Translate

terça-feira, 11 de setembro de 2018

A Joana é a nova TINA

  por estatuadesal

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 10/09/2018)

TINA1

Não temos notícia de à esquerda se judicializar a política e de se politizar a Justiça, a caminho dos 45 anos depois do 25 de Abril. À direita, sim. Se esquecermos o período exótico e tão-só mediático de O Independente, em que uma direita instalada e omnipotente se viu beliscada por uma direita de franja e vanguardista, tal fenómeno começou de forma estratégica em 2004, com a invenção do caso Freeport, e não mais deixou de ser a principal arma da direita decadente contra o PS – tendo chegado ao ponto em que se espiou ilegalmente um primeiro-ministro em funções, com a intenção tentada de o abater judicialmente, e em que um Presidente da República lançou, ou assumiu, uma golpada mediática que alimentava esse clima de perseguição judicial a um Governo em cima de umas eleições legislativas.

Agora, com o alvoroço dessa mesma direita para explorar o final de mandato da procuradora-geral da República, estamos a assistir a uma jogada em que os pulhas acham que vão sempre sair a ganhar. Se Joana Marques Vidal for substituída, farão uma festa e mergulharão de cabeça na calúnia mais torpe e rancorosa. Se a senhora ficar mais 6 anos a mandar na PGR e a mandar recados para a Cofina, farão uma festa e, fatalmente, mergulharão de cabeça na calúnia mais torpe e rancorosa.

Neste último cenário, porque tal lhes possibilitará dizer que tinham razão ao ter acusado o PS de ser um partido essencialmente corrupto que dominou criminosamente a Justiça portuguesa na era pré-Vidal. Last but not least, igualmente virão repetir que foi essa corrupção socialista em auto-estradas, aeroportos, linhas de TGV e, não esquecer, as faraónicas fundações, que levaram Portugal à bancarrota. Em qualquer dos cenários, a festança da calúnia está garantida aconteça o que acontecer.

Há uma direita conservadora que prefere as instituições do Estado ao tribalismo e que sai a terreiro em defesa da lei. Há uma direita liberal que faz do Estado de direito o seu primeiro e principal tesouro civilizacional. E depois há a pulharia. A pulharia não suporta Rui Rio pois este resiste a ceder o palco aos videirinhos, aos hipócritas, aos broncos. Dizer que Joana Marques Vidal é insubstituível porque, no seu mandato, houve razões legítimas para investigar Sócrates e Salgado já seria absurdo o suficiente para não ligar mais a essas vozes. Mas fazer de Pinto Monteiro – escolhido por Cavaco e condecorado por Cavaco precisamente por causa do seu mandato como PGR, o que o deve ter enchido de azia – um alvo para acusações que ofendem a sua honra e a nossa inteligência é relevante pelo grau de indecência com que esta direita trata a República. O à-vontade com que responsáveis políticos e os impérios mediáticos da direita se permitem cobrir de infâmia um número indeterminado de magistrados expõe a violência que os anima e consome. Uma violência contra a liberdade.

Serena Williams: o feminismo é uma arma, não é um álibi

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário,11/09/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

É a nova polémica americana. Na final do US Open, Serena Williams foi penalizada por coaching – o treinador estava a dar-lhe indicações, ela alega que não as viu, o que é irrelevante. A tenista reagiu e partiu a raquete, o que foi, como não podia deixar de ser, penalizado. Perante mais uma penalização, ela dirigiu-se a Carlos Ramos, um dos melhores árbitros do mundo, e, com o dedo no ar, disparou: “Está a atacar o meu caráter”, “é um mentiroso”, “peça desculpa”, “como se atreve a insinuar que eu estava a fazer batota?”, “roubou-me um ponto, é um ladrão”, “nunca mais vai apitar um jogo meu!”. Foi de novo penalizada o que, com três advertências seguidas, lhe valeu um jogo de penalidade que fez a japonesa Naomi Osaka lançar-se para a vitória. As decisões do árbitro português foram validadas, com uma multa de 17 mil dólares.

