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domingo, 19 de agosto de 2018

Muitas Direitas cada vez mais Tortas

  por estatuadesal

(Dieter Dellinger, 19/08/2018)

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Foto: Emblemas possíveis para os novos partidos da direita dita liberal.

A Aliança procura desesperadamente pessoas para assinarem o documento de fundação que deverá ter 7.500 assinaturas reconhecidas. Consta que Santana não tem tantos amigos no PSD e não conseguiu pescar muita gente no CDS e no PS terá arranjado apenas dois militantes.

Na mesma situação - em processo de fundação - estão dois partidos de direita, a "Democracia 21" ainda sem as assinaturas necessárias e a "Iniciativa LiberaL (IL) que dizem ter já entregue as 7.500 assinaturas no Tribunal Constitucional no final do ano passado sem que as televisões tivessem informado, ou eu não dei por isso. É dirigido por um tal Rodrigo Saraiva que diz que na opinião publicada já existe muita gente liberal e acrescenta "o liberalismo está a assumir-se sem complexos em Portugal". Não duvido que a maior parte dos poucos jornais existentes no país sejam muito de direita e necessitam do termo "liberal" para não utilizarem a mais que desacreditado palavra direita, mas não são 7.500 papalvos e muito menos 3 x 7500 ou 22.500 idiotas.

Oficialmente, a Iniciativa Liberal é um partido com 300 militantes e 90 fundadores, pelo que as restantes assinaturas devem ter sido compradas. Chega-se a um drogado arrumador de carros e a troco de uns 20 euros ou mais o tipo põe a sua assinatura num papel e andando por aí devem ter arranjado assinaturas, mas não têm um único nome sonante que tenha sido deputado ou se tenha evidenciado em qualquer actividade. Parece que o patronato rejeita assinar papéis de qualquer partido e não é por medo, é porque acham a sua assinatura demasiado valiosa para um qualquer papel que um desconhecido lhe coloca na sua frente.

A "Democracia 21" aproximou-se de Santana, mas este rejeitou-a, apesar de ser dirigida por uma mulher, uma tal Sofia Ferreira que terá apoiado Passos Coelho e fala numa geringonça de direita e diz que já tem 5 mil assinaturas e até ao fim de Setembro terá 7.500. Considera-se liberal nos costumes e na economia.

Admito que o Correio da Manha que ganha muito com as publicidade proxeneta à prostituição seja um periódico apoiante porque deseja a "industrialização" da prostituição, isto é, o estabelecimento de grandes albergues de fornicação como há na Alemanha e na Holanda. Desde que dê dinheiro está tudo bem para o eng. Paulo Fernandes.

Tudo menos pagar impostos e TSU às trabalhadoras do jornal e depois dos grandes supermercados do sexo em que tudo se possa comprar, desde mulheres e homens aos mais diversos instrumentos. Talvez o CM consiga muitas assinaturas das suas clientes de publicidade. Basta pôr um "call center" a trabalhar nisso.

RESPECT

  por estatuadesal

(Valdemar Cruz, in Expresso Diário, 17/08/2018)

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Nem sempre as palavras valem apenas pelo que significam. Condiciona-as o contexto. Afeta-as as circunstâncias. Influencia-as o sujeito emissor. Uma mesma palavra pode ser inócua e marcada por escasso significado simbólico, ou transformar-se em agente transformador, estimular movimentos e causas, impor-se como hino, de uma geração, de uma causa, de um povo.

Nas últimas horas tem-se falado muito de RESPEITO. A morte de Aretha Franklin motivou a recuperação de algumas das suas histórias de vida e inúmeras canções. Muito em particular “Respect”. Como quase sempre, nos detalhes pode estar o segredo de toda uma vida. Constatar, como tem sido feito, que a canção foi escrita por um homem para ser cantada por um homem, é um pormenor curioso. Porém, esgota-se em si mesmo se não for contada a história toda e, muito em particular, o modo como o génio de Aretha transformou uma canção na origem marcada por um profundo machismo, num glorioso hino, não apenas da causa feminista, mas da luta dos negros, de todos os combates pela emancipação, de todas as causas inspiradas na dignidade dos povos. E tudo isto não apenas pela poderosa carga reivindicativa de um conjunto de versos, mas sobretudo pela força e o magnetismo de uma voz e da sua capacidade interpretativa.

