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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Tailândia. Como sobrevivem os 12 rapazes numa gruta a mil metros de profundidade

04 Julho 2018125

Marta Leite Ferreira

A existência de líderes, terem menos consciência do perigo por serem novos e o facto de o corpo aguentar 20 a 25 dias sem comida ajudou a encontrar vivos os 12 rapazes tailandeses. Como vão sair dali?

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A gruta de Tham Luang, um complexo de cavernas calcárias subterrâneas com dez quilómetros de comprimento, não era completamente desconhecida de Ekkapol Janthawong nem da equipa de futebol que o acompanhou a 23 de junho no passeio que se tornou num drama acompanhado ao minuto em todo o mundo. Há dois anos, o treinador de 25 anos tinha levado o mesmo grupo de crianças, com idades entre os 11 anos e os 16, a explorar aquele que é considerado um dos sistemas de cavernas mais difíceis de percorrer por causa dos corredores estreitos que ligam as câmaras umas às outras e dos túneis serpenteantes recortados por estalactites e estalagmites. Mas aquela que deveria ser apenas mais uma das muitas visitas de estudo organizadas por Ekkapol tornou-se numa verdadeira história de angústia: o treinador e as doze crianças ficaram presos a mil metros de profundidade e a dois quilómetros da entrada, rodeados de água por todos os lados. Ao fim de dez dias, e quase por milagre, o grupo foi encontrado vivo e em segurança numa das câmaras da cave. Mas será preciso outro milagre para tirá-los de lá.

À uma da tarde de 23 de junho, eram sete da manhã em Portugal Continental, a equipa tailandesa de futebol Wild Boars chegou a uma das aberturas da gruta Tham Luang, que fica no norte da Tailândia junto à fronteira com Mianmar e com Laos, e prendeu as bicicletas com correntes para começar a explorar as cavernas. Os rapazes passaram por placas que avisavam os exploradores para mão entrarem na gruta durante as épocas das chuvas, mas nada lhes fazia temer o pior: a meteorologia previa céu limpo e a época das monções ainda estava a dois meses a começar. Só que o pior aconteceu mesmo: uma grande tempestade abateu-se na região de Tham Luang enquanto a equipa ainda estava dentro do complexo. As rochas, movidas pela água, taparam os corredores que Ekkapol Janthawong e os doze rapazes podiam usar para voltar à superfície e o grupo acabou encurralado dentro de uma galeria com um quilómetro de rochas por cima das cabeças e outro de água turva à sua volta. Nada podiam fazer senão esperar.

E as explicações para tudo o que aconteceu esconde-se nas profundidades da terra. Mas também no céu.

O grupo de futebol desaparecido na cave. Créditos: Ekatol/ Facebook

Há dois anos, o treinador tinha levado o mesmo grupo, com idades entre os 11 anos e os 16, a explorar aquele que é considerado um dos sistemas de cavernas mais difíceis de visitar por causa dos corredores estreitos que ligam as câmaras umas às outras e dos túneis recortados por estalactites e estalagmites.

A vida a quilómetros de profundidade

Onze dias depois de os rapazes entrado para a gruta na Tailândia, e apenas dois dias após terem sido encontrados, uma coisa parece evidente: apesar da fragilidade física que as crianças demonstram, psicologicamente parecem estar serenas. Isso tem justificação: “Em termos de sobrevivência, tudo depende muito do estado psicológico deles, do estofo e da vontade que tenham de sobreviver. Também depende se existe alguma liderança natural, o que parece ter sido o caso porque o grupo estava com o treinador e, sendo uma equipa de futebol, deve haver união e um espírito de disciplina e metodologia. Nessas situações costuma despontar alguma liderança natural que efetivamente mantenha ali um equilíbrio psicológico e espírito de entreajuda que é fundamental”, explicou ao Observador um membro dos fuzileiros formado para reagir em situações extremas como esta. Como têm desvendado os meios de comunicação social, a contribuir para o união do grupo está o responsável pelos rapazes e o capitão da equipa.

Os doze rapazes e o treinador chegaram à câmara onde ficaram presos sem mochilas, o que faz crer que há onze dias que não tinham comida. Esse não seria um problema de maior: “O corpo tolera bastante tempo a falta de comida. O nosso organismo tem reservas naturais que vai consumindo quando fica privado de alimentos, que são os tecidos adiposos. O estômago começa a contrair naturalmente para a quantidade de produtos que entram no sistema digestivo, depois o organismo passa a dosear mais os sucos que entram na cadeia digestiva e a seguir começa a consumir a gordura que todos temos guardada no corpo. Em situações mais extremas, o organismo até consome a gordura que todos temos na pele e só depois consome também os nossos músculos”, conta-nos o militar.

Um monge visita o local onde estão montadas as operações ao pé da caverna. Créditos: Getty Images

Este não é um processo eterno, mas demoramos muito mais a esgotar completamente as nossas reservas e a morrer de fome do que a esgotar a água que armazenamos no organismo: “O nosso corpo é essencialmente composto por água, por isso se não a consumirmos estamos a comprometer as funções dos rins, do pâncreas, do fígado, do cérebro e dos pulmões, por exemplo. Sem comida, o organismo aguenta 20 a 25 dias, desde que tenha água. Caso contrário, a falta de água pode provocar algumas lesões para o organismo que podem culminar numa falência multiorgânica. Interessa sobretudo que eles tenham água e ar de qualidade, isto é, que não tenham níveis de saturação muito altos de dióxido de carbono”, explica o fuzileiro ao Observador.

Demoramos muito mais a esgotar completamente as nossas reservas e a morrer de fome do que a esgotar a água que armazenamos no organismo: o nosso corpo é essencialmente composto por água, por isso se não a consumirmos estamos a comprometer as funções dos rins, do pâncreas, do fígado, do cérebro e dos pulmões. Sem comida, o organismo aguenta 20 a 25 dias, desde que tenha água.

