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sábado, 8 de setembro de 2018

Ladrões de Bicicletas


Conhecemos esta história

Posted: 07 Sep 2018 09:00 AM PDT

Na frase de abertura do romance Anna Karenina, cada família infeliz é-o à sua maneira. Já as economias emergentes afectadas por crises financeiras têm em geral mais semelhanças do que diferenças. A história é conhecida e inclui a acumulação de défices externos ao longo do tempo, alimentados pelo afluxo de crédito numa moeda que não se controla, até que o fluxo de capital cessa ou se inverte, provocando uma rápida depreciação da moeda, forçando uma subida dos juros e dando origem a uma recessão mais ou menos acentuada.
Na fase ascendente do ciclo, o afluxo de crédito alimenta a procura, o dinamismo da economia e a paridade cambial, pelo que tudo parece sustentável. Na fase descendente, a fuga de capitais contrai a procura e provoca a depreciação da moeda, o que aumenta o valor das dívidas face ao exterior quando expressas na moeda do próprio país. Subitamente, tudo derroca: o valor real da dívida contraída dispara precisamente na altura em que a capacidade para pagar é mais afectada pelo congelamento da procura e pelo alastramento da recessão.
Esta é em grande medida a história da crise da dívida da América Latina na década de 1980, da crise asiática do final dos anos 1990 e de muitas outras crises das últimas três décadas. É também uma boa parte da história da crise da zona euro, na verdade uma crise de dívida externa dos países da periferia da zona euro, ainda que a inexistência de relação cambial explícita tenha implicado a transmutação da crise de dívida externa em crise de dívida pública.
E é ainda, no presente, o caso de várias economias com níveis elevados de dívida externa denominada em dólares. A Turquia e a Argentina são as que enfrentam a crise mais grave e imediata, mas há várias outras sob ameaça, incluindo a Indonésia, a África do Sul e a Índia. A causa próxima é o aumento dos juros nos EUA nos últimos meses, que tem implicado uma tendência global de deslocação dos capitais para este último país e uma apreciação do dólar, com o consequente aumento do valor real da dívida externa das economias afectadas. Algo de semelhante ocorreu aliás há poucos anos aquando do chamado ‘taper tantrum’, o abalo por que passaram algumas economias emergentes no contexto do início da redução do ‘quantitative easing’ nos EUA em 2013. Na altura foi maior o susto do que o impacto, mas nada garante que o mesmo suceda agora.
Este tipo de crises praticamente não existiu nas décadas entre a 2ª Guerra Mundial e o início da década de 1970, principalmente devido à existência de controlos de capitais generalizados, que impedia a ocorrência destes ciclos de acumulação e deflação de dívida externa e, em particular, os episódios de fuga descoordenada de capital. Analogamente, os países afectados pela crise asiática do final dos anos ’90 optaram pela posterior reintrodução de certos controlos de capital e pela acumulação de reservas mais substanciais de divisas externas como mecanismos prudenciais para evitar e enfrentar crises futuras.
Idealmente, estas questões seriam reguladas a nível global através de medidas de repressão financeira semelhantes às que existiram até há poucas décadas. Como segunda escolha, cada país pode tentar reduzir o seu grau de exposição através do tipo de políticas e controlos que adopta para evitar o sobreaquecimento na subida e a descoordenação na descida. Mas quando a circulação é irrestrita, é praticamente certo que tudo o que sobe tende a cair subitamente.
(publicado no Expresso online a 6 de Setembro)