O mote do que viria a ser uma polémica que ultrapassa o ténis foi dado pela própria Serena, ainda durante o jogo: “Eu sou mãe, prefiro perder do que roubar!” ou “É porque sou mulher e você sabe disso! Se fosse homem, não faria isso!” E depois da partida: “Perder um jogo por dizer aquilo não é justo. Quantos homens o fazem? Há muitos homens que já disseram muitas coisas por aí. É porque sou uma mulher e isso não é correto”. O seu treinador, Patrick Mouratoglou, falou dos “homens que se sentem ameaçados por mulheres de forte personalidade”. Formaram-se então as barricadas. Toni Nadal, pai de Rafael Nadal, e Martina Navratilova criticaram Serena Williams e o antigo árbitro Mike Morrissey e a Federação Internacional de Ténis (ITF) defenderam Carlos Ramos. Do lado oposto, Billie Jean King, James Blake, Sally Jenkins (colunista de assuntos desportivos do “The Washington Post”) e a World Tennis Association (WTA) elogiaram Serena Williams por expor a duplicidade de critérios.

Para ajudar à festa, um cartoon de Mark Knight, publicado no australiano “Herald Sun”, mostra Serena Williams a saltar em cima da raquete enquanto o árbitro fala com uma Naomi Osaka loira, pedindo-lhe para deixar a tenista norte-americana ganhar. Não é preciso argumentar muito para explicar os contornos racistas do cartoon. Ele sente-se mal se olha. O que não veio ajudar a um debate que se transformou num debate sobre machismo e racismo.

Um facto que ainda não vi ninguém desmentir: que há discriminação de género no ténis, tal como nas restantes modalidades. As mulheres recebem menos e é menor a tolerância para com as suas fúrias, que são um clássico nas grandes finais. A de Serena Williams está muito longe de ser épica ao pé de outras e até do seu comportamento de 2009, nas meias-finais diante de Kim Clijsters, em que foi multada 175 mil dólares, foi bem pior. Outro facto que ainda não vi desmentir: que todas as faltas marcadas existiram, que Carlos Ramos é conhecido por ser bastante rigoroso na aplicação das regras e que já o fora com estrelas masculinas como Rafael Nadal e Novak Djokovic. Se se pode falar de duplicidade de critérios na modalidade, é mais difícil fazê-lo quanto a este árbitro específico (o que não quer dizer que seja homogéneo, porque isso é coisa que não existe em nenhum arbitragem).

A luta pela igualdade das mulheres e dos negros está, sobretudo nos EUA, noutros lados e noutros momentos. Serena Williams não usou o feminismo como uma arma, mas como um álibi. Uma mulher emancipada reconhece os seus erros, porque conquistou esse direito e esse dever

Qualquer pessoa que veja aquelas imagens não vê um opressor perante uma vítima de discriminação, vê alguém com muitíssimo mais poder simbólico, mediático, real e financeiro a assediar com insultos, exigências de pedidos de desculpa e até ameaças de nunca mais arbitrar um jogo seu, uma pessoa que está a cumprir o seu dever profissional. Não acompanho suficientemente o ténis para saber se a discriminação das mulheres e das negras é muito marcada, mas o consenso nessa afirmação parece ser suficiente para assumir que sim. O que não é legítimo é transformar o insulto, o mau perder e o assédio sobre um árbitro numa denúncia de discriminação racista e machista. A luta pela igualdade das mulheres e dos negros está, sobretudo nos EUA, noutros lados e noutros momentos. Seria bom não a banalizar.

O que Serena Williams fez prejudica gravemente a luta feminista e pelos direitos dos afro-americanos. Porque ela não exigiu o direito à igualdade legal e de facto. Ela exigiu, como “mãe” (?), “mulher” e “negra” o direito a não cumprir as regras que foram escritas para todos. Não usou o feminismo como uma arma, mas como um álibi.

Instrumentalizou-o e, com isso, tirou-lhes força. E foi isso mesmo que várias feministas fora dos EUA (onde o debate deixou de se conseguir fazer de forma racional) disseram: uma mulher emancipada reconhece os seus erros, porque conquistou esse direito e esse dever.

