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sábado, 18 de agosto de 2018

Jogar à cabra-cega

Opinião

Domingos De Andrade

Hoje às 00:13

ÚLTIMAS DESTE AUTOR

Isto é maçudo, caro leitor. Mas mexe tanto com a vida dos portugueses que vale a pena resistir. Porque o que nasce torto tarde ou nunca se endireita. Falta saber se é por incúria, desleixo, falta de vontade ou de jeito. Qualquer delas é má. E o país lá segue empatado.

A descentralização deveria ser o pilar da Reforma Administrativa do Estado. Aproxima as populações dos poderes. Dá rosto à ineficácia ou à eficácia. Tem responsáveis. Sai-se da nebulosa do denominado "sistema". E era uma das bandeiras eleitorais de António Costa. Já lá vamos. Antes, um bocadinho de memória.

A transferência de poderes do Estado para as autarquias começou a ser preparada há dois anos. Cheia de intenções. E ousadia. Incluía a descentralização de competências para os municípios, a eleição direta das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e a eleição pelos autarcas das comissões de coordenação regional, que, por sua vez, também passariam a ter mais poderes.

Não se chegou a lado nenhum, como é bom de ver. A falta de entendimento com o PSD de Passos levou a um entendimento posterior, mas menor, com o PSD de Rio. E sai da forja uma descentralização pobre e pouco ambiciosa e que tem o ar de um presente envenenado para os autarcas. Logo, para as populações.

A lei-quadro estabelece demasiadas tarefas, pouco poder de decisão e pouco dinheiro, transformando os presidentes de câmara em tarefeiros, como criticaram Rui Moreira ou Eduardo Vítor Rodrigues. Como se não bastasse, num jogo de cabra-cega e com a maior parte das competências por consensualizar, as câmaras são obrigadas a pronunciar-se sobre as missões acrescidas sem saberem quais são e que dinheiro vão ter, porque as contas do Governo têm sido pouco fiáveis. E com o cutelo do acordo tácito se nada disserem.

Percebe-se a pressa. Costa quer levar esse trunfo para a campanha eleitoral. Percebe-se melhor a apreensão dos autarcas que a rejeitam. É que o que poderia ser uma reforma única arrisca-se a ser apenas um alijar de culpas e responsabilidades. Em forma de lei. E em troca de nada.

*Diretor-executivo

Entre as brumas da memória


Aretha, ainda ela

Posted: 17 Aug 2018 12:01 PM PDT

Esta fotografia de Aretha Franfklin, na tomada de posse de Obama em Janeiro de 2009, é extraordinária!

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O amigo português de Marine Le Pen

Posted: 17 Aug 2018 09:44 AM PDT

João Teixeira Lopes no Público de 17-08.2018:

«Estamos em agosto, estou em férias e a minha filhota dorme sestas de três horas. Conjuntura ideal, por isso, para dialogar com (mais) um truculento texto do meu homónimo João Miguel Tavares. O colunista, é sabido, tem o verbo fácil e dispara bem a pistola semiótica. Tiro-lhe o chapéu aos títulos magníficos que tantas leituras lhe devem valer e à desenvoltura com que mistura o diletantismo mundano com o disparate bárbaro.

Desta feita, insiste numa das pérolas da “direita liberal” de que é no momento o mais histriónico epígono (o Observador não estará a precisar dos seus serviços?): a redução do mundo à simetria perfeita entre “liberais” (tolerantes) e “iliberais” (intolerantes, onde se mistura, de uma assentada, Marine Le Pen, Boaventura de Sousa Santos e o PCP). É claro que, com esse cliché, faz um servicinho jeitoso à senhora Le Pen: já não é uma fascista, racista ou nazi. Como o próprio diz, com candura, ela não o admite. Pois se é ela quem o diz… É como Trump. Não é racista. Nem machista. Alguma vez ele disse que o era? Sigamos o cherne! Os textos de João Miguel Tavares lavam mais branco. Mete-se lá um racista imundo e sai um nacionalista a cheirar a sabonete.

