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terça-feira, 21 de agosto de 2018

O que vamos dizer aos nossos filhos?

  por estatuadesal

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 21/08/2018)

soromenho

No dia 6 de agosto, com repercussões em todo o mundo, foi conhecido um importante estudo sobre alterações climáticas, dado à estampa pela prestigiada Academia das Ciências dos EUA, com o título "Trajetórias do Sistema Terra no Antropocénico". Antes de ir ao essencial, gostaria de frisar a qualidade científica dos seus 16 coautores. Destacaria dois, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, o coordenador, Will Steffen, que persegue uma carreira brilhante na Austrália e na Suécia, e Hans Joachim Schellnhuber, talvez o mais influente cientista europeu, diretor do Instituto de Clima em Potsdam. Os cientistas do Sistema-Terra fazem hoje o trabalho que até ao século XVIII pertencia aos filósofos: pensar o mundo como um todo dinâmico. Contrariando a ciência tradicional, servida às fatias, em especialidades não comunicantes, os cientistas da Terra usam todos os meios poderosos hoje disponíveis, desde os supercomputadores aos modelos de circulação geral da atmosfera, analisando com rigor quantidades antes inimagináveis de dados do nosso planeta, tanto em tempo real como em séries históricas que podem recuar milhares e mesmo milhões de anos.

A tese central deste estudo é a de que o futuro próximo contém uma ameaça cada vez mais real, que pode comprometer a habitabilidade da Terra nos próximos séculos e milénios. Devido ao aumento descontrolado das emissões de gases de estufa, lançados para a atmosfera pelo nosso modelo de civilização, corremos o risco de que, mesmo que as metas do Acordo de Paris sejam alcançadas, a temperatura média da Terra aumente muito para além dos 2º C em relação ao período pré-industrial (cerca de 1850).

O planeta pode entrar numa rota desastrosa para a humanidade e a biosfera, que os autores designam como "Terra-Estufa" (Hothouse Earth). A novidade do estudo é tomar em consideração com mais rigor as chamadas "retroações (feedbacks) positivas": são efeitos desencadeados pelas alterações climáticas, que, por sua vez, aumentam a intensidade das próprias alterações climáticas. Por exemplo, quando o gelo flutuante do Árctico se derrete, diminui dramaticamente o efeito de albedo (a radiação e o calor refletidos para o espaço exterior), aumentando o calor que é absorvido pelos mares... O mesmo acontece com o recuo das florestas, com o derretimento do permafrost, e muitos outros efeitos das alterações climáticas, que as agravam depois, podendo tombar-se num perigoso "efeito de cascata"...

Este relatório funda-se no conhecimento, mas destina-se a iluminar a ação. Confesso que, depois de tantos anos nas lutas pelo ambiente, sinto uma náusea misturada com revolta. Desde pelo menos 1988 que já sabíamos o suficiente para começar uma transição energética, que nos poderia ter livrado deste pesadelo que vamos deixar como herança aos nossos filhos e netos. Perdi a paciência para negociações em que se faz promessas baratas, traídas por vantagens medíocres.

As alterações climáticas não são "uma falha de mercado", mas um crime contra a humanidade, cometido ao longo de décadas por grandes companhias e por sistemas políticos corruptos. Gente de carne e osso, que comprometeu o futuro da humanidade por 3000 anos, em troca de 30 anos de cupidez e ganância.

Não estou seguro de que evitaremos a catástrofe, mas espero que os responsáveis - sejam os despudorados, como Trump, ou os cínicos, como os que autorizaram o furo de Aljezur - não escapem sem castigo.

Kalimera, bem-vindos de volta à normalidade?

  por estatuadesal

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/08/2018)

LOUCA3

O vídeo de Mário Centeno sobre a Grécia (VER AQUI),  tem várias leituras possíveis, desde o seu conteúdo (que indica o que pensa o autor, admita-se) ao seu impacto (o desejado, mas também o imprevisto). Confesso que, depois de tudo o que foi dito, me interessa mais o impacto e o significado das respostas a Centeno, que definem alguns contornos interessantes da política portuguesa.

