uma delas é Iluminismo. Foucault mostrou já que somos prisioneiros desta palavra. Contudo, na sua obsessão com a ideia de poder, não reconheceu que os prisioneiros nunca estão totalmente aprisionados e que a resistência nunca é apenas determinada pelas condições impostas pelo opressor. Afinal, as conquistas revolucionárias dos protagonistas do Iluminismo europeu mostram-nos precisamente isso. Devemos então começar a partir do ponto em que Foucault nos deixou. Poderemos nós curar essa palavra doente? Duvido que possamos. Contudo, se houver uma cura, ela ocorrerá, sem dúvida, contra a vontade do doente.

Se perguntarmos a um budista o que é o Iluminismo, poderemos obter uma resposta como a de Matthieu Ricard, um monge que vive no Nepal. Para Ricard, Iluminismo implica:

Um estado de conhecimento ou sabedoria perfeitos, aliado a uma infinita compaixão. Neste caso, o conhecimento não significa somente a acumulação de dados ou uma descrição do mundo dos fenómenos até aos mais ínfimos pormenores. O Iluminismo é uma compreensão tanto do modo relativo da existência (a forma como as coisas se nos apresentam) como do modo último da existência (a verdadeira natureza dessas mesmas aparências). Tal inclui as nossas mentes, bem como o mundo exterior. Esse conhecimento é o antídoto básico para a ignorância e o sofrimento.

Até que ponto é que o Iluminismo de Ricard é diferente do de Kant, Locke ou Diderot? Ambas as concepções implicam uma ruptura com o mundo tal como ele nos é dado. Ambas exigem uma luta contínua pela verdade e pelo conhecimento, sendo que o seu objetivo último equivale a uma revolução — uma revolução interior, no caso do Iluminismo budista, e uma revolução social e cultural, no caso do Iluminismo europeu. Será que existem continuidades entre essas rupturas, tão distantes em termos das suas gêneses e dos seus resultados? Devemos considerar como dado adquirido que nos conhecemos a nós ao conhecermos o mundo, conforme nos promete o Iluminismo europeu, ou devemos antes partir do pressuposto de que conhecemos o mundo uma vez que nos conheçamos a nós, conforme a promessa do Iluminismo budista? Qual dos dois pressupõe a tarefa mais impossível?

Qual dos dois acarreta mais riscos para os que não acreditam nas suas promessas? E, finalmente, porque é que questionar o Iluminismo europeu é ainda hoje, mais de dois séculos depois da sua formulação, tão mais relevante e controverso do que questionar o Iluminismo budista? Será apenas porque a maioria de nós é ontológica, cultural e socialmente eurocêntrica, e não budocêntrica?

A força do Iluminismo europeu baseia-se em duas demandas incondicionais: a busca do conhecimento científico, entendido como a única forma verdadeira de conhecimento e como fonte única de racionalidade; e o empenho no sentido de vencer a “escuridão”, ou seja, de banir tudo quanto é não-científico ou irracional. A incondicionalidade dessas demandas tem como premissa a incondicionalidade das causas que as orientam. E causas incondicionais levam logicamente a consequências incondicionalmente positivas. Aqui reside a fatal debilidade dessa força tão extrema, o seu calcanhar de Aquiles. Tomar como base uma concepção única de conhecimento e de racionalidade social exige que se sacrifique tudo aquilo que não lhe é conforme. A natureza sacrificial desta confiança reside em que a tolerância e a fraternidade decorrentes da celebração da liberdade e da autonomia contêm em si a fatal incapacidade de distinguir coerção e servidão de modos alternativos de ser livre ou autônomo. Ambos são concebidos como inimigos da liberdade e da autonomia e, logicamente, tratados com desapiedada intolerância e violência.

É esse o impulso atávico que subjaz à construção iluminista da humanidade “universal” e o impele a sacrificar alguns humanos, banindo-os da categoria do humano, como o antigo bode expiatório abandonado no deserto. Isso explica a razão pela qual os direitos humanos podem ser violados em nome dos direitos humanos, a democracia pode ser destruída em nome da democracia e a morte pode ser celebrada em nome da vida.