Sim, os negros e as mulheres são discriminados nos Estados Unidos e no desporto internacional. Sim, a lei, seja a civil seja a desportiva, parece por vezes aplicar-se-lhes com maior severidade. Mas nem por isso Carlos Ramos deve sentir-se no dever de ser incoerente no seu rigor. E muito menos a porta-voz da igualdade pode ser quem deseja que as regras não se lhe apliquem. A isso chama-se oportunismo. Serena Williams não é uma vítima, é alguém que conquistou a pulso o que hoje tem. É responsável e responsabilizável pelo os seus atos. Mérito seu.

FacebookTwitterE-Mail

Palácio Fronteira: provavelmente, o palácio mais bonito de Lisboa

por VxMag

Não é que seja desconhecido. O Palácio Fronteira está nos guias turísticos, o que é facilmente perceptível pelo número de estrangeiros que acompanham cada visita guiada. Portugueses é que nem por isso - a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna chegou a fazer visitas só para nacionais, que acabaram por falta de público. Em São Domingos de Benfica, com o Parque Florestal de Monsanto logo ao lado, o Palácio dos Marqueses de Fronteira ainda hoje se mantém à distância do bulício da cidade. É assim desde sempre.

Jardim do Palácio da FronteiraJardim do Palácio da Fronteira

Quando foi construído, ainda no século XVII, o edifício foi pensado como uma casa de férias, um pavilhão de caça para D. João de Mascarenhas, 2.º conde da Torre e 1.º marquês de Fronteira - título atribuído em 1670 por D. Pedro II (então regente do reino), sensivelmente na mesma altura em que é iniciada a construção do palácio. São Domingos de Benfica era campo, estava para lá dos arrabaldes de Lisboa - como faz notar o guia da visita, o palácio ficava à distância de três horas a cavalo do Chiado, onde se situava a residência da família. Mas o terramoto e o tsunami de 1755 vieram mudar isso. A casa no Chiado ficou reduzida a escombros, a de Benfica passou sem grandes estragos. A família mudou-se para lá.

Palácio FronteiraJardim do Palácio dos Marqueses de Fronteira

Pensado como uma casa de verão, o palácio sofreu então consideráveis alterações. Foi acrescentada uma nova ala, para acolher toda a família, as varandas foram fechadas para ganhar espaço, os tectos brancos passaram a ser trabalhados em estuque. Mas é sobretudo a azulejaria que se destaca nas paredes do palácio, com destaque para os que, na designada Sala das Batalhas, retratam oito episódios das guerras da Restauração - em que João de Mascarenhas se distinguiu, ao que não foi alheia a atribuição do título de marquês de Fronteira.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

Os azulejos têm um pouco comum registo de relato das vitórias portuguesas sobre os espanhóis (obviamente). Logo a seguir está a Sala dos Painéis, com um conjunto de azulejos holandeses do século XVII, e duas salas, menos monumentais mas mais intimistas, que são como que uma espreitadela para a ala privada do edifício. É aqui que se encontra a mesa de costura que terá sido oferecida por Maria Antonieta à 4.ª marquesa de Alorna (D. Leonor, poetisa, um dos membros mais "mediáticos" da história da família, que cruza as casas nobiliárquicas Fronteira, Alorna e Távora).

azulejosPalácio Fronteira

São também os azulejos que dominam os exteriores, seja no terraço ou no tanque monumental. No terraço estão painéis representando as sete artes liberais, acompanhados por estátuas de divindades gregas. Um conjunto grandioso acompanhado por pequenos painéis satíricos, onde gatos e macacos surgem humanizados.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

