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terça-feira, 31 de julho de 2018

Um ano depois da "Baleia Azul", as autoridades estão preocupadas com a "Momo", uma personagem fictícia online que rouba informações a crianças e jovens e pode até incentivar ao suicídio.

Quando se adiciona um determinado número na lista de contactos, surge esta imagem e o contacto envia mensagens violentas.

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Mais de um ano depois do surgimento dos primeiros casos de suicídio relacionados com o jogo “Baleia Azul“, há um fenómeno online a preocupar as autoridades em vários países. Trata-se da “Momo”, uma personagem fictícia que fala com crianças e jovens na aplicação WhatsApp e que chega a convencê-los a partilhar dados e informações pessoais, envia mensagens violentas e pode mesmo incitar ao suicídio. Segundo a edição brasileira da BBC, que conta a história, já há casos registados em todo o continente americano, da Argentina aos Estados Unidos, e também na Europa, designadamente na França e na Alemanha.

O funcionamento é muito simples: um número de telefone é disseminado por grupos nas redes sociais; quem o adicionar à lista de contactos, verá surgir na sua aplicação WhatsApp um contacto com a fotografia de uma estátua sorridente assustadora, de origem japonesa; se o utilizador enviar uma mensagem a esse contacto, começa a receber respostas violentas e ameaças.

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“Tudo começou num grupo de Facebook onde os participantes eram desafiados a comunicar com um número desconhecido”, segundo as autoridades do México (país onde surgiu o fenómeno) citadas pela BBC. “Vários utilizadores disseram que, se enviassem uma mensagem à Momo do seu telemóvel, a resposta vinha com imagens violentas e agressivas. Aliás, há quem afirme que teve mensagens respondidas com ameaças”, acrescentaram as mesmas autoridades.

As autoridades de vários países estão a deixar alertas sobre o fenómeno. Aqui ao lado, em Espanha, a Guardia Civil já emitiu um aviso a pedir aos jovens que não adicionem o número de telemóvel. “Não adiciones a Momo. Se gravas na tua agenda o número +8143510*** vai aparecer-te um estranho rosto de uma mulher”, lê-se numa publicação da Guardia Civil, que explica que este é o último fenómeno viral “da moda entre os adolescentes”.

O início da “Momo” ainda está por identificar, mas sabe-se para já que há cinco números de telemóvel associados ao fenómeno. Três deles com indicativo +81, do Japão; um com indicativo +52, da Colômbia; e um outro com indicativo +57, do México. Mas segundo um especialista da organização Safernet, que está a monitorizar a “Momo” consultado pela edição brasileira da BBC, a quantidade de números de telemóvel associados está a aumentar.

Segundo as autoridades, trocar mensagens com estes números de telemóvel resulta quase sempre em extorsão e em roubo de informações privadas — que depois podem ser utilizadas de forma criminosa –, mas também em assédio e incitação ao suicídio e à violência, podendo terminar em transtornos físicos e psicológicos.

Em abril do ano passado, surgiram os primeiros casos do jogo “Baleia Azul”, um outro fenómeno na Internet que incitava crianças e jovens a cumprirem uma série de desafios que terminavam frequentemente com o suicídio.

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Quando se adiciona um determinado número na lista de contactos, surge esta imagem e o contacto envia mensagens violentas.

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Mais de um ano depois do surgimento dos primeiros casos de suicídio relacionados com o jogo “Baleia Azul“, há um fenómeno online a preocupar as autoridades em vários países. Trata-se da “Momo”, uma personagem fictícia que fala com crianças e jovens na aplicação WhatsApp e que chega a convencê-los a partilhar dados e informações pessoais, envia mensagens violentas e pode mesmo incitar ao suicídio. Segundo a edição brasileira da BBC, que conta a história, já há casos registados em todo o continente americano, da Argentina aos Estados Unidos, e também na Europa, designadamente na França e na Alemanha.

O funcionamento é muito simples: um número de telefone é disseminado por grupos nas redes sociais; quem o adicionar à lista de contactos, verá surgir na sua aplicação WhatsApp um contacto com a fotografia de uma estátua sorridente assustadora, de origem japonesa; se o utilizador enviar uma mensagem a esse contacto, começa a receber respostas violentas e ameaças.

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“Tudo começou num grupo de Facebook onde os participantes eram desafiados a comunicar com um número desconhecido”, segundo as autoridades do México (país onde surgiu o fenómeno) citadas pela BBC. “Vários utilizadores disseram que, se enviassem uma mensagem à Momo do seu telemóvel, a resposta vinha com imagens violentas e agressivas. Aliás, há quem afirme que teve mensagens respondidas com ameaças”, acrescentaram as mesmas autoridades.

As autoridades de vários países estão a deixar alertas sobre o fenómeno. Aqui ao lado, em Espanha, a Guardia Civil já emitiu um aviso a pedir aos jovens que não adicionem o número de telemóvel. “Não adiciones a Momo. Se gravas na tua agenda o número +8143510*** vai aparecer-te um estranho rosto de uma mulher”, lê-se numa publicação da Guardia Civil, que explica que este é o último fenómeno viral “da moda entre os adolescentes”.

O início da “Momo” ainda está por identificar, mas sabe-se para já que há cinco números de telemóvel associados ao fenómeno. Três deles com indicativo +81, do Japão; um com indicativo +52, da Colômbia; e um outro com indicativo +57, do México. Mas segundo um especialista da organização Safernet, que está a monitorizar a “Momo” consultado pela edição brasileira da BBC, a quantidade de números de telemóvel associados está a aumentar.

Segundo as autoridades, trocar mensagens com estes números de telemóvel resulta quase sempre em extorsão e em roubo de informações privadas — que depois podem ser utilizadas de forma criminosa –, mas também em assédio e incitação ao suicídio e à violência, podendo terminar em transtornos físicos e psicológicos.

Em abril do ano passado, surgiram os primeiros casos do jogo “Baleia Azul”, um outro fenómeno na Internet que incitava crianças e jovens a cumprirem uma série de desafios que terminavam frequentemente com o suicídio.

