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sábado, 4 de agosto de 2018

O humanismo e as suas lições

  por estatuadesal

(António Guerreiro, in Público, 03/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

A revelação pública de que Os Maias é uma peça móvel no cânone literário dos programas escolares (podendo ser substituído por outro livro de Eça de Queirós) tem dado motivo a lições públicas de humanismo, ao qual devemos responder: mais urgente do que repor a obrigatoriedade do ensino de Os Maias (questão sobre a qual só tenho vagas opiniões e que não será, portanto, o assunto deste texto), é proteger a literatura – não apenas esse romance de Eça – de tais defensores.

O humanismo, como sabemos, tem a necessidade de ministrar lições. Sem essa vocação, ele definha. A mais exaltada e grandiloquente lição de humanismo que nos últimos dias nos foi ministrada à boleia deste pequeno escândalo é da autoria de Sérgio Sousa Pinto e foi pronunciada no último Expresso com o título A Natureza Humana e os Seus Inimigos.

Sobre a “natureza humana” não me vem nada à cabeça, mas tal como a vislumbro no artigo do nosso humanista declaro-me convictamente seu inimigo. Este humanismo que administra lições tem um ideal que é a cegueira restaurativa, sem jamais conseguir pensar as próprias condições de possibilidade de restaurar o que pretende restaurar.

No texto de Sousa Pinto, podemos perceber que, no fundo, se trata de restaurar o sentido das chamadas “Humanidades”, aquela ideia europeia da educação humanista que na Alemanha correspondeu à figura da Bildung.

Evidentemente, tudo isto é formulado com a linguagem espontânea do humanista ingénuo e universal, incapaz de pensar para além da sua experiência e das suas impressões. Aparentemente, ele julga que a ruína dos valores de humanidade na educação escolar é um fenómeno recente e perpetrado por malfeitores facilmente identificáveis.

O nosso humanista, como muitos outros iguais a ele, vê algumas estrelas, mas jamais conseguirá ver a constelação. A estrela é Os Maias, relativizado no cânone escolar, mas a constelação, o pano de fundo onde tudo isto se projecta e que nenhum humanista — tão rico em boas intenções como indigente no pensamento — consegue restaurar é o lugar que a literatura teve outrora e os studia humanitatis que lhe correspondiam.

A condição da literatura é hoje uma condição póstuma. Tem uma condição póstuma na escola, na universidade, nas editoras, nas livrarias, nas páginas deste jornal e de todos os outros. Esta é a verdade que um humanismo míope como aquele que se exprime no artigo de Sérgio Sousa Pinto não consegue ver.

E é a partir desta condição, por muito desencantada que ela seja, que deve ser pensado um projecto pedagógico que, hoje, já não pode partir do princípio de que a escola ainda é capaz de sustentar qualquer ideal identitário e cultural (no sentido humanista), de modo a que o estudo da tradição literária, enquanto instrumento privilegiado para reconhecer uma continuidade com o passado, possa resumir o sentido global da vida nacional. Não é por acaso que o “escândalo” tem como motivo Os Maias, tal como há alguns anos o motivo foi Os Lusíadas.

Entre a “choldra” e a glorificação épica, o nosso coração balança. Quem nada sabe da condição póstuma da literatura, também não consegue decifrar muitos outros sinais desta condição. Basta olhar para os programas e os exames de Literatura do ensino secundário para perceber que já ninguém sabe como lidar com aquela “coisa” irrestaurável que tem cada vez menos espaço na cultura global e como continuar a conceder-lhe a função formativa de outrora quando ela é deslegitimada por outros media que agem sobre os alunos com muito mais força. Perante tudo isto, a tagarelice humanista que administra lições parece uma representação cómica.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Os nossos erros e o oportunismo de outros

  por estatuadesal

(José Soeiro, in Expresso Diário, 03/08/2018)

