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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Não tenho medo de ouvir Le Pen

Shrikesh Laxmidas

17 Ago 2018

Na última edição da Web Summit assisti a um painel no qual estava presente Nigel Farage, o ex-líder do UK Independent Party e um dos principais arquitetos do Brexit.

Após ter explicado, jocosamente, que as meias que trazia com um padrão da Union Jack eram uma celebração do divórcio com a União Europeia, Farage falou, num tom mais sério, sobre como o movimento que liderou usou as redes sociais e as plataformas de comunicação digital para obter o resultado desejado no referendo de junho de 2016.

Explicou como o UKIP identificou cedo que, como partido insurgente, não poderia tentar obter atenção através de meios convencionais, como a  BBC, e optou por utilizar canais como o YouTube.

No mesmo painel estava Brad Parscale, que foi o guru digital da campanha presidencial de Donald Trump, também em 2016. Parscale falou sobre como a campanha utilizou o Facebook e outras redes sociais para levar o magnata republicano à Casa Branca, e como essas empresas estavam de tal forma empenhadas em captar parte do orçamento publicitário que até colocaram funcionários nas sedes da campanha para ajudar na estratégia.

Não fiquei traumatizado nem me tornei num apoiante do Brexit ou de Donald Trump. Sobrevivi e até aprendi algumas coisas sobre como as duas campanhas, vistas como outsiders à partida, conseguiram convencer o eleitorado recorrendo à tecnologia.

Conto esta história para explicar a minha surpresa com o convite e ‘desconvite’ da Web Summit a Marine Le Pen.

O Governo diz que não interveio no processo. Podemos acreditar ou não e, provavelmente, nunca iremos saber. Mas sabemos que, por alguma razão, Paddy Cosgrave mudou de opinião e disse a Le Pen que não precisava de vir a Lisboa. Le Pen lidera uma organização xenófoba e, apesar de o negar, com tendências neo-nazis.

Obviamente que não concordo com a ideias que representa, mas também não consigo concordar com o argumento que não se podem usar fundos públicos para essas ideias serem apresentadas em Lisboa. Marine Le Pen não é inexperiente, duvido que viesse expressar hate speech numa plataforma global. Se o fizesse seria crime, claro.

Se nunca tivesse sido convidada seria outra história, mas a remoção do convite infantiliza-nos de alguma maneira – afinal, somos assim tão permeáveis e sensíveis? Temos mesmo de ser intolerantes com os intolerantes?

Pior do que isso, retira a possibilidade de percebermos  como é que a União Nacional (ex-Frente Nacional) opera, como ganha terreno, como pudemos fazer com Farage e Parscale no ano passado. Retira também a possibilidade de Le Pen ser confrontada e questionada sobre as soluções extremas que propõe.

Seria certamente mais interessante do que foi o evento público com Costa e Macron em Lisboa, em julho, que parecia mais um coro sobre as mesmas ideias, muitas acertadas, mas que já ouvimos mil vezes.

A realidade é que Le Pen existe e chegou à segunda volta das eleições presidenciais num dos países mais importantes da Europa. Tal como Farage e Parscale, tem formas de persuadir milhões sobre as suas ideias.

Temos orgulho no facto de, em Portugal, um país com pouco extremismo político, podermos discordar em alta voz. Mas, para discordar, temos de ouvir e, para isso, temos de deixar os outros falar.

Uma cena burlesca

José António Saraiva20/08/2018

José António Saraiva
Opinião


jose.a.saraiva@newsplex.pt

O facto de se ter agarrado a um papel que não significava nada, como um náufrago que se agarra a um pedacito de madeira julgando poder salvar-se, diz muito sobre o estado mental de Bruno de Carvalho.

Na sexta-feira passada, Bruno de Carvalho apresentou-se no Estádio de Alvalade com um papel na mão, dizendo ter uma decisão do tribunal que invalidava a assembleia geral que o destituíra, reclamando que lhe devolvessem a presidência. Os que lhe haviam usurpado o poder deviam deixar as instalações do clube e entregarem-lhe o lugar.

