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terça-feira, 2 de abril de 2019

Entre as brumas da memória


Dilma Rousseff e as comemorações da ditadura militar

Posted: 01 Apr 2019 12:01 PM PDT

«Não há nada a comemorar neste dia, só rezar pelos mortos»

«Dilma foi presa em 16 de janeiro de 1970 e torturada pelos militares durante 22 dias com palmatória, socos, choques elétricos e "pau de arara". Bolsonaro evocou estes episódios, em abril de 2016, quando da sessão de impeachment de Rousseff, ao anunciar o seu voto: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim."»

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Desde 01.04.1996 sem Mário Viegas

Posted: 01 Apr 2019 08:44 AM PDT

Mário Viegas nasceu em 1948 e morreu, muito novo, em 1 de Abril de 1996.

Fundou companhias de teatro, actuou em vários países, participou em mais de quinze filmes e em duas séries televisivas inesquecíveis: «Palavras Ditas» (1984) e «Palavras Vivas» (1991).

Impossível não recordar a sua leitura do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros:

Ainda actual o Manifesto Anti-Cavaco, lançado por Mário Viegas durante a campanha eleitoral para as legislativas de 1995, em que foi candidato independente na lista da UDP. (Candidatou-se também à Presidência da República.)

E... a nêspera, claro.
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Marketing popularucho

Posted: 01 Apr 2019 05:49 AM PDT

Será que não se percebe que as pessoas não são todas estúpidas e que começam a ficar fartas da política espectáculo? Porquê estragar uma excelente medida com um marketing popularucho?

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Bits, átomos e genes

Posted: 01 Apr 2019 03:09 AM PDT

«O século XX foi profundamente marcado por um conjunto significativo de descobertas e invenções, entre as quais são de destacar o motor de combustão interna, o rádio, o transístor, a energia nuclear, os antibióticos, a imagiologia e a radioterapia, entre tantas outras. É muito provável que o século XXI nos traga pelo menos tantas transformações tecnológicas como as que trouxe o século anterior. Porém, elas terão uma natureza algo diferente. É certo que continuamos a ter um conhecimento incompleto de muitas leis da Física e que importantes avanços poderão vir a ser feitos nesta área. Porém, não é de crer que o aumento do nosso conhecimento sobre as leis básicas da Física venha a ter o mesmo impacto na vida do dia-a-dia que as invenções e descobertas do século XX tiveram, porque muitas das situações onde o nosso conhecimento da Física é incompleto correspondem a condições extremas, longe das que observamos no nosso planeta. Zach Weinersmith resumiu, humoristicamente, o estado da Física no seguinte parágrafo, traduzido livremente:

“Aristóteles percebeu tudo mal mas foi corrigido por Galileu e por Newton. Veio Einstein e estragou tudo outra vez. Hoje, percebemos praticamente tudo, excepto as coisas pequenas, as coisas grandes, as coisas quentes, as coisas frias, as coisas rápidas, as coisas pesadas, as coisas escuras, a turbulência e o conceito de tempo.”

Embora não sejam de esperar descobertas de novas leis fundamentais da Física com impacto tecnológico imediato, assistiremos nas próximas décadas a alterações muito profundas, causadas principalmente pelo desenvolvimento de três grandes áreas do conhecimento: tecnologias de informação e comunicação (bits); materiais e nanotecnologias (átomos); biologia, medicina e biotecnologia (genes).

A invenção do transístor, em 1947, que poderá vir a ser reconhecida como a mais revolucionária de sempre, permitiu criar a sociedade da informação do fim do século XX, e está a potenciar a quarta revolução industrial a que assistimos. Tecnologias como telemóveis, televisões, internet, carros autónomos, inteligência artificial, internet das coisas, cidades inteligentes e cadeias de blocos (blockchain) são todas elas o resultado do nosso cada vez melhor domínio do que é a informação, cuja unidade fundamental é o bit (abreviatura da expressão inglesa “binary digit”). Toda a informação que usamos é, em última análise, representada por bits, processados por computadores, transmitidos por redes e guardados em memórias e discos. A nossa crescente capacidade para obter, processar e usar informação de forma inteligente será, seguramente, um dos motores das transformações tecnológicas que vamos observar nos próximos anos.