Três embaixadores

ladroes de bicicletas

Posted: 30 Jul 2018 01:23 PM PDT

Por que razão tem o Governo uma proposta de revisão do Código do Trabalho que, ao mesmo tempo que propõe limitadas medidas de combate à precariedade, vai além do acordo na concertação social e fica mais próximo do pensamento patronal, sobretudo na contratação colectiva? (ver a análise feita ao acordo e à proposta de lei).
Esta inconsistência fica por explicar. Mas convém acrescentar que não foi caso único nos últimos tempos.
A legislação laboral foi mexida em 2003 (Bagão Félix), em 2009 (Vieira da Silva) com claro acordo patronal e condenação sindical. Em 2010,  houve tentativas de mudança - por pressão continuada da Comissão Europeia  - que redundaram num acordo de concertação social em Março de 2011 (Helena André), que foi "embrulhado" com medidas de combate à crise. Esse acordo veio a ser ampliado - e já sem nada "embrulhado" pelo Governo PSD/CDS, em plena troica, em janeiro de 2012 (Mota Soares e Álvaro Santos Pereira), com o entusiasmo de toda a equipa governamental.
Esta instabilidade permanente da lei - diga-se - em pouco contribuiu para a competitividade da economia, como se pretendia.
Sobretudo desde 2010, a mexida na lei laboral tem sido a tónica de pressão da Comissão Europeia e das instituições multilaterais, sem que se pretenda em algum momento aferir dos seus resultados, e sem se preocupar com a vida das pessoas. É apenas um instrumento de uma teoria errada que sustenta uma guerra pelo poder laboral. Visa uma contenção salarial a todo o custo e uma redução do poder sindical, sem olhar a meios.
Nos momentos de fragilidade, Portugal sofreu essa pressão. E essa pressão foi eficaz. Porquê? 
Para isso, contribuiu o facto de todos os ministros de Finanças, pelo menos desde a crise 2007/8 aceitarem essa componente da teoria errada. Centeno tem uma visão articulada do mundo do Trabalho em numerosos documentos que vão nesse sentido e acabou à frente do Eurogrupo. Vítor Gaspar foi a cara da política pura e dura da austeridade e acabou no FMI. Fernando Teixeira dos Santos (FTS) foi um verdadeiro embaixador das teses de Bruxelas em matéria laboral. E já nem se fala de Jorge Braga de Macedo (ministro entre 1991 e1993), absoluto defensor do errado Tratado de Maastricht; ou de Vítor Constâncio ex-governador do Banco de Portugal e dirigente reformado do BCE que sangrou a Grécia; ou de Carlos Costa, economista chefe da REPER em 1992, homem de confiança de Cavaco Silva, quadro defensor da estratégia portuguesa de 1992 e um eficaz elemento de pressão sobre o Governo socialista (2009-2011).  
Pepesquece-se o livro Resgatados, de David Dinis, ex-director do Observador e do Público, e de Hugo Filipe Coelho. Os relatos são elucidativos de como se fez, insidiosamente ou de forma brutal, a penetração em Portugal das ideias de Bruxelas - em matéria laboral - através do ministro português das Finanças e do Banco de Portugal. Tal como na Grécia, caso se leia o livro de Yanis Varoufakis Comportem-se como adultos: o stablishment sempre pugnou por uma intervenção externa que impedisse os bancos alemães e franceses de perder dinheiro nos investimentos em dívida pública grega, irlandesa, portuguesa, pagos a preço de ouro. E pelo caminho, aproveitando a fragilidade, mexia-se na legislação laboral.
Um dia também, conhecer-se-á os pormenores palacianos da actual iniciativa legal. E resta saber se não está a ser como o que se passou em 2010/11.
Ora, leia-se uns apanhados do livro:    
* Em Maio de 2010, deu-se o empréstimo à Grécia e a Alemanha impôs a consolidação orçamental. A aposta no investimento público, como resposta à crise, transformou-se em austeridade. Portugal tinha de fazer marcha-atrás. Espanha iria cortar 5% dos salários da Função Pública. E FTS "alertou Sócrates para os riscos de que Portugal fosse visto como a ficar atrás". Mais a mais conhecendo-se a factura dos submarinos comprados por decisão de Paulo Portas: 500 milhões de euros.
* "Discretamente, FTS tinha mandado estudar uma solução radical: uma taxa extraordinária sobre os rendimentos acima do rendimento mínimo, atingindo o sector privado e pensionistas. O Governo e o Banco de Portugal começaram a estudar a transferência do Fundo de Pensões da PT.
* Sem convencer o Governo, FTS insistiu nas reformas: "Primeiro, reclamou uma reforma laboral, depois uma revisão da lei de enquadramento orçamental que reforçasse as regras de controlo das contas, inscrevendo uma forte limitação ao défice público. Finalmente, FTS queria que fosse criada uma unidade nas Finanças para fazer o acompanhamento de todas as PPP".
* Depois do verão, e sem ter falado com Sócrates, FTS "pôs em cima da mesa um corte de 7,5% dos salários da Função Pública e dos pensionistas", acima de dois salários mínimos. Sócrates apenas cedeu no final de Setembro.
* Ao longo dessas semanas, o Governo discutiu como desfazer as reformas anteriores. "Para o ministro das Finanças, era um processo normal: haviam ido longe de mais na extensão do Estado Social." A cada proposta de corte de despesa, nomeadamente na Saúde e na Segurança Social, "FTS respondia num cerrado sotaque nortenho e de cara fechada: Num chega! A frase tornou-se reconhecida e caricaturada". O corte de salários ficariam em 5% e a partir de 1500 euros.
* A 30/9/2010, o Eurogrupo elogiou as medidas, mas queria mais "reformas estruturais", que "potenciem o crescimento" económico, removam a rigidez no mercado de trabalho e nos salários e melhorem a produtividade". Em Junho passado, FTS já deixara na sede do PSD uma proposta de reforma laboral.
*A 9/10/2010, FTS dá uma entrevista ao Expresso em que fixa uma meta de 7% nas taxas de juro, para o Governo "colocar a hipótese de recorrer ao FMI e ao fundo europeu". Fixando uma meta, os operadores dos mercados irão testá-la. A notícia foi obviamente replicada. Sócrates veio desmenti-lo internacionalmente e, a 9/11/2010, foi o ministro da Economia, Vieira da Silva: "Não há limite objectivo para pedir a ajuda ao FMI". Mas FTS escreveu à Lusa "a reiterar os objectivos de redução do défice". O assunto foi objecto de debate no Governo. "Naquela sala, FTS mantinha-se prudente. Não perdia uma oportunidade para falar do agravamento do risco e vincar que o país estava numa situação muito difícil".
* Da mesma forma, Luís Amado , nº 2 do Governo, deu uma entrevista ao Expresso, contra a opinião do Governo, a defender a lei travão, que impõe um limite na Constituição ao endividamento do Estado. Os ministros Pedro Silva Pereira e Augusto Santos Silva vieram a público contrariá-lo. A defesa dessa ideia viria a ser assumida pelo PSD de Pedro Passos Coelho...
* "A meio de Novembro, FTS estava convencido de que um pedido de ajuda se tornara muito provável".
* No início de Dezembro, voltou a tentar convencer o Governo. "Os juros não paravam de subir, a queda da Irlanda piorara ainda mais o cenário, deixando Portugal na mira dos mercados. Mas havia mais. Os ministros das Finanças do euro os do Norte mais do que outros - diziam já, informalmente, que Portugal devia pedir ajuda e sem demoras. O último argumento era, porventura, o mais inesperado. No início da semana, a Comissão Europeia divulgara as suas habituais previsões económicas e identificou a vermelho um problema nas contas do orçamento português". Pudera: com tanto corte, a recessão estava a caminho... "Mas FTS sabia muito bem como traduzir aquele parágrafo: as medidas do Orçamento não seriam suficientes para atingir os objectivos. Ele lembrava-se bem do que tinha acontecido no verão anterior". Claro, foi o mesmo... "Enquanto descia as escada de São Bento, FTS respitou fundo. Ia começar tudo outra vez".
