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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Alesina, um pai envergonhado

  por estatuadesal

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 26/07/2018)

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(As boas acções dos políticos precisam da benção dos académicos? Não. As boas ações justificam-se por si. O mesmo não se passa com as más, como a austeridade empobrecedora. Este tal Alesina deu aos políticos troikistas o suporte teórico para a sua ação nefasta. Passos Coelho era um fiel seguidor deste teórico: o país devia empobrecer para, depois da miséria, rejuvenescer das cinzas.

Quando a realidade denega as teorias o que se pode concluir? que eram falsas.  Mas o mais grave é que os seus autores sempre souberam que o eram, mas "venderam" o seu prestígio académico, sem pejo nem pudor.

Comentário da Estátua, 26/07/2018)


Quando o filho se revela um criminoso psicopata, é natural que os pais possam sentir vergonha. Talvez queiram fazer os possíveis por não chamar a atenção para o parentesco, o que é compreensível. O que já é pouco respeitável é que procurem negar a paternidade contra toda a evidência.

Tudo isto a propósito da entrevista concedida aqui no Expresso por Alberto Alesina, economista e professor na Universidade de Harvard, a Jorge Nascimento Rodrigues. O título revela a relação difícil de Alesina com a paternidade intelectual da austeridade expansionista: “É ridículo chamarem-me o pai da austeridade”. Mas a afirmação nada tem de ridículo, não só porque o papel central de Alesina na legitimação intelectual da viragem austeritária no auge da crise do Euro está amplamente documentada, como porque os efeitos económicos e sociais dessa política destrutiva dão pouca vontade de rir.

A intervenção de Alesina passou efectivamente pela produção de artigos cientificos, como o próprio assinala nesta entrevista. Dois deles (“Tales of Fiscal Adjustment”, de 1998, e “Large Changes in Fiscal Policy: Taxes Versus Spending”, de 2009) tornaram-se referências centrais para a argumentação em favor dos efeitos expansionistas da austeridade, especialmente se efectuada pelo lado da despesa.

Mas o papel deste economista não se limitou aos artigos científicos que escreveu. Precisamente devido à convergência entre as ideias que propunha e as preferências ideológicas de vários líderes da época, a intervenção de Alesina não se limitou à esfera académica, tendo sido convidado para participar numa reunião dos Ministros da Economia e Finanças da UE, o Ecofin, em Abril de 2010, na qual apresentou uma versão simplificada e especialmente categórica das mesmas ideias. Poucos meses mais tarde, Alesina publicava um artigo no Wall Street Journal em que, na mesma linha, afirmava que “a História mostra que os cortes na despesa são a chave para a recuperação económica”. Tudo isto está relatado em detalhe no livro de Mark Blyth, “Austeridade: História de uma Ideia Perigosa”.

Estas ideias de Alesina foram abundantemente utilizadas nos meios políticos para legitimar as políticas austeritárias que em breve seriam adoptadas, tendo o autor sido citado, por exemplo, no comunicado do Ecofin no final da reunião referida em cima ou pelo então Presidente do BCE Jean-Claude Trichet. Tal como resumiu um artigo da época da Bloomberg Business Week, “Alesina proporcionou a munição intelectual que os conservadores orçamentais [“fiscal conservatives”] procuravam”.

A base de sustentação da argumentação de Alesina era especialmente frágil, assentando em hipóteses teóricas muito discutíveis (uma versão da ‘equivalência ricardiana’, a ideia que as políticas contracíclicas não o são porque os consumidores/contribuintes antecipam e anulam os seus efeitos) e em evidência empírica problemática (principalmente por causa da selecção enviesada de casos confirmatórios e da insuficiente consideração do efeito de outras variáveis, como as depreciações cambiais, nos casos confirmatórios). E a ideia que os cortes na despesa são preferíveis aos aumentos de impostos do ponto de vista do impacto sobre a actividade económica, em que Alesina continua a insistir ainda hoje, vai contra numerosos estudos que têm encontrado multiplicadores da despesa pública superiores aos da receita.

Esses problemas metodológicos e essas conclusões erróneas foram dissecados em diversos artigos nos anos seguintes. E nesses mesmos anos ficou uma vez mais demonstrado à evidência, especialmente nos países como Portugal e a Grécia em que a austeridade foi mais intensa, que os cortes da despesa pública e os aumentos de impostos têm mesmo um efeito recessivo, fazendo contrair a confiança, a actividade económica e o emprego.

