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sábado, 28 de julho de 2018

Hipocrisia política e especulação imobiliária – II

Novo artigo em Aventar

por António de Almeida

Há pouco tempo surgiu numa rede social a foto de António Filipe, deputado do PCP, num hospital privado, agora são os negócios imobiliários de Ricardo Robles, o fenómeno não é um exclusivo português, Varoufakis na Grécia ou Pablo Iglésias em Espanha estiveram recentemente debaixo de fogo.
Obviamente que alguém de esquerda pode ter gostos e hábitos de vida caros, da mesma forma que é totalmente legítimo um político de direita utilizar serviços públicos, mesmo que os critique ou coloque em causa a sua natureza. Isso nem se discute, não podem nem devem ser discriminados os cidadãos por qualquer orientação política, a própria Constituição o proíbe inequivocamente.
O problema coloca-se ao nível político, quando surge a hipocrisia. Não é possível aceitar que Pablo Iglésias aponte o dedo a um adversário político por comprar uma habitação por 600 mil Euros e depois adquirir pelo mesmo valor um imóvel para si. No caso de Ricardo Robles não está, pelo menos para já, em causa qualquer ilegalidade, ao que se saiba. Mas não se pode apontar o dedo à especulação imobiliária e ser-se ao mesmo tempo um especulador. Mesmo que agora diga que decidiu colocar o prédio para arrendamento, a verdade é que o mesmo esteve à venda por mais de 5 milhões de Euros, quando o vereador eleito pelo B.E. gastou menos de 700 mil Euros entre compra e restauro. Se isto não é especular, então definam o que é especulação…
Volta e meia o pessoal de esquerda gosta de reclamar alguma superioridade moral, que não tem. Por vezes é tramado, são apanhados em contrapé, enredados na sua hipocrisia. Nada tenho contra o B.E. para lá das posições políticas, mas têm apontado o dedo ao turismo, à Lei Cristas que possibilitou a reabilitação destes prédios, que antes caiam aos poucos, em ruínas, porque ninguém os queria. Criticam os senhorios por fazerem contratos a termo, exactamente o que fez o vereador Robles com um contrato a termo de 8 anos, ou realizarem mais-valias como tentou, a diferença neste caso é que não apareceu comprador, mas a promoção do imóvel, inequivocamente afirmava que o “prédio era ideal para arrendamentos de curta duração”. Olha o que digo, não olhes o que faço, o velho ditado popular serve como uma luva neste caso.

O feudo do reitor

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso, 28/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Os reitores andam muitíssimo irritados com a possibilidade de a investigação científica deixar de depender quase exclusivamente de precários. Nisso, não são diferentes de um qualquer empreiteiro ou dono de um supermercado. Como não se julgam empregadores, são apenas mais descarados. Nenhum sector do Estado depende tão estruturalmente da precariedade e em muitos centros de investigação ou faculdades até o trabalho administrativo ou de eletricista é feito por bolseiros, graças ao que pomposamente se chama “bolsa de gestão de ciência e tecnologia”.

Que muitos empresários se roam de inveja, nenhuma empresa de trabalho temporário lhes dará o que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) oferece às universidades e unidades de investigação: trabalho a custo zero para a entidade que dele beneficia, sem qualquer dever do empregador e descartável ao fim de poucos anos. E que usam e abusam como se fosse um favor que fazem ao mundo.

Quando, por causa do PREVPAP, o Governo decidiu que o Estado tinha de integrar trabalhadores precários e criou o decreto lei para o emprego científico (que transfere alguns doutorados com bolsas para contratos a termo), os reitores desdobraram-se em entrevistas e intervenções. Os dois grandes argumentos foram apresentados por António Cruz Serra, reitor da Universidade de Lisboa, aqui no Expresso: isto é um ataque à autonomia e ao mérito. Para quem dirige instituições cujo funcionamento depende de bolseiros e investigadores pagos pela FCT, o Estado serve para pagar mão de obra mas é dispensável quando impõe regras a cumprir. Quanto ao mérito, em 74% das contratações de docentes na Universidade de Lisboa (80% na Universidade de Coimbra) são selecionados doutorados da casa, através de “concursos com fotografia”. A endogamia é bem mais intensa do que nos verdadeiros concursos internacionais da FCT que levaram os bolseiros e investigadores precários às universidades e unidades de investigação.

