Moralidade e política amoral
Posted: 03 Aug 2018 12:43 AM PDT

Sobre o último caso, que creio encerrado (erros cometem-se e corrigem-se), perdura uma ideia que se vai afirmando quase sem discussão.
É a ideia de que o debate político deve abster-se de considerações de ordem moral; a ideia de que o debate político deve abdicar da moral, e abdicando dela, supõe-se, a política deve ser amoral. Ao mesmo tempo parece emergir um policiamento da linguagem, como se estas questões se dirimissem através de uma autoinfligida, ou mesmo imposta, disciplina, havendo quem se insurja contra o uso de termos como especulação, despejos, poder, interesses, capitalistas (depreende-se que também trabalhadores, embora já em desuso com a força do novo léxico dos colaboradores e afins). Só falta mesmo proibir o uso de expressões como capitalismo ou neoliberalismo. Ficam as “políticas públicas”, espaço tecnocrático onde se opera uma pretensa separação entre factos e valores. Ilusão posta em causa há muito na filosofia e em outros estudos da ciência, já que factos e valores estão entrelaçados.
Esta discussão também já foi travada na economia a propósito dos mercados, supostamente neutros, cuja única missão seria a de realizar uma afetação eficiente de recursos perante a oferta e procura, que se tomam como um dado, dispensando-se a discussão das regras políticas que estruturam os próprios mercados, bem como os pontos de partida e de chegada dos seus vários intervenientes.
Que esta discussão esteja a ser transposta para o debate explicitamente político, parece augurar um novo momento de imperialismo económico neste domínio, em que a política se deve remeter à discussão pretensamente técnica dos custos e benefícios pecuniários de propostas alternativas, deixando de lado as questões do poder e dos valores.
Contudo, as políticas, por definição, visam explicitamente produzir mudanças institucionais e logo têm impacto sobre as relações de força sociais e sobre os valores que são nutridos ou ameaçados.
Como nos mercados, convocam-se questões de economia política e de economia moral, porque se decide o modo como se organiza a vida em sociedade, e logo os interesses que são protegidos e os que são postos em causa (proprietários versus inquilinos, por exemplo). Mas as políticas também veiculam valores (de lógicas mais individualistas às mais coletivistas).
A eliminação no debate político das questões de poder e dos valores e o policiamento da linguagem só servem o status quo. Compreendo que certa direita defenda a política pretensamente amoral, mas a esquerda não se pode deixar enganar.
Pode entender-se que há uma diferença entre as propostas de políticas e os comportamentos dos políticos que as defendem, mas esta separação é tão artificial quanto imoral.
Quanto à chamada violência verbal das esquerdas, fica a pergunta: quais são então as palavras adequadas para denunciar a violência deste sistema?

«Sou um economista social-democrata radical»
Posted: 02 Aug 2018 06:16 PM PDT
«Defino-me como um economista político institucionalista. Olho para a economia como um sistema aberto influenciado em permanência por variáveis institucionais, legais, políticas, ambientais, tecnológicas e que assume que a única forma de compreender devidamente as economias é levar em consideração estes vários factores. Implica uma atitude de abertura em relação a outras ciências sociais e grande consciência do aspecto contingencial de qualquer processo económico. Sou um economista de esquerda na medida em que tenho uma determinada visão de esquerda, posiciono-me enquanto social-democrata radical, o que significa que aceito a economia de mercado, mas também parto do pressuposto de que a economia de mercado para funcionar de forma eficiente e justa exige que seja fortemente impura. Ou seja, que na sociedade, a lógica de mercado não se imponha a todas as esferas da vida humana. (...) Há um livro que acho uma metáfora magnífica para perceber a ciência económica, O Jogo das Contas de Vidro, do Hermann Hesse. Conta a história de um mestre desse jogo mais ou menos hermético ao qual se dedica uma comunidade de génios. Jogavam aquele jogo de manhã à noite, demoravam muitos anos até se tornarem peritos, porque é um jogo de sofisticação crescente, e quanto mais anos passavam naquela comunidade mais sofisticados e geniais se tornavam, mas também mais dificuldade tinham em viver no mundo secular porque tinham pouca capacidade para perceber as regras, as dinâmicas, as lógicas. E há o momento em que a personagem principal chega a mestre mágico do jogo das contas de vidro e é colocado no mundo secular. Apercebe-se que a sua genialidade e a sua posição de topo naquela comunidade é-lhe absolutamente inútil para compreender o mundo complexo que é a vida real. Isto, infelizmente, é um retrato muito próximo de como vivem muitos economistas académicos.»
Da entrevista de Isabel Lucas a Ricardo Paes Mamede no Público de ontem (e que vale muito a pena ler na íntegra).