O Palácio Fronteira ocupa um lugar único na azulejaria portuguesa do século XVII. Não só já no sua época era um dos maiores conjuntos azulejares de azulejaria no conjunto da arquitectura civil, como é praticamente o único em que os azulejos se encontram ainda in situ, designadamente ao ar livre. Destacam-se em particular: os azulejos Holandeses da Sala dos Painéis, os primeiros de que há notícia segura de terem sido exportados da Holanda, estando atribuídos a Adriaen van Oort e a seu filho Jan van Oort; os azulejos da Sala das Batalhas nos quais se narram oito batalhas das Guerras da Restauração (1640 -1668); os azulejos do Tanque dos Cavaleiros, que são claramente de inspiração Velasquiana e, indubitavelmente os de desenho mais erudito; os azulejos cobreados relevados da Galeria dos Reis, de origem desconhecida, mas possivelmente espanhola; o painel polícromo de macacarias, nos bancos que circundam o Tanque dos Ss; o conjunto dos Azulejos do Terraço.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

É a partir do terraço que se tem acesso à capela, de construção anterior ao próprio edifício. Junto à capela (e não só)a decoração faz-se com embrechados. Reza a história (em rigor, reza a lenda) que, tendo convidado D. Pedro para a inauguração do palácio, o 1.º marquês de Fronteira mandou partir toda a loiça que se usara no banquete. E foi assim que as paredes acabaram decoradas com pedaços de porcelana, além de pedras e conchas. Do terraço acede-se ao chamado jardim de cima. Mas o mais monumental, imagem de marca do Palácio de Fronteira, é o jardim de baixo, mais conhecido como jardim formal.

Jardim do Palácio dos Marqueses de FronteiraJardim do Palácio dos Marqueses de Fronteira

Feito já no século XVII, à imagem dos jardins italianos do século anterior, trata-se de um enorme conjunto de canteiros de buxo, dominado a sul por um lago de 48 por 18 metros. Ladeado por escadarias, é encimado por uma galeria de esculturas com os bustos dos Reis portugueses. Este jardim foi um dos 250 melhores, reunidos no livro The Gardener"s Garden, do qual saltou para o top 10 da edição espanhola da revista Condé Nast Traveler, classificado como "simplesmente espectacular" - e aí está outra explicação para o número de visitantes estrangeiros.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

É no mínimo invulgar, mas o Palácio de Fronteira vive na dupla condição de residência familiar e monumento nacional (classificado em 1982). A família Mascarenhas continua a morar ali, na ala (não visitável) que foi acrescentada no século XVIII ao edifício original do palácio, e da qual se sabe apenas que será menos monumental do que as salas visitáveis. Mas mesmo a parte aberta ao público durante as manhãs (e que também é usada em eventos culturais, como concertos) é depois fechada, ficando disponível para uso dos residentes.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

O Palácio de Fronteira abriu as suas portas por acção de Fernando Mascarenhas, 12.º marquês de Fronteira (e mais uma boa mão-cheia de outros títulos nobiliárquicos), falecido em 2014. Também conhecido como o "marquês vermelho" (opositor ao Estado Novo, usou o palácio como palco de reuniões clandestinas e chegou a ser chamado à sede da PIDE), criou no final dos anos 80 a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna (actual proprietária e que gere o palácio), abrindo o espaço a iniciativas culturais, científicas e educativas.

Palácio FronteiraPalácio Fronteira

Culto, conversador nato, mecenas das artes, foi do gosto do marquês pelo bridge que surgiram os torneios que se realizam mensalmente no palácio, onde quer as salas interiores quer os espaços exteriores dos jardins podem ser alugados para eventos particulares. Quanto às visitas, a entrada custa nove euros e o acesso ao jardim custa três.

Joana Marques Vidal e os passistas que fazem futurologia

Publicado por João Mendes

Fotografia via Jornal de Negócios

Miguel Morgado, António Leitão Amaro, Duarte Marques, Miguel Poiares Maduro e José Eduardo Martins assinam um artigo de opinião no jornal Expresso, a propósito da recondução (ou não) de Joana Marques Vidal, que começa de forma algo romântica, mas pouco realista. Porque a recondução (ou não) da Procuradora-Geral da República está longe de ser uma das “escolhas fundamentais que definem o futuro do País e da nossa democracia”. Imagino que a recondução de Marques Vidal, para os sociais-democratas que assinam o artigo, corresponda a “escolher o regime e o país” que querem, até porque Joana Marques Vidal pouco ou nada incomodou os barões do seu partido, mas não vale a pena embandeirar em arco: os grandes gatunos continuam todos em liberdade. E não há registo de que andem a passar fome ou a dividir apartamento com cinco pessoas num qualquer bairro social.