No entanto, o conteúdo merece ser escrito em pedra. Houve um processo do qual “todos aprendemos as lições”, começa por dizer o presidente do Eurogrupo, acrescentando que “isso agora é História”. Admita-se que possa haver alguma mensagem cabalística por revelar, pois não foi esclarecido o que seriam as tais saborosas “lições, mas se forem as referências seguintes às “más políticas do passado” na Grécia estamos em puro dijsselbloemês. No mesmo dicionário cabe o paternalismo da “responsabilidade” acrescida que agora incumbe aos gregos (ilustrado sub-repticiamente no vídeo com uma imagem de Tsipras). Mas o mais significativo é que, segundo Centeno, com as medidas de austeridade, “a economia foi reformada e modernizada”, mesmo sabendo-se que “estes benefícios ainda não são sentidos em todos os quadrantes da população”, mas “gradualmente serão”. “Nesse sentido, a Grécia regressou hoje à normalidade. Por isso, bem-vindos de volta”, um sorriso e está cumprida a função, assim tipo moralista, como agora se diz.

Sobre o fracasso da política europeia imposta à Grécia já escrevi a minha opinião aqui há poucas semanas. Notei então que Moscovici, um socialista francês, se tinha excedido no paternalismo bacoco (Ulisses volta à pátria, escrevia o homem) mas que Regling, do mecanismo europeu que vai gerir os dinheiros, se atrevia a mostrar a mão dura que vai garantir a agiotagem. Diga-se, de passagem, que as noções de “responsabilidade” e “controlo” soam mais realisticamente prussianas quando são evocadas pelo chefe dos credores. O facto é que a economia da Grécia foi destroçada, sobrevive com um surto de turismo barato e é um barco de papel lançado ao mar à espera de um milagre que se tornará um pesadelo na primeira oscilação dos mercados. O elogio do “regresso à normalidade” por Centeno é, por isso, uma forma de endossar uma política que o governo português repetiu até à exaustão que achava errada. “A Grécia salvou-se da troika”, festeja um editorialista em socorro de Centeno, e tudo soa a normalização do fracasso da austeridade.

Ora, é precisamente porque a mensagem é também para português ver que ganha tanta importância a forma como os partidos e os comentadores interpretaram Centeno. Creio que há três categorias de respostas essenciais.

A direita aferrou-se ao assunto. Argumento: o ministro é contraditório, apoia na Grécia o que diz rejeitar em Portugal. Tudo certo. Mas este argumento é um berbicacho para o CDS e o PSD. Primeiro, porque o que criticam a Centeno não é o que faz, mas é não dizer o que faz, porque no seu sucesso só estaria a completar o que a direita iniciou, essa austeridade que é o caminho da virtude. Ora, é coisa de meninos atacar um governo por fazer o que o próprio crítico entende estar certo. Na questão grega, outra vez a mesma efervescência: “duas caras”, diz Miguel Morgado, “duas caras”, protesta com originalidade João Almeida. Mas de que cara é que gostam e qual odeiam? A austeridade portuguesa foi ótima, a grega mais exagerada, dizem, mas Centeno é continuador de Vítor Gaspar e por isso é dos nossos, logo detestamo-lo. Que haja alguém nesta santíssima direita que ache que esta conversa move o eleitorado é um sinal fatal de perda de sentido da realidade. Morgado e Almeida, que fizeram o turno do comentário estival, não querem saber e aproveitam todas as oportunidades para lembrar ao milhão de eleitores que lhes fugiram em 2015 que estão contentíssimos com a política que levou Portugal a agravar a recessão. Tudo previsível, portanto.

Na esquerda, alguma surpresa. O PCP fez o comunicado do costume a desconversar, o problema é a União Europeia. E é, mas o problema é também quando não se discute o problema. O Bloco preferiu dizer que a tese implícita de Centeno, o sucesso do programa grego, é “ridícula”. Também poderá ser, se não for trágica. Mais, seria “insultuosa para os gregos e esclarecedora para os portugueses”. Será assim tanto? Em todo o caso, faltou a pedagogia e o debate claro. O discurso de Centeno mereceria outras perguntas: se este é o “regresso à normalidade”, se é assim que a “economia é reformada e modernizada”, então vale mesmo o corte nos salários e pensões? E a privatização dos portos e aeroportos? Porque essas são as questões que importam sempre que há uma crise e, isso sim, serve para Portugal, é uma “lição”.