* As contas foram "reforçadas", leia-se: cortadas. Mas o Governo preparou ainda a Iniciativa sobre a Competitividade e Emprego. Era "o embrulho perfeito para um caso mais bicudo, o da reforma laboral. Depois de duas declarações do Eurogrupo, também Olli Tehn - comissário dos Assuntos Económicos - tinha, no início de Dezembro, insistido na tecla da flebilização das leis do trabalho". Concordou-se "em cortar nas indemnizações por despedimento." O argumento é que eram acima da média dos países da Europa, mas os salários eram muito mais baixos do que na UE, mas esse aspecto não era contado.
* Versão FTS: Antes da reunião do Eurogrupo de 17/1/2011 e antes do fecho das contas orçamentais para cobrir o gap apontado pela Comissão Europeia, FTS "agarrou Olli Rehn (...) para uma conversa a dois". A formulação parece forte, determinada. Mas disse-lhe FTS: "Tenha confiança, que nós vamos fazer o nosso trabalho. A pouco e pouco acho que vou conseguindo avançar.  (...) FTS sabia que não podia recusar mais medidas quando fosse apertado na reunião, mas também sabia que ou a Europa ajudava, mudando a sua resposta à crise, ou nada do que o país fizesse teria efeito. Como ele temia essa porta foi fechada ainda a reunião não tinha sequer começado", com o ministro alemão Schauble a negar mais fundos. Na conferência de imprensa, Juncker - presidente então do Eurogrupo - "na mesma frase que elogiou a coragem de Portugal" (!), "pediu que fossem feitas reformas". A Alemanha não acreditava nos esforços feitos.  
* A 28/1/2011, desembarcou uma equipa do BCE para quantificar o "buraco" nas contas portuguesas e foram conduzidos ao Banco de Portugal. A recebê-los e a coordenar a reunião estava a equipa do gabinete do primeiro-ministro. "A presença de S.Bento e o maior distanciamento das Finanças eram um sinal da gravidade a que a situação chegara. Como se temia, as previsões negativas e as dúvidas de Carlos Costa tinham deixado Frankfurt em alerta". Dias antes, Jean-Claude Trichet, à frente do BCE, tinha ameaçado não apoiar mais os títulos de dívida pública de Portugal. "A missão saiu de Lisboa sem conclusões fechadas, mas deixando atrás de si uma forte pressão".
* Versão Sócrates: A 4/2/2011, antes do Conselho Europeu, Merkel chamara Sócrates para uma reunião e declaração conjunta: "Pode ser bom para ti". Sócrates considerou uma "boa ajuda" e fê-lo. Mas na reunião, Merkel apresenta um modelo de reformas para aceitar a reforma do fundo europeu: "travar a indexação de salários e moderar o aumento dos custos do trabalho, aumentar a idade de reforma para tornar sustentável o sistema de pensões, harmonizar os impostos sobre a empresa, inscrever nas constituições dos países um tecto ao défice e à dívida". "A pressão era maior do que nunca" e Sócrates resistiu. Na reunião do Conselho Europeu, Sócrates defendeu algo que poderia ser: "Não precisamos de ter um programa. Se vocês disserem o que querem e nós nos pusermos de acordo, não é preciso programa nenhum". Engano.
* A 14/2/2011, chega uma missão da Comissão Europeia para discutir reformas: "a questão laboral, a Justiça e outras tantas".
* Nos últimos dias, Sócrates reunira-se com Durão Barroso, Zapatero e Trichet e outros responsáveis europeus. "Nada daquilo seria alguma vez assumido em público, mas o que estava a preparar era um programa para Portugal, sem que o país tivesse de avançar com um pedido de resgate"... "O procedimento seria, em tudo, informal. (...) A consequência era que estava a caminho um PEC". O Governo concordou. E "Sócrates não ia deixar a coordenação nas mãos das Finanças. (...) Era essencial que tudo aquilo ficasse num núcleo muito restrito. Sócrates diria o mínimo aos ministros técnicos que tivessem de ser envolvidos. Tanto quanto possível a missão passaria despercebida em Lisboa".
* A 16/2/2011, o governador Carlos Costa dá uma entrevista ao Diário Económico em que afirma que Portugal vai entrar em recessão - pudera!... - e "que vão ser necessárias novas medidas orçamentais". O ministro alemão diz que está disponível para ajudar Portugal. "Os juros disparam em todos os prazos".
* A 19/2/2011, a Comissão Europeia e o BCE anunciam ao Governo português a chegada a Lisboa daí a dois dias, de uma missão sobre as contas de 2011. "As reformas estruturais também estariam sobre a mesa, nomeadamente a da área laboral".
* A 20/2/2011, Marcelo Rebelo de Sousa - então comentador televisivo - alerta que, para os dirigentes europeus, "a situação de Portugal pode estar no limiar do insustentável". E disse que Sócrates poderia chegar ao Orçamento se conseguisse sobreviver aos próximos dois meses... Trichet exige do Governo que "aplique de forma rigorosa e irrepeensível o programa definido e que respeite todos os compromissos".
* A 23/2/2011, a missão concluiu que o "buraco" era de 0,8% do PIB.
* A 24/2/2011, o Governo - entre os que sabiam e não sabiam o que se passava - todos recebem instruções para medidas adicionais de corte de despesa. Nesse mesmo dia, as três agências anunciam para a perspectiva de revisão em baixa da notação de Portugal.
* A 25/2/2011, Merkel anuncia que Espanha "fez o trabalho de casa e está no bom caminho".
* A 27/2/2011, o jornal Financial Times publica que um dos maiores investidores europeus - sem que seja nomeado - diz que "a ajuda externa a Portugal é inevitável (...), sublinhando a necessidade de proteger Espanha". Dirigentes do PSD esperam com agrado a intervenção do FMI.
* A 28/2/2011, a Comissão Europeia e o BCE fazem uma lista de medidas: "privatizações a lançar, os primeiros retoques nas PPP e nas empresas públicas". E as medidas orçamentais eram as mais recessivas: "aumentar as taxas do IVA, alargar a base fiscal, eliminar taxas mínimas de IVA na energia, aumentar impostos especiais sobre consumo, ajustar impostos sobre património, reduzir benefícios fiscais" - sem dizer quais - "e deduções; taxas todas as prestações sociais que não em espécie; cortar o nível de despesa com pensões (2012); reduzir as transferências para a administração regional e local em 500 milhões de euros, reduzir os custos operacionais do Estado".
* Nos dias seguintes, discutiu-se a lista para abordar com a proxima missão a 3/3/2011. "Sócrates não ficou surpreendido quando passou os olhos pela lista (...). Há meses que as discussões com as Finanças tinham como base ideias como aquelas. (...) O problema é que, desta vez, a negociação era com a Comissão e o BCE". Pedro Marques, secretário de Estado da ministra do Trabalho, recebeu instruções para fazer finca-pé com o acordado na concertação social. Isso irritou a missão europeia que respondeu torto: Vocês não estão a convercer a nós, têm de convencer os mercados." FTS estava sempre "a dizer que não era possível resistir". E Sócrates respondia que sim, "porque isto é um governo socialista".