Na origem está um desconsolado Otis Redding. Escreveu “Respect” em 1965 como uma espécie de lamento do homem que chega a casa depois do trabalho e considera que a mulher não o recebe com a devida vénia e submissão. Segundo alguns biógrafos, a ideia para a canção terá surgido a Redding quando, no regresso a casa após mais uma longa digressão, terá sentido que a mulher não o teria recebido e tratado como esperaria. Ao que parece, terá desabafado com o seu baterista, Al Jacson Jr., que, ao dar-lhe razão, terá dito: “Andas sempre na estrada. Tudo o que podes esperar é um pouco mais de respeito quando chegas a casa”.

Estava dado o mote. Otis compôs a canção e ofereceu-a a Speedo Sims, seu “manager” e membro da banda The Singing Demons. O azar de uns é a sorte de outros. Neste caso, do mundo todo. Sims, percebeu-se rapidamente, não tinha voz para aquela canção e acabou por não a gravar. Gravou-a Otis Redding e publicou-a, com escasso sucesso, no álbum “Otis Blue”, de 1965.

Dois anos depois, “Respect” chegava a Aretha. Canção e cantora precisavam-se. Buscavam-se há muito sem o saberem. O momento do encontro é um instante fundamental da história da música popular norte-americana. Sendo a mesma, a canção passou a ser outra. Aretha transformou-a. Aumentou-lhe o ritmo e fez algumas mudanças fundamentais. Uma delas passou por assumir o papel da mulher que espera em casa, cansada, às vezes desprezada, tantas vezes humilhada, menosprezada, tratada sem dignidade. De repente, o que não passava de uma lamechice sobre o varão que pretende ter em casa uma criada para todo o serviço, passa a ser um grito pela dignidade. Transforma-se no clamor de uma mulher que exige respeito.

“Respect” impõe-se num momento de grandes convulsões políticas e sociais. Os EUA vivem a guerra do Vietname, a luta pelos direitos civis dos negros, o combate pela emancipação das mulheres, e o que começa por ser um grito com repercussões locais, projeta-se para uma escala global. Afinal, nos EUA como em qualquer recanto do mundo, como se verá ao longo deste Exresso Curto, haverá sempre alguém, uma mulher, um homem, um trabalhador, uma criança, todo um povo para quem uma só palavra poderá significar uma profunda mudança de vida: RESPEITO.

Morreu Aretha Franklin. Tinha 76 anos. Chamavam-lhe a rainha da “soul” e o obituário está mais do que feito. Agora, a melhor recordação é ouvi-la. Aqui ficam cinco possíveis viagens – entre muitas outras possíveis - ao mundo musical de Aretha. Para ver e ouvir:

Os fogos e o tratamento superficial de uma coisa séria

  por estatuadesal

(Pacheco Pereira, in Sábado, 19/08/2018)

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Pacheco Pereira

Não pretendo nem um átomo desculpar o que o Governo faz mal, mas o modo como se procura com enorme ligeireza encontrar culpados ainda os fogos estão a arder é pouco sadio numa democracia.


Eu não sei qual a responsabilidade do Governo, mas terá certamente muita. É o Governo que está em funções e, por isso, tudo o que se passa no País é de sua responsabilidade directa ou indirecta. Não pretendo nem um átomo desculpar o que o governo faz mal, mas o modo como se procura com enorme ligeireza encontrar culpados ainda os fogos estão a arder, é pouco sadio numa democracia. A comunicação social, cujo tratamento de tudo é cada vez mais estereotipado, tem muita responsabilidade no incremento da superficialidade.