É mentira que tenha sido durante o mandato da actual PGR que “ficou claro o quanto o nosso regime era dominado por uma teia de interesses e cumplicidades que corrompeu os níveis mais elevados do poder”. Isso é claro há anos, antes de Joana Marques Vidal ou Pinto Monteiro terem ocupado o cargo. A grande diferença do mandato de Joana Marques Vidal reside na revolução tecnológica, que permite que cada vez mais portugueses conheçam os meandros podres e corruptos da política portuguesa, da banca portuguesa, dos futebol português e de parte significativa do tecido empresarial. Longe vão os tempos em que era possível fechar informações delicadas a sete chaves, longe do conhecimento do grande público. O que ajuda a explicar porque é que tanta gente ainda acredita que o regime salazarista não era corrupto e promiscuamente envolvido com os grandes capitalistas do seu tempo, cuja descendência ainda aí anda, a comprar políticos e a assaltar bancos.

Não obstante, considero que o mandato da actual PGR está a ser muito positivo. Penso não haver recordação de tantos membros da elite incomodados pelo Ministério Público, apesar de nada de relevante lhes ter acontecido, e até o poderoso Benfica parece estar e maus lençóis. Porém, se eventualmente vier a ser substituída, não me parece que venha grande mal ao mundo. Até porque nada nos garante que não virá alguém melhor. Daí não me meter em exercícios de futurologia tendenciosa, como decidiu fazer este grupo de dirigentes do PSD, que defende que reconduzir Joana Marques Vidal corresponde a “proteger e prosseguir esse caminho (de “coragem e firmeza na investigação e ação criminal”) ou minar a sua credibilidade e autoridade, regressando a um passado recente em que a proximidade ou dependência política do Ministério Público, real ou simplesmente presumida, feriu de morte a sua legitimidade e, muitas vezes, tornou inoperante o poder e vontade de investigação dos magistrados”. Apesar de tal ser possível, seria mais sensato se estes políticos esperassem pela decisão e eventual substituição, antes de presumir regressos ao passado. Vá, deixem a futurologia para a Maya. Já chegam as figuras tristes que alguns dos senhores fazerm no Parlamento.

Mas sim, dá a entender que o governo está interessado em correr com a PGR. Como o anterior correu Pinto Monteiro. E sim, existe a sensação que o Ministério Público funciona melhor do que no tempo do anterior PGR. Mas, uma vez mais, insisto: os poderosos criminosos de colarinho branco continuam todos no conforto do lar, rodeados pelo luxo comprado com o produto da sua actividade criminosa. Isto para não falar de certos casos, como a denúncia de Paulo Vieira da Silva contra Marco António Costa, que chegou às mãos de Joana Marques Vidal há três anos e meio, e sobre a qual não se ouve um pio. Ou a malta do BPN. Ou a Tecnoforma, que por cá não levanta grandes ondas judiciais, apesar do gabinete anti-fraude da Comissão Europeia, que considera que a Tecnoforma cometeu graves irregularidades na gestão de fundos europeus. E por aí fora. Não sei se o MP estará manchado por “sinistros planos e estratégias partidárias”, mas a sensação que dá é a de que a malta do partido que nomeou a PGR continua a passar entre os pingos da chuva.