* Na conferência da TSF/Reuters, primeiro-ministro e ministro das Finanças tinham-se concertado para deixar a mesma ideia: tudo se fará para conseguir o défice de 4,6% em 2011. Mas FTS foi "um pouco mais longe, anunciando uma flexibilização do mercado de trabalho, reformas no arrendamento e justiça, medidas na saúde e transportes. Teve ainda uma frase que podia ter sido dita por um dirigente do PSD: A situação a que a economia chegou teve que ver com o crédito fácil." Por que o fez?
* Venha a visão de FTS. "A sua maior preocupação era com a resistência que S.Bento estava a colocar nas negociações. Sempre que chegavam a medidas difíceis, Sócrates punha travão. Por muito que percebesse o problema que a austeridade colocava ao Governo," - diga-se: não era ao Governo, era à economia, ao país, aos portugueses e eram medidas erradas - "esse problema não era quando comparado com a pressão dos seus colegas alemão, holendês e finlandês no Eurogrupo ou com a subida dos juros lhe colocava nos ombros". "Sócrates insistia: Eles querem, mas nós não queremos! A questão laboral continuava a ser o ponto mais controverso. Ó Teixeira! Podes pensar o que quiseres, mas eu não estou de acordo, nem acho que isso seja um avanço civilizacional. Acho isso uma treta, pá! Eu não estou de acordo, o que é que queres? E não me peças... (...) Álvaro Aguiar, o economista-chefe das Finanças e o homem de confiança do ministro, que também participava em S.Bento, tinha ouvido pior: Não sei se representas Lisboa em Frankfurt ou Frankfurt em Lisboa.

* A 2/3/2011, no encontro com Merkel e as equipas das Finanças dos países, a chanceler alemã disse: Eu nunca disse que Portugal teria de pedir ajuda, nunca. Mas disse que os esforços que estavam a ser feitos "tinham de ir mais longe". Na conferência de imprensa, um jornalista fez exactamente essa pergunta. Tinham pedido mais esforços? Sócrates negou: Pelo contrário. Mas "depois da viagem a Berlim a mensagem espalhou-se". Como? Não se sabe. Mas sabia-se que o calendário do PEC tinha de ser antecipado, incluindo "reformas estruturais", "incluindo alterações à lei laboral - que estava emperrada na concertação".


* Versão Helena André: "Há meses que Helena André resistia às pressões da Comissão, de alguns parceiros europeus, mas sobretudo do ministro das Finanças, para flexibilizar a legislação laboral. Manteve-se firme até Dezembro, insistindo para que se retirasse aquela reforma do Orçamento de 2011. A ministra propunha ao invés que se concluísse o Pacto para o Emprego" que viria a surgir depois, sem grande entusiasmo na concertação - todos os parceiros achavam que a questão laboral não era essencial. "Por várias vezes, Helena André apontou o dedo a FTS. Ela achava que o Governo não estava a saber vender no exterior o Código do Trabalho que tinha aprovado apenas dois anos antes. Quando percebeu que a lei nem constava na cábula com a lista de reformas que o ministro das Finanças trazia consigo, irritou-se. Tirou-lhe o papel e acrescentou-a pelo ser punho".
* Versão Carlos Costa: A 4/3/2011, estava Carlos Costa em Paris para "seguir um colóquio organizado pelo Banco de França sobre a crise". "O governador do Banco de Portugal conhecia o comissário europeu para os Assuntos Europeus há muitos anos e a situação dramática do país só tinha reforçado essa confiança mútua. Nesse dia, no coffee break, foi Rehn quem puxou Carlos Costa para uma conversa directa. Estava preocupadíssimo com a evolução das negociações em Lisboa - que o governador acompanhava directamente pelas questões relacionadas com o sistema financeiro. Preocupava-se que as contas ainda não estivessem fechadas, mas sobretudo a dificuldade em convencer o Governo a dar passos decisivos na flexibilização do mercado de trabalho. Sem isso, o acordo estava em risco. E dada a evolução dos mercados, Portugal não podia ir para o Conselho Europeu sem ele.
* No minuto seguinte, Carlos Costa pegou no telefone e legou a Nunes Liberato", chefe da Casa Civil do Presidente da República, Cavaco Silva. Vejam o que se pode fazer, porque essa matéria é vital para o acordo. Mal conseguiu conter a surpresa porque percebeu que o chefe da Casa Civil não sabia do que lhe estava a falar. Nem lhe tinha passado pela cabeça que a Presidência da República não estivesse envolvida no processo".
* Versão Cavaco: "O entendimento geral era que Sócrates procurava um pretexto para ganhar outro fôlego depois das presidenciais - ou até para sair do Governo, em jogada de vitimização. Podia ser uma moção de confiança que condicionasse o Presidente. Era preciso jogar por antecipação. No discurso de tomada de posse tinha de traçar um limite ao Governo".
* A 9/3/2011,  Helena André consegue um compromisso com os parceiros sociais que era uma meio compromisso: "continuar o diálogo em torno de 50 medidas para a competititividade". Era um meio documento que Sócrates queria "levar a Bruxelas e mostrar aos técnicos em Lisboa, travando alterações ainda mais profundas à lei laboral".
* Nesse dia, o discurso de Cavaco seria assassino, nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa. Mário Soares aconselhou Sócrates a que se demitisse. Sócrates disse-lhe que dependia do Parlamento.
* Versão Passos Coelho: A 10/3/2011, Sócrates revela antecipa e detalhadamente o PEC a Passos Coelho. Pede-lhe silêncio até ao Conselho Europeu que seria decisivo. À saída, Passos deu instruções para que ninguém falasse, dando assim tempo para estudar o documento que seria apresentado em Bruxelas. "A caminho de Massamá, Passos liga ainda a Marques Mendes, que estava a sair dos estúdios da TVI. Explicou-lhe tudo e pediu-lhe reserva." Voltaria a falar-çhe no dia seguinte. Aos jornalistas Miguel Relvas disse que Passos apenas tinha sido brevemente informado pelo telefone...
* A 10/3/2011, na conferência de imprensa à noite, depois dos telejornais televisivos, FTS deu uma conferência de imprensa para explicar o PEC. Entre as mdidas, prometia que se "avançava em força com reformas estruturais, nomeadamente na área do trabalho, com um corte acentuado das indemnizações por despedimento e outras alterações ao Código do Trabalho".
* A 11/3/2011, dia de Conselho Europeu, Passos Coelho estava dividido sobre o que fazer: viabilizar mais uma vez o PEC ou não. Recebe a Comissão Permanente do partido mas não lhes diz que esteve com o PM. Telefona-lhe um banqueiro que o pressiona a aceitar. Passos rejeita. Fala então com Cavaco que lhe diz não ter sido informado pelo PM. "Minutos depois de terminada a conversa, o Presidente deu ordem a um dos assessores para passar para o Expresso e TSF a noticia de que não teve conhecimento oficial. A notícia é veiculada. "Passos tinha o caminho aberto para derrubar o Governo".