Por mais poderosos que sejam os computadores e as redes, que processam e transmitem informação, continuará a ser necessário actuar sobre o mundo físico. Resolver os desafios energéticos, ecológicos, ambientais e económicos dependerá, criticamente, da nossa capacidade para desenvolver novos materiais e nanotecnologias e de os usar de forma criativa, sustentável e produtiva para sustentar uma civilização cada vez mais exigente. Richard Feynman, em 1959, proferiu uma famosa palestra onde a mensagem principal era algo como “lá em baixo, bem no fundo, há montes de espaço livre”. Feynman referia-se às enormes possibilidades que se abrem à tecnologia quando for possível manipular átomos, a nível individual, criando novos materiais com propriedades diferentes e aplicações revolucionárias, que permitirão capturar, armazenar e transformar energia mais eficientemente, controlar a poluição, limitar o aquecimento global e desenvolver novos produtos, de uma forma que até agora era simplesmente impossível.

A terceira vertente de desenvolvimento tecnológico a que assistiremos está relacionada com o conhecimento cada vez mais profundo dos sistemas biológicos, que permitirão avanços profundos na medicina, na biologia e na biotecnologia. Desde 1953 que sabemos que toda a vida no planeta resulta da acção dos genes, estruturas que codificam a informação genética dos seres vivos na espiral de DNA, descoberta por Watson e Crick, com base em dados obtidos por Rosalind Franklin. O conhecimento cada vez melhor dos mecanismos que as células usam para sobreviver, crescer e multiplicar-se permitirá desenvolver novos tratamentos para muitas patologias (entre as quais o cancro e as doenças cardiovasculares e neurodegenerativas), criar novas drogas e conceber novos produtos, aumentando a esperança de vida, que já cresceu 150% nos últimos dois séculos, e melhorando a sua qualidade.

Bits, átomos e genes: apenas o domínio crescente de cada um destes domínios, e das suas interacções, permitirá à ciência do século XXI desenvolver as tecnologias que irão transformar a nossa sociedade, talvez de uma forma tão profunda como as duas primeiras revoluções industriais. Lamentavelmente, o desenvolvimento destas tecnologias exige investimentos significativos nas infra-estruturas e nas instituições que têm a capacidade para criar o mundo do amanhã. Os grandes blocos comerciais, incluindo a China, o Japão e os Estados Unidos, têm feito significativos investimentos nestas áreas. Também a Europa tem planos para o desenvolvimento destas áreas, mas os principais investimentos em laboratórios e instalações experimentais são feitos pelos próprios países, e não pela União Europeia, que gere um orçamento comparativamente pequeno.

A difícil situação económica que Portugal tem atravessado, porém, tem-nos impedido de acompanhar os investimentos que outros países têm feito em ciência e em tecnologia. De acordo com os números da OCDE, o investimento anual no ensino superior e ciência, por cada estudante, ajustado pelo coeficiente da paridade do poder de compra (PPP), é em Portugal apenas 75% do valor da média dos países da OCDE. Para comparação, no ensino secundário, este valor aproxima-se da média da OCDE, sendo superior a 90% desta média. Esta estatística, ajustada pelo PPP, esconde, de facto, uma assimetria muito, muito, maior e muito séria, porque a competição entre países na área da ciência é feroz. Os países mais desenvolvidos da Europa e do mundo investem de facto muito mais na ciência e no ensino superior do que nós, tanto em valor absoluto como em proporção do PIB, porque percebem que o desenvolvimento da tecnologia é o factor decisivo na competitividade futura das nações. O orçamento anual de qualquer uma grandes escolas de engenharia mundiais, como o MIT, o Imperial College, a ETH Zurich ou a TU Munique, é muito superior a todo o orçamento do ensino superior e da ciência, em Portugal.