É certo que as ideias defendidas por Alesina se inserem numa longa linhagem que remonta aos economistas clássicos. E com certeza que este economista não foi por si só responsável pela adopção de políticas austeritárias nos anos de chumbo da Grande Recessão, que se deveram principalmente a opções ideológicas e aos interesses particulares que essas políticas serviam.

Mas é um facto que, como muitas vezes sucede com os economistas, Alesina legitimou intelectualmente políticas que produziram resultados muito nocivos para a maioria das pessoas. Quer hoje se envergonhe disso quer não, não pode negar essa parte da paternidade.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Acefalia, condição sine qua non para apoiar Donald Trump

Novo artigo em Aventar


por João Mendes

Donald Trump está a produzir milhões de dólares de merchandising na China, para a sua recandidatura em 2020, o que logo à partida é uma excelente forma de ajudar os trabalhadores americanos e de fazer aquele manicómio great again.

Acontece que os negócios chineses do empresário e candidato Trump correm agora sérios riscos, devido à guerra comercial contra a China, lançada pelo presidente Trump, motivo pelo qual será necessário acelerar o processo para que Trump não prejudique Trump. Porque a concorrência chinesa é desleal, mas Trump não abdica das suas pechinchas, apesar de se insurgir diariamente contra elas, quando na presença do seu rebanho de criaturas ignorantes e acéfalas.

Chegamos a um ponto em que só desprovido de cérebro é possível apoiar Donald Trump. Excepto no caso dos terroristas de Wall Street, da NRA, da indústria do armamento e do KKK. Ou de qualquer outro lobby que viva da violência, da discriminação e/ou da estupidez humana. Esses andam nas nuvens. Pena não ficarem lá.

Olha, somos a Grécia

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/07/2018)

DanielDaniel Oliveira

Em 2011 imitámos a bancarrota grega de 2010. Agora são os gregos que nos seguem na tragédia assassina dos incêndios descontrolados – muitas dezenas de mortos, autoridades a agirem sem tom nem som, populações abandonadas, enfim... Portugal não é a Grécia, dizia-se, e foi verdade durante uns anos. Agora é mais difícil não voltar a reconhecer semelhanças indesejáveis.” Este canhestro aproveitamento partidário dos incêndios na Grécia não me choca pelo mau gosto. Choca-me porque é provável que o deputado Carlos Abreu Amorim acredite mesmo que em quatro anos se dissipam, ainda mais com medidas de austeridade que obviamente fragilizam os serviços públicos, velhos problemas estruturais do território e do Estado e novíssimos problemas climatéricos. Deve ser fácil pensar assim. Talvez neste post esteja resumida todo o simplismo ideológico que dominou o discurso político do anterior governo. Abreu Amorim funciona como uma espécie de tradutor do primarismo político para uma versão ainda mais primária.

Nádia Piazza, presidente da Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande e membro da comissão de programa do CDS (por mais respeito que nos mereça o sofrimento individual de cada um, quando as pessoas têm intervenção política o seu comprometimento partidário não deve ser ignorado), seguiu aqui no “Expresso”, de forma muitíssimo mais elegante e cuidadosa, o mesmo raciocínio, apenas menos oportunista do ponto de vista partidário: há um qualquer atraso cultural no sul que nos leva ao “desleixo” (uma expressão que ignora as condições em que as escolhas são feitas).

A comparação com a Grécia é natural. Duas tragédias com incêndios em que há sinais do Estado ter falhado. E é habitual. A Grécia sempre foi usada como nosso espelho. Sempre que repetimos, na nossa autoflagelação um pouco megalómana, que “só neste país” acontecem coisas más. Acrescentando depois: “e na Grécia”.

Somos a Grécia porque, antes de tudo, vivemos no mesmo planeta que, em poucas décadas, irremediavelmente destruímos. É isto que vamos deixar aos nossos filhos. Somos a Grécia, a Suécia, a Austrália, a Califórnia, só para falar dos incêndios. Somos o Laos, o Reino Unido, o Japão, só para falar do que está a acontecer esta semana. Quem tentasse falar do aquecimento global depois dos incêndios de outubro era incinerado por tentativa de desculpabilização do governo. Talvez seja altura de dizer a todos os que repetiram “que isto nunca mais aconteça” que isto vai acontecer cada vez mais.