CDS em teletrabalho

Posted: 07 Sep 2018 03:18 AM PDT

"Este país não é para velhos", dos irmãos Cohen

Não há nada mais flexível do que fazer coincidir - no tempo e no espaço - a vida em família e o emprego.
Exagero?
Foi essa crua flexibilidade que encontrei em 1987, quando estive em Felgueiras (no norte do país), pelo jornal Diário de Lisboa, com o repórter José António Cerejo, em busca do trabalho infantil, que oficialmente o Governo Cavaco Silva dizia não existir (ver as reportagens aqui e aqui).
Aí, partes da produção de calçado eram autonomizadas da fábrica, executadas em casa dos operários, por toda a família. Todos cosiam sapatos, noite adentro ("o dia não tem horas e a noite não tem cancelas", dizia-se), pagos à peça por angariadores (que ficavam com uma percentagem), sem descontos para a Segurança Social, para no dia seguinte alguém da fábrica os vir buscar em sacos, para que fossem introduzidos na fase seguinte. Todos comiam e trabalhavam juntos, até dormiam no posto de trabalho que era a sua casa. Só que as crianças não iam à escola nem os operários domésticos descansavam devidamente. Já nem se fala de pagamento adequado.
Vem isto a propósito de uma iniciativa legal do mais "moderno" dirigente do CDS, Adolfo Mesquita Nunes, vice-presidente de Assunção Cristas, que quer mexer de novo na legislação laboral. Mas isso não prejudica o investimento? Não, porque quando é o CDS a mexer é aperfeiçoamento, mas quando são "as esquerda encostadas" já é instabilidade...
Agora, o CDS quer "flexibilizar" o teletrabalho. Mas para quê? Diz Mesquita Nunes ao Público:

“Há uma enorme rigidez no regime do trabalho a partir de casa”, defende Mesquita Nunes, sublinhando que ela é “tão grande que nem sequer permite que um trabalhador possa combinar, num dia ou numa semana, trabalho na empresa e trabalho em casa”. Actualmente, em Portugal, “o teletrabalho só pode ser a tempo inteiro”, pelo que a pessoa “ou trabalha a partir de casa durante todo o horário ou no local de trabalho durante o tempo todo”.

Parece razoável. Mas a ideia peca de várias formas.
Primeiro, numa relação laboral não é o trabalhador quem define os termos da prestação do trabalho. A relação é demasiado desigual para isso. Por alguma razão o Código do Trabalho tentou proteger ao máximo eventuais flexibilidades patronais.
Segundo, se a intenção do CDS é apenas essa, nem seria preciso mudar a lei. Bastava fazer um contrato colectivo de trabalho nas actividades a que se destina. Mas esse é outro problema para o CDS...
Terceiro, a quem se dirige esta medida? Partindo dos dados do INE relativos ao 2º trimestre de 2018, dirigir-se-á aos 1,3 milhões que trabalham ao serão? Aos 530 mil que trabalham de noite? Aos 2 milhões que trabalham ao sábado? Aos 1,1 milhões que trabalham ao domingo? Aos 939 mil que trabalham mais do que 40 horas semanais? Não parece. Para esses, que cada vez são mais, conciliar a a vida familiar com o trabalho será cada vez mais difícil. Mas essa não é a preocupação.
A julgar pelas palavras de Mesquita Nunes, a nova medida destinar-se-ia apenas ao pessoal que já está em regime de teletrabalho. Mas são quantos?
Não se sabe oficialmente. São tão poucos que os dados do INE nem especificam esse tipo de contrato. Segundo a informação do Fundo de Compensação do Trabalho, que regista a caracterização dos novos contratos, assinados desde a retoma do emprego em 2013, o teletrabalho representa quase 0% - repito, 0% - dos contratos assinados desde 2013 e vigentes até ao início de 2017. Ao todo, tinham sido 40 contratos a tempo parcial (!) e uma centena e meia a tempo completo! Mas por incrível que pareça são esses os contratos com remunerações médias mais elevadas face à média dos contratos.
Portanto, para quê então tanto entusiamo por uma medida que se aplica, para já, a tão poucas pessoas? É uma prioridade do momento?
Que situações concretas tem em mente Mesquita Nunes? A que tipo de empregos se aplica? Ao trabalho de escritórios de advogados? Ao das firmas de consultoria? Aos novos investigadores académicos que irão ter brevemente um contrato de trabalho? A jornalistas desejosos de sair da redacção? O CDS fez um estudo de impacto desta medida? É esta uma das medidas estruturais do CDS? Faz parte de uma nova visão para o país? Ou pretende arranjar pequeníssimos casos para continuar a aparecer, com a preguiçosa cobertura dos jornais de referência (como foi o caso do Público), sempre suscitando a famigerada flexibilidade laboral, que já nem o patronato a defende como tal?
Talvez o CDS queira ir mais longe e alargar o regime de trabalho a funções até agora tidas como clássicas. Numa newsletter de um escritório de advogados, já se fala que as funções de telemarketing (vulgo call-centers) poderá ser feita em regime de teletrabalho. Outras funções poderiam ser passadas para fora das empresas e para o universo da esfera pessoal dos trabalhadores. Na internet, encontram-se muitos elogios de grandes companhias ao teletrabalho como forma de "promoverem a mudança cultural e a diversidade no ambiente de trabalho" (caso da Repsol). Sobretudo, quando se acentuam as tendências de esvaziamento dos centros das cidades.
As ideias são velhas. Têm décadas e não são essas que irão resolver o nosso problema estratégico. Mas vende-se a ideia na mesma porque faz parte do choque. Primeiro, grita-se que vem aí a robotização. E depois eleva-se o teletrabalho a novo normal. Trabalho em casa, isolados, a olhar para as paredes e para o gato, diante de um monitor com uma câmara. Tudo sem revoltas, nem greves. Entre isso e coser sapatos em 1987, pelo menos nessa altura ainda havia fábricas...
Talvez Mesquita Nunes esteja a prever bem. Quem sabe? Mas está seguramente no lado errado do que deve ser uma sociedade.