A situação era insólita. Qualquer indivíduo normal, perante uma decisão judicial que o repunha como presidente de uma instituição da qual tivesse sido deposto, falaria com o seu advogado, este falava com o advogado da parte contrária, e estabeleceriam uma forma de proceder (ou não) ao cumprimento da lei.

Quem se lembraria de aparecer de papel na mão a reclamar o poder?

Pior do que isso, porém, é que o papel que Bruno de Carvalho levava na mão não era nada do que ele dizia ser. Tratava-se do registo uma providência cautelar que ele entregara com vista a recuperar a presidência do clube. O tribunal ainda não se pronunciara!

O episódio assumia, assim, aspectos burlescos. Bruno de Carvalho sabia ou não o significado daquele papel? Se sabia, custa a entender como se dispôs a protagonizar uma cena que acabaria inevitavelmente com a sua humilhação pública. Se não sabia, como se pôs a caminho de Alvalade com um documento de que desconhecia o alcance?

Custa muito a perceber.

Mesmo que o tribunal lhe tivesse devolvido o poder, Bruno de Carvalho devia ter consciência de que já não dispõe de condições para voltar à presidência. O Sporting já está noutra. Sousa Cintra está a colar os cacos, conseguiu o regresso de alguns jogadores, mostra serenidade e bom senso naquilo que faz e diz – pelo que nenhum verdadeiro sportinguista desejaria neste momento o regresso de Bruno de Carvalho.

Nem os seus apoiantes quereriam!

Quando o clube parece em vias de reentrar nos carris, depois de se libertar de um ambiente de loucura que levou adeptos a agredirem jogadores, que fez com que o nome do clube fosse falado de manhã à noite nas TVs pelas piores razões, que assistiu à maior confusão interna de que há memória, com órgãos paralelos a reclamarem o poder, quem desejaria o regresso do homem que o conduziu ao caos?

Quando o Sporting está à beira de alcançar a paz interna, quem quereria o regresso da guerra civil?

O facto de se ter agarrado a um papel que não significava nada, como um náufrago que se agarra a um pedacito de madeira julgando poder salvar-se, diz muito sobre o estado mental de Bruno de Carvalho.

É hoje um homem desfeito. Afogou-se no poder que construiu, mostrando total impreparação para o exercer. O poder enlouqueceu-o. Já não pensa, só se agita como um espantalho que perdeu tudo e não suporta olhar para as mãos vazias.

ERIC DA SILVA NO FILME “UMA VIDA SUBLIME” PREMIADO NA ÍNDIA

Eric da Silva em UVSEric em Uma Vida Sublime

O ator Eric da Silva acaba de ganhar o Prémio Melhor Ator no “3trd LakeCity International Film Festival 2018” que decorreu na cidade indiana de Gwalior .

Este é o terceiro prémio que o ator recebe com a interpretação do Dr. Ivan, o protagonista do filme UMA VIDA SUBLIME de Luís Diogo.

Anteriormente Eric da Silva tinha já sido distinguido com o Prémio Melhor Ator na Semana dos Realizadores do Fantasporto 2018 e mais recentemente em Espanha, recebeu igual título no “V Festival Internacional de Cine de Calzada de Calatrava”.

Tendo estudado interpretação no “Centre d’Estudis Cinematografics de Catalunya”, Eric da Silva tem dividido a sua atividade sobretudo entre a televisão (“Teorias da Conspiração”, “Filha da Lei”, “Mistério do Tempo” ou “Rainha das Flores”) e o cinema (“Bad Investigate”, ou “Expatriate”).

Este é o 12º prémio para o filme UMA VIDA SUBLIME, que participou já em 20 festivais, e está selecionado para vários outros.

O filme conta a história de um médico que tem uma “vida sublime” mas para quem a tristeza é verdadeiramente um problema. Inesperadamente usa métodos radicais na esperança de voltar a injetar de vida pessoas que, segundo ele, já não a desfrutam.

Este filme é protagonizado, para além de Eric da Silva, por Rui Oliveira e pela atriz Susie Filipe que é também baterista da banda aveirense “Moonshiners”.