Aliás, Le Pen subscreveria a delicadeza de João Miguel. Não foi ela quem, em 2012, dirigindo-se a um jornalista, se afirmou “extremamente tolerante e hospitaleira”, embora questionando-o, caso ele recebesse um grupo de clandestinos em casa, “se aceitaria que eles mudassem o papel de parede, roubassem a carteira ou brutalizassem a sua esposa”… Ou quando, ainda nas últimas eleições, vituperou: “De cada vez que tipos gritam «Viva Mélenchon [candidato presidencial de esquerda]» são franceses de origem magrebina!”. Não faltam exemplos…

Não se trata, pois, de mandar calar a Senhora Le Pen ou de dizer que não tem o direito de se candidatar a eleições livres e justas. A questão é outra: devemos ou não exigir do nosso governo que eventos organizados com dinheiro público promovam os discursos e as práticas de ódio? Nos compromissos editoriais do Público, que nem sequer tem dinheiros públicos, por exemplo, diz-se com clareza que neste jornal não haverá espaço para as opiniões que promovam o racismo, a xenofobia, a homofobia ou a apologia da violência. Na verdade, é um debate sobre a qualidade da esfera pública e sobre o papel da intermediação cultural o que está em causa.

Triste sina a de João Miguel Tavares, passar as suas tardes a desancar no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra como alforge de extrema-esquerda totalitária, uma espécie de guerrilha urbana dos tempos modernos, tal como Marine le Pen afirma que a França se tornou “uma Universidade de jihadistas”.

Como a tarde está de Sol, deixo-lhe, meu caro João Miguel, um verso de Gertrude Stein: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Apesar dos seus textos, “Um racista é um racista é um racista é um racista”. Ou não?»

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Já nem os correctores de erros ortográficos usam!

Posted: 17 Aug 2018 06:23 AM PDT

Quando um jornalista mais do que encartado escreve, num texto do seu jornal, «DESFAZERIA o convite», algo vai pior do que talvez pensamos.

(Daqui)
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Low cost e luta de classes

Posted: 17 Aug 2018 03:08 AM PDT

«Quem, nestes dias, nestas últimas semanas, ou até nos últimos meses, viajou de avião, de uma cidade qualquer para outra cidade qualquer, passou muito provavelmente pela experiência de viver o caos na terra e o inferno nos céus. O acidente, escreveu uma vez um urbanista, é a face escondida do progresso. Não há hoje nenhum lugar onde o acidente seja tão visível como nos aeroportos, que são plataformas logísticas que funcionam como os centros das cidades.

O acidente consiste desde logo na indistinção entre quem chega e quem parte. Dantes as duas categorias eram bem distintas, não só porque cumpriam rituais diferentes, mas também porque os que partiam não tinham a mesma cara, a mesma deixis corporal, daqueles que chegavam. Ora, hoje são todos iguais porque, em rigor, os aeroportos são o lugar da chegada generalizada. Toda a gente, independentemente de estar à espera de partir pelos ares ou de ser posto finalmente em terra, tem aquela mesma cara de quem chega ao aeroporto, isto é, ao lugar do grande fechamento, como foram – ou são – as prisões e os asilos. Mas esse é apenas o primeiro estádio do acidente. O acidente numa fase mais avançada é quando, uma vez transpostos todos os obstáculos e barreiras, começa a espera. Pode durar horas e nós nunca sabermos porquê. Mesmo quando tudo decorre normalmente, acedemos sem atribulações ao lugar reservado e são cumpridos os horários, a sensação de que atravessámos um campo de batalha e de que ali se trava a mais actual forma de guerra deixa-nos antecipadamente com medo da próxima chegada ao aeroporto. Há aeroportos por essa Europa fora que por estes dias foram considerados lugares de perigo, a evitar. Não é apenas o aeroporto de Lisboa que está superlotado, o céu está superlotado de aviões e o mundo está superlotado de viagens. Tal como no final do século passado se falou muito do fim da história, é agora o tempo de perceber que chegou o fim da geografia. Andávamos todos nós tão contentes com os voos low cost, e antes disso com a velocidade que modificou as condições da viagem e do percurso. Sabemos agora que alguém, ou alguma coisa, desatou a rir-se de nós, fazendo-nos experimentar a situação paradoxal de ficarmos imobilizados por causa do excesso de mobilidade. A situação já era nossa conhecida nas entradas e saídas das grandes cidades. Mas agora todas as ligações aéreas de umas cidades às outras conhecem esse regime do trânsito parado. Este mundo que tende para a sua perda, isto é, para a entropia, é um mundo irónico que transforma toda a promessa de felicidade (temporária, é certo) num inferno e deixa toda a gente parada – por muito mais tempo do que aquele que conseguimos suportar – exactamente porque foi prometida a toda a gente a fácil mobilidade e a velocidade. Nunca o fenómeno da entropia foi tão espectacular como é hoje nos aeroportos e no tráfego aéreo. Talvez seja necessário ter em conta que há uma economia política da velocidade e não apenas da riqueza produzida. E quando somos submetidos nos aeroportos e nos aviões à condição de plebe desprezível, pensamos que ali pode estar a renascer uma nova modalidade de luta de classes: por onde circulam os ricos nos aeroportos? Em que aviões viajam para não correrem o risco de perder tempo? Porque é que a velha máxima do “tempo é dinheiro” continua a ser tão actual que ou se tem as duas coisas – tempo e dinheiro - ou não se tem nenhuma. Tempo low cost? Bela promessa. A situação de “desastre” nos aeroportos diz-nos que, neste domínio, são muito frágeis as conquistas e poderosos os retrocessos.»