Aquilo que torna o Iluminismo europeu tão fatalmente relevante e tão necessitado de constante reavaliação é o fato de, ao contrário de outros projetos iluministas (como o budista), o poder de impor as suas ideias aos outros não se reger, ele próprio, por essas ideias e sim pelo desígnio de prevalecer, se necessário através de uma imposição violenta, sobre aqueles que não acreditam em tais ideias iluminadas ou se veem fatalmente afetados pelas consequências da implementação delas na vida económica, social, cultural e política.

A natureza sacrificial do Iluminismo europeu manifesta-se na forma como raciocina sem razoabilidade, na forma como apresenta as opções que rejeita ou os caminhos que não escolhe como prova da inexistência de outras vias, na forma como justifica resultados catastróficos como danos colaterais inevitáveis. Estas operações traçam uma linha abissal entre, por um lado, a luz forte das boas causas e das formas iluminadas de organização social e, por outro, a escuridão profunda das alternativas silenciadas e das consequências destruidoras. Historicamente, o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado são as forças principais que têm sustentado a fronteira abissal entre seres totalmente humanos, que merecem a vida plena, e criaturas sub-humanas descartáveis.

Essa linha abissal é uma linha epistêmica. Por isso, a justiça social exige justiça cognitiva e a justiça cognitiva exige que se reconheça que a querela entre a ciência, por um lado, e a filosofia e a teologia, por outro, é um conflito que se enquadra confortavelmente no âmbito da epistemologia iluminista. Aquilo que precisamos de entender é o fato de estes modos de conhecimento se oporem coletivamente a formas de pensamento e sabedorias alheias ao paradigma ocidental. O colonial propriamente dito poderia definir-se em termos dessa terra incógnita epistemológica. Como observou Locke de forma bem reveladora, “No princípio o mundo todo era a América”. Longe de representar a superação universal do “estado de natureza” pela sociedade civil, o que o Iluminismo fez foi criar o estado de natureza, consignando-lhe amplas extensões de humanidade e vastos conjuntos de conhecimentos. A cartografia, enquanto disciplina, inscreveu uma demarcação precisa entre a metrópole civilizada e as distantes terras selvagens (americanas, africanas, oceânicas). Esse mundo “natural”, na lógica geo-temporal lockiana, tornou-se também uma história “natural”. A contemporaneidade e a simultaneidade dos mundos do Outro colonial tornaram-se uma espécie de passado dentro do presente.

Para se chegar ao tipo de pensamento pós-abissal capaz de transcender completamente a oposição binária metropolitano/colonial, é necessário travar uma batalha que excede parâmetros epistêmicos. Apenas se pode confrontar o poder hegemônico através das lutas daqueles grupos sociais que têm sido sistematicamente lesados e privados da possibilidade e do direito de representar o mundo como seu. Os seus conhecimentos, nascidos em lutas anticapitalistas, anticoloniais e antipatriarcais, constituem aquilo a que chamo epistemologias do sul. Tais lutas não se regem por princípios anti-iluministas (a opção conservadora, de direita), mas criam condições para que seja possível uma conversação entre diferentes projetos de Iluminismo, uma ecologia de ideais iluministas.

Os conhecimentos nascidos nas lutas apontam para a razoabilidade (troca de razões) e não para racionalidade unilateralmente imposta, e partem das consequências em vez de partirem das causas. A noção de causa enquanto objeto privilegiado de conhecimento—a ideia de que a nossa tarefa consiste em ir cada vez mais fundo até se chegar, por fim, às fundações epistemológicas ou ontológicas, a causa sui ou causa sem causa—é ela própria um artefato da modernidade ocidental. Para os oprimidos, uma epistemologia a partir das consequências torna legível a experiência e possível a justiça. Só assim podem as ruínas converter-se em sementes.

Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical

  por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Nos conflitos laborais, o Governo pode contar sempre com a direita radical...
… como se vê com os professores. O governo, sob a batuta de Centeno, mantém as regras de austeridade da troika e Passos, no confronto com os professores. Mas o trabalho sujo contra os professores, contra os sindicatos, contra a função pública, contra o odiado nº1 do meio sindical, Mário Nogueira, é feito pela nossa direita alt-right. Quando há um conflito, é uma aliança quase natural e que obscurece, e muito, as coisas.