A política é deixar arder as matas e concentrar a defesa nas casas? Parece que é uma opção, mas se fosse ao contrário, não haveria um enorme clamor? A política foi, à luz do que aconteceu no ano anterior, não dar margem nenhuma a que houvesse pessoas no caminho do fogo? Sim, com o inevitável forçar da GNR dos recalcitrantes em sair, contrariando a sensação de que se estivessem perto de suas casas podiam salv -las. Mas se alguém tivesse morrido queimado porque no combate aos fogos se tinha descurado a segurança das populações e se permitira a tentativa muitas vezes quixotesca para salvar as casas, o que é que se diria?

No entanto, neste caso, gostaria de saber mais, saber até que ponto um número significativo de casas foram salvas sem os bombeiros e como. É um dado relevante, até para se disseminar esse conhecimento, mas também aqui é preciso esperar para saber mais, e não dar palpites imediatos por jornalistas ou pelas pessoas aflitas em casos que podem ser pontuais ou ter outra explicação. É um facto que existe muita pressão política sobre o Governo e ainda bem. Mas a pressão política sem o conhecimento dá sempre para o torto.


Um País pobre
Quando, muitas vezes de forma folclórica e afrontosa, as televisões vão buscar aqueles que lhes parecem mais "típicos" para entrevistar, naquelas conversas de nulo conteúdo informativo, mas que servem para encher espaço nos noticiários quando há desgraças, há um aspecto de Portugal que muita gente quer ignorar: o País e o seu povo são pobres, ainda muito pobres. Entre outras coisas vejam o número de pessoas que não têm dentes, que se percebe que nunca tiveram cuidados dentários. É um sinal de que não somos o País que desejamos ser, ou que nos dizem que somos.


A censura feita pelo Facebook, Google, etc.
Não me sinto confortável com aquilo que a maioria das pessoas acha bem: os donos das principais "redes sociais" (com excepção do Twitter) estão a fazer censura a páginas de notícias falsas, páginas individuais e de grupo consideradas promotoras de ódio, racismo, teorias conspirativas, etc. Parece-me um caminho perigoso, alimentado por uma espécie de complexo de culpa pelo que permitiram no passado. Agora querem lavar as mãos prometendo que apenas passam no crivo dos novos censores, páginas limpas, sanitárias e sem mácula. Aliás o zelo censor é muito mais fácil do que o zelo na protecção da privacidade, visto que estas redes sociais são negócios que vivem da informação privada que as pessoas irresponsavelmente e por ignorância lhes dão. O caso da Cambridge Analytica e da utilização de big data para fazer perfis eleitorais e depois orientar a propaganda, as provocações, os boatos e as falsidades é muito mais grave do que as conspirações do InfoWar.

É um caminho muito perigoso e institucionaliza como normal a censura, daquilo que não gostamos nem concordamos, aquilo mesmo que na Constituição americana era o pilar básico da liberdade de expressão. A liberdade de expressão não é para o que consideramos conveniente, com que aceitamos e concordamos, para exactamente aquilo que, dito de forma directa, nos mete nojo. Começar a separar o que se pode dizer daquilo que não se pode dizer acaba por caminhar para a cabeça das pessoas e mata a liberdade. Claro que eu sei que o problema não está apenas nos conteúdos, mas na utilização das "redes sociais" como máquinas de guerra, manipuladas por especialistas na desinformação que em vários pontos do mundo, e não só Moscovo, há muito perceberam o potencial de controlo na Internet.

Mas há outras formas sem ser a censura. O que é crime deve ser tratado como crime, e a defesa face a boatos, falsidades, e insultos deve permitir e facilitar as condenações, mesmo que isso implique diminuir drasticamente o anonimato. O anonimato profundo, protegido, justifica-se nalguns casos, mas não para 90% dos frequentadores das redes sociais. Podem usar pseudónimos, mas o nome deve ser detectável caso haja delitos de opinião e abusos. Mas a principal arma é a educação, desde o jardim-de-infância que as crianças, assim como os adultos, devem conhecer o jogo perigoso em que estão metidos. Não é fácil, porque muito do que acontece nas redes sociais é impulsionado por tendências de fundo da sociedade, mas parece-me bem melhor do que a censura.