António Guerreiro

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8 Dias, 8 Viagens (4)

Posted: 16 Aug 2018 02:12 PM PDT

Lago Inle, Birmânia, 2009.

O último enciclopedista

  por estatuadesal

(Por Estátua de Sal, 18/08/2018)

Homem enciplodédia

Imagem in Blog 77 Colinas

Dizem os Evangelhos que a inveja é um pecado mortal, muito feio, sendo por isso apanágio das consciências mal formadas. Mas que seja. Eu, Estátua, pecador me confesso e, como também rezam os Evangelhos, a confissão é meio caminho andado para alcançar o perdão.

Mas, afinal de quem é que eu tenho tanta inveja, tanta que me farto de pecar quase diariamente? Pois bem, aqui fica a minha confissão. Tenho uma inveja danada do Dr. Balsemão. E qual a razão? Podem avançar com palpites, digo eu. E perguntarão os meus leitores:

-- Será por ele ser rico e dono de um empório de comunicação? Nada disso. Até dizem que a Impresa está meia afogada em dívidas e já viu melhores dias.

-- Será por ele aparecer - ainda que cada vez menos -, nas revistas sociais, sempre no meio de gente fina, e morar nesse recanto selecto que é a Quinta da Marinha? Nada disso, cada vez mais frio, estou-me nas tintas para essas manifestações de vacuidadesocial.

--- Será por a SIC e o Expresso continuarem, ainda hoje, sendo potentes instrumentos  de formatação da opinião pública, o que torna o Dr. Balsemão um homem poderoso, respeitado e, ao mesmo tempo, temido por tudo quanto é político no activo, à esquerda e à direita? Também não, nada disso, nunca quis ser missionário de qualquer ideologia ou crença, pelo que nunca me quereria colocar no papel de grande educador do povo.

Pronto. Como não acertaram eu deslindo o caso: invejo a vocação inata do Dr. Balsemão enquanto gestor de recursos humanos. Só um grande patrão, de fina e arguta sensibilidade na escolha do pessoal, poderia alguma vez ter contratado esse notável comentador que é o José Gomes Ferreira! Eu explico, então, a razão da minha inveja, mesclada de admiração, ainda assim.

Contratar alguém que nem sequer é licenciado em economia ou finanças para comentar assuntos de economia e finanças numa televisão, não é para qualquer gestor de recursos humanos. Mas, o Dr. Balsemão, conseguiu ver para lá dessas mesquinhas evidências curriculares. E que viu ele? Que o Gomes Ferreira era uma espécie de canivete suíço do comentário. Ele perora sobre economia, sim, mas também sobre incêndios, pontes, electricidade, Direito, Justiça, política nacional e internacional, animais de estimação e, se preciso for, sobre os anéis de Saturno ou sobre a vida sexual das baratas. Consta até que lê mais rápido que o Professor Marcelo, conseguindo decorar diariamente 100 páginas da Wikipédia.

Já viram a poupança que o Dr. Balsemão já fez estes todos? Em vez de contratar dez comentadores, só tem que pagar ao Gomes Ferreira! Ele dá conta do recado, na hora e ao vivo, cobre todos os directos sem pestanejar, e explica aos espectadores tudo o que se está a passar com uma surpreendente e prolixa erudição.

É daí que vem a minha inveja. O Dr. Balsemão é um predestinado para a gestão. É que essas coisas não se aprendem. Nascem com as pessoas. Herdam-se das linhagens. Vem lá dos Palmelas, dos Fronteira, dos Alfarrobeira, que sei eu.