Entre as brumas da memória


Dica (790)

Posted: 30 Jul 2018 01:03 PM PDT

Meeting The Migration Challenge And Reforming Capitalism Through Mutual Solidarity (Paul Collier)

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Belíssimas pontes para peões!

Posted: 30 Jul 2018 10:47 AM PDT

Ver outras aqui.
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Robles

Posted: 30 Jul 2018 06:25 AM PDT

Soube-se há pouco que Ricardo Robles renunciou «aos cargos de vereador na Câmara Municipal de Lisboa e de membro da comissão coordenadora concelhia de Lisboa do Bloco de Esquerda».

Foi uma decisão que só pecou por ser tardia. Ontem à tarde, publiquei no Facebook o texto que abaixo transcrevo. Embora mais apropriado para aquela plataforma, fica aqui também.

«Nada escrevi até agora, à espera de ver se a poeira assentava. Segui todas as notícias dos últimos dias e muito do que se escreveu aqui pelo Facebook, o que me provocou por vezes verdadeiras náuseas, nem tanto pelo conteúdo, mas pelo frenesim, para mim misterioso, que levou algumas pessoas a publicarem dezenas de «posts» e centenas de comentários sobre o tema.

1 – Do Bloco sou, e continuarei a ser, eleitora e apoiante.

2 – Não tenho qualquer opinião pessoal sobre Ricardo Robles, não o conheço e nem sequer sabia da sua existência até à campanha para as últimas autárquicas.

3 – Nada tenho a acrescentar a tudo o que foi escrito, dito ou ouvido, nem estou disposta a discutir detalhes, e apenas me apetece dizer que, sem pôr em causa a legitimidade do que quer que seja ou a honestidade de alguém, considero que a situação é complexa e tem dados que geram conflitos de interesses passados e futuros.

4 – Assim sendo, se eu estivesse na posição do vereador do Bloco renunciaria ao cargo por julgar que tinha deixado de ter condições para o exercer, por mais que considerasse ter a razão do meu lado e qualquer que fosse a decisão da direcção do partido. E se pertencesse à dita direcção, já tinha substituído o Ricardo Robles na CML. Era só.»

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O funeral dos comboios

Posted: 30 Jul 2018 02:38 AM PDT

«Houve um tempo em que os comboios anunciavam o progresso. Fontes Pereira de Melo, no século XIX, acreditava mesmo nisso. Por isso dizia, empolgado: "O Governo espera, sendo aprovadas estas medidas, que dentro de poucos anos não se diga, como desgraçadamente se diz hoje lá fora, que para cá dos Pirenéus está a África." Para Alexandre Herculano os caminhos-de-ferro traziam uma outra versão do Inferno: a absorção por Espanha. Os comboios iriam uniformizar as ideias e os costumes. Esse debate apaixonado persiste ainda hoje. Foi por isso que, de forma subterrânea, se foi assistindo ao estrangulamento lento e amoral dos caminhos-de-ferro. Fecharam-se linhas, encerraram-se estações, deixou de se fazer investimentos. Tudo de forma calma. Ganhou o mundo das auto-estradas, mais rentável. Mas esqueceu-se, ao longo de décadas, a importância dos caminhos-de-ferro para a mobilidade de quem tem de se deslocar no interior do país e, nos grandes centros urbanos, vive nas periferias. Basta ver os comboios das horas em que o sol ainda não nasceu. E são estes com que a CP acaba. Para que deixem de andar de comboio. E nunca mais voltem a fazê-lo.

Na discussão sobre a falência da CP e da Refer tem muitos equívocos. Poderia começar-se por um: a junção da Refer com a Estradas de Portugal para criar esse monstro das bolachas que é a Infraestruturas de Portugal foi o derradeiro passo para atirar os comboios para o cemitério. Só o túnel do Marão ficou a ganhar com isso. A guerra de alecrim e manjerona entre um diletante ministro Pedro Marques e um ovni, o deputado Nuno Melo, é um momento de humor. O sector ferroviário em Portugal foi destruído por sucessivos governos, do PS e do PSD (e CDS), sem que alguém vertesse uma lágrima. Agora chegou-se ao caos: não houve renovação (ou electrificação com fundos comunitários) da via férrea, porque o poder político não quis; o material circulante está a cair de podre e já não há composições nem peças para tapar buracos. O funeral foi feito há muito. E agora há quem esteja admirado.»