Devia ser um desígnio nacional manter a competitividade internacional das nossas instituições de ensino, investigação, desenvolvimento e inovação, competitividade que resulta em grande parte dos investimentos em recursos humanos feitos nas últimas décadas por força da visão de José Mariano Gago. Mas, para podermos manter no futuro a competitividade internacional que nos custou tanto a atingir, é necessário investimento, público e privado, tanto nas pessoas que fazem ciência e desenvolvem tecnologia, como nas infra-estruturas que permitem fazê-lo, universidades e institutos. Onde o Orçamento do Estado não chegar, será necessário que exista investimento privado, tanto de empresas como de particulares, para que o país não perca esta corrida pelo domínio dos bits, dos átomos e dos genes.»

Arlindo Oliveira

A “fufa de merda” e as linhas vermelhas da democracia

por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/04/2019)

Daniel Oliveira

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Isabel Moreira partilhou uma mensagem que lhe foi enviada através de uma rede social: “És uma vergonha, fufa de merda, mata-te...” Podia ser uma das centenas de mensagens que figuras públicas recebem. Sobretudo se defenderem minorias. Sobretudo se afrontarem o preconceito. E sobretudo se forem mulheres. Só que esta mensagem não vinha de um cidadão comum. O seu autor é dirigente do CDS de Barcelos. Como todos os cobardes que se escondem atrás de um teclado para assediar os outros, não teve a coragem de assumir a sua autoria. Veio dizer que a mensagem não era sua. Talvez um hacker apostado em tramar Armindo Leite. Quem sabe Rui Pinto.

Como é natural perante um crime de ódio contra uma deputada, Assunção Cristas veio pedir desculpas pela mensagem enviada pelo seu colega de partido, dizendo que repudiava aquilo tipo de discurso. Não chega a ser motivo de aplauso, mas felizmente o CDS não tem na primeira linha um Fernando Negrão disponível para defender o indefensável.

Sei que o repúdio e o pedido de desculpas de Assunção Cristas foram sinceros. Com todas as discordâncias que tenha, considero Cristas uma mulher civilizada. Nem sequer partilho a embirração que sinto haver à esquerda contra ela. Talvez por ter menos tendência para confundir a natural agressividade do confronto político com o carácter das pessoas. Sou assertivo e espero encontrar pessoas assertivas pela frente. Mas, perante a enorme gravidade desta mensagem, um pedido de desculpas não chega.

O gesto deste dirigente do CDS não foi pessoal. Foi dirigido a uma deputada por razões políticas. E o seu conteúdo, para além de corresponder a um crime, tem uma mensagem política explícita que não pode deixar de vincular o partido de que ele é dirigente. Menos do que um processo disciplinar que leve à sua expulsão não resolve o problema.

Não se trata de perseguir Armindo Leite pelas suas abjetas opiniões. Trata-se de traçar uma fronteira entre a atividade política e a criminalidade política. Aquela mensagem não foi apenas uma manifestação de um ponto de vista inaceitável, foi dirigida a uma pessoa concreta que ainda por cima é uma deputada de um partido a que o CDS se opõe.

É evidente que está a crescer no CDS (e também no PSD) uma corrente que se sente animada pelos ventos que vêm de fora e que fizeram parecer aceitável o que antes tínhamos como impensável. A conversa contra o “politicamente correto” libertou bestas que estavam contidas pela censura social. Os textos e declarações da inenarrável Joana Bento Rodrigues são exemplo disso. Mas esses estão no estrito espaço da opinião e representam, por mais que custe a Assunção Cristas e a Adolfo Mesquita Nunes, uma boa parte da base de apoio do CDS. Isto foi outra coisa. Uma coisa que tenderá a aumentar se a liderança do partido não fizer nada.

Não estou a tentar encontrar um Bolsonaro em cada esquina. Eles sempre andaram por aí assim como sempre andaram pelo Brasil. Agora sentem-se mais à vontade e é natural que estejam em maior número no partido mais à direita do espectro democrático português. Apesar de não ter ajudado a sua neutralidade quando foi a segunda volta das eleições brasileiras, Assunção Cristas não é responsável por isso. Mas terá responsabilidade se não for muito firme quando essas bestas começam a alimentar um clima que tornará o debate político no esgoto em que gente perigosa se sente mais à vontade.