Finalmente, a resposta mais importante de todas veio do PS, precisamente do seu anterior porta-voz, João Galamba, no mais duro dos comentários. Disse-se que foi voz única, mas o silêncio deve ser medido não tanto por não ter havido outras críticas escritas, mas muito mais por não ter havido nenhum apoio significativo que saísse à liça pelo presidente do Eurogrupo. Ninguém disse uma palavra a favor de Centeno. Silêncio sepulcral. Não sei se por terem os seus camaradas considerado que o vídeo seria um mero “pecadilho” de vaidade, e isso é comércio ligeiro, ou se por embaraço, afinal não foi nada disto que disseram na campanha eleitoral.

Mas há nestes debates uma revelação. Há pelos vistos quem tema o peso determinante da aliança Centeno-Santos Silva no governo, e que sinta que, deste modo, a política vai sendo conduzida por atoardas cínicas de um ministro anónimo nos jornais, mais uma austeridade que se sente irracional (atrasar os concursos de médicos especialistas para poupar uns tostões ou o ministro das Finanças ir ao parlamento responder na comissão de saúde, deixar degradar o material ferroviário, ou atrasar investimentos que vão ficar mais caros depois, por exemplo).

Ao elogiar a troika na Grécia, o ministro, que obviamente se prepara para voos internacionais – e por isso o seu vídeo é uma promoção de carreira – está também a dizer que, afinal, quando a economia aperta a receita tem que ser a de sempre. E é isso mesmo que se deve discutir com clareza até que a experiência e as ideias configurem uma alternativa sólida a essa austeridade, que é a máquina de destruição. Assim, Centeno fez um favor à esquerda portuguesa, apontando-lhe ainda não ter a preparação suficiente para uma economia competente.

Entretanto, o ministro faria bem em notar que Kalimera, a palavra com que inicia a sua alocução, tem um sentido diferente em grego e na sua transliteração em português.

Uma outra Web Summit

João Marcelino

17 Ago 2018

Em Portugal, a esquerda da esquerda tem direito a evolução, tanto ideológica como de compreensão civilizacional. A direita da direita não tem o mesmo benefício de indulto histórico e mudança de agenda.

Pouco me interessam as incidências da formulação e retirada do convite a Marine Le Pen para a Web Summit. Se foi uma extraordinária campanha de marketing – e, se não foi, bem podia ter sido;  se o governo de Portugal e a Câmara de Lisboa ‘se mexeram’ – e é claro que ‘se mexeram’; se Pat Cosgrave, esse jovem empreendedor irlandês, parece agora menos inteligente e mais refém do sistema politicamente correto – e é claro que sim; se a liberdade de expressão não foi mais uma vez condicionada pelo dinheiro – e é claro que foi, sendo interessante reconhecer como a extrema-direita é hoje contestatária em relação a uma esquerda instalada e conservadora.

A propósito deste caso, prefiro sublinhar a evolução da perceção dos conceitos de comunismo e fascismo na sociedade portuguesa dos media.

Primeiro: o comunismo deixou de ser visto como uma ditadura, que gerou criminosos extraordinários, o maior dos quais o miserável Estaline, responsável por muitos milhões de mortos entre 1924 e 1953, seguramente mais de 40 (o dobro de Hitler!), embora algumas projeções cheguem a admitir 80/90. Esse horror, que também teve a sua componente étnica, ainda não fez sequer cem anos.

E, no entanto, a História parece ter sido esquecida e admitida sem reservas a evolução dos partidos amigos da revolução do proletariado. Por isso, o PCP, em Portugal, o último dos bastiões europeus da antiga URSS, é aceite genericamente como um partido democrático. Se hoje não faz parte da solução de governo e se se constitui como um apoio da “geringonça”, cada vez mais reticente e incomodado, isso apenas se deve a uma escolha própria. E o mesmo se pode dizer da UDP, do PSR e das forças que se confederaram nesse citadino movimento de elite chamado Bloco de Esquerda.