Fernando Sobral

A comunidade de inteligência dos EUA como propulsora do colapso

  por estatuadesal

(Por Dmitry Orlov, In Blog Resistir, 24/07/2018)

thanksgiving

Nos Estados Unidos de hoje, o termo "espionagem" não é muito utilizado a não ser em alguns contextos específicos. Ainda há conversas esporádicas sobre espionagem industrial, mas quanto aos esforços dos americanos para entender o mundo além das suas fronteiras, eles preferem usar o termo "inteligência". Isso pode ser uma escolha inteligente ou não, dependendo de como se olham as coisas.

Em primeiro lugar, a "inteligência" dos EUA está vagamente relacionada com o jogo da espionagem, como tem sido tradicionalmente praticado, e ainda é, por países como a Rússia e a China. A espionagem envolve colectar e validar informação estratégica vital e transmiti-la apenas aos tomadores de decisão pertinentes do seu lado, mantendo-se de facto a colectá-la e validá-la às ocultas de toda a gente.

Em eras passadas, um espião, se descoberto, tentaria ingerir uma cápsula de cianeto; Nos dias de hoje, a tortura é considerada não-cavalheiresca e os espiões que são apanhados esperam pacientemente serem permutados numa troca. Uma regra não escrita e de bom senso sobre trocas de espiões é que são feitas silenciosamente e que os libertados nunca se intrometem outra vez porque isso complicaria a negociação de futuras trocas de espiões. Nos últimos anos, as agências de inteligência dos EUA decidiram que torturar prisioneiros é uma boa ideia, mas elas têm torturado sobretudo pessoas inocentes, não espiões profissionais, forçando-os por vezes a inventar coisas tais como a "Al Qaeda". Não existia tal coisa antes de a inteligência dos EUA popularizá-la como marca entre os terroristas islâmicos.

Mais recentemente, os "serviços especiais" britânicos, que estão como uma espécie de Mini-Me para o Dr. Evil, que é o aparelho de inteligência dos EUA, consideraram adequado interferir com um de seus próprios espiões, Sergei Skripal, um agente duplo que eles retiraram de uma prisão russa numa troca de espiões. Eles o envenenaram utilizando um produto químico exótico e tentaram atribuir a culpa à Rússia com base em nenhuma evidência. É improvável que haja mais trocas de espiões britânicos com a Rússia e os espiões britânicos que trabalham na Rússia provavelmente receberão boas cápsulas de cianeto à moda antiga (uma vez que o supostamente super-poderoso Novichok que os britânicos mantêm no seu laboratório "secreto" em Porton Down não funciona bem e só é fatal em 20% dos casos).

Há uma outra regra não escrita, de senso comum, acerca da espionagem em geral: seja o que for que aconteça, ela precisa ser mantida fora dos tribunais, porque um processo de descoberta em qualquer julgamento forçaria a acusação a divulgar fontes e métodos, tornando-os parte do dominio público. Uma alternativa seria manter tribunais secretos, mas como estes não podem ser verificados independentemente quanto ao seguimento do processo devido e das regras de evidência, eles não são de muito valor.

Um padrão diferente aplica-se a traidores. Nestes casos, enviá-los aos tribunais é aceitável e serve a um alto propósito moral, uma vez que aqui a fonte é a própria pessoa em julgamento e o método – traição – pode ser divulgado sem danos. Mas esta lógica não se aplica a espiões profissionais decentes que estão simplesmente a fazer o seu trabalho, mesmo que se tornem agentes duplos. De facto, quando a contra-inteligência descobre um espião, a coisa profissional a fazer é tentar recrutá-lo como um agente duplo ou, se isso não der certo, tentar utilizar o espião como um canal para injectar desinformação.

Os americanos têm feito o melhor que podem para quebrar esta regra. Recentemente, o advogado especial Robert Mueller acusou uma dúzia de operacionais russos a trabalharem na Rússia de hackearem o servidor de correio do Comité Nacional Democrata (DNC) e enviar os emails para a Wikileaks. Enquanto isso, dizem que o referido servidor não está em parte alguma (foi extraviado), se bem que as marcações de hora (time stamps) nos ficheiros publicados na Wikileaks mostrem que foram obtidos copiando-os para uma pen drive ao invés de enviá-los pela Internet. Assim, isto foi uma fuga, não um hack, e não poderia ter sido feito por ninguém a trabalhar remotamente a partir da Rússia.

Além disso, é um exercício de futilidade para um responsável dos EUA indiciar cidadãos russos na Rússia. Eles nunca serão julgados num tribunal dos EUA devido à seguinte cláusula na Constituição Russa: "Art. 61.1 Um cidadão da Federação Russa não pode ser deportado para fora da Rússia ou extraditado para outro Estado". Mueller pode reunir um painel de académicos constitucionalista para interpretar esta frase, ou pode apenas lê-la e chorar. Sim, os americanos estão a fazer o melhor que podem para quebrar a regra não escrita contra o arrastamento de espiões a tribunais, mas o seu melhor está muito longe de ser suficiente.

Dito isto, não há qualquer razão para acreditar que os espiões russos pudessem ser impedidos de hackear o servidor de correio do DNC. Provavelmente funcionava com Microsoft Windows e esse sistema operacional tem mais buracos do que um edifício no centro de Raqqa, na Síria, depois de os americanos terem bombardeado aquela cidade reduzindo-a a escombros, com muitos de civis de permeio. Quando questionado sobre esse alegado hacking pela Fox News, Putin (que trabalhara como espião na sua carreira anterior) teve dificuldade em manter a cara séria e claramente desfrutou do momento. Ele destacou que os emails hackeados ou extraídos numa fuga mostravam um padrão claro de irregularidades: funcionários da DNC conspiraram na Primária Democrática para roubar a vitória eleitoral a Bernie Sanders, e depois de essa informação ter vazado eles foram forçados a demitir-se. Se o hack russo aconteceu, então foram os russos que trabalharam para salvar a democracia americana de si própria. Então, onde está a gratidão? Onde está o amor? Ah, e por que os perpetradores do DNC não estão presos?

Uma vez que existe um acordo entre os EUA e a Rússia para cooperar em investigações criminais, Putin sugeriu interrogar os espiões acusados por Mueller. Ele até sugeriu que Mueller participasse do processo. Mas em contrapartida ele queria interrogar os responsáveis americanos que podem ter ajudado e incitado um criminoso condenado com o nome de William Browder, o qual deve cumprir uma sentença de nove anos na Rússia a partir de agora e que, a propósito, doou copiosas quantias de seu dinheiro mal ganho para a campanha eleitoral de Hillary Clinton. Em resposta, o Senado dos EUA aprovou uma resolução a proibir russos de interrogarem responsáveis dos EUA. E ao invés de emitir um requerimento válido para que os doze espiões russos fossem entrevistados, pelo menos um responsável dos EUA fez o pedido absurdamente fútil de que ao invés eles fossem remetidos para os EUA. Mais uma vez, qual a parte do artigo 61.1 que eles não entendem?

