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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Dr.ª Cristas e os transportes

  por estatuadesal

(Carlos Esperança, 06/09/2018)

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A Dr.ª Cristas, que nunca viajou em 3.ª classe, e que dos transportes conhece sobretudo o avião, o automóvel e, na propaganda política, a bicicleta, descobriu mais dois meios de transporte, o metro e o comboio.

A simpática balzaquiana não prima pela coerência. Se concorre a vereadora de Lisboa, promete 20 estações de metropolitano, podia ter prometido 30, e ignora o país. Se as eleições são as legislativas, vai com quem sabe onde é a gare, entra no comboio, com a comunicação social atrás, e dá lições ao Governo. Não imagina quem destruiu a CP ou arredou Portugal da alta velocidade ferroviária, mas os transportes são a última vocação da indigesta política. Não aceita que sejam estatais e, tal como a ANA, a Galp, os CTT, a banca e os seguros, a TAP, os portos e a saúde, deviam ser entregues a privados.

Sob a capa maternal esconde-se uma indigesta política, um verdadeiro frasco de veneno, que acusa o governo de falta de investimentos na ferrovia, ao entrar no comboio, depois de ter considerado um desperdício de dinheiros públicos o anúncio de investimentos nos transportes.

Esta mulher é perigosa. Se concorrer a autarca de Sintra, o segundo maior concelho do País, vai exigir metropolitano para as freguesias, e se optar pelo 3.º, Vila Nova de Gaia, há de querer automotoras para Grijó e Sandim e barcos a ligar as praias do Candelo às de São Félix da Marinha.

Mas, se o país ensandecesse e esta mulher fosse poder, o País seria entregue à iniciativa privada e a instituições pias.

Porno-riquismo

ladroes de bicicletas

Posted: 06 Sep 2018 08:25 AM PDT

Numa reportagem do Expresso sobre o crescimento do luxo em Portugal, Miguel Guedes de Carvalho, director do grupo Amorim Luxury (CEO, acrónimo em inglês, a língua dominante dos negócios sem fronteiras), afirmou que «não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados». Guedes de Carvalho é casado com Paula Amorim, o principal rosto da maior fortuna nacional, deixada por Américo Amorim e hoje avaliada em 4502 milhões de euros. Daí o nome do grupo, detido e presidido por Paula Amorim, e que inclui, entre outros, «um espaço de indulgência único» na Avenida da Liberdade chamado JNcQuoi (a língua francesa ainda dá cartas no campo da distinção), englobando um restaurante e uma loja de luxo; esta última é parte de uma cadeia. A mesma reportagem do Expresso informa-nos que os clientes mais indulgentes têm a honra de ter o seu nome gravado no balcão do bar. Entre os 48 nomes aí gravados no primeiro ano de funcionamento, encontram-se o do milionário francês do imobiliário Claude Berda, de que voltarão a ouvir falar neste artigo, o do político e advogado de privatizações para estrangeiros, José Luís Arnaut, ou o do gestor de rendas eléctricas também para estrangeiros, António Mexia: «Nomes que num fim de tarde passado entre queijos e vinhos Barca Velha e Château Margaux gastam facilmente dez mil euros e outro tanto (ou mais) numa manhã de compras, na loja Fashion Clinic no piso de baixo, entre roupas e calçado Gucci, Valentino e Dolce&Gabbana».
Por sua vez, no novo suplemento mensal do minguado Diário de Notícias chamado DN Ócio«uma revista que aborda informação relativa ao mercado premium e de luxo – das questões práticas às aspiracionais», segundo o seu estatuto editorial – pode ler-se a enésima reportagem sobre a Avenida da Liberdade, sobre os seus «guardiões do luxo». Nela, Filipa Ferreira, «head concierge» (o inglês cruza-se convenientemente com o francês) do Tivoli Avenida da Liberdade, afirma que «o cliente pede e nós dizemos sempre que sim (…) vamos ter de concretizar o pedido seja como for». De forma certamente não intencional, a DN Ócio homenageia um livro clássico da economia política, que será em breve editado entre nós: A Teoria da Classe Ociosa. Publicado em 1899, numa era de desigualdades igualmente cavadas, Thorstein Veblen cunhou aí a noção de consumo conspícuo, sendo um dos seus críticos mais lúcidos. Para lá do ócio, a classe dominante dos grandes proprietários assentava a sua reputação de base pecuniária no consumo ostentatório, especializando-se de resto em actividades económicas predatórias de natureza predominantemente financeira. Ao mesmo tempo, os seus hábitos infectavam o resto da pirâmide social, gerando uma emulação consumista assente também no desperdício e na criação de obstáculos a uma comunidade inclusiva e com hábitos funcionais.
Avançando mais de um século e para este lado do Atlântico, cruzamos as declarações de Guedes de Carvalho e de Filipa Ferreira, oriundas dos dois lados da mesma avenida e da mesma divisão social, e encontramos uma realidade, com amplos reflexos mediáticos, em ascensão neste país e que precisa de um termo novo: porno-riquismo. O porno-riquismo é a nova fase do consumo conspícuo num tempo de capitalismo multi-escalar com desigualdades pornográficas, onde o dinheiro assim concentrado é sempre quem mais ordena, incluindo na dimensão pessoal, que é sempre política.
O resto do artigo, incluindo as referências omitidas neste excerto, pode ser lido no número de Setembro do Le Monde diplomatique - edição portuguesa.
Errata. Um leitor atento chama-me a atenção para um erro. E os erros corrigem-se: onde se lê Miguel Guedes de Carvalho deve ler-se Miguel Guedes de Sousa. Peço desculpa ao visado e aos leitores. Naturalmente, será publicada uma errata no próximo número de Outubro.