UMA VIDA SUBLIME é a segunda longa-metragem do cineasta Luís Diogo, que também é autor do argumento original e coprodutor com António Costa Valente. Produzida em parceria com o Cine-Clube de Avanca e a Filmógrafo, este filme integrou o projeto “Creative Film Workshops” do Festival de Cinema AVANCA.

O “3trd LakeCity International Film Festival 2018” realizou-se nos dias 11 e 12 de agosto na ITM-University Gwalior, nesta que é uma das cidades mais estratégicas na região de Gird e a mais setentrional do estado indiano de Madhya Pradesh, a 319 quilômetros ao sul de Delhi, a capital da Índia.

O filme UMA VIDA SUBLIME estreia nas salas de cinema a 4 de Outubro.

Santana Lopes e suicídio das velhas baratas

  por estatuadesal

(Carlos Matos Gomes, 19/08/2018)

santana_barata.PNG

(Este texto merece séria reflexão. Tão séria quanto a atenção que deve ser dada ao nascente partido de Santana. Quando a terra está de feição não é preciso ser grande agricultor alcançar uma boa safra, é em síntese, a metáfora que me ocorre para dar conta das preocupações do autor.

Comentário da Estátua, 20/08/2018)


Santana Lopes e suicídio das velhas baratas. O Partido Santana Lopes, os reis que vão nus. Desde logo: o rei que vai nu não é o Pedro Santana Lopes. Os reis que vão nus são o BE, que não é radical nem revolucionário, é o PC, que não é comunista, é o PSD, que não é social democrata, é o CDS que não é democrata cristão. Resta o PS, que se assumiu desde o comício da Fonte Luminosa, em 1975 como o “rassemblement” de sociais democratas e democratas sociais, no sentido que a social democracia e a encíclica Rerum Novarum de Leão XIII tomaram no pós-guerra e na guerra fria.

Esses é que vão nus: não têm roupagem ideológica que lhes cubra o corpinho. Nem o BE nem o PC podem (nem querem, nem existem as tais condições objectivas) fazer qualquer mudança estrutural do regime demo capitalista, nem o PSD e o CDS podem fazer mais do que fazem: alterações pontuais na distribuição da riqueza entre assalariados e gestores, com o grosso a ser acumulado pelo sistema financeiro.

De Pedro Santana Lopes se poderá dizer o mesmo que o Santo Agostinho dizia pragmaticamente do Diabo: O Diabo não é diabo por ser mau, mas porque é velho. Pedro Santana Lopes não é mau por ser liberal, não é político por querer o bem do povo, mas porque anda cá há tempo suficiente para perceber o que está a dar para o povo comprar.

Ele está no mercado da política há muito tempo. O liberalismo de face descoberta está em alta. Vende. E com as ajudas certas da concorrência ainda vende melhor. Não existe melhor promotor do liberalismo que maus serviços públicos. Que um Estado que não proporciona serviços básicos de qualidade.

Pedro Santana Lopes percebeu – não é difícil – que o mercado político em Portugal está polarizado num Partido Socialista que tem, tant bien que mal, uma identidade ideológica, e que o resto são produtos contrafeitos, que, por isso não ganham eleições e não dão acesso ao poder.

O PC e o BE são hoje porta-vozes dos sindicatos da função pública. E os grandes sindicatos da função pública, aqueles que asseguram os serviços que dão alguma “alma” ao estado social, sindicatos da saúde, do ensino e dos transportes, são, com as suas ditas (e sempre justas) lutas – em que se alegram e celebram como vitórias terem deixado 2000 doentes sem cirurgias, ou 90% de uma população sem transporte, ou os alunos sem aulas nem exames - aliados de beijo na boca de um partido liberal, que defenda a liberalização dos serviços essenciais.

É que não há greves nos hospitais e clinicas privadas, nem nos colégios privados, nem lutas por descongelamentos de carreiras, nem cirurgias adiadas! Dirá Santana Lopes, dizem os liberais!