Parte da aristocracia académica, representada pelos reitores, reage com horror à possibilidade de uma nova geração conquistar um décimo da estabilidade que ela garantiu para si. Seria interessante comparar a lista de artigos científicos do reitor Cruz Serra à data da sua contratação pelo IST (zero) com a de muitos dos bolseiros que ele não quer contratar. Ou procurar entre estes candidatos a um contrato a termo alguém com um currículo inferior ao que ele tinha com 18 anos de carreira docente (quarto publicações). Compreende-se a resistência à entrada de uma geração muito mais qualificada que anda a vida toda a penar de concurso em concurso.

Os reitores não estão a defender o mérito das suas instituições, estão a defender-se do mérito daqueles que, à margem da hierarquia, garantem a posição das universidades nos rankings, que muitas vezes dão aulas à borla e que tantas vezes fazem a investigação de que os instalados são coautores. O problema não são os custos. Quem vai bancar estas contratações é o Estado. O problema é que um vínculo laboral às instituições dá acesso à escolha de quem entra nos órgãos de gestão e aos processos de tomada de decisão. Talvez o verdadeiro receio dos reitores seja o de ver desmoronar os seus feudos, onde uns trabalham sem direitos e são avaliados e outros dissertam sobre o mérito.

Enquanto o Verão não chega

  por estatuadesal

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 28/07/2018)

mstMiguel Sousa Tavares

(Este texto do MST está dividido por tópicos, devidamente numerados. Nem todos os tópicos tem a mesmo valia para a Estátua. Assim, como o professor Marcelo, agora Presidente, já não pode dar notas, vou eu pontuar cada tópico de acordo com o meu grau de concordância.

Tópico 1 - Suficiente menos (à volta do 11). Tópico 2 - Um bom pequeno (à volta do 15). Tópico 3 - Um bom grande (16 sem dúvidas). Tópico 4 - Muito bom (Um 18 sem hesitação). Tópico 5 - Suficiente mais (Um 13 um pouco puxado).

Comentário da Estátua, 28/07/2018)


1

Mário Centeno fez o favor de lembrar a quem anda esquecido que o Orçamento do Estado não é apenas um instrumento para servir os interesses dos funcionários públicos, dos professores ou dos interesses eleitorais do PCP, do BE e dos sectores do PS que não desejam perder o poder, inesperadamente conquistado há três anos. Perante a persistente insistência dos entrevistadores do “Público” (ai, que saudades do defunto “DN”!), Centeno disse esta coisa óbvia: o OE é para todos os portugueses. É para servir todos os portugueses, pois é financiado com o dinheiro de todos os portugueses que pagam impostos e, como todos os bens escassos, para ser administrado com um sentido de justiça e de prioridade que não pode ser determinado pela simples capacidade de influência de grupos de pressão socioprofissionais. A isto Centeno acrescentou outra coisa: que os sacrifícios que tantos pagaram na pele com a falência do Estado merecem o mínimo de memória e de respeito. Ou seja, não podem ter sido em vão e terem de ser repetidos em breve para satisfazer reivindicações sectoriais de grupos organizados. Não é só uma questão de finanças públicas, é uma questão de moralidade nas finanças públicas.


