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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O estado a que a CP chegou

14/09/2018 by Autor Convidado

José Manuel Rosendo

Ponham um mapa em cima da mesa e decidam qual é a rede de ferrovia que querem para o país. E depois digam-nos. E, já agora, porque é indispensável, digam-nos que CP querem.
Falar da CP, confesso, integra uma grande componente afectiva. Talvez por isso, a situação vergonhosa do transporte ferroviário em Portugal potencia aquela sensação de “vergonha alheia” que por vezes nos invade a alma. Quando se fala da CP é isso que sinto: uma grande vergonha (alheia) pela situação a que a empresa chegou.

Passo a explicar: sou filho, neto, sobrinho, primo e tenho muitos amigos ferroviários. Nasci numa terra – Pinhal Novo – que, também ela, cresceu a partir de uma “Estação de comboios”. Ainda hoje – embora pela negativa – a linha ferroviária marca a vida de Pinhal Novo, cortando-a literalmente a meio. A electrificação da via e a anulação de passagens de nível deixou-nos duas pontes – de difícil utilização pedonal – e um túnel que convém evitar, principalmente durante a noite. Cerca de 30 mil habitantes divididos pelas linhas do comboio.

Até eu, embora fugazmente, trabalhei na CP, e durante toda a minha vida, enquanto os mais velhos da família foram vivos, as conversas sobre comboios eram o tema favorito. O comboio marcava o ritmo da vida familiar. Ia com a minha mãe à Estação levar a lancheira ao meu pai – maquinista – à passagem do comboio. Havia maquinistas que tinham uma forma específica de serem reconhecidos através do apito da máquina. Era também no bar da Estação de Pinhal Novo que comprava, sem falha, todas as semanas, os livrinhos de banda desenhada da colecção “O Falcão” com as aventuras de Texas Kid, Major Alvega e tantos outros. Durante o verão, cheguei a vender bilhas de barro, com água fresca, através das janelas dos comboios “rápidos” que iam para o Algarve e para o Alentejo…

Pai maquinista, tios maquinistas, um tio operário das oficinas da CP no Barreiro, um tio “chefe de lanço”, avôs “trabalhadores da via”, a minha avó Maria Augusta guarda de passagem de nível. Desde os 10 anos que utilizei o comboio para ir para a escola. Era o tempo daquele a que chamávamos o “comboio do texas”, tal a velhice das carruagens ao serviço, que tinham portas de abrir para fora e não poucas vezes provocaram acidentes. A CP está-me no sangue e é também por isso que me dói – ainda mais – o que está a acontecer à empresa.

Não é de agora que a CP está mal. É de há muito tempo! E a CP ficou ainda pior desde a ideia peregrina de espartilhar a empresa de transporte ferroviário em várias empresas: REFER (Rede Ferroviária Nacional, agora integrada na IP – Infraestruturas de Portugal), EMEF (Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário), CP Carga (agora Medway – operadora privada de transporte de mercadorias…); até a FERTAGUS (operadora privada de transporte de passageiros) – uma PPP da ferrovia. Para quê, perguntamos agora, quando afinal a ferrovia chegou a este ponto. Apenas, claro, para criar umas administrações ocupadas por amigalhaços e uns quantos negócios certamente úteis a alguns “empreendedores”. Espanto dos espantos: o actual Presidente da CP disse recentemente na Comissão Parlamentar de Obras Públicas que “não existe CP sem EMEF!”. Faltou-lhe dizer que também não existe CP sem REFER e sem o serviço de transporte de mercadorias. Que eu tenha dado por isso – quiçá lapso meu – nenhum deputado da dita Comissão perguntou ao presidente da CP se defende uma empresa que recupere todas as vertentes de que foi espoliada. A CP deve ser uma empresa ao serviço do país, em todas as vertentes do transporte ferroviário. A CP deve ser um todo num país que deve ser olhado e gerido como um todo.

Um dos problemas da CP é semelhante ao de outras empresas públicas: os lugares de administração são distribuídos por conveniência política! Em Portugal não existe uma escola de Serviço Público e as empresas não conseguem (não as deixam) gerar os seus próprios líderes: gente que conheça, de facto, as empresas, para além das folhas de excel e dos resultados financeiros. Gerir a CP não é o mesmo que gerir a TAP, um Hospital ou a RTP. Não é, mas parece, tal a dança de cadeiras que todos conhecemos.