Segundo: ao contrário do que se passa na extrema-esquerda, a extrema-direita é sempre considerada nos media portugueses como sinónimo de ditadura e do seu paradigma mais nojento, o fascismo. Todos os seus líderes são estigmatizados, sejam da Áustria, da Hungria, da Polónia, onde for que conquistem o poder com os mesmos votos com que os outros – esses, sim, “democratas” – alcançam chefias de governos e de Estados. A associação ao caso supremo, o do nazismo de Hitler, perseguidor do extermínio de um Povo inteiro (o Judeu), é por aqui automática, e não apenas nos textos de opinião.

Ou seja, em Portugal, a esquerda da esquerda tem direito a evolução, tanto ideológica como de compreensão civilizacional. A direita da direita, e talvez esse seja o maior dos legados do nosso tiranete de província, Oliveira Salazar, não tem o mesmo benefício de indulto histórico e mudança de agenda.

Sublinho: não gosto da senhora Le Pen, que acho mais perigosa que o pai. Passo bem sem a ouvir. Mas não subestimo nem o alcance nem a validade daquilo que a torna insuportável para a esquerda nacional: a sua agenda quanto à imigração, sobretudo muçulmana, cujas consequências estão em exibição na outrora pacata Suécia.

O mundo está em mudança, mesmo que os media portugueses ainda continuem a ver esse mundo na ótica da revolução industrial, quando a fronteira se estabeleceu entre a remuneração do trabalho e a do capital, levando a reboque os conceitos de Liberdade e Democracia.

Hoje, a luta entre progressistas e conservadores joga-se no ambiente, no combate à corrupção dos regimes instalados (como o nosso), na digitalização da economia, no peso do Estado e no valor da livre iniciativa. Temos, aliás, aí a Web Summit que nos poderia ajudar a perceber tudo isso. E muito mais.

Bernie Sanders, o socialista democrata

Novo artigo em Aventar


por j. manuel cordeiro

O título com que Sanders se auto-adjectiva é estranho. Mas ouça-se o que ele diz quanto a, presentemente e na América, três pessoas terem, entre si, mais riqueza do que a metade mais pobre da população. Uma delas, Jeff Bezos, CEO da Amazon, vê a sua fortuna aumentar diariamente 250 milhões de dólares, mas paga tão pouco aos seus empregados que muitos precisam de recorrer a vales alimentares do sistema Medicaid. Ou, ainda, o que Bernie Sanders diz sobre o sistema eleitoral americano, onde os interesses das grandes fortunas podem financiar as campanhas eleitorais com centenas de milhões de dólares, para eleger representantes dos ricos e poderosos, em vez de representantes da população como um todo.

Este cenário não é exclusivo da América. Até no nosso Portugal, registamos como a banca, a EDP, a Galp e outras grandes empresas, incluindo as beneficiadas pelo esquema das PPP, vêem os seus interesses sistematicamente defendidos, com grande prejuízo da generalidade da população.

Onde vamos parar? Haverá luz ao fundo do túnel nesta sociedade mais preocupada com o lazer do que com as pessoas e com o planeta?

Ladrões de Bicicletas


Guiar o bem

Posted: 20 Aug 2018 09:53 PM PDT

António Guterres lembra Koffi Annan como «uma força que guiou o bem» e que «nunca deixou de trabalhar para manter vivos os princípios da Carta das Nações Unidas», destacando o seu empenho no processo de independência de Timor, essencial para quebrar a indiferença e virar o tabuleiro da comunidade internacional a favor da causa, contra o peso esmagador da realpolitik.
Neste agora, oxalá a proposta de António Guterres para proteger os palestinianos possa fazer também o seu caminho, num passo entre os muitos ainda necessários, para o fim da indiferença e para uma solução justa e duradoura do conflito.

Reestruturação da dívida grega: Mário Centeno à direita de Poiares Maduro?