2

Não é todos os dias que Portugal é manchete de capa do “The New York Times”, como sucedeu esta quarta-feira. Sob o título “A recuperação em Lisboa desafia os credores”, o artigo reflecte o que várias pessoas, eu incluído, escrevemos à época: que a célebre e tão louvada TINA (“There Is No Alternative”), a política de “empobrecimento criativo” imposta pela troika a troco do empréstimo de 78 mil milhões de euros, e tão entusiasticamente seguida pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, era um desastre económico e uma crueldade social sem sentido. Tudo resumido, consistiu em fazer a economia pagar a falência do Estado, sem no entanto diminuir um euro ao endividamento deste. Devolvendo dinheiro às pessoas e às empresas, António Costa e Mário Centeno, reactivaram a economia e, com isso, aumentaram a receita fiscal, diminuíram o défice e, sobretudo, trouxeram de volta a confiança aos agentes económicos — o que, como qualquer aluno de Economia sabe, é o factor principal para a retoma. Não era assim tão difícil imaginar, desde que não se tivesse a cabeça formatada por um espírito de credor de mercearia.


3

Foi ontem à praça, tendo sido a entrega adiada, a Herdade da Comporta, a emblemática jóia da coroa do falido império Espírito Santo e talvez a última área na zona costeira portuguesa onde ainda será possível fazer qualquer coisa de qualidade — uma vez que deixar como está não faz parte do nosso ADN. Três concorrentes disputavam o bolo e só um, o princípe-jardineiro francês Louis-Albert de Broglie, apresentou um projecto que, no essencial preservava as características naturais do espaço, ocupando apenas 15% com construção. Se bem que sejam os credores quem tem o direito de decidir conforme a proposta que mais bem lhes pague, atendendo ao que está em causa, custa acreditar que o Estado e o adormecido Ministério do Ambiente não tenham uma palavra a dizer sobre o assunto. Eu atrevo-me a prognosticar, je ne sais pourquoi, que o vencedor será o consórcio formado pelo francês que anda a comprar e a lançar no mercado tudo o que é habitação de luxo em Lisboa e o casal novo-rico da moda, que afirma ter trazido o “conceito de luxury” para Portugal e que ameaça varrer com a classe média e mesmo média-alta da Avenida da Liberdade e do centro de Lisboa, pois aquilo é valioso de mais para eles. Ele, que grava no balcão do seu restaurante o nome dos clientes que mais gastam e que declara que o cúmulo do chique é ver uma mesa de russos acompanhar uns simples pregos no pão com garrafas de champanhe Crystal, a 550 euros a garrafa. Ela, que declara que têm “outros valores e princípios” que os falidos ex-donos da Comporta. A mim, tanto se me dá como se me deu: não gosto do “conceito Comporta”, não gosto do “conceito luxury”, e só há dias, por acaso, provei um golo de champanhe Crystal que me puseram à frente — e não gostei. Definitivamente, prefiro um prego com imperial.


4

Suponho que neste momento, em resultado das teses revisionistas em vigor, seja interdito o ensino de grande parte da nossa História nas escolas. Não se pode falar em Descobertas, pois afinal não descobrimos nada: já lá estava alguém antes de lá termos chegado (com excepção de Madeira, Açores, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, se não se importam...). Não se pode falar de colonização porque é sinónimo de exploração dos recursos naturais dos povos indígenas — mesmo quando nos pomos a pensar que, com excepção do pau-brasil, todos os ciclos de prosperidade agroflorestal do Brasil, por exemplo, ficaram a dever-se a plantas que levámos para lá: coqueiros da Índia, cana-de-açúcar da Madeira, algodão, tabaco, café, árvore da borracha. Não podemos falar do que construímos porque foi tudo resultado de trabalho escravo, a começar logo pela Escola de Sagres, que o Infante D. Henrique lançou apenas a pensar nas terras que os portugueses iriam descobrir, perdão encontrar, para povoarem de escravos. Portanto, não se ensina História às criancinhas porque isso seria envolvê-las numa deturpação ideológica para a qual não são chamadas. De caminho, em breve teremos de banir “Os Lusíadas”, essa epopeia poética nacionalista, onde se condensa toda a exaltação desse mal. E agora vêm “Os Maias”, cuja leitura fica ao critério das escolas — onde, aliás, esta e outras leituras, ditas obrigatórias, já eram aprendidas em textos resumidos ao alcance do nível de preguiça instalado na cabeça das criancinhas. “Os Maias”, caramba! O mais fácil, o mais sedutor, o mais actual romance da nossa literatura! Se nem ao Eça chegam, como poderão chegar um dia ao Camilo e descobrir como esta nossa língua, tão mal tratada nas escolas, nas televisões, no Acordo Ortográfico, nas redes sociais, nas novelas, já foi um dia uma língua de uma riqueza deslumbrante?