A lógica dos funcionários dos EUA pode ser difícil de acompanhar, mas só se aderirmos às definições tradicionais de espionagem e contra-espionagem – "inteligência" no linguajar dos EUA – que é providenciar informações validadas com o objectivo de adoptar decisões informadas sobre os melhores meios de defender o país. Mas tudo isso faz perfeito sentido se abdicarmos de tais noções estranhas e aceitarmos a realidade que podemos realmente observar: o propósito da "inteligência" dos EUA não é produzir ou trabalhar com factos, mas simplesmente "fazer merda".

A "inteligência" que as agências de inteligência dos EUA fornecem pode ser tudo excepto inteligente. De facto, quanto mais estúpido melhor, porque seu objectivo é permitir que pessoas pouco inteligentes tomem decisões pouco inteligentes. Na verdade, eles consideram os factos como prejudiciais – sejam eles acerca de armas químicas sírias; ou conspirações para roubar as eleições primárias de Bernie Sanders; ou armas iraquianas de destruição em massa; ou o paradeiro de Osama Bin Laden – porque os factos exigem precisão e rigor ao passo que eles preferem habitar no reino da pura fantasia e do capricho. Nisto, seu objectivo real é facilmente discernível.

O objectivo da inteligência estado-unidense é sugar toda a riqueza que resta para fora dos EUA e dos seus aliados e embolsar tanto quanto possível. Enquanto finge defendê-la de agressores fantasmas, esbanja recursos financeiros inexistentes (tomados emprestados) em ineficazes operações militares e sistemas de armas super-facturados. Onde os agressores não são fantasmas, eles são especialmente organizados para o objectivo de conseguirem alguém que os substitua a combater: terroristas "moderados" e assim por diante. Um grande avanço nesta arte tem sido a mudança de operações de falsa bandeira reais, à la 11/Set, para operações de falsa bandeira falsas, à la ataque químico de Gouta Leste na Síria (já totalmente desacreditado). A história de interferência eleitoral russa talvez seja o passo final nessa evolução: nenhum arranha-céu de Nova York ou criança síria foi prejudicado no processo de cozinhar essa falsa narrativa. E ela pode ser mantida vivo aparentemente para sempre apenas através do esforço furioso de numerosas bocas a palrarem. Trata-se agora de um esquema de pura confiança na fraude. Se diante disso ficar pouco impressionado com as suas narrativas inventadas, então você é um teórico da conspiração ou, na reavaliação mais recente, um traidor.

Trump foi recentemente questionado sobre se confiava na inteligência dos EUA. Ele tartamudeou. Uma resposta jovial teria sido:

"Que tipo de idiota é você para me fazer uma pergunta tão estúpida? Claro que eles estão mentindo! Eles foram apanhados a mentir mais de uma vez e, portanto, já não se pode mais confiar neles. A fim de afirmar que eles actualmente não estão mentindo, é preciso determinar quando é que deixaram de mentir e que não mentiram desde então. E isso, na base da informação disponível, é uma tarefa impossível".

Uma resposta mais séria, atendo-se à matéria de facto, teria sido:

"As agências de inteligência dos EUA fizeram uma alegação ultrajante: de que entrei em conivência com a Rússia para falsificar o resultado da eleição presidencial de 2016. O ónus da prova cabe a eles. Eles ainda têm de provar seu caso num tribunal de justiça, o qual é o único lugar onde o assunto pode legitimamente ser resolvido, se é que pode ser resolvido de todo. Até que isso aconteça, devemos tratar sua afirmação como teoria da conspiração, não como um facto".

E uma resposta dura e impassível teria sido:

"Os serviços de inteligência dos EUA fizeram um juramento de defender a Constituição dos EUA, segundo a qual sou o seu Comandante-em-chefe. Eles reportam-se a mim, não eu a eles. Eles devem ser leais a mim, não eu a eles. Se eles são desleais a mim, então isso é razão suficiente para a sua demissão".

Mas nenhum diálogo prático com base na realidade parece possível. Tudo o que ouvimos são respostas falsas a perguntas falsas e o resultado é uma série de decisões falhas. Com base em inteligência falsa, os EUA passaram quase todo este século envolvidos em conflitos muito caros e, em última instância, fúteis. Graças aos seus esforços, o Irão, o Iraque e a Síria formaram um crescente contínuo de estados alinhados religiosa e geopoliticamente, amistosos em relação à Rússia, ao passo que no Afeganistão os Taliban estão a ressurgir e a combater o Estado Islâmico – uma organização que se constituiu graças aos esforços americanos no Iraque e na Síria.

O custo total das guerras até agora neste século para os EUA é de US$4.575.610.429.593. Dividido pelos 138.313.155 americanos que preenchem declarações fiscais (se eles realmente pagam algum imposto é uma questão demasiado subtil), isso equivale a pouco mais de US$33 mil por contribuinte. Se pagar impostos nos EUA, essa é a sua conta até agora para os vários "acidentes" da inteligência dos EUA.

As 16 agências de inteligência dos EUA têm um orçamento combinado de US$66,8 mil milhões e isso parece muito até que se perceba quão supremamente eficientes são elas: seus "erros" custaram ao país cerca de 70 vezes seu orçamento. Com um nível de pessoal de mais de 200 mil empregados, cada um deles custou ao contribuinte dos EUA perto de US$23 milhões, em média. Esse número é totalmente aproximativo! O sector de energia tem os mais altos ganhos por empregado, em torno de US$1,8 milhão per capita. A Valero Energy destaca-se com US$7,6 milhões per capita. Com US$23 milhões, a comunidade de inteligência dos EUA tem ganho três vezes melhor que a Valero. Tiremos o chapéu! Isso torna a comunidade de inteligência dos EUA, de longe, o melhor e mais eficiente condutor imaginável rumo ao colapso.

Há duas hipóteses possíveis para explicar porque assim é.

Primeiro, podemos nos aventurar a imaginar que essas 200 mil pessoas são grosseiramente incompetentes e que os fiascos que elas desencadeiam são acidentais. Mas é difícil imaginar uma situação em que pessoas grosseiramente incompetentes consigam ainda assim canalizar US$23 milhões, em média, para uma variedade de empreendimentos fúteis de sua escolha. E é ainda mais difícil imaginar que seria permitido a tais incompetentes poderem cometer erros crassos década após década sem serem chamadas à pedra pelos seus erros.