O problema com as classificações simples
Tive recentemente oportunidade de participar numa discussão com Daniel Oliveira sobre o livro De Esquerda, Agora e Sempre, de Mark Lilla, em que repeti, mais uma vez, a minha dificuldade em achar heurística a fractura esquerda/direita. Eis algumas das questões:

- Os anarquistas, que são contra o Estado e contra os governos, são de direita ou são de esquerda?

- Os libertários (americanos) que têm toda a agenda fracturante, por exemplo, do Bloco de Esquerda, em matéria de drogas, LGBT, feminista, ecológica, etc., são de direita ou são de esquerda?

- Trump, cujo proteccionismo em defesa da "economia nacional", dos mineiros, dos trabalhadores do aço e do alumínio, das indústrias tradicionais "de produção nacional", constitui uma agenda que nesta matéria não é muito distinta da de vários partidos comunistas, incluindo o português, é de direita ou de esquerda?
E por aí adiante.

A nova Kim Jong-un
Um combate já Trump perdeu em Singapura: a estrela do encontro é Kim Jong-un. É recebido com evidente contentamento pelos seus mais improváveis anfitriões, todos os seus gestos se tornam virais, como aliás a sua escolta de guarda-costas a correr ao lado do carro, e os media internacionais voam à volta da sua bizarra figura como passarinhos à volta de uma migalha.

Trump já não é novidade, embora a sua grosseria e violência sejam muito mais perigosas do que as do "rocket man", que ele pensa que pode entender logo ao primeiro minuto. Presumo que se ele lhe fizer uma vénia ou lhe oferecer um presente sumptuoso retirado de um qualquer museu norte-coreano, Trump ficará logo rendido a Kim como o é a Putin, a Duterte, a Erdogan e a Xi, homens que ele acha que são da sua laia. Fortes.

O que vai estar em cima da mesa é da ordem do puro narcisismo, e quem pensa que é a "paz" acredita na alquimia. Claro que o narcisismo de Trump e Kim pode conduzi-los a uma aliança que possa ser a curto prazo vantajosa para o resto do mundo, mas convém não ter ilusões quanto aos motivos. Ambos são muito ambiciosos, ambos querem ficar na história - a suprema vaidade. Trump quer ter o Prémio Nobel da Paz e não o esconde, e Kim não se sabe muito bem o que quer, mas sabe-se que é o "chefe supremo" da primeira monarquia comunista. Kim é muito mais inteligente do que Trump, mas Trump é muito mais poderoso. Ambos são cruéis, Kim ganha porque a sua crueldade é despótica, mas ambos estão habituados a mandar sem contestação e a sua última preocupação é o "povo". Sozinhos, um diante do outro, são um perigo público, mas Deus às vezes escreve direito por linhas tortas. O que é certo é que neste momento ambos precisam desesperadamente um do outro.

Um novo clima de censura atravessa os americanos
Uma cómica chama uns nomes feios a Ivanka Trump. Pediu desculpa. Robert de Niro diz que Trump "se f…". Não pediu desculpa, repetiu e repetiu com a sala de pé com palmas. Um convidado da Fox News referiu-se ao encontro Trump-Kim como o "encontro de dois ditadores" e o programa continuou normalmente como se ninguém achasse anormal a classificação. Depois rebentou a tempestade. Pediu desculpa. Roseanne, uma actriz "trumpista" com um programa televisivo de sucesso, mandou uns tweets racistas e foi despedida. Meteu os pés pelas mãos e desculpou-se. Todos os dias é isto, e este ambiente é muito mau.

O resultado é que cada vez mais as pessoas se patrulham no que dizem, e cada um dos lados levanta uma pequena guerra civil contra o outro, usando os "seus" media. A Fox News é exímia nessa patrulha, que faz sistematicamente, mas é acompanhada pela obsessão do "politicamente correcto" de que a esquerda americana padece sem perceber os riscos de legitimar a censura do outro lado. O uso generalizado das "redes sociais" é altamente propício à asneira e também parece que ninguém aprende.

Há apenas um homem que escapa de pedir desculpas e que diz as maiores enormidades, insulta e profere obscenidades (os jogadores que se ajoelham são "filhos da puta"), sem consequências - Donald J. Trump.