Nestes tempos do facilitismo irresponsável, pensei durante muito tempo que, pelo menos, haveria uma recompensa para os que fugissem à regra da facilidade e da alarvidade reinante: que o futuro pertenceria, não a quem tivesse mais canudos ou mais dinheiro, mas a quem tivesse mais conhecimentos e mais cultura. Todavia, olhamos para o mundo como ele está, vemos o triunfo dos que hoje mandam no mundo e somos forçados a perceber que já nem isso é uma esperança. Quando a maioria é formada na ignorância e é a maioria que escolhe quem manda, manda a ignorância.


5

Na mesma semana em que João Semedo foi a enterrar, Marcelo resolveu condecorar a título póstumo outro dirigente do BE, Miguel Portas, com a Ordem da Liberdade. Esforçando-me, não consigo recordar que actos tão relevantes deve a causa da liberdade em Portugal a Miguel Portas — pois que quando o Presidente condecora alguém, não o faz apenas em seu nome pessoal, mas em nome de todos os portugueses. Certamente tão afectuoso gesto não se terá ficado a dever ao facto de ele ter sido membro das juventudes comunista e trotskista, depois fundador do BE e depois deputado europeu: um percurso político como outro qualquer, incapaz de justificar a Ordem da Liberdade e, ainda por cima, no seu grau máximo, a Grã-Cruz — deixando-o num pedestal onde estão, por exemplo, Mário Soares e Salgueiro Maia.

Já João Semedo falava tão baixo quanto Miguel Portas falava alto. Conheci-o insuficientemente demais para dele falar com a legitimidade que falaram, e bem, pessoas mais próximas como Marisa Matias, Catarina Martins e Francisco Louçã. Conheci-o apenas o suficiente para perceber que podíamos ter tido o princípio de uma bela amizade, não tivesse a doença vindo interpor-se entre nós. Neste país que já consagrou alguns 5 mil comendadores em pouco mais de 40 anos de democracia, se eu pudesse, dava a João Semedo uma condecoração que não existe: a Grã-Cruz da Ordem da Humildade.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A fé e a displicência ética

  por estatuadesal

(Por Carlos Esperança, 27/07/2018)

PAGADOR

A mãe que reza um terço para que o filho passe no exame está a meter a cunha à santa para que influencie o júri que o há de avaliar.

O construtor civil que manda o cabaz de Natal ao engenheiro da Câmara, agradece o último andar do empreendimento, que não constava do projeto inicial.

O funcionário que promete ir a Fátima, se for promovido, quer apenas que a Senhora se lembre dele para a vaga que, por mérito, pertenceria a um colega.

O cordão de ouro que a minhota deixou no andor do Senhor dos Passos para que o seu homem abandonasse a galdéria que o transtornou e voltasse para ela, imagina que, sem a renúncia ao ouro, o Senhor não lhe levaria de volta o bandalho do marido.

Sempre que há promessas para obter do santo, especializado em certo tipo de subornos, um qualquer benefício, é a admissão do carácter venal da Providência. É o cabrito que se manda ao chefe na véspera das atualizações salariais.

Ao santo pede-se que interceda junto de Deus para fazer ao mendicante o que não faz a outros. Ao chefe solicita-se que trame o parceiro em benefício próprio.

Portugal é um país venal, de pequenas e vis corrupções, feito à imagem da religião que o formatou, espécie de marca que indica a ganadaria de origem e reparte os portugueses por paróquias e dioceses como animais da respetiva quinta.