Uma outra hipótese, muito mais plausível, é que a comunidade de inteligência dos EUA tem feito um trabalho maravilhoso para levar o país à bancarrota e conduzi-lo ao colapso financeiro, económico e político ao forçá-lo a participar de uma série interminável de conflitos caros e fúteis – o maior acto contínuo de grande furto já experimentado no mundo. Como é que isso pode ser uma coisa inteligente a fazer para o seu próprio país, em qualquer definição concebível de "inteligência", deixarei para si o cuidado de elaborar. Enquanto estiver nisto, também pode querer chegar a uma melhor definição de "traição": algo melhor do que "uma atitude céptica em relação a alegações ridículas e não comprovadas feitas por aqueles que são conhecidos como mentirosos perpétuos".

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O tiro ao Robles

  por estatuadesal

(Paulo Casaca, in Jornal Tornado, 30/07/2018)

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Cada vez me sinto mais dissociado desta tendência da humanidade em reagir como cardume de piranhas ao sentir a presença de sangue na água, e essa tendência faz-se sentir em todas as latitudes, com a opinião pública a devorar qualquer figura pública apanhada em falso com um frenesim que só me faz lembrar essa espécie.

Para animar o noticiário de um Verão em que a vaga de calor e os consequentes incêndios rumaram para outras paragens, surgiu assim a história dos negócios imobiliários do vereador lisboeta do Bloco de Esquerda, que nada tem de actual mas que tem tudo de picante. Aparentemente, tudo ou quase tudo foi dito sobre o assunto, e no entanto, creio que tudo o que é essencial ficou por dizer, e é por isso que volto ao tema.

A primeira nota é no plano partidário. Acho que pessoalmente ficou muito bem à líder bloquista a defesa cerrada que fez do seu colega de partido, com um toque de solidariedade partidária que já não se via há muito tempo, embora não seja menos verdade que – do ponto de vista do partido – a sua atitude foi indefensável e suicidária. O episódio no entanto evidencia o disfuncionamento do sistema partidário nacional em que se vota apenas em siglas e não em pessoas.

A segunda nota é a de que na dissociação total entre a prática e o discurso do vereador, toda a gente trucidou a sua prática e poupou o discurso, e estou em crer que o mais aberrante não foi a prática mas o discurso que ataca todo o investimento imobiliário e o turismo como se estes fossem a doença do país em vez de serem a sua boia de salvação.

O problema não é o então deputado municipal ter comprado barato, é o Estado – e note-se que a segurança social era então gerida pela coligação de direita – ter desbaratado o seu património a preços de saldo. Como é possível que ninguém no Governo tenha entendido que o seu papel é vender o imobiliário quando o seu preço aquece e não quando arrefece, tanto como forma de regular o mercado como por forma a defender o interesse público?

E porque razão o leilão não foi divulgado internacionalmente? O discurso patrioteiro quer apenas dizer que os pobres (que dependem da segurança social) pagam as oportunidades para as fortunas dos ricos. Esse discurso é profundamente reacionário, e faz parte da deriva global da nossa extrema-esquerda para a extrema-direita.

Dir-se-á ainda, por que razão não exerceu a Câmara Municipal de Lisboa o seu direito de opção de compra? Na teoria, acho muito bem que a edilidade intervenha, reservando socialmente parte da habitação a recuperar, mas basta lembrar-nos do total clientelismo com que o município gere o seu parque habitacional, para dizer que nas condições presentes isso iria apenas agravar ainda mais as injustiças sociais.

A terceira nota é a de que esse discurso demagógico e reaccionário contra o investimento, a modernização e o turismo do “Bloco de Esquerda” foi copiado pela quase totalidade do espectro político. Atente-se aliás aos termos burlescos do comunicado público do PSD que exige a demissão do vereador pelo crime de especulação imobiliária e não pelo que faria sentido, pela falta de sustentação prática do seu discurso.

Reduzir este episódio ao trucidar do Bloco de Esquerda apenas poderá contribuir para que tudo continue na mesma, com a mesma hipocrisia, a mesma cedência demagógica aos argumentos primários e o mesmo clientelismo que são iguais em todos os partidos.

A quarta nota é para o que significa a “especulação imobiliária”. Quem tenha lidado com a literatura do princípio do século XX terá certamente reparado que a generalidade do investimento em novas actividades, nomeadamente industriais, era apelidado de “especulativo”, e hoje regressámos quase ao mesmo.

Em geral, o investimento é feito com base em especulação, ou seja, com base na hipótese de o mercado responder às expectativas dos investidores. Isso só não é assim em contratos ruinosos para o erário público como os feitos sob a sigla de PPP em que o investidor fica com os lucros garantidos pelo Estado e este com os riscos e as dívidas.

O problema da especulação imobiliária lisboeta é outro, que não o de especular no comportamento do mercado. É o de o investidor partir do princípio que o mercado sobe sempre e, como um inquilino é sempre uma maçada, manter um prédio velho e inabitável no centro da cidade é um bom investimento.

A quinta nota é relativa ao comportamento exorbitante do mercado imobiliário da capital. Creio que devemos encarar o problema em duas vertentes distintas:

  1. A primeira é a da gestão da conjuntura que neste particular deveria ser feita pelo Banco de Portugal. Todos sabemos que uma das principais razões para a violência da crise de 2008 foi a febre imobiliária portuguesa. Menos entendido é o facto de isso ter sido particularmente mais grave em Portugal do que noutros países por ter sido alimentado por créditos internacionais concedidos à banca portuguesa que serviram simultaneamente para cobrir o défice das contas externas. Por outras palavras, o défice externo português é a outra face da febre imobiliária. Sabendo-se isso, sabendo-se que a única forma que na UEM temos de combater essas derivas é através da acção do banco central, é absolutamente incompreensível que este tenha voltado a deixar que voltássemos ao mesmo sem nada fazer, ou melhor, limitando-se a fazer umas hipócritas e ridículas pregações morais “contra o crédito imobiliário excessivo” depois do tempo e sem as acompanhar de medidas.
  2. A segunda vertente é a de existir uma procura real e estrutural de habitação na capital. É incompreensível que não existam programas públicos de recuperação e de construção de novas habitações – e o espaço existe em Lisboa – como forma de responder à procura. É claro que parte dessa habitação pode e deve ter fins sociais se assegurarmos a instituição de mecanismos de transparência e de rigor.

São cinco lições essenciais que creio que seria mais útil tirar do que alimentarmos o mórbido hábito de malhar em quem está caído no chão.