Somos a Grécia porque temos algumas semelhanças climáticas. Como explicou ao “Público” Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, “O que se está a observar é uma maior frequência de ondas de calor em todo o mundo. Nos países do Sul da Europa, da região do Mediterrâneo, também observamos um clima mais seco. A combinação dessa secura com temperaturas mais elevadas é que conduz a um maior risco de incêndios florestais. O que podemos esperar para o futuro é um agravamento dessas tendências, porque as alterações climáticas estão a progredir.” O aquecimento global não é apenas um tema de cimeiras internacionais, está aí para mudar as nossas vidas. E a Europa mediterrânea, com Portugal e Grécia à cabeça, está na linha da frente.

Somos a Grécia porque, na Europa desenvolvida, chegámos historicamente atrasados ao desenvolvimento. Por algumas razões semelhantes e outras diferentes. E isso quer dizer um Estado mais frágil, menos qualificação, menos recursos e, acima de tudo, menos planeamento.

O planeamento não resulta, ao contrário do que alguma conversa de autocarro adora pensar, de um desleixo determinado por uma cultura laxista. Resulta, acima de tudo, de razões económicas e políticas. Planear não é apenas uma questão de vontade, depende de recursos financeiros, técnicos e políticos. E quem não consegue planear acaba, como Portugal e a Grécia, a gastar mais no combate às consequências. Veja-se o coro de protestos contra a exigência de limpeza das matas (e o protesto tinha razões atendíveis que nos dizem coisas sobre o nosso atraso económico e social) e a indignação contra o Estado burocrático que impõe planeamento do território em comparação com a exigência de mais meios para o combate aos fogos para perceber como isto está entranhado nos hábitos.

Tal como o deputado Carlos Abreu Amorim tentou, da forma politicamente desonesta a que já nos habituou, associar o PS à Grécia, assumindo que a destruição pelo fogo resulta de uma qualquer tendência política especifica para o laxismo e subdesenvolvimento, não faltará quem se sinta tentado a criar uma relação entre a intervenção da troika nos dois países e o desastre. Mesmo assumindo que a austeridade debilitou os dois Estados, estamos perante a mesma estreiteza de vistas.

Para além das razões globais e regionais, que as opções políticas de cada país não podem mudar, a impreparação de Portugal e da Grécia para lidar com efeitos crescentes das alterações climáticas tem de ser vista bem para trás, em décadas de atraso e debilidade técnica e política do Estado, com efeitos na ausência de planeamento do território e de qualidade dos serviços públicos. Debilidades que a adesão à CEE (e depois UE) começou por contribuir para resolver e que hoje até dificulta. Quem não vê longe para o passado nunca verá longe para o futuro. E dificilmente consegue mais do que o pequeno oportunismo político do momento.

Se nos queremos preparar para o que aí vem temos de fazer escolhas políticas: mais planeamento implica dar mais poder do Estado sobre o território; melhores serviços públicos de prevenção e combate custa dinheiro. Tudo isto num país (em dois) que vem com um grande atraso em relação a outros e que sentirá os efeitos das alterações climáticas de forma muito mais acentuada e imediata do que eles.

Sim, somos a Grécia: estamos no mesmo planeta que destruímos, no mesmo sul da Europa cada vez mais seco e entramos nesta guerra com o mesmo atraso político, administrativo e económico. Sim, somos a Grécia: temos de nos preparar para isto num tempo em que se impôs a ideia de que as sociedades são mais eficazes se tiverem um Estado mais minguado e fraco. Sim, somos a Grécia com Costa ou Passos, Tsipras ou Samarás. Como em todo o mundo, o combate político tende a concentrar-se no oportunismo partidário do momento para não falar do que é estrutural e custa a mudar. Não há nada mais fácil do que culpar um governo porque não há nada mais fácil do que mudar um governo. Só custa mesmo ao governo.

Assunção Cristas disponível para viabilizar golpe de Estado

Novo artigo em Aventar


por João Mendes

Fotografia: Lusa@Rádio Renascença

Assunção Cristas está de cabeça perdida. Primeiro, deixou-se entrevistar por esse perigoso esquerdalho que dá pelo nome de Daniel Oliveira. Depois, assumiu estar disponível para viabilizar um golpe de Estado, que foi uma das formas que a senhora e os seus correligionários do CDS-P(aulo)P(ortas) encontraram para convencer as suas ovelhas parolas de que o acordo de incidência parlamentar entre o PS, o BE e o PCP era ilegítimo. Mas vá, antes isso do que outra Caranguejola. Não me apetece ter que pagar outra demissão irrevogável, para ver a Assunção sacar um ministério ao Rio, muito menos vê-la como vice-primeira-ministra. Já me chega ter que sustentar os boys que a senhora tem plantados na Parque Expo.