Entre as brumas da memória


07.09.1975 – Quem se lembra dos SUV?

Posted: 07 Sep 2018 11:23 AM PDT

Os SUV (Soldados Unidos Vencerão) – uma auto-organização política de militares, clandestina, que se definia com «frente unitária anticapitalista e anti-imperialista» – apresentaram-se «embuçados por razões de segurança» numa conferência de imprensa realizada no Porto e transmitida pelo Rádio Clube Português , em 7 de Setembro de 1975.

Organizaram desfiles em várias cidades, mas julgo que nenhum teve a dimensão do de Lisboa, em 25 de Setembro, com apoio de partidos como o MES, a LCI, a UDP e o PRP. Centenas de soldados fardados, acompanhados por representantes das comissões de trabalhadores e de moradores e por uma verdadeira multidão, subiram do Terreiro do Paço até ao Parque Eduardo VII, onde teve lugar um comício. No fim deste, foram desviadas dezenas de autocarros da Carris, que levaram quem quis até ao presídio da Trafaria, de onde, pelas 2:00 da manhã, foram libertados dois militares que se encontravam detidos, precisamente por terem distribuído panfletos de propaganda da manifestação.

Para se perceber um pouco mais do que estava em causa, vale a pena ler o MANIFESTO com que os SUV se apresentaram, precisamente nesse 7 de Setembro.

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«Os mais poderosos»

Posted: 07 Sep 2018 10:30 AM PDT

O Jornal de Negócios publica todos os anos a lista do que considera serem os 50 mais «poderosos» com influência em Portugal (a nível da Economia, tanto quanto percebo).

Deixo a lista das 10 primeiros (metade não portugueses) e sublinho a ausência de Cristas na lista dos 50, da qual fazem parte os líderes de PSD, BE e PCP (curioso…)

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#1 Marcelo Rebelo de Sousa

#2 António Costa

#3 Xi Jinping

#4 Angela Merkel

#5 Mário Centeno

#6 Mario Draghi

#7 Donald Trump

#8 Pedro Soares dos Santos

#9 Paula Amorim

#10 João Lourenço

Critérios considerados: Poder da fortuna / Influência mediática / Influência empresarial / Perenidade / Influência política
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Quadratura do Círculo

Posted: 07 Sep 2018 06:20 AM PDT

Ontem à noite, uma cidadã põe som na TV por pensar que vai finalmente livrar-se de dramas futebolísticos, mas não: foram necessários 39 em 51 minutos para que as excelsas criaturas mudassem de tema e não falassem apenas de… futebol. A rentrée promete!

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O triste fim do transporte público

Posted: 07 Sep 2018 03:54 AM PDT

«Se os transportes públicos de massas avançaram a toda a velocidade na Europa na segunda metade do século XIX isso deveu-se à ampliação das cidades.