Mas como é que se garante que a água que chega àquela câmara nas profundidades da terra é potável ou pelo menos saudável para o organismo? De acordo com este militar, “a água da chuva passa por processos simples de filtragem ao passar pelas rochas calcárias que compõem uma gruta”: “A água passa pelas rochas, pelas areias, pelos aluviões e enquanto faz essa passagem acaba por se livrar das impurezas que possa ter, por isso é praticamente seguro dizer que a água que escorre pelas paredes de uma gruta é potável”. Só há dois cuidados a ter, sublinha ele: não beber a água das correntes de água subterrâneas porque não são filtradas e podem estar poluídas; e, para beber a que escorre das paredes, ensopar uma peça de roupa (como a manga de um casaco, por exemplo) e depois torcê-la para soltar a água, de modo a que as impurezas fiquem presas nas fibras da roupa.

Apesar de a sobrevivência ser possível, a psicóloga de adolescentes Bárbara Ramos Dias diz que a falta de comida pode deixar problemas importantes para o futuro destas crianças: “Elas podem passar a lidar com a comida de uma forma menos saudável e a ter comportamentos menos adequados em relação a ela. Podem passar a viver com medo que ela comece a escassear, como acontecia dentro da gruta. Se não forem psicologicamente trabalhados podem desenvolver depressões, ataques de pânico, problemas de irritabilidade, alterações do sono ou a demonstrar situações de hipervigilância”, enumera a psicóloga. Daí que umas das primeiras preocupações tenha sido fazer chegar comida ao grupo. E a segunda pô-las em contacto com o exterior, onde estão as famílias.

Aliás, os esforços que as equipas no local estão a fazer para abrir de canais de comunicação entre o grupo e as pessoas no exterior pode ajudar muito as crianças e o treinador a manterem a sanidade mental, mas só numa condição: “Falar com a família é positivo, desde que a própria família também tenha preparação psicológica. Não podem em circunstância alguma chorar ou demonstrar medo. Devem transmitir mensagens positivas e usar expressões como ‘estamos a preparar tudo para vos receber’, ‘estamos aqui sempre para vocês’ e ‘vai correr tudo bem’. Qualquer ideia que transmita segurança, proteção e carinho”.

Uma mãe reage ao ver o filho vivo num vídeo captado na caverna. Créditos: LILLIAN SUWANRUMPHA/AFP/Getty Images

De resto, Bárbara Ramos Dias admite que o facto de estarem em grupo pode ajudar a ultrapassar “uma situação traumática”, mas o militar com que o Observador conversou acrescenta que “tudo depende da relação que os membros do grupo têm entre eles”: “A preocupação das pessoas é principalmente com as crianças, mas a verdade é que por norma elas, por ingenuidade também, não se deixam dominar tanto pelo medo como um adulto. Portanto, tudo depende da vivência. Culturalmente os asiáticos tendem a ser educados mais para a paciência e para a resiliência e isso é uma vantagem nestas situações. Além disso, se este já for um grupo coeso então terá mais hipóteses de funcionar. O facto de estarem vivos e todos juntos ao fim deste tempo todo prova que quem assumiu a liderança teve presença de espírito para manter as pessoas naquele alinhamento”.

A preocupação das pessoas é principalmente com as crianças, mas a verdade é que por norma elas, por ingenuidade também, não se deixam dominar tanto pelo medo como um adulto. Além disso, se este já for um grupo coeso então terá mais hipóteses de funcionar.

Porque é tão difícil resgatar os Wild Boars?

Há dois aspetos que justificam a dificuldade que as equipas de resgate estão a ter em retirar os rapazes do interior da caverna. Em primeiro lugar, a natureza daquela gruta: de acordo com Ivo Alves, geólogo da Universidade de Coimbra, grutas como a de Tham Luang nascem quando a água das chuvas encontra fendas no chão e vai escavando fendas ao longo da rocha calcária que compõe o solo: “A maior parte das águas da chuva é ligeiramente ácida por causa do dióxido de carbono que contém, o que no fundo a transforma num ácido carbónico. O ácido carbónico tem uma natureza corrosiva que vai destruindo o calcário que encontra pelo caminho. As rochas vão-se dissolvendo e nascem estes sistemas de grutas e cavernas”, explicou o geólogo ao Observador.

Acontece que o solo tailandês é muito rico nestas falhas: aquela região fica no local onde três placas tectónicas — a Indo-Australiana, a Euroasiática e a do Oeste do Pacífico — chocam umas contras as outras. E a Tailândia, em particular, fica por cima da placa de Sunda, um pedaço da superfície terrestre que está praticamente quieta mas que está cercada por atividades vulcânicas e sísmicas por todo o lado, incluindo pela trincheira onde uma placa cavalga a outra desde o ocidente de Mianmar até ao mar de Timor. “Esse cavalgamento cria atritos que levam as rochas a ceder quando acumulam demasiada energia, formando falhas por onde a água entra”, concretiza Ivo Alves.

Pode haver duas cavernas deste tipo: uma que não inunda e outra que sim, como explicou ao Observador Sérgio Barbosa, vice-presidente da Federação Portuguesa de Espeleologia. As cavernas que não se inudam por completo são aquelas em que há maior facilidade em resgatar alguém que se perca ou fique preso no seu interior: “É mais fácil porque a água não se torna propriamente num obstáculo para a operação, mas não deixa mesmo assim de ser complexa. Já houve operações em que foram precisos 12 dias, a presença de 200 espeleologistas e mais de mil pessoas para coordenar toda a logística para retirar um único sinistrado”. Se é difícil numa caverna assim, numa como a gruta de Tham Luang a complexidade aumenta ainda mais: “Neste caso não será preciso partir rocha para as macas passarem porque todos parecem estar bem, mas há outros problemas. A água é turva, as câmaras são longas e difíceis e as passagens são tão apertadas que um mergulhador experiente precisa de três horas para passar para um lado e outras três para regressar”, descreve Sérgio Barbora. A tarefa é tão complicada e a luminosidade é tão baixa que esses mergulhadores têm de fazer passar um fio ao longo da caverna, que depois seguem para poderem regressar à superfície.