soeiro

José Soeiro

Comecemos pelo fim. Sim, o negócio da família de Robles, como esteve para ser feito no ano passado, entrava em contradição com o que o Bloco defende para a cidade. Sim, nós somos o que defendemos e as posições por que lutamos, mas somos também o que fazemos. E se quem é de esquerda não tem de viver num planeta paralelo e muito menos de ser um asceta, convém que aquilo que fazemos contribua o mais possível para o tipo de mundo por que lutamos, e não para o tipo de sociedade que combatemos. Havia pois uma incongruência entre a intenção de fazer aquele negócio e o programa que o vereador defendia. Robles não retirou privilégios do seu cargo e, como se sabe, os apartamentos de Robles não foram vendidos. Mas existiu a possibilidade de o serem, isso minou a confiança das pessoas e justifica a renúncia de Robles. O Bloco errou na sua análise e reação inicial? Sim. Errámos. Só não reconhece o erro quem não está disposto a corrigi-lo.

É certo que este episódio não apaga a prestação do Bloco na Câmara de Lisboa nos últimos 9 meses: as propostas justas sobre creches públicas (380 vagas a ser abertas), acesso gratuito a manuais escolares, direitos LGBTQ+, saúde pública, redução de riscos (e a primeira sala de consumo assistido do país que será aberta), regulação do turismo e acesso à habitação (o Programa Renda Apoiada, negociado por Robles, prevê a disponibilização de 3 mil fogos durante o mandato e a oferta de mais 400 camas/ano em residências universitárias). Só que o exercício de um mandato não depende apenas das propostas, mas também de confiança - e a congruência conta. Concordo que não devemos desvalorizar isso. Sermos mais exigentes connosco à esquerda é normal. A política e a vida não são duas coisas separadas. E mal estaremos quando forem.

Para além do que ficou dito, há outras duas questões importantes a propósito deste caso, colocadas por dirigentes de outros partidos.

Uma delas explicitou-a João Ferreira, vereador do PCP em Lisboa: “Para nós, a questão relevante não é o caso individual, mas é o facto de este caso evidenciar, tal como muitos outros, a dinâmica de especulação em que a cidade está mergulhada”, disse o dirigente comunista. Na verdade, pergunta-se, então: por que razão o coro dos indignados com a “intenção especuladora da família Robles” não se indigna com as operações especulativas já realizadas ou em vias de se realizar pela cidade? A resposta é simples: uma grande parte dos que utilizaram o “caso Robles” para berrar contra a especulação estão-se pura e simplesmente nas tintas para a especulação, quando não mesmo a glorificam. O seu interesse era outro: zurzir e desacreditar o Bloco, por ser justamente um partido que tem feito um combate sem tréguas à especulação através das suas propostas, e que tem hoje um papel determinante no país e na solução política que existe. Notícias e comentários ridículos que, dias depois, foram publicados ou as declarações indecorosas de Assunção Cristas (a responsável da lei que mais promoveu o fenómeno) são eloquentes a esse propósito.

A segunda questão colocou-a Rui Rio – alguém com quem estou quase sempre em desacordo – quando disse esperar que a decisão de Ricardo Robles “sirva de exemplo a pessoas noutros partidos, que com coisas ainda piores, às vezes até do foro judicial, não tomam a mesma atitude”. O desafio é forte: gostaria de dizer que ansiamos todos uma enxurrada de notícias sobre os responsáveis políticos dos vários partidos com negócios ligados ao imobiliário ou à turistificação e uma catadupa de demissões. Mas desconfio que nada disso vai acontecer. O desafio de Rui Rio vai cair em saco roto e muitos dos que se aproveitaram do caso para destilar o seu ódio contra o Bloco não só não querem que isso aconteça como se empenharão ativamente para que isso não possa jamais acontecer.

Esta é a parte de enorme hipocrisia que, à boleia do caso Robles, transbordou nos últimos dias. Onde está este coro de indignados relativamente ao veto do Presidente, esta semana, a uma lei proposta pelo Bloco e aprovada pelo PS, Bloco, PCP, Verdes e PAN, que protege os inquilinos e que combate a especulação, dando aos moradores o direito de preferência?