Estas passaram a atrair quem vinha dos campos à boleia da industrialização. Fora de Portugal os transportes públicos tiveram de ir atrás da dilatação do espaço urbano antigo. Já aqui, sem músculo significativo de crescimento industrial (foi preciso, por exemplo, a implantação da CUF no Barreiro para que as linhas de transporte entre Lisboa e o Sul do país se desenvolvessem), a implantação dos transportes públicos foi desordenada. Em finais do século XIX os seus utilizadores eram uma minoria que tinha dinheiro: não era para as classes populares. Em 1880, por exemplo, a média de viagens por ano era de 18. A que é que isto conduzia? A uma débil rentabilidade. Era no Verão que havia mais procura porque, nesse período, os lisboetas iam "a banhos", para as suas praias preferidas, como a Ajuda ou o Dafundo, ou então iam a Sintra "para refrescar". Só no início do século XX, com a chegada do eléctrico para substituir o "omnibus" e o "americano", o transporte público ganhou outra vitalidade: 115 viagens por ano e por habitante em 1910. Outras zonas da cidade de Lisboa passaram a ser habitáveis para quem tinha de se deslocar para o trabalho, como Campo de Ourique ou as chamadas Avenidas Novas.

A falta de espírito empresarial foi uma constante desde o início. A Carris, por exemplo, em vez de apostar nisso desde o início, preferia valer-se das influências políticas para garantir os seus lucros. Isto logo a partir de 1892. Os investimentos eram escassos: os portugueses com dinheiro preferiam investir nas bolsas de Londres e Paris e os estrangeiros, para investir aqui, impunham condições leoninas. Muita da essência da crise dos transportes públicos nasceu aqui. E, ao longo dos anos, estes sempre balançaram entre interesses políticos e investimentos pouco consistentes. A partir de certa altura a estratégia estatal foi privilegiar o transporte rodoviário face ao ferroviário ou mesmo ao público. A criação desse monstro que é a Infraestruturas de Portugal foi a cereja no topo do bolo desta estratégia que nos conduziu à degradação total da ferrovia no país. Nos últimos anos, com os cortes orçamentais, essa inacção foi ainda mais calamitosa, mas ninguém pode esquecer outros aspectos como o abandono das estações ferroviárias (há casos de polícia). Agora que a rede entrou na fase final de colapso está tudo nervoso. Há alguns milhões para comprar comboios novos que, imagine-se, estarão ao serviço lá para 2022 ou 2023. Até lá viveremos da boa vontade da Renfe espanhola, que pode ir alugando uns comboios para que os portugueses não se desloquem apenas de camioneta (alugadas a empresas privadas). Ou seja, a incompetência e a estratégia deliberada para asfixiar a rodovia tiveram sucesso. Agora é preciso começar quase tudo desde o início. Mas para isso era necessário um ministro a sério e uma administração da CP com voz forte. Lamentavelmente tudo se transformou num jogo partidário. Para ver quem coloca os seus na próxima administração da CP, da IP, da Carris, da Transtejo e tantas outras.»

Fernando Sobral

Nos idos do verão

  por estatuadesal

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 08/09/2018)

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(O Miguel vem em grande forma. O bronze da Meia Praia fez-lhe bem. Eucaliptos e pedófilos, a mesma corja, é o tema. Denominador comum entre ambas as pragas? O fogo do inferno: os infernos de fogo que os eucaliptos alimentam e onde merece ser incinerada a cáfila abusadora das crianças e jovens à sua guarda.