Nos últimos dias, a chuva tem caído muito forte e quase sem parar no norte da Tailândia, o que justifica porque é que as 50 bombas de drenagem de água montadas na caverna não estão a ser suficientes para libertar os rapazes: está a entrar mais água do que aquela que as equipas são capazes de retirar.

O segundo motivo que dificulta o trabalho dos mergulhadores e das autoridades é a meteorologia: a Tailândia acabou de entrar na épocas das chuvas, as conhecidas monções, que ocorrem quando há uma grande diferença de temperaturas entre o ar acima do mar e o ar acima das regiões continentais mais próximas. As rochas que compõem o solo não têm uma grande capacidade térmica em comparação com a água do mar, que suporta temperaturas muito maiores. Isso faz com que a quantidade de calor que é absorvida e acumulada na água do mar nas estações quentes seja muito maior à que é acumulada em terra. Como o ar está em movimento, o mais quente que existe sobre a terra sobe por estar mais denso: isso cria uma zona de baixa pressão atmosférica e levanta vento vindo do mar para terra que arrasta o ar mais rico em humidade. Esse ar arrefece e condensa, chegando depois à precipitação sob a forma de chuva.

No caso particular da Tailândia, as épocas das chuvas começam em junho e só acabam em outubro, embora sejam mais fortes a partir de agosto. Estas monções resultam das massas terrestres do subcontinente indiano e do sudeste asiático, que aquecem mais rápido do que a água do oceano Pacífico. Isso cria um fluxo de ar mais frio e carregado de humidade que estaciona por cima da Tailândia. À conta deste fenómeno, a previsão meteorológica oficial do país diz que “entre junho e agosto deste ano, o volume de precipitação estará entre os 156 milímetros e os 223 milímetros mensais. Nos últimos dias, a chuva tem caído muito forte e quase sem parar no norte da Tailândia, o que justifica porque é que as 50 bombas de drenagem de água montadas na caverna de Tham Luang não estão a ser suficientes para libertar os rapazes: está a entrar mais água do que aquela que as equipas são capazes de retirar.

As autoridades tentam bombear a água da chuva para a fora da caverna para chegar ao grupo. Créditos: Linh Pham/Getty Images

As três soluções possíveis (e nenhuma é ideal)

Perante estas dificuldades, há três estratégias que podem ser usadas para retirar as doze crianças e o treinador de 25 anos do interior da gruta da montanha, sugere o vice-presidente da Federação Portuguesa de Espeleologia: ensinar as crianças a fazer mergulho para que possam nadar ao longo das câmaras inundadas, perfurar cerca de um quilómetro do cimo da montanha até à câmara onde a equipa está presa ou esperar que as épocas das chuvas passem para, aí sim, a água ser retirada e os percursos de regresso à superfície poderem ficar secos e desimpedidos.

A primeira hipótese é demasiado difícil, explicou ao Observador Pedro Lage, instrutor especializado em mergulho em grutas e um dos 20 mergulhadores do mundo a ter visitado o Britannic, o maior navio naufragado do mundo: “Dar cursos de um dia para o outro não é fácil. O tipo de mergulho mais difícil é em gruta. É preciso ensinar-lhes a mexer no equipamento. A falta de visibilidade causada pelas lamas pode ser assustadora. Portanto têm de estar psicologicamente preparados para não verem nada, não é só usar o equipamento. Os miúdos aprendem rápido, há alguns que podem pôr aquilo às costas e avançar. Mas há outros que podem ter medo, se eles nem sabem nadar. Dos 12 meninos, pode haver alguns que nem consigam, se tiverem a tal fobia ou inaptidão para estar dentro de água. Outros podem conseguir de um dia para o outro. Seria um milagre conseguir ensinar os 13 a mergulhar o suficiente para saírem todos juntos”.

Pedro Lage admite que é possível tirar as crianças da caverna, que estão encurralados numa bolha de ar dentro de uma câmara da gruta, mas que ensinar este tipo de mergulho às crianças é “muito difícil”: “A criança tem de ter a calma suficiente para continuar a respirar. Mesmo não vendo nada tem de continuar a nadar. Não pode entrar em pânico, porque não tem sítio para onde ir, se tira o equipamento da boca morre afogada. Meter o regulador na boca é possível de ensinar, agora preparar mentalmente uma criança para estar meia hora ou mais num sítio escuro, com rochas por cima, estreito, é que é difícil. A barreira psicológica é a maior barreira“, acrescentou o mergulhar. Tudo isso se agrava porque as passagens por onde ela teria de entrar são muito estreitas: “Imagine que está num sítio onde o teto é rocha. Não pode vir à superfície se tiver medo, falta de ar ou uma falha no equipamento. Tem zonas onde a visibilidade pode ser zero, não se vê uma mão à frente da cara. Depois, tem de ter um fio-guia, chamado fio de Ariadne, que leva até à saída. Pode haver zonas da gruta estreitas onde tem de fazer ‘contorcionismo’ para conseguir passar. Estes detalhes é que tornam o mergulho em grupo a vertente mais desafiante”.