Percebe-se o porquê deste exercício de política partidária pré-eleitoral, com os olhos postos no Outono de 2019. Percebe-se também a estratégia de tentar induzir os leitores a achar que tal problema é preto ou branco. Que substituir Joana Marques Vidal “legitimará o branqueamento do sistema de corrupção e de abuso do poder do passado recente e ficará irremediavelmente comprometido com o regresso provável a um regime de impunidade que tantos danos causou a Portugal”, o que mais não é do que demagogia barata e desonestidade pura e dura. Percebe-se ainda que tal é também uma reacção a ausência de uma posição clara de Rui Rio sobre o tema, ou não estivéssemos nós perante uma autêntica brigada do passismo, cujos cargos e influência estão em sério risco, com a excepção de José Eduardo Martins. E faz-me alguma confusão ver José Eduardo Martins envolvido neste esquema conspirativo político-partidário. Logo ele, que já foi esfaqueado por oficiais passistas. Espero que a hecatombe que se prevê para o PSD nas próximas Legislativas permita a Rui Rio limpar o entulho. Santana Lopes estará de braços abertos à sua espera.

Z de zarpar

Ladrões de Bicicletas


Posted: 10 Sep 2018 07:59 AM PDT

Para quem se exalta com que o que se passa no emprego em Portugal, conviria olhar para o gráfico ao lado.
A população activa representa a população disponível para produzir, esteja empregada ou desempregada, e constitui um indicador da vitalidade, da capacidade de atracção do mundo do Trabalho.
A direita e o governo digladiam-se sobre quem tem o mérito da retoma do emprego iniciada na segunda metade de 2013, fortemente empurrada desde 2015. Mas tanto uma como outro esquecem-se de ir mais fundo. O certo é que a população activa só iniciou a sua recuperação desde o 2º trimestre do ano passado. Este facto dá uma ideia da destruição acumulada, verificada nos anos de chumbo da política da troica abraçada pela direita e que se mantém em vigor, embora fortemente atenuada pela política de rendimentos seguida por este governo e por um ambiente externo favorável. Mas o pano de fundo é o mesmo.

Inquérito ao Emprego, INE

De 2011 até Junho passado, cerca de 222 mil pessoas deixaram de estar activos. Este período pode subdividir-se em três:
1) do 1ºtrimestre de 2011 até ao 1ºtrimestre de 2013, a população activa reduziu-se 166,8 mil pessoas;
2) do 2º trimestre de 2013 ao 1º trimestre de 2017, em que continuou a cair - menos 99,4 mil pessoas;
3) e do 2º trimestre de 2017 até agora em que subiu 44 mil pessoas, mas com avanços e recuos.
Esta evolução é possível de ser desagregada ainda mais, nomeadamente por escalões etários. Verifica-se um esvaimento da população activa jovem entre 15 e 34 anos: menos 353,9 mil de 2011 até agora, muitos deles tendo saído do país, sabe-se lá se definitivamente. Mesmo a faixa dos 35 aos 44 anos está a reduzir-se: menos cerca de 70 mil desde 2011 até agora. Por outro lado, está a aumentar a população activa com idades entre 45 e 64 anos (mais 234,5 mil). Essa assimetria assume claramente - e num curto espaço de tempo de 7 anos! - a estranha forma de um Z.

Quando se estima as variações anuais acumuladas (desde o 1º trimestre de 2011), o retrato torna-se ainda mais evidente. O Governo pode alegar que a descida das faixas da população activa mais jovem se tornaram menos pronunciadas. Mas o problema é que continuam a descer.
Este não é, de todo, o retrato de que a direita ou o governo se podem regozijar. Ele revela um dos lados menos sãos da actual situação laboral do país. O governo está consciente disso, mas as soluções preconizadas - benefícios fiscais - são a resposta errada e ineficaz para atacar esta situação. Nenhum assalariado irá trocar um rendimento elevado ainda que fortemente tributado por um rendimento baixo ainda que fracamente tributado. Essa proposta tem uma faceta, porém, que pode raiar o cinismo: mesmo que algum assalariado aceite a proposta, como os salários em Portugal são baixos, logo são fracamente tributados. Reduzir a metade o seu IRS pago será, possivelmente, um fraco esforço público.
Era importante que o Governo e o PS se consciencializassem de que há sérios problemas de estrutura que conviria olhar com calma, sem pressas eleitorais, numa ampla e lenta discussão, fora do debate político apressado e definido em função da comunicação social. Só isso trará votos sinceros. E já agora uma sociedade melhor.