As bodas de sangue dos rohingya

Posted: 18 Aug 2018 11:33 AM PDT

Ricardo Garcia Vilanova no Expresso de 18.08.2018:

«Os casamentos de menores não são nenhuma novidade entre os rohingya, que por tradição sempre casaram as meninas desde muito novas. No entanto, os casos multiplicaram-se de forma exponencial desde a última expulsão de mais de 700 mil pessoas desta comunidade de Myanmar (antiga Birmânia), em setembro.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM) tal facto também tem muito que ver com as condições deploráveis em que os refugiados se encontram nos campos do Bangladesh, com um racionamento dos bens alimentares que não chega para saciar a fome de todos os membros dessas famílias numerosas.

A OIM documentou matrimónios desta minoria muçulmana em que as noivas não tinham mais de 11 anos, e confirmou que muitos progenitores alegavam que o faziam forçados, a fim de disporem de mais comida para o resto da família.

O Expresso assistiu à boda de uma menor de 15 anos nos campos da área de Cox’s Bazar, a qual foi entregue pelos seus pais em casamento precisamente porque não recebiam uma ração de comida suficiente para sustentar toda a família.

A casa da noiva

Chegou o dia dela, é hoje o casamento, mas não parece que vá ser o dia mais feliz para Nur Fatema. A rapariga está sentada a um canto daquela que irá ser pela última vez a sua casa, a tenda que os pais ocupam no campo de refugiados de Kutupalong, Bangladesh.

Cabisbaixa e com um olhar perdido, quase melancólico, não consegue dissimular o desgosto. É muito jovem. Uns brincos dourados pendem-lhe das orelhas e do nariz, e repousa as mãos adornadas com henna em cima dos joelhos. Embora os adultos assegurem que tem entre 17 e 19 anos, ela corrige que não tem mais do que 15.

O pai, Abdur Rahman, conta que acertaram o matrimónio há dois meses com outra família conhecida da mesma aldeia onde viviam, em Myanmar. Explica que o fazem mais por necessidade do que por gosto.

“Dão-nos 30 quilos de comida duas vezes por mês (arroz, óleo, lentilhas), mas lá em casa somos sete e não chega para todos. Vamos casá-la porque temos problemas e ainda tenho outras duas filhas à espera de se casarem.”

A menina olha para ele com uma expressão de desprezo enquanto ajusta melhor o pano amarelo que lhe cobre a cabeça.

“Estás contente por te casares?”, pergunta-lhe alguém de repente. Num ato reflexo, ela morde os lábios por uns segundos de modo a não dizer o que realmente pensa. “Se a minha mãe está contente, eu também estou”, acaba por responder, satisfeita por ter encontrado palavras politicamente corretas.

Uma vintena de mulheres da família fazem companhia a Nur até que o noivo a venha buscar. Amontoam-se com as suas respetivas proles nos escassos metros ocupados pela tenda. Uma das tias dela, Hamida Begun, explica com orgulho que demorou mais de duas horas a desenhar-lhe o henna que traz tatuado nos braços e nas pernas. A maioria delas não dispõe de outra roupa senão a que trazem vestida, e por isso pintaram a cara com pigmentos amarelados para a ocasião.

A casa do noivo

A casa do noivo encontra-se a apenas cinco minutos de distância a pé, porém é preciso saber o caminho. O campo de Kutupalong é um autêntico formigueiro de tendas erguidas sem ruas, sem ordem e sem lógica alguma. A única numeração que existe avista-se do alto das colinas. Foram colocadas umas letras gigantes onde se lê “Bloco A, Bloco B...” e no interior de cada bloco, que agrupa mais de uma centena de tendas, é preciso procurar os porta-vozes de cada comunidade e perguntar-lhes por fulano ou sicrano. Com um pouco de sorte alguém há de conhecê-lo e levar-nos-á à sua tenda.

Nur Hakim, protagonista da festa, mostra-se contente apesar da sua extrema timidez. Conhecia a sua futura esposa desde Myanmar mas falaram pela primeira vez no campo de refugiados e só quando atingir a maioridade selará o compromisso. Veste uma camisa de tom azul elétrico e o gorro islâmico, do qual escorrem sem cessar gotas de suor.