A segunda hipótese de salvamento, a de escavar uma abertura artificial do cimo da montanha até à câmara onde o grupo está, também pode ser demasiado arriscada, conta ao Observador o espeleologista Francisco Rasteiro, presidente do Núcleo de Espeleologia da Costa Azul. “Fazer um furo é impensável porque o mais provável é que a gruta colapsasse“, afirma. É que a gruta de Tham Luang fica na cordilheira de Doi Nang Non, nas terras altas tailandesas, onde ficam serras que se estendem da Tailândia até aos Himalaias passando por Laos, Mianmar e China. Esta secção da cordilheira fica no província de Chiang Rai, cujo solo é muito rico em calcário, que por ser uma rocha sedimentar é também muito mais frágil. Na opinião de Francisco Rasteiro, o solo que compõe a caverna pode nem sequer suportar as escavações.

Isso, no entanto, vai ao encontro da opinião de Sérgio Barbosa: “É preciso ter uma mapa topográfico muito bom da região, como havia quando os mineiros ficaram presos na escavação da mina no Chile. O resto depende mais da rocha que está por baixo, mas escavar uma abertura poderia provocar desmoronamentos que esmagassem a câmara onde o grupo está ou poderia abrir fendas por onde passasse água para dentro da câmara, inundando-a”.

Esperar pode mesmo ser a estratégia mais segura para a equipa. Há duas razões para isso. Em primeiro lugar, o tempo: quando um grupo de 24 mineiros ficou preso dentro de minas no Chile, as operações de resgate demoraram cerca de 200 dias — entre seis e sete meses. Isso é o que recorda o vice-presidente da Federação Portuguesa de Espeleologia: “Pode de facto compensar mais esperar que as chuvas parem”. Em segundo lugar, a sorte no meio do azar: o grupo ficou encurralado numa galeria fóssil, que é uma caverna criada há muitos milhares de anos aquando da criação da câmara, onde as águas da chuva já não chegam e, portanto, nunca inunda: “Como a água já escavou galerias por baixo desta, as que estão em níveis mais superiores deixam de inundar.

É como se fosse um sistema de metropolitano, em que deixamos de usar uma determinada rede porque outra foi aberta num nível mais profundo”, explica Sérgio Barbosa. Além disso, acrescenta o espeleologista Francisco Rasteiro, o grupo está encurralado numa galeria nas proximidades de um rio: “Isso é uma grande vantagem, não só porque o grupo tem acesso a água mas porque significa que o rio transporta oxigénio para dentro da câmara, o que impede que o ar sature no seu interior. Só seria mais perigoso se houvesse muita matéria orgânica arrastada para dentro da caverna, porque as folhas transportadas entrariam em decomposição e soltariam dióxido de carbono para o ar”.

O plano de sobrevivência traçado pelas equipas de resgate

Nem as mais bem preparadas forças militares tailandesas estavam a conseguir sozinhas garantir a segurança das crianças. A 26 de junho, Vernon Unsworth, um explorador de cavernas britânico que vive na Tailândia, disse que “os mergulhadores foram até à parte principal da gruta mas as condições eram muito difíceis e o nível da água continuava a subir”. A água parecia mesmo ser o principal perigo para a sobrevivência das crianças e para o sucesso do plano de resgate: “Se as crianças foram longe demais, então a água da enchente chegará até eles. O problema está a três quilómetros onde há uma grande piscina de água que está a ficar cada vez mais alta. Devido à falta de fluxo de ar na caverna, as condições das rusgas estão cada vez piores. As próximas seis a dez horas serão cruciais”, dizia então.

Três dias depois começou a chegar ajuda internacional: a China enviou seis especialistas em resgaste em cavernas para a Tailândia, a Austrália enviou mais seis no dia seguinte e o Reino Unido enviou dois, que estão entre os melhores do mundo. Foram eles que encontraram os rapazes vivos.

A Marinha Tailandesa publicou no Facebook o momento em que o grupo foi descoberto: ao longo de cinco minutos, os rapazes aparecem iluminados por pequenas lanternas enquanto um mergulhador pode ser ouvido a falar com eles com eles.“Quantos são vocês?”, pergunta em inglês um dos socorristas britânicos. Alguém respondeu que são treze, ao que o mergulhador responde: “Treze, brilhante!”. É que aquela resposta significava que ninguém tinha morrido nem se tinha perdido. “Vamos sair daqui hoje?”, questiona um dos rapazes. “Hoje não, hoje não. Somos só dois. Mas nós vamos aí ter, não se preocupem. Muitas pessoas vêm cá ter. Nós somos só os primeiros”, responde-lhe o mergulhador. Os rapazes perguntam depois que dia é e dizem que têm fome, que não comeram nada e que estão “muitos felizes”. “Nós também estamos muito felizes”, garantem-lhe os mergulhadores.

Os homens que encontraram os rapazes são Richard Stanton, Robert Charles Harper e John Volanthen. O primeiro e o último fazem parte da equipa de resgate de cavernas do sul e do centro de Gales. De acordo com Gary Mitchell, presidente do Conselho de Britânico de Resgate em Cavernas, os dois homens “estiveram envolvidos num número considerável de resgates ao longo dos anos e ambos têm muita experiência pessoal para levar para a Tailândia”. Depois de terem sido chamados a França em 2010 para resgatar um mergulhador preso e de terem contribuído para o resgate de seis britânicos no México em 2004, Richard Stanton — um bombeiro reformado Coventry — e John Volanthen — um consultor de tecnologias de informação — foram eles os homens que encontraram o grupo de rapazes tailandeses a 1 de julho, oito a nove dias depois de ele se ter perdido.