Ora, como eu nunca contrataria o Gomes Ferreira - reconheço que por falta da visão empresarial e de gestão do Dr. Balsemão -, não posso almejar a ter um empório de comunicação, e limito-me a ter um blog.

Costa quer descalçar a geringonça e não consegue

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Há um pormenor revelador na última entrevista de António Costa ao “Expresso”: o momento em que, com um ar trocista, o primeiro-ministro fala de Ricardo Robles para dizer que se espantava por alguém tão vocalmente moralista ter pecadilhos. Não interessa aqui o caso em concreto, que já tratei várias vezes e a que só voltarei quando um caso similar não merecer o mesmo tratamento. Está em causa a resposta. Se há coisa em que Costa é especialista é em relativizar “pecadilhos”, sejam os de Rocha Andrade, de Mário Centeno, de Siza Vieira ou dos seus. Mas o que Costa criticou em Robles não foi o “pecadilho”, mas o seu vocal moralismo. Acontece que esse é anterior ao nosso conhecimento do negócio em Alfama. O que quer dizer que já era essa a avaliação que Costa fazia do vereador. O que é estranho, já que Robles foi o primeiro dirigente do Bloco a aceitar participar num Executivo do Partido Socialista. Logo na Câmara que Costa dirigiu e através de um acordo com o seu delfim. É estranho que se mantenha em silêncio sobre quase todos os pecadilhos do mundo e decida falar para atacar o pecadilho de um aliado. Ainda por cima, não para criticar um erro (coisa que seria normal se o costumasse fazer com os seus), mas para lhe atribuir um padrão de comportamento político estruturalmente desagradável.

Teria sido fácil para o BE ou para o PCP cavalgarem o escândalo em torno dos bilhetes de Rocha Andrade e Mário Centeno, só para pegar nos “pecadilhos” mais mediáticos. Não o fizeram. Por uma razão simples: entre os aliados da “geringonça” tem havido muitas acusações políticas, porque elas correspondem a divergências programáticas, mas não tem havido aproveitamento de casos, porque isso está no domínio da guerrilha partidária. E muito menos esses casos têm sido utilizados para caracterizar os outros partidos. A única exceção de que me lembro, e ainda assim de forma suave, foi a reação do Bloco às incompatibilidades de Pedro Siza Vieira.

Critiquei aqui o PCP quando, para defender uma posição correta, usou uma música do “Padrinho” exibindo a cara de António Costa. Porque há uma diferença entre a crítica a uma determinada escolha política, admissível a quem suporta um Governo, e uma caracterização moral insultuosa, que torna incompreensível esse apoio. Caracterizaria da mesma forma esta declaração de Costa se ela não correspondesse a um comportamento cada vez mais recorrente, sobretudo dirigido ao BE (mas não só).

Quase todas as semanas fontes do Governo, que já todos perceberam estarem muito próximas de Costa, têm colocado na imprensa muitas provocações aos parceiros de maioria parlamentar. No que toca ao Bloco, são acusações de falta de credibilidade e confiança; no que toca ao PCP, são exibições de condescendência. Em qualquer um dos casos, mas sobretudo no que toca ao partido que mais eleitorado partilha com o PS, estamos perante tentativas de provocar uma reação que permita a Costa responsabilizar os partidos à sua esquerda pela insustentabilidade futura da geringonça para ter um ambiente mais propício para ressuscitar o voto útil e pedir a maioria absoluta. Como o BE não tem caído na esparrela, é o próprio António Costa que vai levando cada vez mais longe a provocação.

A falta de empenho de António Costa na geringonça é natural. Mais vale governar sozinho do que acompanhado. Ou acompanhado por um PSD em estado letárgico do que por partidos com programas políticos e ideológicos que exigem mais capacidade negocial.

Só que Costa terá de se confrontar com uma evidência: a grande diferença entre este Governo e Governos anteriores do PS foi que dependia de partidos à sua esquerda. E isso sentiu-se bastante nos dois primeiros anos de geringonça, enquanto houve acordos para cumprir.

Aos eleitores de esquerda, bastará responder a uma pergunta: acham que haverá mais investimento do Estado, maior proteção dos serviços púbicos, mais ponderação entre as necessidades sociais e as contas públicas e melhores leis laborais com o PS sozinho (ou dependente do PSD) ou com o PS a ter de negociar com BE e PCP?