Como é evidente, todas as leis podem sempre ser melhoradas. Mas ao adiar a promulgação, Marcelo desprotege gravemente os moradores: daqui até setembro, que é quando a lei voltará a ser discutida, a Fidelidade terá o tempo de concluir o negócio que envolve 277 imóveis e mais de 2000 frações, pondo em causa o direito à habitação de centenas de famílias. Isto é gravíssimo. A proteção deste negócio especulativo pelo Presidente já mereceu o aplauso do CDS e do PSD (e, mais discreto, mas não menos relevante, do fundo imobiliário Apolo, que comprará os imóveis). As famílias sabem com quem contam e com quem não contam para lutar pelos seus direitos. Seria bom que a indignação explodisse também a propósito disto.

Estes episódios, ensinam-nos por isso também alguma coisa sobre dirigentes políticos e colunistas cuja indignação é seletiva e cujo duplo padrão em termos de exigência é uma máscara para o oportunismo. A política não pode, evidentemente, ser um exercício de clubismo ou de lealdades afetivas: é curiosidade, humildade, capacidade de aprender com o que fazemos. Mas a política é combate. E não nos deixemos distrair: ele está aí – e em força.

Ladrões de Bicicletas


Moralidade e política amoral

Posted: 03 Aug 2018 12:43 AM PDT

Sobre o último caso, que creio encerrado (erros cometem-se e corrigem-se), perdura uma ideia que se vai afirmando quase sem discussão.
É a ideia de que o debate político deve abster-se de considerações de ordem moral; a ideia de que o debate político deve abdicar da moral, e abdicando dela, supõe-se, a política deve ser amoral. Ao mesmo tempo parece emergir um policiamento da linguagem, como se estas questões se dirimissem através de uma autoinfligida, ou mesmo imposta, disciplina, havendo quem se insurja contra o uso de termos como especulação, despejos, poder, interesses, capitalistas (depreende-se que também trabalhadores, embora já em desuso com a força do novo léxico dos colaboradores e afins). Só falta mesmo proibir o uso de expressões como capitalismo ou neoliberalismo. Ficam as “políticas públicas”, espaço tecnocrático onde se opera uma pretensa separação entre factos e valores. Ilusão posta em causa há muito na filosofia e em outros estudos da ciência, já que factos e valores estão entrelaçados.
Esta discussão também já foi travada na economia a propósito dos mercados, supostamente neutros, cuja única missão seria a de realizar uma afetação eficiente de recursos perante a oferta e procura, que se tomam como um dado, dispensando-se a discussão das regras políticas que estruturam os próprios mercados, bem como os pontos de partida e de chegada dos seus vários intervenientes.
Que esta discussão esteja a ser transposta para o debate explicitamente político, parece augurar um novo momento de imperialismo económico neste domínio, em que a política se deve remeter à discussão pretensamente técnica dos custos e benefícios pecuniários de propostas alternativas, deixando de lado as questões do poder e dos valores.
Contudo, as políticas, por definição, visam explicitamente produzir mudanças institucionais e logo têm impacto sobre as relações de força sociais e sobre os valores que são nutridos ou ameaçados.
Como nos mercados, convocam-se questões de economia política e de economia moral, porque se decide o modo como se organiza a vida em sociedade, e logo os interesses que são protegidos e os que são postos em causa (proprietários versus inquilinos, por exemplo). Mas as políticas também veiculam valores (de lógicas mais individualistas às mais coletivistas).
A eliminação no debate político das questões de poder e dos valores e o policiamento da linguagem só servem o status quo. Compreendo que certa direita defenda a política pretensamente amoral, mas a esquerda não se pode deixar enganar.
Pode entender-se que há uma diferença entre as propostas de políticas e os comportamentos dos políticos que as defendem, mas esta separação é tão artificial quanto imoral.
Quanto à chamada violência verbal das esquerdas, fica a pergunta: quais são então as palavras adequadas para denunciar a violência deste sistema?