Há ainda o problema das indemnizações compensatórias. O Estado exige das empresas, devia pagar, mas não paga.

A génese do problema da CP é semelhante aos problemas do Serviço Nacional de Saúde, aos problemas da Escola Pública, e a tantos outros: não há uma ideia para o país que queremos, com Serviços Públicos que sirvam de facto o desenvolvimento do país, em vez de servirem interesses da elite que em cada momento tem lugares no Governo. Os sucessivos governos não podem escamotear responsabilidades no estado a que a CP chegou e os partidos políticos que têm tido responsabilidades governativas continuam entretidos em trocas de acusações que nada resolvem. Deixem de esgrimir argumentos sobre propostas que não passam de paliativos e mostrem-nos um plano verdadeiramente regenerador da CP e da ferrovia. O desafio aplica-se também aos partidos políticos que têm estado fora do chamado “arco da governação”: não basta criticar, digam-nos qual é a CP que querem e, já agora, como é que a podemos pagar.

Pinhal Novo, 6 de Setembro de 2018

Uma década de turbulência

Ladrões de Bicicletas


Posted: 13 Sep 2018 06:48 AM PDT

O dia 15 de Setembro de 2008 ficará por certo na memória das pessoas que o testemunharam. O colapso do Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimento norte-americanos à data, marcou a consumação da maior crise financeira desde 1929.
Sinuoso tem sido o caminho que as economias ocidentais percorreram na última década. A uma lenta recuperação da atividade e do emprego, juntam-se a incapacidade de resposta das autoridades responsáveis (governos, bancos centrais, UE) e a emergência de novos focos de instabilidade social. Um relatóriodo Roosevelt Institute sobre a economia norte-americana sublinha que “não existe precedente para a escassez de investimento no atual ciclo”, classificando a recuperação como “extremamente fraca para os padrões históricos”. Embora reivindiquem um estatuto superior, os economistas ortodoxos e os responsáveis pela política económica continuam a ter dificuldades em identificar a origem da crise financeira e o insucesso das respostas que elaboraram, ineficazes no objetivo de promover uma recuperação económica sustentada.
Este texto é um contributo para um debate muito participado (ver aqui ou aqui) sobre os dez anos que se seguiram ao colapso financeiro e sobre os riscos de uma nova crise nos próximos tempos.
A bola de neve da dívida
O endividamento global aumentou de forma significativa nos últimos dez anos, mantendo a tendência que já se verificava no período anterior à crise financeira. A política de taxas de juro próximas de zero explica boa parte desta tendência, por ter facilitado o acesso a crédito – a dívida do setor empresarial atingiu níveis historicamente elevados. Além disso, também cresceu o endividamento dos Estados, forçados a absorver parte das perdas do sistema financeiro através de nacionalizações ou capitalizações de bancos e empresas de grande dimensão. Os esforços de resgate do setor financeiro traduziram-se no aumento da dívida pública para níveis superiores aos registados antes da crise.
Os dados do Institute of International Finance são reveladores da tendência de endividamento por setores. Sonja Gibbs, diretora do IFF, nota que “a dívida pública atingiu níveis mais elevados do que os anteriores à crise, à semelhança da dívida empresarial”, avisando que esta tendência “pode estar a ser ligeiramente negligenciada”. Talvez não o possa ser durante muito mais tempo.

O impasse da política monetária
Apesar das taxas de juro terem descido para mínimos históricos com a política monetária da Reserva Federal e do BCE (o quantitative easing, ou QE, de que falamos aqui), o investimento não tem recuperado os níveis anteriores à crise, por falta de perspetivas de retorno. A taxa de lucro permanece baixa e desencoraja o investimento no setor produtivo. Em vez disso, a riqueza tem sido canalizada para especulação. Além disso, como refere acertadamente Larry Summers, “em caso de recessão, os decisores dos bancos centrais não terão instrumentos para lhe responder. A política monetária está próxima dos seus limites” – também a The Economist alerta para este problema.