Do Estado desintegrado
Posted: 02 Aug 2018 09:13 AM PDT

O Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) é a enésima ilustração de como, PPP a PPP, privatização a privatização, se desintegrou um velho Estado. No trágico ano passado, todo um trajecto sórdido, que começou entre a Sociedade Lusa de Negócios e o governo, ficou à vista de um país também, desta forma, mais inseguro.
Um ano depois, uma empresa construída pelo Estado estratega e destruída pelo Estado predador, a antiga PT, agora Altice Portugal, na mão de estrangeiros, acaba de declarar, com toda arrogância de que o capital sem freios e contrapesos é capaz, que o Estado português é um “parceiro” do SIRESP. Um parceiro, notem. Minoritário, notem. A confirmar-se, é a impotência democrática total neste governo de demasiados anúncios: nem o SIRESP querem, conseguem, controlar publicamente.
Quando escrevo isto, uma torrente de palavras feias, que estou proibido, e bem, de escrever pelas regras deste blogue, desce até às pontas dos dedos. Este caso parece ser tão expressivo. O desespero passará.

Os robots são amigos do emprego... que há-de vir
Posted: 02 Aug 2018 07:44 AM PDT

Cardume de tainhas à boca de uma ribeira que vai dar ao Tejo
Este vídeo não resolve todos os problemas do futuro, mas faz sentir um pouco estúpido quem hoje teme os robots de amanhã.
No outro dia, encontrei um jornalista de um grande meio de comunicação social. E sem que eu perguntasse muito, falou-me que, mal chegasse à redacção, tinha já um email dos chefes com uma vintena de trabalhos para escrever nesse dia para o online desse meio de comunicação social.
- Isso parece um pouco encher chouriços...
- Totalmente.
- E os editores mudam os textos?
Encolheu os ombros:
- Mudam textos, títulos, tudo para parecer apetecível. Ás vezes, lá temos uns serviços e é quando me sinto feliz por estar fora da redacção. Mas depois quando voltamos aquilo que trazemos não condiz com que eles prepararam. E temos de adaptar o que se trouxe ao que eles tinham já pensado. É preciso é que dê muitos clicks, que há-de dar mais publicidade, que há-de trazer mais dinheiro para a empresa.
E depois disse algo que me ficou:
- A dívida da empresa é tão elevada que hoje trabalhamos para os bancos.
Parece que a realidade pouco importa. Para lá do facto de haver já uma sobreposição entre as funções do jornalista com as preocupações da administração - o que seria um escândalo há uns 15 anos atrás - na verdade todo este desconchavo é um esforço inglório: a Google e o Facebook vão absorvendo cada vez mais publicidade da comunicação social, cerceando a sua actividade, sem que o poder político pense nisso.
E todos os meios de comunicação social ficaram endividados ao sector financeiro. Acho que já escrevi antes, mas há uns anos o presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social, então Carlos Magno, contou numa audiência de estudantes que fora chamado ao governador do Banco de Portugal (Carlos Costa) que lhe mostrou um documento. O documento revelava como todos os meios de comunicação social estavam endividados e dependentes do sector financeiro.
Se algum jornalista está a ler este texto, esse documento é - por lei de acesso aos documentos administrativos - precisamente um documento administrativo que pode ser pedido, deste que não contenha elementos nominativos. O pedido deve frisar esse aspecto e a entidade - o Banco de Portugal - é forçado a dá-lo, expurgado desses elementos (qualquer dúvida, faça um comentário que eu respondo).
Mas aquela conversa com o jornalista dá uma ideia do tipo de trabalho idiota que os robots podem substituir e libertar os verdadeiros jornalistas para trabalhos mais lentos e menos mecânicos, mais reflexivos e interessantes! E que os tornem menos redundantes, menos escravos (cada vez mais baratos, aliás) e menos máquinas humanas.
Assim o queira o sector financeiro.

E isso em vez de venderem computadores (ainda que em programas sobre tecnologia), equipamentos vários, Ipads, Ipods, automóveis, viagens, hotéis, usando a imagem conhecida e a seriedade que deve ter um jornalista ou de um pivot televisivo. São práticas que, por sinal, estão impedidos pelo seu estatuto, mas que ficam naquela zona cinzenta entre publireportagem e a opinião crítica do jornalista, de serviço público para avisar o... consumidor. Resta dizer que, muitas vezes, o produto divulgado é oferecido ao jornalista. Às vezes mesmo sem que tenha de fazer alguma coisa. Há uns tempos, era o caso de telemóveis que os editores recebiam de presente.