«Sou um economista social-democrata radical»

Posted: 02 Aug 2018 06:16 PM PDT

«Defino-me como um economista político institucionalista. Olho para a economia como um sistema aberto influenciado em permanência por variáveis institucionais, legais, políticas, ambientais, tecnológicas e que assume que a única forma de compreender devidamente as economias é levar em consideração estes vários factores. Implica uma atitude de abertura em relação a outras ciências sociais e grande consciência do aspecto contingencial de qualquer processo económico. Sou um economista de esquerda na medida em que tenho uma determinada visão de esquerda, posiciono-me enquanto social-democrata radical, o que significa que aceito a economia de mercado, mas também parto do pressuposto de que a economia de mercado para funcionar de forma eficiente e justa exige que seja fortemente impura. Ou seja, que na sociedade, a lógica de mercado não se imponha a todas as esferas da vida humana. (...) Há um livro que acho uma metáfora magnífica para perceber a ciência económica, O Jogo das Contas de Vidro, do Hermann Hesse. Conta a história de um mestre desse jogo mais ou menos hermético ao qual se dedica uma comunidade de génios. Jogavam aquele jogo de manhã à noite, demoravam muitos anos até se tornarem peritos, porque é um jogo de sofisticação crescente, e quanto mais anos passavam naquela comunidade mais sofisticados e geniais se tornavam, mas também mais dificuldade tinham em viver no mundo secular porque tinham pouca capacidade para perceber as regras, as dinâmicas, as lógicas. E há o momento em que a personagem principal chega a mestre mágico do jogo das contas de vidro e é colocado no mundo secular. Apercebe-se que a sua genialidade e a sua posição de topo naquela comunidade é-lhe absolutamente inútil para compreender o mundo complexo que é a vida real. Isto, infelizmente, é um retrato muito próximo de como vivem muitos economistas académicos.»
Da entrevista de Isabel Lucas a Ricardo Paes Mamede no Público de ontem (e que vale muito a pena ler na íntegra).

Do Estado desintegrado

Posted: 02 Aug 2018 09:13 AM PDT

O Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) é a enésima ilustração de como, PPP a PPP, privatização a privatização, se desintegrou um velho Estado. No trágico ano passado, todo um trajecto sórdido, que começou entre a Sociedade Lusa de Negócios e o governo, ficou à vista de um país também, desta forma, mais inseguro.
Um ano depois, uma empresa construída pelo Estado estratega e destruída pelo Estado predador, a antiga PT, agora Altice Portugal, na mão de estrangeiros, acaba de declarar, com toda arrogância de que o capital sem freios e contrapesos é capaz, que o Estado português é um “parceiro” do SIRESP. Um parceiro, notem. Minoritário, notem. A confirmar-se, é a impotência democrática total neste governo de demasiados anúncios: nem o SIRESP querem, conseguem, controlar publicamente.
Quando escrevo isto, uma torrente de palavras feias, que estou proibido, e bem, de escrever pelas regras deste blogue, desce até às pontas dos dedos. Este caso parece ser tão expressivo. O desespero passará.