Recentemente, a Reserva Federal norte-americana começou a abandonar a orientação expansionista e a aumentar o valor de referência da taxa de juro, aumentando os custos do endividamento com o propósito de evitar eventuais pressões inflacionistas. Esta mudança de orientação pressiona o setor empresarial altamente endividado, e pode levar várias empresas a situações de incumprimento ou falência, embora o efeito possa estar a ser atrasado pela redução dos impostos sobre o setor empresarial aprovados pela administração de Trump.
Além da pressão sobre empresas endividadas, a subida das taxas de juro pode desencadear colapsos financeiros em mercados sobrevalorizados (ações, obrigações, derivados). Neste caso, o ponto de viragem para uma nova crise pode ser a queda de um banco influente e o efeito de uma reação em cadeia no sistema financeiro, tal como há dez anos.
Por outro lado, a subida das taxas de juro norte-americanas tem um efeito de atração de capitais estrangeiros, devido à expectativa de maior retorno do investimento, que pode dificultar as condições de financiamento de países altamente endividados (os recentes exemplos da Argentina e da Turquia são esclarecedores, como já foi escrito aqui).
Ann Pettifor, diretora do Policy Research in Macroeconomics, escreveu recentemente que “a criação de liquidez numa escala sem precedentes, através da aquisição de títulos por parte dos bancos centrais, teve um contributo virtualmente nulo na consolidação da recuperação económica nos países onde o QE é o instrumento central da política económica (Japão, EUA e Reino Unido). Além disso, o QE não se revelou inflacionário – apesar do esforço dos banqueiros centrais e da preocupação alarmista dos economistas ortodoxos. Pelo contrário, o QE e as outras operações dos bancos centrais repuseram o valor inflacionado dos ativos detidos pela elite.” Por outras palavras, a estratégia foi ineficaz no objetivo principal e reforçou os desequilíbrios globais.
Cada vez mais desiguais

A disparidade de rendimentos entre o topo e a base da distribuição acentuou-se na última década, seguindo a tendência dos trinta anos anteriores à crise. A austeridade generalizada como forma de socialização das perdas financeiras (com o congelamento de salários, a liberalização do mercado de trabalho e a diminuição do investimento público), à qual se pode acrescentar a recuperação do valor dos ativos financeiros detidos maioritariamente pela elite (resultado da política monetária), contribuem para o aprofundamento das desigualdades sociais. O gráfico revela o caso norte-americano, onde o aumento das desigualdades foi mais acentuado.
O domínio da finança
No que diz respeito à evolução do sistema financeiro na década pós-2008, destacam-se três aspetos. Por um lado, após a queda inicial que esteve na origem do colapso, o valor dos ativos financeiros prossegue a tendência de aumento, tendo atingido recentemente níveis historicamente elevados. Esta tendência é acompanhada pela recuperação para níveis anteriores à crise dos lucros financeiros em percentagem do lucro empresarial total, após uma queda abrupta em meados de 2007.

A isto podemos acrescentar a ascensão da finança sombra, descrita neste livro, como fator que acentua a instabilidade do setor, por significar um peso cada vez maior de instituições não reguladas nas operações financeiras.
Nos últimos tempos, tem ganho força a ideia de que estamos perante novas bolhas especulativas nos mercados de ações e obrigações, fruto do recurso facilitado ao crédito. Esta ideia é reforçada quando olhamos para a evolução das operações de ‘buyback’ (recompra de ações por parte das próprias empresas), uma forma de aumentar artificialmente o valor da empresa e distribuir dividendos entre os acionistas. Depois da ‘bonança’, seguir-se-á a tempestade?

Tempos de turbulência
No debate sobre as causas desta década de estagnação, a explicação proposta por autores como Anwar Shaikh e Michel Husson centra-se no papel da taxa de lucro como motor do investimento e da produção.
Segundo estes autores, nas últimas décadas a taxa de lucro exibiria uma tendência decrescente entre as economias mais desenvolvidas, devido à intensificação da competição entre empresas e ao declínio dos ganhos de produtividade ao longo deste período. Esta tendência foi contrariada por fenómenos como a transferência de rendimento do trabalho para o capital (aumento da desigualdade) ou a expansão do crédito e do endividamento. Contudo, a diminuição da lucratividade do setor produtivo implicou uma reorientação dos investimentos para atividades financeiras especulativas, mais rentáveis. A isto podemos acrescentar a falta de investimento público, restringido pelo peso da dívida dos Estados e, no caso europeu, pelas normas orçamentais da UE.
Como resultado da evolução complexa que temos analisado neste texto, o economista francês Michel Husson classifica os anos que se seguiram à crise de 2007-08 como um período de regulação caótica, marcado pela intensificação da instabilidade das economias, das suas profundas contradições estruturais e dos riscos de novo colapso. Os índices da capitalização bolsista parecem confirmar a turbulência dos tempos que vivemos.