Posted: 20 Aug 2018 07:24 AM PDT

Em Abril deste ano, foi publicado o artigo “How to solve the Greek Debt Problem” (“Como Resolver o Problema da Dívida Grega”), tendo Barry Eichengreen, respeitado historiador económico norte-americano e reconhecido crítico da arquitetura da zona euro, como um dos autores.
O teor do documento merece ser analisado por dois motivos: em primeiro lugar, pela sua qualidade substantiva e pela análise rigorosa que dedica ao tema da dívida grega; em segundo lugar, porque Miguel Poiares Maduro, ex-ministro adjunto do governo de Passos Coelho e atual professor no Instituto Universitário Europeu, surge, surpreendentemente, na lista de co-autores.
O conteúdo
Analisemos primeiro a matéria substantiva. Os autores concluem que os contornos de reestruturação da dívida grega que o Eurogrupo vem avançando como possíveis após a conclusão do programa grego são desadequados. Segundo os seus exercícios de simulação, a proposta, que apenas contempla a redefinição de prazos e juros dos empréstimos do EFSF (European Financial Stability Facility), não garante a sustentabilidade futura da dívida grega e pode prolongar a dependência de financiamento por mecanismos europeus como o novo ESM, durante várias décadas - com todas as implicações negativas em termos de condicionalidade política e macroeconómica que daí adviriam.
Mas porquê? Porque os saldos orçamentais primários futuros necessários para garantir o sucesso de uma proposta com esses contornos são irrealistas. Segundo a resolução do Eurogrupo de 15 de Junho de 2017 (confirmados na resolução de Junho de 2018), a Grécia está comprometida a manter um excedente primário de 3,5% até 2022, descendo progressivamente até 2% em 2030 e a manter-se nesse valor até 2060.
O problema é que, como os autores alertam, os estudos existentes sugerem que a probabilidade de excedentes primários desta grandeza se manterem ao longo de tantas décadas é próximo de zero. Citando: “Mas enquanto a abordagem do Eurogrupo - exigindo um elevado excedente primário por um período muito longo e permitindo pouco alívio da dívida – é internamente consistente, não é, infelizmente, consistente com a experiência internacional (muito menos com o histórico orçamental da Grécia). Baseado numa ampla amostra de países emergentes e avançados no período pós Segunda Guerra, Zettelmeyer et al. (2017) concluem que a probabilidade de observar um período contínuo de os excedentes acima de 2% desce para zero após cerca de 15 anos. O Eurogrupo sugere mais de 40 anos, a partir de 2018 para 2060” (tradução livre).
Embora o documento não se debruce sobre ela, uma questão que pode surgir é se a manutenção de saldos primários elevados não é apenas uma questão de sacrifício e compromisso, não sujeita a qualquer imperativo histórico. A resposta a essa possível questão é não, porque os ciclos económicos são voláteis e a despesa pública está, por meio dos estabilizadores automáticos (impostos e transferências sociais), muito dependente do ciclo económico de forma contracíclica. Além disso, em momentos de contração da procura agregada privada, pode ser essencial introduzir um choque de despesa ou investimento públicos para evitar uma recessão de maiores proporções. É por isso que os dados históricos mostram que a manutenção de saldos primários desta magnitude é implausível. Porque, num momento (ou em vários momentos) ao longo de um período de várias décadas, o ciclo económico vai inverter-se, fazendo decrescer o montante dos saldos primários até, provavelmente, se transformarem num défice. Não considerar esta regularidade é negar o comportamento das economias capitalistas desenvolvidas ao longo das últimas décadas.
A próxima questão pertinente é se os decisores do Eurogrupo não têm consciência desta realidade histórica. No que a isso se refere, a verdade é que muito provavelmente terão, apostando numa estratégia de pau e cenoura: "cumpram estas medidas difíceis agora, apesar de assentarem em pressupostos irrealistas, que mais adiante serão compensados com medidas mais favoráveis."
É contra os efeitos negativos desta estratégia que o documento alerta no capítulo “Why not just wait and see?”, onde se observa que uma estratégia que não assente em pressupostos plausíveis poderá favorecer o comportamento especulativo dos mercados – sobretudo à medida que as metas forem sendo incumpridas – lançando a Grécia para um novo programa de ajustamento. Ser generoso apenas após uma suposta expiação dos pecados pode ser uma atitude firmada em sede religiosa, mas muito nociva em economia.