O jovem casal ficará instalado em casa dos pais dele. A tenda dispõe apenas de duas divisões para as oito pessoas (e a partir desta noite, nove) que compõem a família.

“Vão dar-nos um quarto só para nós durante os primeiros dias, e depois haveremos de nos arranjar”, acrescenta Nur Hakim, enquanto tenta dissimular um sorriso envergonhado que se lhe desenha sob a penugem que faz de bigode.

A família dele também recebe a mesma ração de uns 30 quilos de comida duas vezes ao mês, e apesar de a partir de agora passar a haver mais uma boca, não receberão maior quantidade. “Não é suficiente, mas haveremos de nos arranjar”, volta a dizer o noivo, como se hoje não fosse dia de pensar em misérias.

A boda

Cerca das quatro da tarde Nur Hakim vai buscar Nur Fatema para a trazer para sua casa. Deixa-a no “quarto dos noivos”, onde esperará ajoelhada até que a cerimónia termine (quatro horas mais tarde). Ficará ali imóvel, com o rosto coberto por um véu de contornos dourados e acompanhada por uma dezena de meninas que se revezam para a refrescarem com um leque.

Penduraram no teto grinaldas de brincos-de-princesa, contudo o ambiente do aposento é irrespirável. A temperatura é extremamente elevada devido ao efeito de estufa causado pelos plásticos que fazem de parede por cima das canas de bambu.

Em fundo soa o ‘Boom, Boom, Boom, Boom’ dos Vengaboys e outros êxitos de discoteca do mesmo estilo. A música vem do quarto contíguo, onde os mais pequenos lutam para encontrar um espaço onde possam dançar dentro daquela divisão.

E pouco a pouco o odor a especiarias picantes começa a impregnar tudo. Prepararam os seus tradicionais pratos de galinha para o misturarem com arroz e o levarem à boca em pequenas bolas amassadas com a mão. As crianças, os homens e as mulheres comem em separado e por esta ordem. Há comida para uma centena de bocas, uma autêntica excentricidade nestas famílias que despendem o último grão de arroz para alimentarem os seus membros todos os dias.

Homens e mulheres separados

Com o estômago cheio, chega o momento de recuperar parte dos gastos. Isso é coisa só para homens. Levam para a rua uma mesa pela qual vão passando os convidados a fim de efetuarem uma contribuição económica, e em troca, em jeito de cortesia, recebem um cigarro ou uma folha de betel, a tradicional mistura de tabaco, noz de palmeira e cal que lhes tinge os dentes de vermelho, e produz neles um efeito tão estimulante como viciante.

Mas ainda não estão casados. Quando cai o sol, cerca das seis, ouve-se o cântico que chama à oração. Os homens acorrem à mesquita mais próxima, entre o meio milhar delas que foram erigidas nos campos (as mulheres só podem rezar em casa). E é só depois da pregação que o imã aparece para oficializar a cerimónia, para a qual a noiva não está convidada. Tão pouco o resto das mulheres.

Em nenhum momento o líder religioso se preocupa em saber se se trata de um casamento de menores, ainda que no Bangladesh isso seja ilegal. Na verdade, nem sequer se cruza com a noiva que continua confinada no quarto nupcial. Uma vez acabada a cerimónia religiosa já só falta a noite de núpcias, essa noite em que Nur Fatema se tornará mulher.»

Reestruturação da dívida grega: Mário Centeno à direita de Pais Maduro?

Ladrões de Bicicletas


Posted: 18 Aug 2018 02:15 PM PDT

Em Abril deste ano, foi publicado o artigo “How to solve the Greek Debt Problem”(“Como Resolver o Problema da Dívida Grega”), tendo Barry Eichengreen, respeitado historiador económico norte-americano e reconhecido crítico da arquitetura da zona euro, como um dos autores.

O teor do documento merece ser analisado por dois motivos: em primeiro lugar, pela sua qualidade substantiva e pela análise rigorosa que dedica ao tema da dívida grega; em segundo lugar, porque Miguel Poiares Maduro, ex-ministro adjunto do governo de Passos Coelho e atual professor no Instituto Universitário Europeu, surge, surpreendentemente, na lista de co-autores.