Compreendo a tentação de ficar em cima do muro. Se Assunção Cristas fizer alguma coisa será acusada pela linha mais dura do partido de cedência ao “politicamente correto”. Haverá até quem ache que mais vale não irritar esta gente, não vão eles engrossar as fileiras da extrema-direita. Mas se não houver qualquer consequência para este dirigente do CDS, isto passará a ser visto como uma coisa criticável mas dentro do que pode acontecer em política. Será mais uma linha vermelha que se passará.

Um dirigente de um partido que se apresenta como democrático não pode mandar uma deputada matar-se chamando-a de “fufa de merda” sem que nada lhe aconteça. Compreendo que Isabel Moreira não queira fazer o papel de vítima. Mas o assunto não é sobre Isabel Moreira. É sobre a fronteira entre os partidos democráticos e o lixo. Não chega repudiar para traçar essa fronteira. É preciso pôr para lá dela quem não sabe participar no jogo democrático.

A nova Grande Estratégia dos Estados Unidos

por estatuadesal

(Por Thierry Meyssan, rede Voltaire, 26/03/2019)

Muitos pensam que os Estados Unidos estão muito activos mas que não concretizam grande coisa. Por exemplo, que as suas guerras ao Médio-Oriente Alargado são uma sucessão de fracassos. Mas, para Thierry Meyssan eles têm uma estratégia militar, comercial e diplomática coerente. De acordo com os seus próprios objectivos, ela avança pacientemente e é coroada de sucesso.


Os pensadores da Grande estratégia dos EUA : o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld e o seu conselheiro Almirante Arthur Cebrowski ; o Presidente Donald Trump e o seu conselheiro comercial Peter Navarro ; e por fim o Secretário de Estado Mike Pompeo e o seu conselheiro Francis Fannon.

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É habitual nos Estados Unidos crer que o país já não tem qualquer Grande Estratégia desde o fim da Guerra Fria. Uma Grande Estratégia, é uma visão do mundo que se tenta impor e que todas as administrações devem respeitar. Assim, se se perde num teatro de operações, em particular, prossegue-se em outros e acaba por se triunfar. No fim da Segunda Guerra Mundial, Washington escolheu seguir as directivas fixadas pelo Embaixador George Keenan no seu célebre telegrama diplomático. Tratava-se de descrever um pretenso expansionismo soviético para justificar uma contenção da URSS (containment). Efectivamente, muito embora eles tenham perdido as guerras da Coreia e do Vietname, os Estados Unidos acabaram por triunfar.

É muito raro conseguir lembrar uma Grande Estratégia, mesmo se houve outras neste período como com Charles De Gaulle, em França.

No decurso dos dezoito últimos anos, Washington conseguiu progressivamente fixar novos objectivos e novas tácticas para os atingir.

1991-2001 : um período de incerteza

Aquando do desaparecimento da União Soviética, a 25 de Dezembro de 1991, os Estados Unidos de Bush Sr consideraram que não tinham rival. O Presidente vitorioso pelas circunstâncias desmobilizou 1 milhão de soldados e imaginou um mundo de paz e de prosperidade. Ele liberalizou as transferências de capitais para que os capitalistas pudessem enriquecer-se e, acreditava ele, assim enriquecer os seus concidadãos.

No entanto o capitalismo não é um projecto político, mas, sim um meio de ganhar dinheiro. As grandes empresas dos EUA —não o Estado federal— aliaram-se ao Partido Comunista chinês (de onde a famosa «viagem para o Sul» de Deng Xiaoping). Elas deslocalizaram as suas empresas, de fraco valor acrescentado no Ocidente, para a China, onde os trabalhadores não eram instruídos, e onde os salários eram em média 20 vezes menores. Começava o longo processo de desindustrialização do Ocidente.

Para gerir os seus negócios transnacionais, o Grande capital deslocou os seus bens para países de fiscalidade reduzida onde descobriu que podia escapar às suas responsabilidades sociais. Estes países, nos quais o regime fiscal de excepção e a discrição são indispensáveis ao comércio internacional, viram-se subitamente embarcados numa gigantesca optimização fiscal, ou seja numa fraude maciça, da qual beneficiaram pela calada. O reino da Finança sobre a Economia começava.

