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domingo, 19 de agosto de 2018

Falsas notícias

Duas ou três coisas

Ana Paula Laborinho

Hoje às 00:01

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Mais de 300 jornais americanos publicaram editoriais a favor da liberdade de imprensa e de expressão, pilar da Carta dos Direitos que integra a Constituição dos EUA. A campanha desencadeada pelo jornal "The Globe Boston" teve adesão de publicações relevantes que assim reagem ao discurso de Trump sobre uma Comunicação Social inimiga do povo enquanto responsável por notícias falsas para confundir os americanos. Os alvos das críticas responderam que o presidente considera mentira tudo o que não lhe agrada e condiciona de forma inédita o debate democrático.

Mesmo nos tempos mais negros, os EUA representaram o ideal da democracia em que a voz coletiva, "Nós, o povo", se sobrepunha ao poder absoluto. Talvez a pior consequência deste incerto presente seja a propositada confusão sobre o sentido das falsas notícias. O significado literal aponta para notícias falsas que circulam com propósitos vários, sendo muitas vezes usadas como arma de contrainformação e agitação política. Misturam-se verdades e mentiras, recria-se a realidade através de "factos alternativos" que passam nas redes sociais como informação credível. Sabemos que se trata de um processo induzido para atingir e condicionar públicos-alvo. A escala da desinformação pode ser maior ou menor, mas sempre com efeitos perversos.

Nas últimas semanas, as redes sociais e alguma imprensa de referência debateram de forma apaixonada o fim da leitura obrigatória de Os Maias no Ensino Secundário, como consequência da entrada em vigor das competências essenciais. Não está em causa a importância da obra, mas a questão das inverdades que se tornam virais. De facto, há 16 anos que essa leitura não é obrigatória podendo o professor optar por outra do autor. Acredito pouco em leituras obrigatórias e prefiro que se estimule o gosto pela leitura, mas não importa para o caso. O debate sobre as competências essenciais centrou-se nesse episódio em vez de refletir sobre o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória e a articulação entre os vários níveis de ensino.

O filósofo José Gil explica que o populismo não é uma doutrina política, nem uma ideologia, nem uma visão do Mundo. O populismo escolhe fragmentos de ideias, promessas, palavras de ordem que seduzem as audiências. A comunicação direta é a arma maior, laço que exerce poder de atração.

A escola tem de desenvolver a educação para a cidadania se queremos salvar a democracia.

*Professora universitária

Oitavo dia

A ABRIR

Afonso Camões

Hoje às 00:02

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Por falar em férias, durante muitos séculos os relógios eram coisa de rico e o tempo, tirando o sol a sol, era marcado a toque de sinos, coisa das igrejas. Com o tempo, foi-se democratizando a contagem do tempo. E hoje, as novas tecnologias estão a mudar as nossas vidas e a alterar a nossa relação com o tempo, na forma intrusiva como percebemos a sua passagem.

Impacientes, cada vez mais impacientes, parece-nos por vezes que o nosso relógio interior funciona mais rápido, acelera. Temos, então, a impressão de que o tempo voa, impelidos agora por esse engenho que convertemos num prolongamento do nosso próprio corpo, o omnipresente telemóvel: uma conversa, ferramenta de trabalho, mas também entretenimento, sempre pronto a oferecer-nos nova distração. Mas acontece, porém, que esse mesmo artefacto também funciona como congelador de instantes, a suspender-nos a vida na espera de uma resposta que não chega. E então parece que o tempo desesperadamente se alonga.

Ora, gozar férias tem de significar romper com essa artificial sensação de urgência, quebrar rotinas ou, simplesmente, descansar. Apesar de mal-afamadas, entre os que apenas conhecem a sofreguidão destravada do trabalho que explora os mais pobres, as férias são conquista de homens livres. Descansar é um verbo divino. E o maior elogio das férias e do descanso é invocar o seu divino inventor. É do livro do Génesis (Gn 2, 2-3) que "Deus repousou ao sétimo dia de todo o trabalho realizado. Abençoou-o e santificou-o, visto ter sido nesse dia que descansou de toda a obra da criação". Importa, pois, descansarmos. Para os crentes, como Deus manda. Para esses e para os outros, investigadores de uma universidade finlandesa quiseram apurar o número mínimo de dias de descanso que deveríamos tirar. Acompanharam 54 trabalhadores, de diferentes atividades e em períodos diferentes de férias. E concluíram que só ao oitavo dia é que verdadeiramente começamos a repousar.

sábado, 18 de agosto de 2018

A teologia política de Belém

  por estatuadesal

(Carlos Esperança, 18/08/2018)

marcelo_banho

Marcelo já nos tinha surpreendido com a apoteose da imaginação e da originalidade de quem, rezando o terço todos os dias, descobriu que “Um sítio onde é sensacional rezar o terço é a nadar no mar”.