O conteúdo

Analisemos primeiro a matéria substantiva. Os autores concluem que os contornos de reestruturação da dívida grega que o Eurogrupo vem avançando como possíveis após a conclusão do programa grego são desadequados. Segundo os seus exercícios de simulação, a proposta, que apenas contempla a redefinição de prazos e juros dos empréstimos do EFSF (European Financial Stability Facility), não garante a sustentabilidade futura da dívida grega e pode prolongar a dependência de financiamento por mecanismos europeus como o novo ESM, durante várias décadas - com todas as implicações negativas em termos de condicionalidade política e macroeconómica que daí adviriam.

Mas porquê? Porque os saldos orçamentais primários futuros necessários para garantir o sucesso de uma proposta com esses contornos são irrealistas. Segundo a resolução do Eurogrupo de 15 de Junho de 2017 (confirmados na resolução de Junho de 2018), a Grécia está comprometida a manter um excedente primário de 3,5% até 2022, descendo progressivamente até 2% em 2030 e a manter-se nesse valor até 2060.

O problema é que, como os autores alertam, os estudos existentes sugerem que a probabilidade de excedentes primários desta grandeza se manterem ao longo de tantas décadas é próximo de zero. Citando: “Mas enquanto a abordagem do Eurogrupo - exigindo um elevado excedente primário por um período muito longo e permitindo pouco alívio da dívida – é internamente consistente, não é, infelizmente, consistente com a experiência internacional (muito menos com o histórico orçamental da Grécia). Baseado numa ampla amostra de países emergentes e avançados no período pós-Segunda Guerra, Zettelmeyer et al. (2017) concluem que a probabilidade de observar um período contínuo de os excedentes acima de 2% desce para zero após cerca de 15 anos. O Eurogrupo sugere mais de 40 anos, a partir de 2018 para 2060” (tradução livre).

Embora o documento não se debruce sobre ela, uma questão que pode surgir é se a manutenção de saldos primários elevados não é apenas uma questão de sacrifício e compromisso, não sujeita a qualquer imperativo histórico. A resposta a essa possível questão é não, porque os ciclos económicos são voláteis e a despesa pública está, por meio dos estabilizadores automáticos (impostos e transferências sociais), muito dependente do ciclo económico de forma contracíclica. Além disso, em momentos de contração da procura agregada privada, pode ser essencial introduzir um choque de despesa ou investimento públicos para evitar uma recessão de maiores proporções. É por isso que os dados históricos mostram que a manutenção de saldos primários desta magnitude é implausível. Porque, num momento (ou em vários momentos) ao longo de um período de várias décadas, o ciclo económico vai inverter-se, fazendo decrescer o montante dos saldos primários até, provavelmente, se transformarem num défice. Não considerar esta regularidade é negar o comportamento das economias capitalistas desenvolvidas ao longo das últimas décadas.

A próxima questão pertinente é se os decisores do Eurogrupo não têm consciência desta realidade histórica. No que a isso se refere, a verdade é que muito provavelmente terão, apostando numa estratégia de pau e cenoura: "cumpram estas medidas difíceis agora, apesar de assentarem em pressupostos irrealistas, que mais adiante serão compensados com medidas mais favoráveis. "

É contra os efeitos negativos desta estratégia que o documento alerta no capítulo “Why not just wait and see?”, onde se observa que uma estratégia que não assente em pressupostos plausíveis poderá favorecer o comportamento especulativo dos mercados – sobretudo à medida que as metas forem sendo incumpridas – lançando a Grécia para um novo programa de ajustamento. Ser generoso apenas após uma suposta expiação dos pecados pode ser uma atitude firmada em sede religiosa, mas muito nociva em economia.

Por fim, em resultado dos seus exercícios de simulação, e após desacreditarem a proposta do Eurogrupo, o conjunto de economistas defende o corte nominal de 10% a 15% do stock da dívida pública grega, como condição necessária à sua sustentabilidade futura, assumindo uma dinâmica orçamental mais realista.