Os robots são amigos do emprego... que há-de vir

Posted: 02 Aug 2018 07:44 AM PDT

Cardume de tainhas à boca de uma ribeira que vai dar ao Tejo

Este vídeo não resolve todos os problemas do futuro, mas faz sentir um pouco estúpido quem hoje teme os robots de amanhã.
No outro dia, encontrei um jornalista de um grande meio de comunicação social. E sem que eu perguntasse muito, falou-me que, mal chegasse à redacção, tinha já um email dos chefes com uma vintena de trabalhos para escrever nesse dia para o online desse meio de comunicação social.
- Isso parece um pouco encher chouriços...
- Totalmente.
- E os editores mudam os textos?
Encolheu os ombros:
- Mudam textos, títulos, tudo para parecer apetecível. Ás vezes, lá temos uns serviços e é quando me sinto feliz por estar fora da redacção. Mas depois quando voltamos aquilo que trazemos não condiz com que eles prepararam. E temos de adaptar o que se trouxe ao que eles tinham já pensado. É preciso é que dê muitos clicks, que há-de dar mais publicidade, que há-de trazer mais dinheiro para a empresa.
E depois disse algo que me ficou:
- A dívida da empresa é tão elevada que hoje trabalhamos para os bancos.
Parece que a realidade pouco importa. Para lá do facto de haver já uma sobreposição entre as funções do jornalista com as preocupações da administração - o que seria um escândalo há uns 15 anos atrás - na verdade todo este desconchavo é um esforço inglório: a Google e o Facebook vão absorvendo cada vez mais publicidade da comunicação social, cerceando a sua actividade, sem que o poder político pense nisso.
E todos os meios de comunicação social ficaram endividados ao sector financeiro. Acho que já escrevi antes, mas há uns anos o presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social, então Carlos Magno, contou numa audiência de estudantes que fora chamado ao governador do Banco de Portugal (Carlos Costa) que lhe mostrou um documento. O documento revelava como todos os meios de comunicação social estavam endividados e dependentes do sector financeiro.
Se algum jornalista está a ler este texto, esse documento é - por lei de acesso aos documentos administrativos - precisamente um documento administrativo que pode ser pedido, deste que não contenha elementos nominativos. O pedido deve frisar esse aspecto e a entidade - o Banco de Portugal - é forçado a dá-lo, expurgado desses elementos (qualquer dúvida, faça um comentário que eu respondo).
Mas aquela conversa com o jornalista dá uma ideia do tipo de trabalho idiota que os robots podem substituir e libertar os verdadeiros jornalistas para trabalhos mais lentos e menos mecânicos, mais reflexivos e interessantes! E que os tornem menos redundantes, menos escravos (cada vez mais baratos, aliás) e menos máquinas humanas.
Assim o queira o sector financeiro.

E isso em vez de venderem computadores (ainda que em programas sobre tecnologia), equipamentos vários, Ipads, Ipods, automóveis, viagens, hotéis, usando a imagem conhecida e a seriedade que deve ter um jornalista ou de um pivot televisivo. São práticas que, por sinal, estão impedidos pelo seu estatuto, mas que ficam naquela zona cinzenta entre publireportagem e a opinião crítica do jornalista, de serviço público para avisar o... consumidor. Resta dizer que, muitas vezes, o produto divulgado é oferecido ao jornalista. Às vezes mesmo sem que tenha de fazer alguma coisa. Há uns tempos, era o caso de telemóveis que os editores recebiam de presente.

Trump volta a atacar media depois de críticas das Nações Unidas: “São as ‘fake news’, falsas e nojentas”

HÁ 33 MINUTOS

Presidente dos EUA reforçou a retórica contra a comunicação social horas depois de representantes da ONU terem feito críticas ao que chamam de "ataques estratégicos" contra a liberdade de imprensa.

Donald Trump no comício em Wilkes-Barre, Pensilvânia

AFP/Getty Images

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O Presidente norte-americano, Donald Trump, reforçou as críticas aos media norte-americanos num comício realizado na noite de quinta-feira, algumas horas depois de dois representantes das Nações Unidas terem feito um comunicado a alertar para o risco de as declarações de Trump minarem a liberdade de imprensa nos Estados Unidos.

“O que é que aconteceu à imprensa livre? O que é que aconteceu ao jornalismo honesto? Eles não o fazem. Só inventam histórias.” Esta foi uma das frases utilizada pelo Presidente durante um comício em Wilkes-Barre (Pensilvânia) a favor do candidato republicano ao Senado Lou Barletta, apontando para a zona de imprensa presente no pavilhão.