No decurso do debate sobre as causas e consequências da última crise, o ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, afirmou duvidar da “possibilidade de alcançar a estabilidade nas economias capitalistas, dado que os mercados competitivos turbulentos, embora atraídos para o equilíbrio, nunca o atingem definitivamente.” Ao prosseguir o raciocínio, Greenspan reconheceu que “a não ser que exista uma escolha da sociedade para abandonar as dinâmicas de mercado e alavancagem e dar lugar a algum tipo de regulação ou planeamento central, temo que a prevenção de bolhas especulativas se revele impraticável. Apenas podemos aspirar a suavizar as suas consequências”.
Dez anos depois da última crise, ainda restam dúvidas?

O centrão, a fusão e a ilusão

Eleições europeias

De acordo com a imprensa, a Chanceler Angela Merkel já escolheu o ‘Spitzenkandidat’ do Partido Popular Europeu para as eleições europeias de 2019: Manfred Weber, membro da CSU, a fracção bávara do seu partido.

O palavrão alemão de ‘spitzenkandidat’ traduz a mesma ideia comum aos regimes democráticos parlamentares em que os partidos apresentam um candidato a ‘Primeiro-Ministro’, de resto tal como acontece em Portugal. O problema fundamental do sistema é o de ele não contemplar necessariamente primárias e colocar nas cúpulas partidárias, por vezes na única pessoa do líder, todo o poder. A questão torna-se mais grave quando, como acontece neste caso, é o líder político de um dos Estados Membros a tomar este tipo de decisões.

Acresce a este problema o facto da construção europeia ter evoluído sempre em volta de um centrão feito de partidos de centro direita e de centro esquerda, que repartem cargos e funções num rito em que a vontade do eleitor parece ser secundária, levando a um cansaço eleitoral que se torna cada vez mais visível.

Sendo a CSU a mais conservadora ala da coligação alemã no poder, e sendo Manfred Weber especialmente próximo do líder populista húngaro Viktor Órban, o mais articulado e influente líder do populismo eurocéptico, pró Putin e antiliberal; a leitura da designação de Weber parece ser clara: uma aposta no esvaziamento do populismo europeu cada vez mais ameaçador, nomeadamente a partir da adesão ao seu projecto europeu do estratega norte-americano Steve Bannon.

O segundo ramo do centrão, o dos socialistas europeus, parece submetido a um papel subalterno e em retrocesso acelerado. Neste quadro, a principal preocupação do centrão será a da derrocada socialista.

A cristalização das instituições em volta do centrãolevou a que a oposição se confunda com os chamados populistas, hoje em dia espartilhados em vários partidos à direita e à esquerda. Um dado novo neste cenário surgiu com as eleições italianas. Aí, um partido com vagas referências à esquerda através da democracia directa juntou-se a outro claramente conservador, num projecto de fusão eurocéptica para governar o país. A mesma ideia foi superficialmente equacionada no quadro alemão por uma dirigente do ‘Partido da Esquerda’ alemã que falou da necessidade de conter a imigração com discurso em ponte à extrema-direita.

Não é provável que o projecto de fusão chegue às últimas consequências; apenas para nos situarmos no plano nacional, dificilmente veríamos o PCP ou o BE a juntar-se no mesmo partido europeu com a Frente Nacional francesa. Mas mesmo sem que esse passo seja dado aparece cada vez mais clara a possibilidade de convergência estratégica dos vários ‘populismos’, ‘extremismos’ ou ‘eurocepticismos’.

Daí a importância da decisão de Angela Merkel. Viktor Órban era o mais provável e consequente líder desse movimento populista; o seu ‘aprisionamento’ no centrãoparece ter como objectivo sabotar a fusão. A questão é também a de que esta estratégia corre o risco de ver os seus objectivos invertidos, com a fusão a desfazer o centrão por dentro.