Que pode esperar-se da Igreja do Papa JP II que acreditou que a Virgem lhe dirigiu a bala por sítios não vitais poupando-o a ele sem dele poupar os crédulos?

A mentalidade beata cria gente que vê o empenho, suborno e compadrio como virtudes canónicas, que levam as pessoas a condutas que lhes ensinaram a ter com Deus.

Felizmente ainda há gente séria. O mesmo não se pode dizer da fauna mística que povoa o Paraíso, para onde se viaja através de agiotas, à custa de missas, terços, oferendas e da renúncia aos prazeres da vida.

A ligeireza ética é uma consequência da mentalidade autóctone, que nos remete para as “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, bem analisadas por esse grande vulto da cultura portuguesa, Antero de Quental, na 2.ª das históricas Conferências do Casino.

O tempo que faz

  por estatuadesal

(António Guerreiro, in Público, 27/07/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, começa com uma descrição meteorológica: “Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual (...). Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913 (tradução de João Barrento, Dom Quixote). Um ano depois, começava a Primeira Guerra Mundial. A placidez meteorológica desse belo dia da Agosto de 1913 projecta-se ironicamente numa anunciada catástrofe histórica, com o epicentro situado em Viena, capital da Cacânia, A alegoria meteorológica de Musil supõe um desencontro, uma não-coincidência, entre o tempo histórico e o tempo meteorológico, entre a história humana e a história natural. O “tempo que faz” é, assim, de uma indiferença soberana em relação ao tempo que o homem faz. Cerca de um ano depois, a 2 de Agosto de 1914, Kafka, no seu diário, deixaria um outro registo - muito pessoal, mas nada estranho às suas fábulas para metafísicos - da divergência entre a tempestade histórica e o tempo convidativo do Verão mitteleuropeu: “A Alemanha declarou guerra à Rússia, Á tarde, piscina”. O que é que aconteceu entretanto às “fábulas” meteorológicas?  Muito simplesmente, a discordância de tempos (ambientais vs humanos) já não funciona e a distinção entre  história humana e história natural entrou em colapso. O conceito de Antropoceno, que coloca o homem como o agente determinante de uma nova era geológica, supõe essa relação catastrófica, onde já não há lugar para ironias. Por isso, a tagarelice muito convivial e socialmente codificada em torno do “tempo que faz”, a conversa de rua serena e cordial sobre a cor do dia e os caprichos do sol e da chuva, é uma coisa do passado. Agora, o que temos é a meteorologia e as suas consequências fornecidas a toda a hora como uma catástrofe permanente ou um aviso de prevenção das catástrofes. É verdade que as formas actuais de prevenção revelam uma tendência paranóica, mas está instalada a ideia de que o clima não é apenas caprichoso e, por isso, somos bombardeados diariamente com avisos de anomalias, excentricidades, recordes, fenómenos meteorológicos nunca vistos ou nunca antes medidos. A obsessão pela medida, pelo rating, pelos números, a passagem do analógico ao digital, alteraram completamente as nossas representações imaginárias. Para definir a “essência da técnica”, Heidegger deu uma vez este exemplo: o homem moderno não pode ver um rio sem o transformar imediatamente em energia (caducou o tempo em que Hölderlin escrevia um hino ao Reno). Assim acontece hoje com o clima e com a meteorologia: um belo dia de Julho é um anúncio de canícula, um Verão português ameno e um Verão escandinavo inclemente é o mundo ao contrário.

A meteorologia tornou-se uma semiótica alucinada que lê sinais e mensagens cheias de significado catastrófico em todo o lado, em todos os momentos, em todos os fenómenos. Por trás, há sempre uma vontade de controle ou, pelo menos, a ideia de que nos podemos prevenir contra o que resta de incontrolável. E a prevenção paranóica acaba por produzir parte do mal que quer evitar (como acontece com a destruição levada a cabo pela “limpeza” das florestas). Certo é que a informação sobre a meteorologia nos é fornecida actualmente como o boletim de uma guerra em curso.