O discurso de Trump na noite de quinta-feira centrou-se sobretudo na análise da cobertura que os órgãos de comunicação social fazem da sua presidência e deu exemplos concretos. Referindo-se à cobertura feita do seu encontro com a Rainha Isabel II no Reino Unido, o Presidente afirmou que houve uma “boa química” entre ele e a Rainha, mas que, em vez de noticiar isso, os jornalistas se concentraram no seu atraso. “Tornam tudo mau. Porque eles são as ‘fake news’, falsas e nojentas”, declarou.

Outro dos exemplos apontados por Trump foi a forma como os seus encontros com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e com o Presidente russo, Vladimir Putin, foram analisados. “Eles queriam que eu chegasse lá e tivesse um combate de boxe. O que é que aconteceu à diplomacia?”, questionou. Sobre o diferendo com a Coreia do Norte, o Presidente ilustrou a situação reproduzindo o que disse à sua mulher, Melania Trump, depois do encontro com Kim, como descreve o The Guardian:

Parei os lançamentos de mísseis a cada dois segundos. E querida, consegui trazer os reféns de volta. E sabes que mais, querida, eles já não estão a fazer mais testes nucleares. Os media vão finalmente tratar-me bem.” Em vez disso, diz, só recebeu “negativismo”.

O discurso do Presidente aconteceu no mesmo dia em que dois especialistas nomeados pelas Nações Unidas para o Conselho dos Direitos Humanas e para a Comissão dos Direitos Humanos Inter-Americana terem criticado duramente o que classificaram de “ataques estratégicos” de Trump aos media. “Estes ataques são contrários às obrigações do país de respeitar a liberdade de imprensa e a lei de direitos humanos internacional”, declararam David Kaye e Edison Lanza em comunicado.

“Ele não conseguiu provar nem sequer uma vez que uma notícia em particular tenha sido motivado por outras razões inconvenientes”, disseram os representantes da ONU, destacando que tal atitude “mina a confiança no jornalismo e levanta dúvidas sobre dados verificáveis”.

Neste mesmo dia, a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee-Sanders, protagonizou outro momento de tensão com o correspondente da CNN na Casa Branca. Instada pelo jornalista Jim Acosta a declarar taxativamente que os media não são “o inimigo do povo”, como Trump já declarou, Sanders recusou-se a fazê-lo: “Que eu saiba, sou a primeira secretária de imprensa na História dos Estados Unidos que precisa de proteção dos Serviços Secretos”, afirmou, segundo a Time, acusando os jornalistas de estarem a aumentar os “ataques verbais contra o Presidente e todos os membros da sua administração”.

Acosta abandonou a conferência de imprensa, classificando as declarações de Sanders como “vergonhosas”.

Também neste dia a própria filha do Presidente, Ivanka Trump, foi instada a comentar se concorda com o Presidente no uso da expressão “inimigos do povo” relativamente aos jornalistas. “Sem dúvida que recebi a minha dose de notícias sobre mim que eu sabia não serem totalmente rigorosas, por isso tenho alguma sensibilidade relativamente a pessoas que mostram preocupação e queixas, especialmente quando se sentem atacadas”, declarou, segundo o Washington Post. “Mas não, não considero os media inimigos do povo.”

O Presidente reagiu à frase da filha, que considerou acertada. “As ‘FAKE NEWS’ [notícias falsas], que são uma grande percentagem dos media, é que são o inimigo do povo!”, explicou.

A expressão já tinha sido debatida ao longo dos últimos dias desde que o publisher do New York Times, A.G. Sulzberger, revelou que pediu ao Presidente que parasse de usar a expressão “inimigo do povo” e que alertou para o perigo do seu discurso.

Entre as brumas da memória


Google na China

Posted: 02 Aug 2018 01:45 PM PDT

Google sob críticas por planear motor de busca censurado para a China.

A pouco e pouco, a censura entra como piolho por costura e a democracia esvai-se.

«De acordo com as notícias, o Google estará a criar, em articulação com as autoridades chinesas, uma aplicação para Android com um motor de busca que vai filtrar os resultados que não agradam ao regime de Pequim. Isto inclui referências a opositores políticos, e a temas como direitos humanos e religião.»