Depois disso, as autoridades enviaram um comunicado em que desvendavam quais seriam os próximos passos da operação de resgate: “Recebemos uma confirmação direta mas breve dos nossos mergulhadores britânicos na caverna sobre as alegres notícias de que os miúdos perdidos tinham sido localizados vivos. Imagens de vídeo dos rapazes e do seu treinador foram agora divulgadas e apresentadas às famílias que aguardam na superfície

. Dois mergulhadores voluntários britânicos encontraram os meninos na sua localização atual, mas as últimas 36 horas trouxeram uma abordagem coordenada e planeada para o resgate liderado pelos militares tailandeses e envolvendo muitas outras nações, incluindo americanos, chineses, australianos e outros. O equipamento e máquinas de fornecimento de ar foram transportados para o sistema durante o último dia, permitindo que os mergulhadores avancem mais para o sistema do que era possível anteriormente. Linhas de mergulho foram colocadas no local dos meninos para outros mergulhadores seguirem com alimentos, confortos e suplementos médicos essenciais”. Mesmo assim, é preciso três hora para lá chegar e outras tantas para voltar.

“Acreditamos que há apenas uma pequena pausa na monção e todas as opções viáveis ​​para o resgate dos meninos estão a ser consideradas. Embora os níveis de água tenham caído, as condições de mergulho continuam difíceis e qualquer tentativa de por os meninos e o treinador a mergulharem não será tomada de ânimo leve, pois há desafios técnicos e riscos significativos a serem considerados”, podia ainda ler-se. Ou seja: o grupo está no local pronto a actuar mal seja possível..

O grupo está a receber comida suficiente para quatro meses de estadia na caverna e está a receber treino de mergulhar para o caso de terem de entrar nas cavernas inundadas para chegar à superfície. Por enquanto, as crianças têm sido alimentadas pelo médico, pela enfermeira e pelo socorrista com um gel de alto teor proteico.

Neste momento, o grupo está a receber comida suficiente para quatro meses de estadia na caverna — para o caso de terem de esperar que a estação das chuvas passe. Mas estão também a recebertreino de mergulho para o caso de terem de entrar nas cavernas inundadas e tentar chegar à superfície. Por enquanto, as crianças têm sido alimentadas pelo médico, pela enfermeira e pelo socorrista com um gel de alto teor proteico, até porque só daqui a algum tempo podem comer alimentos sólido devido à falta de preparação com que o organismo fica de os digerir depois de longos dias sem o fazer.

Isso mesmo foi confirmado pela Forças Armadas da Tailândia em comunicado: “Vamo-nos preparar para enviar comida adicional para sustentar o grupo durante pelo menos quatro meses e treinar todos os treze para mergulhar enquanto continuamos a tentar drenar a água”. Os médicos também já receberam paracetamol para tratar das crianças, embora todos pareçam estar bem: “Categorizamos a condição de saúde deles como vermelho, amarelo ou verde, sendo o vermelho o mais grave,  o amarelo leve e o verde a mais saudável. Ontem avaliamos que a maioria está na categoria verde”, confirmou Narongsak Osottanakorn, governador da província.

Equipamento está a ser levado para o interior da caverna. Créditos: Linh Pham/Getty Images

Quem são os rapazes?

Ekkapol Chantawong, mais conhecido por Aek entre os amigos, tem 25 anos e é o treinador da equipa de futebol. Foi a tia do jovem disse que esta não era a primeira vez que Aek visitava aquelas grutas: “Ele cuida muito bem das crianças e faz com que todas elas se deem muito bem. Nunca os vi a discutir ou a dizer mal umas das outras”, recorda Kham Chantawong. Noppadon Kanthawong, o outro adulto da equipa de futebol que faltou à visita de estudo, afirmou que Ekkapol Chantawong era “muito dedicado”: “Ele fica no campo à espera que as crianças apareçam depois da escola. É uma ótima maneira de se manter saudável. Eu posso dizer que eles são muito próximos uns dos outros”.

Somphong Jaiwong, de 13 anos, também está entre o grupo. Desde pequeno que sonha jogar num clube de futebol profissional: “Pong é um rapaz alegre, gosta de futebol e de todos os desportos. Sonha ser jogador de futebol pela seleção da Tailândia”, conta a professora do rapaz.

Com ele está Mongkol Boonpium, com 13 anos, que foi descrito como “um bom rapaz” que “gosta quase tanto de estudar como de jogar futebol”.

Os restantes são Duangphet Promthep de 12 anos, Chanin Wiboonroongrueng de 11 anos, Phornchid Kamluang de 16 anos, Prachuck Sutham de 14 anos, Peerapat Sompiengjai de 16 anos, Ekkarat Wongsookchan de 14 anos, Panumart Saengdee, cuja idade é desconhecida, Pipat Phothai de 15 anos, Nattawoot Thakamsai de 14 anos e Adul Samon também com 14 anos.

Enquanto os 12 rapazes e o seu treinador esperam pelo desfecho da história, Sérgio Barbosa, vice-presidente da Federação Portuguesa de Espeleologia, pede cautela a visitar grutas e cavernas, mesmo que seja por cá, em Porrtugal: “Estas atividades não podem ser praticadas por leigos. Quem quiser explorar ou visitar uma gruta deve procurar espeleologistas porque essa atividade exige um conhecimento técnico muito grande“, alerta.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Entre as brumas da memória