E quanto mais Costa se afastar da geringonça, quanto mais provocar os seus parceiros, quanto mais desesperado se mostrar por ver a maioria absoluta fugir-lhe, mais evidente será que a continuação desta solução depende da votação no BE e no PCP. Todos conhecem a arrogância do PS e do PSD quando se apanham sozinhos no poder. Quanto mais Costa exibir essa arrogância para provocar uma reação dos parceiros mais força lhes dará. Funciona como um lembrete.

Partido de Santana Lopes já tem nome: “Aliança”

  por estatuadesal

(Miguel Santos Carrapatoso, in Expresso, 18/08/2018)

ALIANÇA

ESTE É O SÍMBOLO DO NOVO PARTIDO DE SANTANA. CHEGA PARA CONSTRUIR ALIANÇAS. “UNIR RESPEITANDO A DIFERENÇA E AS DIFERENÇAS” É UM DOS SLOGANS

(Será que desta vez é que é a sério e Santana avança mesmo? A ver vamos. Apesar de, das outras vezes nunca ter mostrado o símbolo do novel partido, desta vez já mostra, e tudo.

Aguardam-se os desenvolvimentos dos próximos capítulos da saga do "menino guerreiro".

Comentário da Estátua, 18/08/2018)


Nem siglas, nem alusões ao seu próprio nome, nem referências ao carácter ideológico. Simplesmente Aliança. Assim será batizado o novo partido de Pedro Santana Lopes, que arranca já no início da próxima semana com a recolha de assinaturas para se constituir formalmente como força partidária.

À memória vem de imediato a Aliança Democrática, que juntou Francisco Sá Carneiro (PSD), Diogo Freitas do Amaral (CDS) e Gonçalo Ribeiro Telles (PPM), a primeira grande coligação de centro-direita a vencer eleições legislativas em Portugal. Ao Expresso, Pedro Santana Lopes prefere não fazer comparações e explica o porquê do nome: “Mostra que viemos para construir e para unir, na política e no país”.

O objetivo assumido foi evitar rótulos e preconceitos ideológicos infundados, diz o ex-primeiro-ministro ao Expresso, apesar de se perceber que há uma base genética que tem que ver com as raízes do PSD. “Somos um partido personalista, liberalista e solidário. Europeísta, mas sem dogmas, sem seguir qualquer cartilha e que contesta a receita macroeconómica de Bruxelas”, explica.

Santana reconhece que o caminho “será difícil”, mas recusa embarcar em fatalismos. “Podem acusar-me de tudo, menos de não conhecer a política e de não saber como se faz política”, argumenta. A ambição existe e o antigo militante social-democrata não a esconde: “Queremos garantir representação política que nos permita participar no processo de decisão, seja no Governo seja na oposição”.

LIBERALIZAÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL E DA SAÚDE

O ADN do novo partido confunde-se com o de Santana Lopes e é bastante programático. Nos excertos da declaração de princípios, a que o Expresso teve acesso, está lá o europeísmo mais cético: “A União Europeia precisa de ser reformada e Portugal precisa de reforçar a sua atitude face à União”. Mas também contempla a preocupação com a cultura, a inovação e o mar: este é o “trinómio” da Aliança”. Assim como o combate à desertificação e ao abandono do território: a coesão territorial é um “imperativo absoluto”. E o reforço do papel do Estado na segurança e na justiça: “A celeridade da justiça e boas decisões judiciais são vitais para a confiança”.

É nas áreas da Segurança Social e da Saúde que a Aliança vai mais longe na sua declaração de princípios. O novo partido de Santana Lopes considera que a perda de capacidade do Estado para fazer face ao envelhecimento da população deve ser compensada por “esquemas de previdência alternativas e individualizados”. O mesmo para o Sistema Nacional de Saúde: “[Devemos estimular] o investimento em seguros de saúde eficazes”, com o Estado a acompanhar esse esforço dos portugueses “com deduções fiscais efetivas” e sem esquecer o papel do “terceiro sector”, nomeadamente a intervenção da Santa Casa da Misericórdia e de outras instituições que fazem parte da economia social.

Na economia, mesmo defendendo Orçamentos do Estado “equilibrados” e um rigoroso “controlo da despesa pública”, Santana Lopes aponta já dois caminhos prioritários: “Políticas de consolidação da dívida pública que não limitem tanto a margem de manobra orçamental” e uma “forte redução da carga fiscal”. “Taxas de esforço fiscal perto dos 60% constituem um atentado, [sobretudo] quando se sabe que grande parte desse esforço fiscal serve para sustentar um Estado que consome metade da riqueza nacional”, pode ler-se no texto fundador da Aliança.