Nas eleições francesas, Emmanuel Macron conseguiu furar o anquilosamento do sistema partidário francês surgindo como uma força jovem, liberal e europeísta, arrasando simultaneamente o sistema político-partidário instituído e o desafio populista, engolindo no percurso o incipiente centro político-partidário.

Desde essa altura que pareceu claro que Macron iria procurar reproduzir à escala europeia o sucesso da sua estratégia francesa, e dia após dia esse percurso parece afirmar-se, multiplicando-se na imprensa internacional os anúncios da nova plataforma ‘progressista’ europeia.

A dita plataforma progressista pretende ser alternativa ao centrão e à fusão mas é uma espécie de combinação da plataforma social do BE com a veneração à finança do ‘arco governativo’ português, revelando-se também como uma plataforma de acesso directo ao poder de poderosos grupos de interesse. Cada vez mais o eleitorado francês olha essa plataforma como uma perfeita ilusão que não responde a nenhuma das suas aspirações.

Pela minha parte, continuo a pensar o que pensava em 2014, há a necessidade de erguer uma alternativa internacionalista, social, ecologista, democrática e liberal ao centrão e ao sistema político-financeiro em que nos situamos sem qualquer cedência a regimes e ideologias totalitários, sejam eles protocomunistas, jihadistas, nacionalistas ou imperialistas.

Entre as brumas da memória


Salvar o mundo

Posted: 13 Sep 2018 10:39 AM PDT

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No jogar é que está a esperança

Posted: 13 Sep 2018 06:25 AM PDT

Portugueses apostam 14 milhões de euros por dia.

«Os primeiros seis meses deste ano mostram que nunca se apostou tanto em Portugal. Totobola, Euromilhões e M1lhão estão a perder terreno nas escolhas. Raspadinha mantém-se a mais escolhida.»

Gostaria também de saber quantos portugueses jogam. Leio que, em 2014, correspondiam a 2/3 da população. Arrisco, sem grande hesitação, que actualmente deve tratar-se de 3/4 ou 4/5! É que as filas para se pagar um jornal em qualquer tabacaria que venda jogo são cada vez maiores: há que esperar que umas tantas pessoas, de todos os tamanhos e feitios, raspem e tornem a raspar, recebam uns euros ou nem por isso, etc., etc.

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Fora de horas

Posted: 13 Sep 2018 03:33 AM PDT

«A discussão sobre o fim da mudança da hora que tão talentosamente a Comissão Europeia abraçou nas últimas semanas está deslocada na sua relevância. A única mudança de hora que deveríamos estar a debater era a do discurso do estado da União, um modelo começado em 2010 e indignamente enterrado pelos seus protagonistas. Ao contrário dos EUA, onde o presidente se dirige a um Congresso lotado em horário nobre, na UE o presidente da Comissão dirige-se a um Parlamento Europeu quase vazio às nove da manhã. Não há comunicação possível sobre as virtudes da União a uma hora em que nem as televisões, nem o comum dos cidadãos perdem um segundo para lhe prestar atenção. Mas se este é o ponto prévio ao modelo iniciado por Durão Barroso, importa olhar para o que traz Jean Claude Juncker.

Os menos críticos têm apresentado o argumento da veterania como um trunfo numa Europa aparentemente sem memória histórica: a experiência como um dos pais da moeda única, os muitos anos de corredores em Bruxelas e o facto de ter liderado um pequeno país habituado aos equilíbrios continentais. Tudo isto estaria correcto se Juncker acrescentasse autoridade política, energia decisória, assertividade argumentativa, carisma político e chama discursiva. Como ficou demonstrado neste seu último discurso do estado da União, Juncker não tem nenhum desses atributos. Tem o mérito de estar rodeado de alguns bons comissários com visão e coragem políticas, tem a pouca sorte de estar à frente de uma comissão garante dos tratados quando estes estão em cheque e permanentemente sob ameaça, e tem a virtude de estar, grosso modo, correcto na hierarquia das prioridades da agenda da comissão: comércio livre, reformas da zona euro, digitalização da economia, relacionamento com as outras instituições europeias, segurança europeia e estabilidade nos Balcãs.