Posted: 04 Jul 2018 02:05 PM PDT
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Posted: 04 Jul 2018 12:34 PM PDT
«Uma das razões pelas quais a insurreição grega de esquerda contra a ordem estabelecida da UE falhou em 2015 foi a falta de aliados. Os populistas da direita têm uma estratégia diferente. Eles trabalham a partir de dentro da UE formando alianças. A sua ambição é assumir as instituições da UE e destruí-la a partir de dentro. Salvini está de olho nas eleições europeias de maio de 2019 e as suas hipóteses parecem boas.
É possível que os principais grupos de centro-esquerda e centro-direita do Parlamento Europeu sejam aniquilados por dois adversários. Um deles poderá ser um novo grupo liberal pró-europeu, liderado por Emmanuel Macron, presidente de França. O outro poderá ser um grupo variado de populistas e nacionalistas. Eles poderão encenar uma aquisição do Partido Popular Europeu, o grupo de centro-direita. Ou unirem-se num partido europeu independente. De qualquer forma, eles encontrarão maneiras de afirmar a sua influência.»
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Posted: 04 Jul 2018 08:56 AM PDT
Justiça condena 9 militares pelo assassínio do ativista Victor Jara.
43 anos depois. Mas mais vale tarde do que nunca.
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Posted: 04 Jul 2018 06:14 AM PDT
Isto lembra-me uma história verídica: o meu marido era médico e disse uma vez a uma doente: «Dispa-se e pendure no cabide». Como ela nunca mais aparecia, foi ver e percebeu que a mulher tentava mesmo... pendurar-se no cabide.
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Posted: 04 Jul 2018 03:17 AM PDT
Posted: 03 Jul 2018 02:26 PM PDT
Verão português deslocou-se para o Norte da Europa?
Qualquer dia os nórdicos só querem gajas e copos.

António Costa passou a ser um tipo banal?

  por estatuadesal

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 04/07/2018)

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(Em relação ao tema deste artigo, não resisto em referir o epíteto que o Jumento, no seu Blog, propõe para António Costa, a saber, Um Passos Coelho porreiro:

"...As sacanices do Passos era à filho da mãe, as do António Costa são ao estilo do gajo porreiro. A prazo o resultado é o mesmo, António Costa deu aquilo que estava obrigado e agora tira com a outra mão o que aparentemente tinha dado." (Ver aqui).

Comentário da Estátua, 04/07/2017


Quando o primeiro-ministro António Costa decide ir cortar uma fita, para publicitar o início das obras de melhoria do IP3, não está a fazer nada de original na história da governação deste país: afinal não há fontanário, estatueta ou passeio público, construídos dentro destes 92.212 quilómetros quadrados de terreno a que chamamos Portugal, que não tenham merecido cerimoniais inaugurativos com a presença das mais altas e prestigiadas individualidades. É uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa fica a saber por um dos autarcas presentes no evento, o presidente da Câmara Municipal de Viseu e social-democrata Almeida Henriques, que aquela era já a quarta vez que se fazia uma cerimónia a anunciar o início das obras de melhoria do IP3, não está a ser confrontado com algo de anormal: de certeza que, daqui até ao final de 2022, quando as obras ficarem concluídas, vários grupos de governantes, de hoje e de amanhã, regressarão a essa estrada para cortar outras fitas a um ritmo de, pelo menos, uma dúzia de cada um dos 75 quilómetros de intervenção - e assim tratarão de glorificar para a lente de TV mais próxima a sua proverbial sabedoria na gestão dos bens públicos. Sempre foi assim. É uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa garante que os 134 milhões de euros para pagar este arranjo, essencial, são um investimento que serve para o Estado "salvar vidas" ao "assegurar a segurança rodoviária" numa parte da longa tira de alcatrão que leva as pessoas da Figueira da Foz, na costa atlântica, até Vila Verde da Raia, na fronteira com Espanha, não está a ser original: são incontáveis, na história desta nação, os casos de governantes capazes de cobrar à opinião pública medidas capazes de poupar portugueses a um confronto inesperado com a morte. Esta ocasião até nem era das mais disparatadas para o fazer, dado o trágico registo de acidentes dos troços em causa. Os políticos não perdem uma ocasião para mostrarem que se preocupam connosco, é uma tradição.

Quando o primeiro-ministro António Costa afirma que a decisão de avançar com este investimento implica "que estamos, simultaneamente, a decidir não fazer outra obra", para acrescentar que "quando estamos a decidir fazer esta obra, estamos a decidir não fazer evoluções nas carreiras ou vencimentos" está a seguir uma velha tendência do breviário político luso, capaz de misturar alhos com bugalhos para obter, nas audiências, um efeito sonante. É uma tradição.

Acontece, porém, que a discursata do líder do executivo liga diretamente os 134 milhões de euros a gastar pelo Estado numa via rodoviária com a limitação da despesa com funcionários públicos. Esta comparação legitima todas as outras comparações equivalentes anteriormente feitas por sindicatos, grevistas, militantes da oposição, dirigentes partidários, adversários, colunistas de cadastro diverso, tantas vezes apelidados pelos governantes de "populistas", "demagógicas", "irresponsáveis" ou, pretensiosamente, "tecnicamente erradas".

Gostaria, portanto, de perguntar ao primeiro-ministro, depois de colocar nos dois pratos da balança a reparação de uma pequena parte dos 279 quilómetros totais do percurso do IP3, precisamente a zona que não é autoestrada (e continuará a não ser) e, no outro prato da balança, os aumentos salariais reivindicados por cenetans de milhares de trabalhadores, o que acha se nessa balança colocássemos outros ingredientes? Dou só três exemplos:

1 - O custo anual de 400 a 600 milhões de euros com a contagem total de tempo de carreira dos professores num prato e, no outro prato, o gasto de 768 milhões de euros, no último ano, mais mil milhões de euros a gastar pelo Estado este ano (e não se sabe o que se segue daí para a frente) com bancos falidos.

2 - O perda pelo Estado de 700 milhões de euros na arbitragem de conflitos com a Parcerias Público-Privadas num lado com a recusa ou adiamento das obras que tornem decente o hospital pediátrico de São João no outro lado dessa balança.

3 - O aumento da dívida do Estado que, ao contrário das promessas, subiu para um recorde de 250,3 mil milhões de euros comparado com a falta de equipamentos de proteção e combate aos fogos florestais também anteriormente prometidos a bombeiros e militares.

É demagógico fazer estas comparações? Talvez, mas estão ao mesmo nível das comparações que o primeiro-ministro fez ao cortar as fitas das obras do Itinerário Principal 3.