Em matéria de direitos, liberdades e garantias, a Aliança é ainda pouco clara. Pelo menos nos excertos a que o Expresso teve acesso. Quando se despediu do PSD, Santana disse que saía porque queria “intervir politicamente num espaço em que não se dê liberdade de voto quando se é confrontado com a agenda moral da extrema-esquerda”. Ele foi um dos principais críticos da decisão de Rui Rio de dar liberdade de voto aos deputados quando a despenalização da eutanásia foi levada ao Parlamento. Agora, na Aliança, escreve: “Respeitamos a liberdade religiosa e valorizamos a dimensão espiritual da pessoa. Rejeitamos as visões utilitaristas e egoístas da vida humana”.

MACRON À PORTUGUESA COM CROWDFUNDING

O ex-primeiro-ministro prefere não desvendar, para já, quem o acompanha na nova aventura. Garante que tem recebido apoio de muitas pessoas, desde antigos simpatizantes do PSD e do CDS a “gente de todas as idades que nunca esteve na política”. “Estou genuinamente surpreendido com o apoio que temos recebido. Temos já assegurados representantes em todos os distritos, regiões autónomas e junto dos círculos de emigração”, assegura. A página do partido será lançada até ao arranque da próxima semana e Santana tem uma certeza: “A Aliança vai provocar a modernização acelerada de todos os partidos”.

À semelhança do que foram fazendo o Ciudadanos e o Podemos, em Espanha, ou o En Marche, de Emmanuel Macron, em França, a Aliança vai apostar nas plataformas digitais, menos dispendiosas do que as tradicionais estruturas partidárias: “Já me ofereceram espaços em sedes espalhadas por todo o país. Mas não faz sentido. Entrámos numa nova era de comunicação política”. Através da futura página do partido e da app que será entretanto criada, Santana quer receber “propostas, avaliações, criar um espaço de crowdfunding e de debate” para unir todos os simpatizantes, explica.

Está tudo a ser preparado ao mais ínfimo pormenor, diz Santana. A estratégia de comunicação foi delineada com base num “estudo comparado” que analisou as melhores práticas dos “partidos mais atualizados” e o nome do novo partido foi escolhido depois de avaliado por um focus group criado para o efeito.

No futuro, Santana, que integra e lidera um comité executivo composto por sete dirigentes, quer criar uma estrutura em que cada responsável falará sobre uma área diferente. A intenção é recusar a ideia de que este é ‘o partido de Santana Lopes’. “Isto não é um partido pessoal. É um projeto coletivo”, garante o ex-primeiro-ministro. Sobre o PSD, de Santana, nem uma palavra. Faz agora parte do passado.

SANTANA LOPES QUER CRIAR SENADO

Na mesma declaração de princípios, a Aliança de Santana defende a “modernização do sistema político português”, nomeadamente através da “criação do Senado, com a representação das diferentes regiões do país”, com o objetivo de aproximar eleitos dos eleitores. “Portugal teve câmara alta em muitos períodos da sua história constitucional, a generalidade dos Estados democráticos, em vários continentes, têm, igualmente, Parlamentos bicamerais. Será útil que Portugal procedesse a essa mudança, reduzindo o número de deputados em número superior ao da criação de lugares de senadores”, escreve o novo partido.

A ideia de um parlamentarismo bicameral (uma câmara baixa e uma câmara alta) é há muito defendida por Pedro Santana Lopes. No início de 2004, durante o Governo de Durão, PSD e CDS chegaram a avançar com uma proposta de revisão constitucional nesse sentido, que acabaria por não ter êxito. Muito contestada à esquerda, seria o PS a dar um golpe final nas aspirações da direita: “A revisão constitucional proposta pela maioria está morta e não vale a pena perder tempo”, vaticinou o então líder parlamentar dos socialistas, António Costa. A Aliança quer agora relançar a discussão.

Santana também não esquece a “tão falada e tão adiada” reforma do sistema eleitoral português, com a “introdução de círculos uninominais” compensada pela criação de um círculo nacional. Tudo para garantir uma “maior aproximação dos eleitores aos eleitos”. Resta saber que força terá Santana para levar os restantes partidos a ter esta discussão.