Deprimente

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

  • Eduardo Louro
  • 06.09.18

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As televisões - todas em geral, porque seguem-se umas às outras, em carneirada, atrás das audiências - tiveram a evidente preocupação de lançar a confusão à volta desta acusação do Minsitério Público no processo e-toupeira, potenciando o clima de guerra instalado que, de resto, elas próprias criaram e alimentaram. Para isso começaram por encher os seus espaços de antena com gente que, não percebendo patavina de direito, fossem garantidamente incendiários especializados.

Depois de tudo devidamente incendiado, já hoje, e com o tema ainda filão de audiências, começaram a ouvir especialistas em Direito, na expecativa que confirmassem as teses que já tinham lançado e propagandeado. E, quando gente que sabe do que está a falar, começou a dizer que é inaceitável que o MInistério Público tenha tornado pública a acusação, antes de a comunicar aos interessados; que a constituição como arguída da Benfica SAD, à margem da forma como é legalmente representada, não tem pés nem cabeça; ou que simplesmente não há factos nem nexos de causalidade que permitam sequer falar em punicões desportivas, que não existem em Direito Penal, os entrevistadores em estúdio não querem crer em nada daquilo, e seguem em frente na sua cruzada como se nada tivesse sido dito. Sem a mínima noção do ridículo. Deprimente!

Pragmatismo Chocante*

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

  • Eduardo Louro
  • 07.09.18

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A notícia surgiu no início da semana, e contava que na Alemanha, em tempo de afirmação da extrema-direita, com grandes colunas de militantes nazis a apossarem-se da rua, uma mulher acabara de criar um partido político de esquerda que se colocava ao lado dos nazis, contra a imigração.

Assim, sem mais nem menos. Mesmo para chocar, como hoje se fazem as notícias.

Fui procurar-lhe os contornos e descobri que a senhora, Sahra Wagenknecht, era deputada do partido de esquerda "Die Linke" (que quer exactamente dizer “A Esquerda”), que fundara com o seu marido, Oscar Lafontaine, depois deste ter abandonado o Partido Social-Democrata (SPD) em 2007, em rotura com Gerhard Schröder, e que, na verdade, não tinham formado outro partido.

Mantêm-se no partido, e formaram sim um movimento, a que chamaram "Aufstehen"  (“Levantar-se”, em português), tão ou mais à esquerda que o seu partido – revelam mesmo como referência o “Podemos”, de Espanha, ou  “A França Insubmissa”, de Jean-Luc Mélenchon – mas defendendo uma política mais dura contra os imigrantes, em oposição às fronteiras abertas e ao acesso ilimitado de imigrantes ao mercado de trabalho alemão. E explicam que é uma reação à “emigração” dos eleitores do seu partido (o tal “A Esquerda”) para o partido de extrema-direita, o AfD. Que nas últimas eleições parlamentares lhes teria roubado pelo menos 400 mil eleitores!

Como notícia, poderá até ficar menos chocante. Chocante, mais chocante mesmo, é este pragmatismo!

* A minha crónica de hoje na Cister FM

O almoço das quintas

Opinião

Francisco Seixas Da Costa

Hoje às 00:08

  • ÚLTIMAS DESTE AUTOR
  • "Não queres responder àquele cronista que há dias te criticou num jornal?", perguntava-me um amigo, no almoço das quintas, quando eu confessava hesitar quanto ao assunto a abordar nesta crónica. Respondi que não: quem escolhe os meus interlocutores sou eu, não o contrário. Em especial, quando as pessoas estão de evidente má-fé, treslendo o que escrevi, como foi o caso. "Talvez valha então a pena falares das trapalhadas do Benfica!", alvitrou outro. A ideia nem era má, mas o que é que alguém pode dizer sobre o assunto, sem se pensar logo que a opinião está manchada por clubite? A única coisa que sei, de ciência certa, é que vamos ter uma novela para vários anos, com recursos e contradições judiciais. No final, até aposto!, a montanha vai parir um rato ou um bode expiatório. Não, não vou falar de futebóis, muito menos das eleições de amanhã, no meu Sporting. Outro conviva deu então uma nova dica: "E se comentasses as sondagens que saíram?". Escrever sobre o tombo do Bloco, pelo efeito Robles, ou de como o PS ainda fica longe da maioria absoluta? "E, de caminho, anotavas que agora já não é a água que vai pelo rio abaixo, mas que é o Rio que vai por água abaixo...", sorriu o meu parceiro do lado, gozando a "trouvaille". Não, com as eleições ainda longe, deixo isso para os exegetas televisivos.

    O almoço continuava e eu continuava sem tema. Isto de regressar de férias acarreta sempre um certo torpor, porque a adrenalina ainda não atingiu os patamares necessários. E, embora possa parecer o contrário, não sou um "tudólogo", cuido sempre em só escrever sobre aquilo em que julgo poder acrescentar alguma coisa: "Ora aí está! Podes escrever sobre as eleições brasileiras e explicar o que é que o Lula afinal pretende com a sua tática de recursos". Como se eu soubesse! A única explicação é que está a levar a vitimização tão longe quanto possível, para que a emotividade nos apoiantes se transfira, no fim, para a candidatura de Haddad. Mas já escrevi isto algures! "E o livro do tipo do Watergate sobre o Trump, com o escândalo do artigo anónimo no "New York Times"?" Não, quero ler o livro antes. Foi então que alguém decretou: "O que eu te queria ver era a falar sobre o Marcelo, sobre as selfies, sobre os banhos de rio, aquela "Corte na Aldeia"! Mas sobre isso, é o falas! Vocês têm todos um respeitinho reverencial pelo homem". Não comentei, nem para lhe dizer que me tinha dado uma excelente ideia, para a semana. E foi assim que se passou (ou não) o meu almoço das quintas.

    *EMBAIXADOR