Duas ou três coisas
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Mais de 300 jornais americanos publicaram editoriais a favor da liberdade de imprensa e de expressão, pilar da Carta dos Direitos que integra a Constituição dos EUA. A campanha desencadeada pelo jornal "The Globe Boston" teve adesão de publicações relevantes que assim reagem ao discurso de Trump sobre uma Comunicação Social inimiga do povo enquanto responsável por notícias falsas para confundir os americanos. Os alvos das críticas responderam que o presidente considera mentira tudo o que não lhe agrada e condiciona de forma inédita o debate democrático.
Mesmo nos tempos mais negros, os EUA representaram o ideal da democracia em que a voz coletiva, "Nós, o povo", se sobrepunha ao poder absoluto. Talvez a pior consequência deste incerto presente seja a propositada confusão sobre o sentido das falsas notícias. O significado literal aponta para notícias falsas que circulam com propósitos vários, sendo muitas vezes usadas como arma de contrainformação e agitação política. Misturam-se verdades e mentiras, recria-se a realidade através de "factos alternativos" que passam nas redes sociais como informação credível. Sabemos que se trata de um processo induzido para atingir e condicionar públicos-alvo. A escala da desinformação pode ser maior ou menor, mas sempre com efeitos perversos.
Nas últimas semanas, as redes sociais e alguma imprensa de referência debateram de forma apaixonada o fim da leitura obrigatória de Os Maias no Ensino Secundário, como consequência da entrada em vigor das competências essenciais. Não está em causa a importância da obra, mas a questão das inverdades que se tornam virais. De facto, há 16 anos que essa leitura não é obrigatória podendo o professor optar por outra do autor. Acredito pouco em leituras obrigatórias e prefiro que se estimule o gosto pela leitura, mas não importa para o caso. O debate sobre as competências essenciais centrou-se nesse episódio em vez de refletir sobre o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória e a articulação entre os vários níveis de ensino.
O filósofo José Gil explica que o populismo não é uma doutrina política, nem uma ideologia, nem uma visão do Mundo. O populismo escolhe fragmentos de ideias, promessas, palavras de ordem que seduzem as audiências. A comunicação direta é a arma maior, laço que exerce poder de atração.
A escola tem de desenvolver a educação para a cidadania se queremos salvar a democracia.
*Professora universitária

Agência Lusa