Comentário da Estátua, 08/09/2018)


Das areias da Meia Praia, vi o fogo começar na Serra de Monchique. Já se tornou um hábito estar sempre a olhar para a serra com medo que um fogo comece. Porém, não me assustou muito, pois, apesar do calor intenso, estava vento sul e com vento sul não mexe uma palha lá em cima. Isso, mais a avalanche de meios terrestres e aéreos imediatamente lançados no ataque ao incêndio, logo elogiados pelo Presidente e que há meses nos vinham sendo cantados em ladainha pelo ministro Eduardo Cabrita como estando disponíveis até para os conhecidos incêndios de Natal, fazia prever que, no máximo de 24 horas o fogo estaria extinto. Mas, não: foram três dias seguidos sem vento desaproveitados, até que aquilo que todos os que conhecem a zona temiam que acontecesse, aconteceu: entrou o vento norte e tudo fugiu de controlo. Monchique ardeu até ao fim, durante oito dias e 26 mil hectares. Outra vez. Um habitual rigoroso inquérito vai apurar como é que tal foi possível e eu, que não percebo nada do assunto, não posso ajudar às conclusões. Excepto numa coisa: por favor, não concluam que não houve incompetência no comando.

Por favor, também não concluam que aquele braseiro demencial não foi tragicamente potenciado pela caixa de fósforos gigantesca em que transformaram a outrora deslumbrante Serra de Monchique. 74% da área florestal do concelho de Monchique são ocupados pelos queridos eucaliptos: lá em cima não corre um fio de água, não se avista um animal bravio, não se escuta um pássaro. Dentro de oito anos serão 84% de eucaliptal e voltará a arder tudo outra vez. É um jogo de roleta: se por acaso não arder, é fortuna garantida para quem os plantou; se arder, o prejuízo é todo dos contribuintes e o lucro é dos que fornecem os meios de combate aos incêndios. Em Maio passado, porém, o presidente da Câmara de Monchique, Rui André, mostrava-se tranquilo com a situação: as plantações de eucaliptos estavam “ordenadas e vigiadas”, os caminhos limpos e os aceiros feitos. “Já são muitos anos a apagar fogos!”, concluía ele, com um optimismo cínico que se viria a revelar mórbido e que num país onde a responsabilidade política não fosse uma palavra vã o deveria ter levado a demitir-se no dia seguinte ao fogo ter sido extinto.


2 Em Monchique, ardeu sobretudo o eucaliptal da Navigator/Soporcel. E, enquanto os eucaliptos alastravam o fogo à serra, destruíam casas e só por sorte e arte dos bombeiros não mataram ninguém, o seu dono passava férias em Ibiza, a bordo do seu iate, onde viria a morrer de ataque cardíaco. O mesmo Presidente Marcelo, que passou o Verão a lembrar e a homenagear as vítimas dos incêndios de 2017 e a preocupar-se com o incêndio de Monchique, apressou-se a lamentar a morte de um “grande industrial português”. E o jornal “Público” dedicou-lhe a capa e as primeiras quatro páginas, em homenagem ao “presidente do maior grupo industrial de base nacional” e “o homem que não se deixou enganar por Ricardo Salgado” (duas verdades inquestionáveis). Porém, nem uma linha para informar os leitores distraídos ou recordar aos outros que o tal “maior grupo industrial português”, além da Secil e daquela fábrica de cimento que é uma ferida terceiro-mundista na Serra da Arrábida, assenta basicamente na fileira predadora das celuloses — responsável pela infertilidade das terras, pelo despovoamento do interior, pela dimensão dos incêndios, pela poluição dos rios e pela destruição inacreditável da paisagem de Portugal a um ritmo avassalador. E cujas árvores, num processo já incontrolável, renascem das cinzas e espalham as suas sementes mesmo para onde ninguém as planta e ninguém as deseja. Não fosse um texto de elogio a Pedro Queiroz Pereira da autoria do engenheiro João Soares, um crónico defensor do eucaliptal, e nem se saberia a que actividade se dedicava aquele. Desse texto, aliás, retive uma passagem em que João Soares relata uma conversa que terá tido com Queiroz Pereira e em que este terá desabafado que quando abria um jornal e se via “acusado de crimes ambientais”, lhe dava “vontade de vender tudo e ir-me embora desta terra”. O problema está em que não há muitos países — aliás, nenhum país do primeiro mundo, que tenha, sequer em termos absolutos, a quantidade de eucaliptos que Portugal tem e consente. Talvez por isso, a Navigator/Soporcel procure outras paragens longe do primeiro mundo. Uma arrepiante reportagem da autoria de Sofia da Palma Rodrigues, curiosamente publicada no mesmo jornal “Público” no dia da morte de Pedro Queiroz Pereira, revelava como é que, ao abrigo de um programa lançado pelo G7 para desenvolver a agricultura tradicional em África, e através de um processo no mínimo nebuloso, a Navigator/Soporcel se apoderou de 356 mil hectares (três vezes a área que explora em Portugal) das terras agrícolas mais férteis das províncias de Manica e Zambézia, em Moçambique, para as forrar de eucaliptos, afastando delas os agricultores locais. Pois é, as coisas são como são. Não se consegue ter sol no eucaliptal e gente nos campos e chuva nos incêndios.