Por fim, em resultado dos seus exercícios de simulação, e após desacreditarem a proposta do Eurogrupo, o conjunto de economistas defende o corte nominal de 10% a 15% do stock da dívida pública grega, como condição necessária à sua sustentabilidade futura, assumindo uma dinâmica orçamental mais realista.
Pela preponderância que alguns dos autores do texto têm no debate europeu, este é, simultaneamente, um texto relevante e ousado. Relevante, porque não é possível passar despercebido aos olhos dos membros do Eurogrupo. Ousado, porque constitui um apelo a que o Eurogrupo considere cortes significativos no stock da dívida pública grega – tema tabu há escassos anos atrás – ao mesmo tempo que desmascara o fantasioso exercício das análises de sustentabilidade desse órgão intergovernamental. Não significa que eu concorde em absoluto com as recomendações avançadas nem que eu considere esta a estratégia mais adequada para resolver o problema da dívida grega: significa apenas que este é um desafio expressivo provindo de vozes escutadas – embora raramente seguidas - em Bruxelas.
De ministro a professor irresponsável
Aparte a substância da proposta, a surpreendente presença de Poiares Maduro como um dos seus co-autores é algo que não deve passar sem nota no enquadramento político português.
Para aqueles a quem a memória vai escasseando, é oportuno recordar o percurso político do singular personagem.
Em 2014, chegava ao governo Miguel Poiares Maduro. Chegou para credibilizar o lugar antes ocupado pelo descredibilizado Miguel Relvas. Para ajudar ao sucesso da sua missão, vinha ungido – como sempre convém – dos mais altos pergaminhos académicos, na qualidade de professor do Instituto Universitário Europeu. A mensagem política era a necessária para um governo em desesperada busca de apoio social: Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, abria mão do seu compagnon de route de integridade duvidosa e substituía-o por um insuspeito académico de uma universidade europeia. Pôr o país primeiro para uns, jogada política para outros... Enfim, façam a vossa escolha.
Como Ministro-Adjunto, Poiares Maduro foi um definidor estratégico do discurso governamental sobre o virtuosismo da austeridade. Em Março de 2014, em resposta a um manifesto que defendia a reestruturação da dívida pública portuguesa, e que contava com subscritores de amplos setores da sociedade portuguesa, incluindo do PSD, Poiares Maduro respondia: “Esse manifesto e a simples circunstância de se falar de reestruturação da divida são uma total irresponsabilidade. (...) A forma responsável de reduzir o peso da dívida em Portugal é fazer o que o Governo tem vindo a fazer: consolidação orçamental, redução de taxas de juro em virtude dessa mesma consolidação orçamental, estender as maturidades da divida. (...) A ideia que alguns querem transmitir aos portugueses de que é possível evitar os sacrifícios com não pagar a dívida é totalmente falsa. (...) Acho que é uma irresponsabilidade e uma tentativa de em Portugal alguns tentarem convencer os portugueses que é possível evitar sacríficios com ilusões de soluções milagrosas que apenas se traduziam em maiores sacrifícios”. (ver aqui)
O ministro Poiares Maduro não fazia por menos: a reestruturação era irresponsável e as personalidades da sociedade portuguesa não passavam de vendedoras de ilusões. Que teria o ministro Poiares Maduro de 2014 a dizer ao académico Poiares Maduro de 2018? Talvez que não passava de um professor irresponsável. Nunca saberemos.
O que fica evidente neste contraste de posições é aquilo que vá sendo afirmado neste blogue desde o início da crise: a questão da reestruturação como solução política para os problemas económicos de um país não é uma questão de esquerda ou direita. Em determinadas conjunturas, como a crise das dívidas soberanas da zona euro, era a mais elementar das estratégias. O que a direita e os seus ideólogos fizeram – incluindo Poiares Maduro – foi convencer a opinião pública de que a reestruturação da dívida era uma solução só defendida por um conjunto restrito de economistas de extrema-esquerda. A defesa da austeridade foi, na verdade, muito mais um discurso ao serviço da implementação de um programa político e económico do que uma verdadeira ausência de propostas alternativas.