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Ryanair

Posted: 02 Aug 2018 10:45 AM PDT

Carta a tripulantes da Ryanair entregue a autoridades nacionais.

«Numa carta dirigida aos trabalhadores, a empresa referiu que não serão pagos vários componentes do salário, incluindo bónus de produtividade, e que as ausências são "levadas em conta, tal como outros fatores relevantes de desempenho em avaliações para oportunidades de promoções e de transferências".

Referindo que estas cartas dizem respeito a dias de greve, a dirigente sindical informou que foram entregues à ACT e ao ministério responsável pelas relações laborais.

"Na Ryanair, fazer greves tem algum tipo de consequências, estar doente tem consequências, não vender raspadinhas tem consequências, querer tirar licença, tem consequências para tripulantes. Aparentemente só não há consequências para a administração".»

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Assim vai a Itália

Posted: 02 Aug 2018 05:49 AM PDT

Salvini singe de plus en plus Mussolini et libère la violence raciste.

«Réagissant à la une du magazine catholique "Famiglia Cristiana" la semaine dernière, qui titrait "Vade retro Salvini", Salvini a répliqué par un tweet, le jour de l'anniversaire de Mussolini, né le 29 juillet 1883 : "Tanti nemici, molto onore", "Beaucoup d'ennemis, beaucoup d'honneur". Une variation du fameux "molti nemici, molto onore" que le "Duce" utilisa, paraît-il, lorsqu'il se sentit encerclé par les démocraties européennes.»

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O nosso general Rovisco

Posted: 02 Aug 2018 03:14 AM PDT

«Elvis Presley tinha um grande fascínio pelo mundo militar. Em 1970, em apenas três dias, gastou 20 mil dólares a comprar armas. O seu filme favorito, que revia múltiplas vezes, era "Patton: Lust for Glory", sobre o general americano que se tornou um herói nacional durante a II Guerra Mundial. Patton era considerado louco e sobre ele poderia mesmo aplicar-se as palavras do rei Jorge II, que não morria de amores pelos militares que o cercavam, sobre o general Wolfe: "Ele é louco? Então eu desejaria que ele pudesse morder alguns dos meus outros generais." Não consta que tenha cumprido os desejos do rei. Já Patton acreditava que era a reencarnação de Aníbal, o general de Cartago, considerado "o rei da estratégia". O que levou alguns contemporâneos dele a dizer que ele "não estava bom da cabeça". A história assistiu à existência de todo o tipo de militares. Uns acabaram como heróis. Outros saíram pela porta mais pequena da memória. Mas nenhuma sociedade lhes ficou indiferente.

Portugal tem muito a dever aos seus militares. Mas também tem os seus "irritantes". O mais óbvio é o mistério de Tancos, novela policial que poderia ter sido escrita por Agatha Christie. Ou poderia ser mesmo um filme de Monty Python. A última cena desta obra foi agora desempenhada pelo general Rovisco Duarte, o homem que, sorridente, deu a boa nova aos portugueses de que todo o material "furtado" de Tancos tinha sido recuperado, até com o bónus de uma caixinha. Agora Rovisco Duarte foi ao Parlamento, disse que o Exército nunca deu garantias de que o material recuperado correspondia ao roubado e que a lista das armas e munições espoliadas estava em segredo de justiça, pelo que não a podia divulgar aos deputados. Parece que ninguém sabe o que aconteceu! O melhor momento foi quando disse, sem se rir: "Não sei o que estou aqui a fazer." Não sabe, nem nós sabemos porque ainda é CEME. E porque é que o incógnito Azeredo Lopes ainda é ministro da Defesa. Deve tratar-se de um lapso de comunicação, que ainda está, também, em segredo de justiça.»

Fernando Sobral

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Passos Coelho?

Posted: 01 Aug 2018 02:52 PM PDT

Passos Coelho vai ser professor catedrático na Universidade Lusíada.