Ladrões de Bicicletas

Lembrem-se

Posted: 26 Jul 2018 02:46 AM PDT

A crise nos caminhos-de-ferro portugueses lembrou-me um dos últimos ensaios do insuspeito historiador Tony Judt: se perdermos os caminhos-de-ferro, “estaremos a reconhecer de que nos esquecemos de como se vive colectivamente”.
A destruição deste velho Estado, desta comunidade nacional, passa pela desorganização e desvitalização das instituições que nos lembram de como se vive colectivamente. No caso deste crucial sector de provisão, o jornalista Carlos Cipriano, no Público, tem sido o melhor cronista da desgraça. Este processo, como se vê, não foi no essencial interrompido e muito menos revertido.
No fim da história, graças a directivas liberalizadoras da União Europeia austeritária, que isto está tudo ligado, só restará o que for interessante para a lógica predadora do capitalismo multinacional.

Quem (não) tem medo da geringonça II?

Posted: 26 Jul 2018 02:19 AM PDT

Os acordos que sustentam a actual maioria parlamentar vão ficar para história da democracia portuguesa por três motivos: o primeiro é um facto; o segundo, uma probabilidade; o terceiro, uma incógnita.
(O resto do meu artigo no DN de ontem pode ser lido aqui.)

Centeno (2) As regras

Posted: 26 Jul 2018 02:19 AM PDT

Entrevista de Mário Centeno, Público, 18/7/2018

Há um problema com as "regras" no Partido Socialista e seus independentes ou na direita.
Presentemente, parece iniciar-se em Portugal um debate - que se espera seja sério e profundo - sobre o que fazer à arquitectura europeia e os seus tratados.
O primeiro-ministro já assumiu a sua posição no debate parlamentar do Estado da Nação: "Eu não concordo com o Tratado Orçamental. Não concordava, não concordo e desejo que um dia seja mudado. Até que seja mudado, nós temos de cumprir o Tratado Orçamental".
Recorde-se: o Tratado Orçamental obriga os países cujas contas públicas estão longe das estúpidas metas (Vítor Constâncio dixit) do Tratado de Maastricht (défice de 3% do PIB e dívida pública de 60% do PIB) a assumir uma trajectória constante anual até chegar lá, o que obriga a uma política de austeridade violenta, sobretudo para os países que foram intervencionados e que viram, por isso, a sua dívida subir significativamente).
Centeno entrou para o Governo em 2015 criticando o carácter erróneo da política de austeridade, para agora achar que tem de cumprir "as regras". O ministro adjunto do primeiro-ministro Pedro Siza Vieira, em quem Costa deposita confiança, foi mesmo mais além, ao fechar o debate do Estado da Nação, defendendo o virtuosismo das "boas contas" públicas e colocando o Estado no centro do problema. O Estado não estará bem fomentando ou promovendo políticas mobilizadoras ou impulsionadoras, mas sim com as suas contas austeras, amigas do crescimento e do emprego. Um encadear de ideias em tudo semelhante ao que faria um Vítor Gaspar, uma Maria Luis Albuquerque ou um Cavaco Silva.
A direita por sua vez tem a mesma atitude de António Costa, mas simétrica. Algo como: "Eu sou a favor do Tratado Orçamental, sempre fui e sempre serei, até quis colocar um limite de despesa na Constituição, mas não quero que seja aplicado enquanto não estiver no governo". Basta ouvir Rui Rio, todos os deputados do PSD e do CDS para acreditar que, para eles, faz sentido esta dissonância, incongruência, divergência ou populismo. 

Tudo isto lembra aquela posição dúplice do actual presidente da República, caricaturada pelos Gato Fedorento, sobre a despenalização da interrupção da gravidez. Nesse caso, a duplicidade foi vencida em referendo em 2011, mas Marcelo Rebelo de Sousa acabou em Presidente...
Mude-se as palavras.
Está contra o Tratado? "Estou". Mas continua a aplicá-lo. "Sim". Mas está contra? "Estou". Mas continua a aplicar. "Continuo".
Ou à direita: É favor do Tratado? "Sou". Mas acha que o Estado deve gastar mais? "Acho" Mas é a favor do Tratado? "Sou". Mas com Tratado devia gastar-se menos. "Devia" Mas quer gastar mais? "Quero". Mas é a favor do Tratado. "Sou".
Ridículo, não é? É o que há e o que temos.