3 Em directo na rádio France-Inter, o ministro do Ambiente francês, Nicholas Hulot, demitiu-se sem aviso prévio, dizendo não conseguir mentir mais a si mesmo. Não, nem Macron consegue fazer cumprir em França as metas da Cimeira de Paris sobre as emissões de CO2: as pressões da indústria são mais fortes do que quaisquer promessas. Na Alemanha, uma comissão independente concluiu aquilo que qualquer condutor já sabia: que os números de consumo dos carros são notavelmente desinflacionados pelos construtores. Na Austrália, um dos países do mundo mais expostos às alterações climáticas, de ano para ano, o país vive incêndios dantescos, viu a Grande Barreira de Coral diminuir para metade e atravessa actualmente a maior seca de que há registos. Signatária do Acordo de Paris, a Austrália é o 4º maior produtor de carvão do mundo e o 16º maior poluente da atmosfera. Na terceira semana de Agosto, o primeiro-ministro, Malcolm Turnbull, foi derrubado por um golpe interno do seu partido, quando ensaiou uma tímida reforma destinada a controlar a emissão de gazes com efeito de estufa, dando cumprimento aos Acordos de Paris. Por trás do golpe estavam as grandes empresas produtoras de carvão, de petróleo e de gás e a maioria da imprensa, dominada pelo império de Rupert Murdoch.

As lições a extrair daqui são simples e assustadoras. A indústria, as grandes empresas, nunca sacrificarão os lucros dos accionistas a causas que tenham que ver com o bem comum. Pouco lhes importam os acordos ou tratados que os governos assinem ou as leis que aprovem: elas têm os governantes nas mãos, sem precisarem sequer de chegar ao extremo de os corromperem; basta assustá-los com a deslocalização, com a perda de impostos, com as consequências económicas, reflectidas em eleições. Restaria a imprensa independente para actuar em nome do interesse dos cidadãos. Mas, para se manter independente, para subsistir, a imprensa precisa de leitores e de anunciantes. Desgraçadamente, porém, os leitores estão a fugir para as redes sociais (alimentadas, irresponsável ou deliberadamente, pelos próprios políticos), e os anunciantes são as mesmas grandes empresas, interessadas em que certas notícias não existam. Num futuro não muito longínquo, alguém contará como é que sucessivas e coincidentes mortes desaguaram numa tragédia global.

4 É provável que o arcebispo Vigano tenha razão na acusação que faz ao Papa Francisco de ter encoberto os abusos sexuais do cardeal americano McCarrick. Mas é provável também que ao pedir a renúncia do Papa, Vigano, ligado aos sectores mais conservadores da Igreja, não seja movido por boas, mas por más razões. E que Francisco se tenha calado porque percebeu que a dimensão do escândalo era de tal forma que toda a Igreja Católica poderia desabar se a verdade inteira fosse conhecida. Mas agora é tarde demais.

O que os novos escândalos da Pensilvânia e da Irlanda puseram a nu de forma cristalina é que durante décadas ou séculos — talvez desde sempre — os homens de Deus se dedicaram à pedofilia sobre as crianças e os jovens que lhes eram confiados, com total impunidade e conivência dos seus superiores. Que Satanás tomou conta do proclamado Reino de Deus e que todas as virtudes santas pregadas pelos seus pastores se traduziram na mais suja e cobarde hipocrisia muros adentro. Não há perdão algum, só nojo.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

RIO, o “GRANDE EDUCADOR DA CLASSE POLÍTICA”!

  por estatuadesal

(Joaquim Vassalo Abreu, 06/09/2018)