António Costa, no entanto, tem razão numa coisa: governar um orçamento do Estado é fazer escolhas, é decidir onde se pode ou não gastar o dinheiro dos contribuintes.

Infelizmente, pelo que tem dito e feito nos últimos tempos, António Costa optou pela banalidade e faz o mesmo tipo de escolhas de outros senhores de outros tempos, que consumiram imensos recursos do Estado numa visão desfocada do bem comum. Vi isso nos tempos de Sócrates. Vi isso nos tempos da troika. Vi isso nos tempos de Vítor Gaspar. Vi isso nos tempos de Maria de Lurdes Albuquerque. Vi isso nos tempos de Pedro Passos Coelho. Oiço agora isso das bocas de Mário Centeno e de António Costa. É uma tradição.

A cimeira da capitulação

por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 04/07/2018) 

Daniel

Daniel Oliveira

Quando foi a crise financeira convencemo-nos que era por causa da Alemanha que nada se podia fazer. Em parte é verdade: o euro foi desenhado à medida das necessidades e receios de Berlim, a resposta à crise foi limitada pela necessidade de resgatar a banca alemã e francesa da exposição às dívidas soberanas dos países periféricos e muito do que se decide no Banco Central Europeu é, apesar de algumas momentos excecionais, determinado pelos tabus alemães. Mas é otimismo pensar que a vontade de um Estado é mais importante do que todos os interesses privados, sobretudo os do poder financeiro, que se movem em Bruxelas. Foi a confluência do poder dos Estados mais fortes da Europa e do poder financeiro que determinou aquilo que a Europa fez e não fez para enfrentar a crise de 2008-2011. E foi o que fez e o que não fez que criou as condições para o crescimento exponencial de movimentos de extrema-direita.

Mas tivemos, na última cimeira do Conselho Europeu, a oportunidade para relativizar o poder alemão. Merkel precisava de um acordo mas, como se viu, estava disposta a ceder em toda a linha, externa e internamente. Podemos disfarçar, mas António Costa explicou de forma clara: “O Conselho não fez mais do que mandatar a Comissão e o Conselho para dialogarem com as Nações Unidas, com a Organização Internacional para as Migrações, com países terceiros para explorar uma ideia, e nada mais do que isso”. E o que se empurrou com a barriga não é mau, é péssimo. Quando o primeiro-ministro do Governo italiano, um fantoche da Liga e dos idiotas úteis do 5 Estrelas, diz que “este Conselho Europeu marca o início de uma Europa mais responsável” estamos conversados.

O que sai desta cimeira são as plataformas de desembarque, os centros controlados e o reforço da vigilância das fronteiras. Não é qualquer política de solidariedade entre Estados para acolher os refugiados, até porque a extrema-direita do Leste deixou claro que não daria nada para esse peditório. A maioria das plataformas de desembarque deverão funcionar em países exteriores à UE. A ideia de garantir um circuito oficial que seja uma alternativa ao negócio dos passadores seria excelente. Mas a “estreita cooperação com países terceiros” denuncia a repetição do vergonhoso acordo com a Turquia para que países sem qualquer respeito pelos direitos humanos recebam os refugiados, em troca de dinheiro, para os conter fora da Europa, em centros de detenção degradantes. Não é difícil imaginar o que é ter o Egito, a Líbia ou a Argélia a garantirem a segurança destes migrantes.

A União Europeia que realmente existe está muito mais próxima de Órban do que de Tsipras. O primeiro é integrável sem ceder um milímetro, o segundo só o foi quando se vergou. E é por isso que as lições europeias a Trump só me provocam um sorriso amargo. Diz o roto ao nu...

Os centros controlados, para receberem pessoas resgatadas em operações de salvamento e selecionar refugiados entre os migrantes irregulares (a serem recambiados ao seu destino), parecem encaminhar-se para centros de reclusão de imigrantes. E os meios financeiros e materiais da UE serão canalizados para o controlo de fronteiras. Perante a tragédia humana que está à nossa frente, a prioridade é para impedir a entrada e “intensificar significativamente o regresso efetivo de migrantes irregulares” à sua origem. É para políticas de regresso que se podem meios e nova legislação. Todos os problemas são para ficar para lá das fronteiras europeias. Quanto a uma Europa solidária para receber em conjunto os refugiados, nada.

O que saiu do Conselho Europeu encaminha tudo para a repetição do acordo com a Turquia no norte de África, a contenção de imigrantes do outro lado da Mediterrâneo, a construção de centros de detenção e toda a prioridade à intensificação do regresso compulsivo. A extrema-direita de Órban e Salvini não se limitou a impedir qualquer solução. Foi o confronto entre a extrema-direita do Leste e a extrema-direita italiana que encaminhou a Europa para as suas soluções. E provou que a Alemanha não é imbatível. A diferença é que a extrema-direita é bem mais firme na defesa da sua sinistra agenda do que a esquerda foi quando era preciso garantir a coesão europeia e a solidariedade com os países do sul. Mesmo nesta última cimeira, os governos de extrema-direita foram claros ao explicar que vetariam um conclusão se não fosse a que desejavam. Já Costa bracejou, protestou e assinou. A diferença é que a União que realmente existe está muito mais próxima de Órban do que de Tsipras. O primeiro é integrável sem ceder um milímetro, o segundo só o foi quando se vergou.

E isto aconteceu apesar de, supostamente, Merkel e Macron terem como bandeiras humanistas uma política diferente para a imigração. Continuem a pôr as fichas em quem, na última década, fez tudo para minar qualquer sentimento de dever solidário entre os europeus, impondo às vítimas da crise o egoísmo alemão, e num boneco cheio de retórica cosmopolita desde que a França esteja primeiro, e não iremos muito longe. Quando os seus egoísmos não estão em causa, a Alemanha amocha e a França é a França. Mandam os Salvini, os Órban e todos os que mostram ao Mundo o verdadeiro rosto da Europa. E é por isso que as lições europeias a Trump só me provocam um sorriso amargo. Diz o roto ao nu...