Necessitando das mãos para o efeito e não podendo rezar com os pés, dos quais também carece, é um prodígio contar padre-nossos e ave-marias sem se enganar nos mistérios e sem se afogar antes dos dolorosos, mas isso são devoções pias, de natureza pessoal, que, por maior proselitismo que o devore, o PR de um país laico deve abster-se de alardear.

O PR traiu a postura laica, que devia manter, no centenário da clonagem da Senhora de Lourdes, em Fátima, quando se envolveu na autenticação desse «milagre», invocando a qualidade de PR, e ultrapassou a decência, afirmando que o fazia em nome de todos os portugueses, incluindo ateus, que não lhe passaram procuração e ficam indignados com a quebra do respeito que deve à laicidade do Estado.

Quanto à esperada recandidatura, cuja popularidade dispensa o simples passeio pela Av. da Liberdade, afirmou que “campanhas, se Deus quiser, não haverá mais nenhuma”, e, com a expressão “se Deus quiser”, que causa calafrios na boca de muçulmanos furiosos, ainda afirmou que tal matéria “está nas mãos de Deus”. Esperará as mãos de Deus para fazer 7.500 assinaturas e, quiçá, os pés para as levar ao Tribunal Constitucional?

Para além de ficarmos a saber que o Deus de Marcelo tem mãos, ficamos perplexos com a sua influência num país com a Constituição laica que o ora PR aprovou na Assembleia Constituinte, para a ignorar depois de jurar cumpri-la e fazê-la cumprir ao tomar posse.

O PR de todos os portugueses não pode reduzir-se a um mero presidente dos católicos e excluir os que, também católicos, defendem o carácter laico da CRP, nem fazer do País um protetorado do Vaticano.

Surpreende a sedução que exerce e o silêncio que gera a associar a personalidade de PR, inteligente, culto e simpático, à vocação de catequista de paróquia e à volúpia beata com que oscula anelões episcopais.

E ninguém se indigna? Ninguém defende o carácter laico do Estado? Ninguém protesta? Continuamos o país dos 3 FFF, acéfalo, beato e timorato?

E queremos ser respeitados?

Low cost e luta de classes

  por estatuadesal

(António Guerreiro, in Público, 17/08/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quem, nestes dias, nestas últimas semanas, ou até nos últimos meses, viajou de avião, de uma cidade qualquer para outra cidade qualquer, passou muito provavelmente pela experiência de viver o caos na terra e o inferno nos céus. O acidente, escreveu uma vez um urbanista, é a face escondida do progresso. Não há hoje nenhum lugar onde o acidente seja tão visível como nos aeroportos, que são plataformas logísticas que funcionam como os centros das cidades.

O acidente consiste desde logo na indistinção entre quem chega e quem parte. Dantes as duas categorias eram bem distintas, não só porque cumpriam rituais diferentes, mas também porque os que partiam não tinham a mesma cara, a mesma deixis corporal, daqueles que chegavam. Ora, hoje são todos iguais porque, em rigor, os aeroportos são o lugar da chegada generalizada. Toda a gente, independentemente de estar à espera de partir pelos ares ou de ser posto finalmente em terra, tem aquela mesma cara de quem chega ao aeroporto, isto é, ao lugar do grande fechamento, como foram – ou são – as prisões e os asilos. Mas esse é apenas o primeiro estádio do acidente. O acidente numa fase mais avançada é quando, uma vez transpostos todos os obstáculos e barreiras, começa a espera. Pode durar horas e nós nunca sabermos porquê. Mesmo quando tudo decorre normalmente, acedemos sem atribulações ao lugar reservado e são cumpridos os horários, a sensação de que atravessámos um campo de batalha e de que ali se trava a mais actual forma de guerra deixa-nos antecipadamente com medo da próxima chegada ao aeroporto. Há aeroportos por essa Europa fora que por estes dias foram considerados lugares de perigo, a evitar. Não é apenas o aeroporto de Lisboa que está superlotado, o céu está superlotado de aviões e o mundo está superlotado de viagens.