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E, três meses depois, “I´m back”

Os do meu o meu tempo, os de bem antes do 25 do quatro de 74 e que viveram o PREC, poderão pensar que estou a parafrasear o Arnaldo de Matos, o “Grande Educador da Classe Operária” como à altura o apelidavam os seus correligionários do MRPP, esse “grande” Partido Reorganizador da Classe Operária” e onde proliferavam “grandes” organizadores dessa mesma classe, como o Durão, o Saldanha, o Monteiro, a Gomes, o Lamego, a Maria José (também grande “organizadora” da Classe Judicial), o Garcia e tantos outros que por aí pontificam como grandes “organizadores” sim… mas de interesses vários!

Não, nem pensar, o Rio é outra coisa e de outra estirpe. O Rio era pouco mais que imberbe nessa altura e mergulhava mais na cultura calvinista do Colégio Alemão na Foz do Porto. Não pertencia, portanto, àquela classe de “durões”, mais tarde transformados, grande parte deles, em autênticos “cabrões”.

O Rio não! O Rio não pretende “reorganizar” a Classe Política: O Rio pretende “educá-la”! É sério demais, como se afirma, para se confundir com o resto da sua Classe e do seu próprio Partido, a quem apelida de uma cambada de interesseiros sem ética e de gastadores compulsivos, logo começou por dentro: Gastaste mais que o orçamentado? Tribunal e já!

Assim é que se educa! Habituados aos bons, usuais e estruturais nossos brandos costumes, os visados ficaram atarantados com tamanha ousadia e desataram a protestar. Que isso não faz. Que não pode ser. Tivesse ao menos avisado. Que os obrigasse ao menos a devolver o “guito” gasto a mais, mas a bem do Partido, agora…Tribunal? Onde já se viu?

É que o Rio, para além de tudo o mais também é o “grande” credibilizador da Classe dos Contabilistas, olhou para cima e quem é que viu? O Centeno, o tal que não quebra a mola nem que o diabo tussa e concluiu: eu tenho que fazer melhor e ser mais rigoroso ainda. E, para dar o exemplo, zás, começou logo por dentro! Mas, valha a verdade, começaria por onde?

Mas o meu maior espanto é que, não tendo lido jornais durante estes três meses (apenas, e não sempre, as capas no Sapo), e pouca TV ter visto (apenas o Mundial de Futebol, os Campeonatos Europeus de Atletismo, a Volta a França, a da Espanha e agora também o Open dos EUA, para além de tudo o que de Desporto der, menos os paineis que não vejo nenhum, não vá eu ficar a saber mais que os “paineleiros”…), indo vasculhar os Expressos Diário e Curto que os da Impresa insistem em mandar para o meu Mail e que eu, para memória futura guardo religiosamente, apenas vi ao facto uma pequena e inócua referência. E pasmei!

Mas pasmei sem mesmo assim abrir a boca pois, dando-me ao trabalho de passar por eles os olhos, constatei que factos políticos, mas políticos de relevância mesmo, só aconteceram três:

1º - Depois do Costa ter decretado o fim dos incêndios com a suspensão do Verão eis que, contrariando-o, este veio mesmo em força, mas com ele apenas um incêndio: o de Monchique! E o Costa perguntou: Mas, morreu alguém? E eis que vejo na TV (e isto por acaso até vi) um senhor, assim sénior como eu, a desatar a fazer perguntas ao Presidente e a dar ele mesmo as respostas; assim tipo alguns jornalistas entrevistadores que a gente conhece, não deixando falar o Presidente que, em desespero, lhe ia agarrando as mãos e os braços pedindo-lhe encarecidamente para o deixar falar…E quando isso conseguiu que é que ele disse? Apenas: Mas, morreu alguém?

2º - O Santana resolveu casar mais uma vez e montou um Partido. E eu digo propositadamente “montar” pois, tendo-lhe chamado de “Aliança”, para esta ter aquele respeitoso significado que as boas práticas lhe atribuem, só com um casamento e o tradicional anelamento no dedo do cônjuge. Mas quem é o cônjuge, aquele ou aquela que lhe montou a aliança no seu anelar dedo? Segredo…Ou será que o champanhe é que veio das caves Aliança? Ainda ninguém percebeu, mas eu, à falta de facto mais relevante, ainda assim elejo este!