EUA. Responsáveis de centros de detenção de menores têm ligações à Administração Trump

4/7/2018, 16:40

É um negócio de milhões de dólares entregue a organizações sem fins lucrativos, empresas e grupos religiosos. O The New York Times descobriu ligações entre estas entidades e a administração Trump.

MICHAEL REYNOLDS/EPA

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Desde que Donald Trump pôs em prática a política de “tolerância zero” para com famílias de sul-americanos que tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, o número de pessoas retidas em centros temporários à espera de serem repatriadas disparou. Uma investigação do The New York Times concluiu que muitos dos responsáveis destes centros — que nos últimos anos receberam apoios públicos de mais de mil milhões de dólares — têm fortes ligações a elementos da Administração Trump.

A secretária de Estado da Educação (o equivalente a uma ministra daquela área) financia um dos grupos que gerem estes centros de detenção temporária, ou abrigos, como também são designadas as instalações onde os migrantes são retidos — locais que, nas últimas semanas, estiveram sob particular escrutínio depois de ser tornado público que pelo menos dois mil menores tinham sido separados das suas famílias. O secretário de Estado da Defesa é outro dos responsáveis políticos do Governo norte-americano com estreitas ligações a estes grupos, uma vez que chegou a ter assento no conselho de administração de uma dessas instituições.

A gestão destes mais de 100 centros, refere o The New York Times, levou a que nos últimos anos tivessem sido feitas transferências de mais de mil milhões de dólares do Governo norte-americano para estes grupos (entre organizações sem fins lucrativos, empresas e confederações religiosas). A política de gestão de fronteiras é determinada por decisão do Governo dos EUA, naturalmente, mas a gestão dos centros de detenção e abrigos é entregue a organizações da sociedade civil, que ficam encarregues não apenas do alojamento mas também do transporte e da vigilância destes cidadãos estrangeiros.

O artigo publicado esta quarta-feira no The New York Times faz uma ressalva: não há qualquer dado que aponte para favores ou jogadas de influência políticas junto do Departamento de Serviços de Saúde e Humanos, a entidade pública que entrega a gestão dos centros às organizações da sociedade civil. Aliás, muitas destas entidades já estavam ligadas à gestão destes centros no tempo em que Barack Obama era presidente dos EUA.

No entanto, há um dado que também é relevado pelo jornal norte-americano: a política de “tolerância zero” imposta por Donald Trump fez subir os números de pessoas detidas temporariamente nestes centros. E esse número não vai diminuir com a mudança (forçada) de paradigma da Administração Trump, que recuou na decisão de manter separados das suas famílias pelo menos dois mil menores sul americanos (na sua maioria, crianças e jovens mexicanos), porque os menores que sejam apanhados a cruzar a fronteira sudoeste sozinhos vão ser encaminhados para estes mesmos centros.

A Bethany Christian Services, com ligações à responsável política pela área da Educação, disse ao The New York Times estar “profundamente abalada e preocupada” com a política de “tolerância zero” do Governo norte-americano e ao reforço do policiamento na fronteira com o México.

Acreditamos que todas as crianças devem estar com as suas famílias”, referiu o grupo que assegura a prestação de serviços sociais.

Donos de centros financiaram Trump

As ligações entre os donos deste negócio privado, sustentado com dinheiros públicos, e Donald Trump não se esgotam nas ligações a elementos do seu Governo. Há empresas que financiaram diretamente o atual presidente dos EUA.

São os casos da Geo Group e da CoreCivic, que gerem prisões privadas no país e, também, centros de detenção de famílias em situação ilegal no país. Cada uma delas doou 250 mil euros para o fundo de onde saíram as verbas que serviram para pagar as cerimónias (entre jantares, bailes e outros eventos) que decorreram no momento da tomada de posse do presidente, em janeiro de 2017.

View of a temporary detention centre for illegal underage immigrants in Tornillo, Texas, US near the Mexico-US border, as seen from Valle de Juarez, in Chihuahua state, Mexico on June 18, 2018. – Mexico strongly condemned US President Donald Trump’s administration Tuesday for its policy of separating immigrant children and parents detained after crossing the US-Mexican border, calling it “inhuman.” (Photo by HERIKA MARTINEZ / AFP) (Photo credit should read HERIKA MARTINEZ/AFP/Getty Images)

Além disso, a Geo Group — que habitualmente transfere largas milhares de euros para Democratas e Republicanos, com predominância para os últimos — contratou um lobista que representou as empresas que gerem os campos de golfe de Donald Trump na Florida antes de este se ter tornado presidente dos EUA. O registo da empresa desse lobista, Brian Ballard, refere que o seu foco estava na área de “legislação sobre imigração”.

Em comunicado, a Geo Group diz que “cuidou exclusivamente de mães, juntamente com os seus filhos, desde 2014, quando [a detenção] foi consagrada pela administração Obama”.

A Bethany Christian Services também rejeita a ideia de oferecer algum apoio à política de separação de famílias de imigrantes.

Décadas de trabalho duro deram-nos o conhecimento necessário para apoiar crianças e famílias em crise”, referiu a entidade em comunicado.

“Estando extremamente agradecidos aos nossos doadores e apoiantes, a ideia de que um qualquer indivíduo ou uma organização poderia levar a que mudássemos as nossas práticas é simplesmente falsa e diminui o incrível trabalho de todas aquelas famílias fortemente focadas no bem-estar de crianças deslocadas”, acrescenta o documento citado pelo New York Times.