Tal como no final do século passado se falou muito do fim da história, é agora o tempo de perceber que chegou o fim da geografia. Andávamos todos nós tão contentes com os voos low  cost, e antes disso com a velocidade que modificou as condições da viagem e do percurso. Sabemos agora que alguém, ou alguma coisa, desatou a rir-se de nós, fazendo-nos experimentar a situação paradoxal de ficarmos imobilizados por causa do excesso de mobilidade.

A situação já era nossa conhecida nas entradas e saídas das grandes cidades. Mas agora todas as ligações aéreas de umas cidades às outras conhecem esse regime do trânsito parado.

Este mundo que tende para a sua perda, isto é, para a entropia, é um mundo irónico que transforma toda a promessa de felicidade (temporária, é certo) num inferno e deixa toda a gente parada – por muito mais tempo do que aquele que conseguimos suportar – exactamente porque foi prometida a toda a gente a fácil mobilidade e a velocidade.

Nunca o fenómeno da entropia foi tão espectacular como é hoje nos aeroportos e no tráfego aéreo. Talvez seja necessário ter em conta que há uma economia política da velocidade e não apenas da riqueza produzida. E quando somos submetidos nos aeroportos e nos aviões à condição de plebe desprezível, pensamos que ali pode estar a renascer uma nova modalidade de luta de classes: por onde circulam os ricos nos aeroportos?

Em que aviões viajam para não correrem o risco de perder tempo? Porque é que a velha máxima do “tempo é dinheiro” continua a ser tão actual que ou se tem as duas coisas – tempo e dinheiro - ou não se tem nenhuma. Tempo low  cost? Bela promessa. A situação de “desastre” nos aeroportos diz-nos que, neste domínio, são muito frágeis as conquistas e poderosos os retrocessos.

Presidente turco diz que a Turquia não vai ceder aos Estados Unidos

HÁ 12 MINUTOS

O Presidente da Turquia, Erdogan, disse que Anacara não vai ceder perante os Estados Unidos, continuando o impasse com Washington, que precipitou o colapso da lira turca nos últimos dias.


Erdogan disse que a Turquia "continuará e expandirá" as suas operações militares transfronteiriças

STR/EPA

Autor
  • Agência Lusa
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O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse este sábado que Anacara não irá ceder perante os Estados Unidos, continuando o impasse com Washington, que precipitou o colapso da lira turca nos últimos dias.

Nós não vamos ceder àqueles que se apresentam como nossos parceiros estratégicos, já que se esforçam para nos tornar num alvo estratégico”, afirmou Erdogan durante o congresso do seu partido, o islâmico-conservador AKP, em Ancara.

“Certas pessoas acham que podem ameaçar-nos com a economia, as sanções, as taxas de câmbio, as taxas de juro e a inflação. Nós descobrimos as suas manobras e desafiamo-las”, declarou durante o congresso, que tem como objetivo renovar as fileiras do AKP.

Estas declarações acontecem no momento em que os Estados Unidos e a Turquia, aliada no seio da NATO, atravessam uma crise diplomática, particularmente relacionada com o caso do pastor norte-americano Andrew Brunson, preso em 2016 acusado de terrorismo e espionagem.

Os Estados Unidos exigem a sua libertação à Turquia, que acusa Brunson de ligações com o religioso Fethullah Güllen, acusado de ser o mentor do golpe de estado falhado de julho de 2016.

A crise iniciou-se quando Washington impôs, no início de agosto, sanções sem precedentes contra dois ministros turcos. Ancara reagiu às sanções e começou uma escalada da tensão entre os dois países, que acabou por provocar a queda a lira turca na semana passada.

Depois de alguns dias de acalmia, a lira turca, que perdeu quase 40% do seu valor desde o início do ano, recuou na sexta-feira após Washington ameaçar impor a Ancara novas sanções.

Além das tensões com os Estados Unidos, a lira turca foi enfraquecida pela crescente influência do Presidente turco sobre a economia e a sua recusa, segundo observadores, em permitir que o Banco Central elevasse as taxas de juro. Hoje, no congresso do AKP, Erdogan disse que a Turquia “continuará e expandirá” as suas operações militares transfronteiriças.

Ancara tem enviado, nos dois últimos anos, militares para o norte da Síria para conter a expansão das Unidades de Proteção ao Povo (YPG), uma milícia curda apoiada por Washington contra os ‘jihadistas’.

O exército turco também aumentou, nos últimos meses, os ataques contra as bases do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte do Iraque. Ancara anunciou, na quarta-feira, que matou um quadro dessa organização na região noroeste de Sinjar, no Iraque.