Pela preponderância que alguns dos autores do texto têm no debate europeu, este é, simultaneamente, um texto relevante e ousado. Relevante, porque não é possível passar despercebido aos olhos dos membros do Eurogrupo. Ousado, porque constitui um apelo a que o Eurogrupo considere cortes significativos no stock da dívida pública grega – tema tabu há escassos anos atrás – ao mesmo tempo que desmascara o fantasioso exercício das análises de sustentabilidade desse órgão intergovernamental. Não significa que eu concorde em absoluto com as recomendações avançadas nem que eu considere esta a estratégia mais adequada para resolver o problema da dívida grega: significa apenas que este é um desafio expressivo provindo de vozes escutadas – embora raramente seguidas - em Bruxelas.

De ministro a professor irresponsável

Aparte a substância da proposta, a surpreendente presença de Poiares Maduro como um dos seus co-autores é algo que não deve passar sem nota no enquadramento político português.

Para aqueles a quem a memória vai escasseando, é oportuno recordar o percurso político do singular personagem.

Em 2014, chegava ao governo Miguel Poiares Maduro. Chegou para credibilizar o lugar antes ocupado pelo descredibilizado Miguel Relvas. Para ajudar ao sucesso da sua missão, vinha ungido – como sempre convém – dos mais altos pergaminhos académicos, na qualidade de professor do Instituto Universitário Europeu. A mensagem política era a necessária para um governo em desesperada busca de apoio social: Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, abria mão do seu compagnon de route de integridade duvidosa e substituía-o por um insuspeito académico de uma universidade europeia. Pôr o país primeiro para uns, jogada política para outros... Enfim, façam a vossa escolha.

Como Ministro-Adjunto, Poiares Maduro foi um definidor estratégico do discurso governamental sobre o virtuosismo da austeridade. Em Março de 2014, em resposta a um manifesto que defendia a reestruturação da dívida pública portuguesa, e que contava com subscritores de amplos setores da sociedade portuguesa, incluindo do PSD, Poiares Maduro respondia: “Esse manifesto e a simples circunstância de se falar de reestruturação da divida são uma total irresponsabilidade. (…) A forma responsável de reduzir o peso da dívida em Portugal é fazer o que o Governo tem vindo a fazer: consolidação orçamental, redução de taxas de juro em virtude dessa mesma consolidação orçamental, estender as maturidades da divida. (…) A ideia que alguns querem transmitir aos portugueses de que é possível evitar os sacrifícios com não pagar a dívida é totalmente falsa. (…) Acho que é uma irresponsabilidade e uma tentativa de em Portugal alguns tentarem convencer os portugueses que é possível evitar sacríficos com ilusões de soluções milagrosas que apenas se traduziam em maiores sacrifícios”. (ver aqui)

O ministro Poiares Maduro não fazia por menos: a reestruturação era irresponsável e as personalidades da sociedade portuguesa não passavam de vendedoras de ilusões. Que teria o ministro Poiares Maduro de 2014 a dizer ao académico Poiares Maduro de 2018? Talvez que não passava de um professor irresponsável. Nunca saberemos.

O que fica evidente neste contraste de posições é aquilo que vá sendo afirmado neste blogue desde o início da crise: a questão da reestruturação como solução política para os problemas económicos de um país não é uma questão de esquerda ou direita. Em determinadas conjunturas, como a crise das dívidas soberanas da zona euro, era a mais elementar das estratégias. O que a direita e os seus ideólogos fizeram – incluindo Poiares Maduro – foi convencer a opinião pública de que a reestruturação da dívida era uma solução só defendida por um conjunto restrito de economistas de extrema-esquerda. A defesa da austeridade foi, na verdade, muito mais um discurso ao serviço da implementação de um programa político e económico do que uma verdadeira ausência de propostas alternativas.

Poiares Maduro até pode argumentar que é autor de um artigo sobre a dívida grega e que Portugal não é a Grécia. Mas há algo que não poderá negar: é saber que, em determinados contextos, a reestruturação da dívida é uma solução desejável e que não implica que os seus proponentes sejam irresponsáveis ou vendedores de fantasias. A menos que pretenda aplicar os adjetivos a si próprio.