3º -  A Cristas foi andar de comboio! Oba, oba, oba! Assim do género de antigamente quando os putos do interior iam ver o mar, estão a ver? E não levou os filhos? Mal, muito mal! Só andam de Uber, disseram-me. Mas vi o Nuno Melo, desta vez não de blazer azul, lencinho a condizer, camisa alvíssima, calças bege e sapatinho de vela, como uma vez foi falar aos Pescadores das Caxinas, que lhe terão dito” Ó Tchó, olha-me este…”, mas de camisa e mangas arregaçadas, assim como que pretendendo dizer: vamos ao trabalho? Mas não, para mim foi para evitar lhe dissessem : “ vai mas é trabalhar”…

De modo que o estranho silenciamento não só do caso, mas mesmo do próprio Rio, apesar do próprio se ter dado também ao silenciamento, é para mim uma grande perplexidade. Será que a Comunicação Social, mancomunada com os seus críticos internos, o que pretende é abafar o “Grande Educador”?  Mas porquê, também me pergunto? Porque o tipo foge da norma, do estereótipo e é demasiado calvinista para quem não está na Alemanha?

É certo que aquela malta, principalmente os da Jota, apreciam nele o gosto pelos popós e os outros uma certa sobriedade que eles não possuem, mas não aceitam tanta sobranceria!

Ir sentar os fundilhos num Tribunal? Era o que mais faltava! Ao menos com o Flopes é só champanhe, ora! Dizem eles…

Um Mundo Rico cheio de Pobres

  por estatuadesal

(Dieter Dellinger, 08/09/2018)

POB_RICOS

Não se pode dizer que os 7,6 milhares de milhões (biliões) de habitantes do nosso Planeta tenham de ser obrigatoriamente pobres.

Considerando que o PIB mundial em PPC é de 134.981 milhares de milhões de dólares, temos um PIB per capita mundial de 17.760,65 dólares anuais que dá 1.480 dólares mensais ou Euros 1.272,48 ao câmbio de hoje por cada habitante do planeta. O cálculo é feito por 12 meses do ano, já que na maior parte dos países só são pagos 12 ordenados por ano.

Então porque razão há tantos pobres no Mundo, tanto maioritariamente nos países muito pobres como em percentagem significativa nos países ditos ricos?

Sucede que mais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar às mãos dos 67 milhões de habitantes mais ricos que representam 1% da população mundial, como informa a organização não-governamental Oxfam. ou Comissão de Combate à Fome com sede em Oxford.

O PIB desse 1% da população (67 milhões de homo sapiens) é da ordem dos 161.170,14 dólares por pessoa e, mesmo assim, está mal distribuído por haver quem tenha muito mais e menos, sendo ainda rico. O verdadeiro número dos super multimilionários ou oligarcas ronda os 2.043 no Mundo e a sua riqueza aumenta em média 13% ao ano, ou seja, 762 mil milhões de dólares, verba que daria para acabar com a pobreza extrema no mundo e cerca de seis vezes o aumento global dos salários dos trabalhadores no Planeta que terá sido da ordem dos 2% ou menos.

O aumento indecoroso da riqueza multimilionária não é um sinal de prosperidade no Mundo, mas pelo contrário, corresponde ao aumenta da pobreza geral.

Efetivamente, metade da população mundial, cerca de 3,8 mil milhões de habitantes auferem rendimentos diários entre os 2 e os 10 dólares que podem dar 630 a 3150 dólares anuais.

Enquanto o 1% mais rico ficou com 27% do crescimento do rendimento global entre 1980 e 2016, a metade mais pobre do mundo ficou com 13%, refere o relatório.

Só o dinheiro dos multimilionários (762 biliões) dariam 200 dólares a cada um dos 3,8 biliões de pessoas de metade dos habitantes do Planeta e há ainda o dinheiro dos 65 milhões de ricos que distribuído pela metade resolveria os problemas da pobreza.