Os mais críticos, onde me incluo, não se contentam com isso. Ter alguém que nos sintoniza com a memória histórica da União não pode, por si só, justificar o seu protagonismo num momento como o que a Europa atravessa. Se não trouxer capacidade política entre os Estados-membros, influência e prestígio em Moscovo, Washington e Pequim, ou um rasgo analítico sobre o sensível momento da Europa, pouco ou nada nos serve. O conteúdo e sobretudo a forma como Juncker expressou, neste último discurso, o seu pessimismo, a sua falta de chama, a sua incapacidade de ver a grande fotografia da globalização e, ao mesmo tempo, não conseguir transmitir a confiança que se lhe exige sobre as instituições e as decisões comunitárias, mostram-nos como é tão importante aliar uma mensagem realista a um mensageiro inspirador. Esperámos anos a mais para colocar a Polónia e a Hungria no devido canto do ringue, continuamos a "vender" mal a dimensão geopolítica da ambiciosa agenda comercial da Comissão, permanecemos enredados numa argumentação excessivamente funcionalista e deficitariamente política, e trazemos poucas vezes ao debate os anátemas da integração europeia, deixando-nos antecipar pelas apocalípticas mensagens nacionalistas. Por fim, continuamos pouco criativos e activos nas reformas que os partidos políticos precisam para, de baixo para cima, participarem de outra forma nos decisivos debates que a Europa enfrenta. Que a União saiba, em 2019, dar a resposta certa aos dilemas que Juncker nunca foi capaz de deslindar.»

Bernardo Pires de Lima

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Perspectivas da tragédia grega

  por estatuadesal

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 13/09/2018)

abreu

Falou-se bastante nas últimas semanas da dita ‘saída limpa’ da Grécia do programa de resgate e ajustamento estrutural imposto pela troika e da mensagem vídeo elaborada por Mário Centeno por essa ocasião. De forma alinhada com a ortodoxia europeia, como seria de esperar de qualquer presidente do Eurogrupo, Centeno sublinhou o regresso da Grécia ao crescimento económico e à criação de emprego, os seus superávites orçamental e comercial e o facto da economia ter sido reformada e modernizada. O que mostra principalmente que, tal como a beleza, também o sucesso económico está essencialmente nos olhos de quem vê.

Efectivamente, tanto o emprego como o crescimento económico registaram ligeiras retomas na Grécia nos últimos tempos, mas o produto real grego é hoje em dia apenas cerca de 3/4, e o emprego total menos de 90%, do que eram em 2008. A população com idade entre 20 e 30 anos reduziu-se em mais de 25% em dez anos, principalmente devido à emigração. Independentemente do – ou graças ao – superavite orçamental, 20% da população activa continua hoje em dia desempregada. É um nível de devastação económica mais profundo até do que o da Grande Depressão, e a ligeira retoma agora apresentada como sinal de sucesso não é mais do que estabilização, aliás bastante precária, após um enorme retrocesso.

Claro que o sucesso grego dos últimos anos é mais evidente de outras perspectivas. Por exemplo, do ponto de vista dos investidores internacionais que adquiriram a preço de saldo activos públicos privatizados à pressa nos últimos anos, incluindo o Porto do Pireu, 14 aeroportos e a empresa petrolífera nacional.

Ou do ponto de vista das instituições financeiras privadas, principalmente francesas, suíças e alemãs, que detinham a maior parte da dívida pública grega em 2010 e que foram os verdadeiros resgatados pela troika ao evitarem as perdas em que teriam incorrido se a Grécia tivesse enveredado pela alternativa do incumprimento.

Outro ângulo interessante para avaliar a dimensão da tragédia grega é o que foi adoptado por um estudo de 2016 que, a partir da análise das águas residuais na cidade de Atenas, identificou enormes aumentos entre 2010 e 2014 no uso de antidepressivos (11 vezes mais), benzodiazepinas (ansiolíticos, 19 vezes mais) e antipsicóticos (35 vezes mais). Concluem os autores deste estudo, sem grande surpresa, que estes resultados reflectem o aumento da incidência de problemas de saúde mental em resultado da situação socioeconómica. Mostram também, digo eu, que quando falamos da crise na Grécia não estamos a falar de meras estatísticas económicas, mas de verdadeiros dramas pessoais.

Em resumo, o processo foi, e continua a ser, um sucesso do ponto de vista do capital internacional e uma enorme tragédia do ponto de vista da população grega. É tudo uma questão de perspectiva.