E o Presidente do Eurogrupo?

Relembremos: Em Dezembro de 2017, Mário Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo. Internamente, a eleição foi acolhida com grande entusiasmo pelo próprio e por quem acalentava um governo situado ao centro: após os atribulados meses inicias em que era olhado como um perigoso ministro apoiado por partidos eurocéticos, Mário Centeno era consagrado como um membro establishement. A nomeação vinha com um custo – também muito apreciado pelo mesmo e pelas demais forças centrípetas: Mário Centeno deixaria de poder ser – se é que alguma vez o desejou - uma voz ativa na reforma da zona euro ou o promotor de uma aliança progressista com outros governos da Europa.

E, na verdade, Mário Centeno aparenta estar muito confortável nesse papel. É suficiente recordar as suas palavras a uma agência de notícias grega, quando referiu que “o programa de ajustamento poderia ter dados resultados positivos muito mais cedo”, caso a Grécia não se tivesse desviado das medidas do programa. (ver aqui)

Quando se lê a posição do Eurogrupo de 22 de Junho de 2018, a propósito da Grécia – pelo qual Mário Centeno dá a cara como presidente – a parada é ainda elevada a outro patamar.

No documento pode ler-se: “The Eurogroup acknowledges the significant efforts made by the Greek citizens over the last years. Greece is leaving the financial assistance programme with a stronger economy building on the fiscal and structural reforms implemented. It is important to continue these reforms, which provide the basis for a sustainable growth path with higher employment and job creation, which in turn is Greece's best guarantee for a prosperous future” (ver aqui).

Ver o ministro das finanças de um governo de esquerda, que fez da rejeição da austeridade a sua bandeira, ser a face de um documento que estabelece uma relação direta entre as medidas de austeridade aplicadas na Grécia – e todo o retrocesso e sofrimento social que causaram – e o sucesso económico futuro desse país, só pode ser considerado um momento de triste memória.

No que respeita aos objetivos orçamentais futuros, pode ler-se no mesmo documento: “The Eurogroup returned to the sustainability of Greek debt on the basis of an updated debt sustainability analysis provided by the European institutions. The implementation of an ambitious growth strategy and of prudent fiscal policies will be the key ingredients for debt sustainability. In this context the Eurogroup welcomes the commitment of Greece to maintain a primary surplus of 3.5% of GDP until 2022 and, thereafter to continue to ensure that its fiscal commitments are in line with the EU fiscal framework. Analysis of the European Commission suggests that this will imply a primary surplus of 2.2% of GDP on average in the period from 2023 to 2060.”

Ora, estas são exatamente as mesmas metas que o grupo de economistas – entre os quais Pais Maduro - revelou serem irrealistas com fortes argumentos, como vimos anteriormente. Nada de novo pelos lados do Eurogrupo, portanto: distorce-se a evidência para favorecer a narrativa de quem manda.

Deste texto, creio que se podem extrair duas notas principais:

i) A ironia de um governante que defendeu a austeridade e repudiou a reestruturação da dívida ser o autor de um texto que defende a reestruturação do stock da dívida grega. Tudo isto em conflito com a posição assumida pelo Eurogrupo, presidido pelo ministro das finanças de um governo anti-austeridade, que rejeita a reestruturação da dívida grega e prefere fazer um exercício fantasioso sobre a sua sustentabilidade.

ii) Sabemos que o atual governo marcou um corte com a lógica de austeridade – até porque, como clarificou um outro autor deste blogue, a austeridade é outra coisa. Mas não nos equivoquemos: precisamos de um ministro das Finanças que reconheça as falhas da arquitetura da união monetária, deixe claro como elas prejudicam economias periféricas como a portuguesa e pugne pela sua reforma. Aliás, à imagem de tantos prestigiados economistas internacionais próximos do establishement, como Stiglitz e Eichengreen. O Mário Centeno presidente do Eurogrupo não é esse ministro. Um Mário Centeno presidente do Eurogrupo e sustentado por uma maioria absoluta do Partido Socialista sê-lo-á ainda menos.