Poiares Maduro até pode argumentar que é autor de um artigo sobre a dívida grega e que Portugal não é a Grécia. Mas há algo que não poderá negar: é saber que, em determinados contextos, a reestruturação da dívida é uma solução desejável e que não implica que os seus proponentes sejam irresponsáveis ou vendedores de fantasias. A menos que pretenda aplicar os adjetivos a si próprio.
E o Presidente do Eurogrupo?
Relembremos: Em Dezembro de 2017, Mário Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo. Internamente, a eleição foi acolhida com grande entusiasmo pelo próprio e por quem acalentava um governo situado ao centro: após os atribulados meses inicias em que era olhado como um perigoso ministro apoiado por partidos eurocéticos, Mário Centeno era consagrado como um membro do establishement. A nomeação vinha com um custo – também muito apreciado pelo mesmo e pelas demais forças centrípetas: Mário Centeno deixaria de poder ser – se é que alguma vez o desejou - uma voz ativa na reforma da zona euro ou o promotor de uma aliança progressista com outros governos da Europa.
E, na verdade, Mário Centeno aparenta estar muito confortável nesse papel. É suficiente recordar as suas palavras a uma agência de notícias grega, quando referiu que “o programa de ajustamento poderia ter dados resultados positivos muito mais cedo”, caso a Grécia não se tivesse desviado das medidas do programa. (ver aqui).
Quando se lê a posição do Eurogrupo de 22 de Junho de 2018, a propósito da Grécia – pelo qual Mário Centeno dá a cara como presidente – a parada é ainda elevada a outro patamar.
No documento pode ler-se: “The Eurogroup acknowledges the significant efforts made by the Greek citizens over the last years. Greece is leaving the financial assistance programme with a stronger economy building on the fiscal and structural reforms implemented. It is important to continue these reforms, which provide the basis for a sustainable growth path with higher employment and job creation, which in turn is Greece's best guarantee for a prosperous future” (ver aqui).
Ver o ministro das finanças de um governo de esquerda, que fez da rejeição da austeridade a sua bandeira, ser a face de um documento que estabelece uma relação direta entre as medidas de austeridade aplicadas na Grécia – e todo o retrocesso e sofrimento social que causaram – e o sucesso económico futuro desse país, só pode ser considerado um momento de triste memória.
No que respeita aos objetivos orçamentais futuros, pode ler-se no mesmo documento: “The Eurogroup returned to the sustainability of Greek debt on the basis of an updated debt sustainability analysis provided by the European institutions. The implementation of an ambitious growth strategy and of prudent fiscal policies will be the key ingredients for debt sustainability. In this context the Eurogroup welcomes the commitment of Greece to maintain a primary surplus of 3.5% of GDP until 2022 and, thereafter to continue to ensure that its fiscal commitments are in line with the EU fiscal framework. Analysis of the European Commission suggests that this will imply a primary surplus of 2.2% of GDP on average in the period from 2023 to 2060.”
Ora, estas são exatamente as mesmas metas que o grupo de economistas – entre os quais Poiares Maduro - revelou serem irrealistas com fortes argumentos, como vimos anteriormente. Nada de novo pelos lados do Eurogrupo, portanto: distorce-se a evidência para favorecer a narrativa de quem manda.
Deste texto, creio que se podem extrair duas notas principais:

i) A ironia de um governante que defendeu a austeridade e repudiou a reestruturação da dívida ser o autor de um texto que defende a reestruturação do stock da dívida grega. Tudo isto em conflito com a posição assumida pelo Eurogrupo, presidido pelo ministro das finanças de um governo anti-austeridade, que rejeita a reestruturação da dívida grega e prefere fazer um exercício fantasioso sobre a sua sustentabilidade.

ii) Sabemos que o atual governo marcou um corte com a lógica de austeridade – até porque, como clarificou um outro autor deste blogue, a austeridade é outra coisa. Mas não nos equivoquemos: precisamos de um ministro das Finanças que reconheça as falhas da arquitetura da união monetária, deixe claro como elas prejudicam economias periféricas como a portuguesa e pugne pela sua reforma. Aliás, à imagem de tantos prestigiados economistas internacionais próximos do establishement, como Stiglitz e Eichengreen. O Mário Centeno presidente do Eurogrupo não é esse ministro. Um Mário Centeno presidente do Eurogrupo e sustentado por uma maioria absoluta do Partido Socialista sê-lo-á ainda menos.