É demagogia? É. Mas é isto que um partido liberal vai vender e não há como contestar – para mais com a ajuda da comunicação social engajada. O partido de Santana Lopes vai vender seguros de saúde, vai vender planos de reforma. Vai fazer na saúde e na educação o que está a ser feito – sem um ai dos sindicatos, se bem repararam, sem uma excitação nem de Jerónimo nem de Arménio, nem da Catarina – o que os bancos estão a fazer: despedir, fechar, cobrar todos os serviços.

Pedro Santana Lopes sabe tudo isto. Vão chamar-lhe demagogo. E ele vai agradecer a demagogia do Mário Nogueira e da FENPROF, a demagogia do médico, ou enfermeiro que se ufanou de ter anulado 2 mil cirurgias nos hospitais públicos.

O Partido Santana Lopes vai meter o dedo na virilha dos partidos da demagogia, sim, os do sistema, vai meter o dedo na virilha dos sindicatos do funcionalismo. Mais interessante, vai utilizá-los para a sua promoção.

Quando, para os maiores partidos do sistema, os principais problemas são o descongelamento das carreiras dos professores do secundário (o tal 432 do desmiolado Nogueira), ou das horas extraordinárias de médicos e enfermeiros, que se batem pela diminuição da carga horária no SNS para irem arredondar o salário no privado, quando o PSD de Rio não sabe se o problema é do défice ou da dívida e o CDS da Cristas diz o que os ventos do dia e os incêndios ditam, entre o eucalipto e a velocidade dos tuk tuk, é óbvio que apresentar uma alternativa liberal – de privatização dos serviços essenciais – faz sentido: cheque saúde, cheque educação, cheque dentista, planos de reforma, parcerias público-privadas – o programa é conhecido e PSL não necessita de think tanks da Católica ou do Observador para o escrevinhar.

Pedro Santana Lopes tem bons aliados nos reis nus, que vão de Jerónimo de Sousa a Cristas, de Rio a Arménio, de Nogueira a Catarina, à Ana Avoila. Os ventos sopram-lhe de feição. Há dois projectos de sociedade em Portugal: o da social democracia de baixa intensidade de Costa e o liberalismo 5 estrelas de PSL. Os projectos do Observador, a venda de 2/3 da Impresa (Balsemão) ao Delgado amigo de Santana, a incorporação da SIC e da TVI numa fanfarra liberal não foram, nem são por acaso. O partido de Santana não surge de uma birra de menino guerreiro. É um ato para ser levado a sério.

Gosto desta dicotomia? Não.

Mas presumo que a festa do Avante, o comício do Pontal, as peixeiradas da Cristas, os acampamentos multicolores do BE, típicos da rentrée me confirmarão a seca de ideias e a cegueira de horizontes. Que as orquestras continuarão a tocar no Titanic, que foi o sistema partidário português até agora, e que os seus reizinhos nus se suicidem alegremente como as baratas da foto – mas em luta pelos seus direitos – como dizem.

Frederico Garcia Lorca, in memoriam

  por estatuadesal

(Abílio Hernandez, 19/08/2018)

lorca

Na madrugada de 19 de agosto de 1936, os fascistas de Francisco Franco prenderam Federico García Lorca em casa de um amigo, o poeta Luis Rosales, levaram-no para Viznar, nos arredores de Granada e fuzilaram-no. A ordem de execução foi dada por José Valdés Guzmán, o fascista governador civil de Granada. Federico tinha 38 anos e era o maior poeta de Espanha.

Os assassinos esconderam o cadáver, que nunca foi encontrado. Os fascistas têm medo de poetas e de homens livres.

ROMANCE DE LA LUNA, LUNA

La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira, mira,
El niño la está mirando.

En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño.

Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían com tu corazón
collares y anillos blancos.

Niño, déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
com los ojillos cerrados.

Huye, luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
Niño, déjame, no pises
mi blancor almidonado.

El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro da la fragua el niño,
Tiene los ojos cerrados.

Por el olivar venían,
Bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
Y los ojos entornados.

Cómo canta la zumaya,
ay cómo canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con un niño de la mano.

Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
El aire la está velando.