Estratégia militar

Em 2001, o Secretário da Defesa, e membro permanente do «governo de continuidade» [1], Donald Rumsfeld, criou um Gabinete de Transformação da Força (Office of Force Transformation) que ele confiou ao Almirante Arthur Cebrowski. O personagem, que havia já informatizado as Forças Armadas, modificou então a sua missão.

O mundo sem a União Soviética tornara-se unipolar, quer dizer não mais governado de acordo com o Conselho de Segurança, mas unicamente pelos Estados Unidos. Para manter a sua posição dominante, eles deviam «ceder nos tostões para guardar os milhões», quer dizer dividir a humanidade em duas partes. De um lado, os Estados estáveis (os membros do G8 —Rússia incluída— e seus aliados), do outro o resto do mundo considerado como um simples reservatório de recursos naturais. Washington já não considerava mais o acesso a estes recursos como vital para si mesmo, mas entendia que não deviam ficar acessíveis aos Estados estáveis sem passar por si. Convinha pois, desde logo, destruir preventivamente todas as estruturas estatais neste reservatório de recursos, de tal maneira que ninguém pudesse um dia opor-se à vontade da primeira potência mundial, nem passar sem ela [2].

Esta estratégia foi posta em acção desde aí sem interrupções. Ela começou no Médio-Oriente Alargado (Afeganistão, Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Iémene). Todavia, contrariamente ao que havia sido anunciado pela Secretária de Estado Hillary Clinton (Pivot to Asia), ela não se estendeu para o Extremo-Oriente por causa do desenvolvimento militar chinês, antes para a Bacia das Caraíbas (Venezuela, Nicarágua).

Estratégia diplomática

Em 2012, o Presidente Barack Obama retomou o leitmotiv do Partido Republicano e fez da exploração do petróleo e do gás de xisto por fracturação hidráulica uma prioridade nacional. Em alguns anos, os Estados Unidos multiplicaram os seus investimentos e tornaram-se o primeiro produtor mundial de hidrocarbonetos, alterando os paradigmas das relações internacionais. Em 2018, o antigo director do fornecedor de equipamento petrolífero Sentry international, Mike Pompeo, tornou-se Director da CIA, depois Secretário de Estado. Ele criou um Gabinete de recursos energéticos (Bureau of Energy Resources) que confiou a Francis Fannon. Era o correspondente do que tinha sido o Gabinete de Transformação da Força no Pentágono. Ele pôs em marcha uma política inteiramente virada para a tomada de controlo do mercado mundial dos hidrocarbonetos [3]. Para isso imaginou um novo tipo de alianças como a da região Indo-Pacifíco Livre e Aberta (Free and Open Indo-Pacific). Já não se trata mais de criar blocos militares, como os Quads, mas de organizar estas alianças em trono de objectivos de crescimento económico assente num acesso garantido a fontes de energia.

Este conceito integra-se na estratégia Rumsfeld/Cebrowski : não se trata de apropriar-se dos hidrocarbonetos do resto do mundo (Washington já não precisa deles), antes de determinar quem os poderá obter para se desenvolver e quem deles será privado. É uma ruptura com a doutrina da rarefacção do petróleo, promovida pelos Rockfeller e o Club de Roma desde os anos 1960, depois pelo Grupo de desenvolvimento da política energética nacional (National Energy Policy Development Group) do Vice-presidente Dick Cheney. Agora, os Estados Unidos estimam que não apenas o petróleo não vai desaparecer, como até, apesar do aumento enorme da procura, a humanidade dispõe dele por, pelo menos, um século.

Sob pretextos diversos e variados, Pompeo acaba de bloquear o acesso do Irão ao mercado mundial, depois da Venezuela e, por fim, de manter tropas no Leste da Síria para impedir que lá se explore as jazidas que aí foram descobertas [4]. Simultaneamente, ele exerce pressões sobre a União Europeia para que ela renuncie ao gasoduto russo Nord Steam 2 e sobre a Turquia para que ela renuncie ao Turkish Stream.

Estratégia comercial

Em 2017, o Presidente Donald Trump tenta repatriar uma parte dos empregos dos Estados Unidos deslocalizados na Ásia e na União Europeia. Apoiando-se nos conselhos do economista de esquerda Peter Navarro [5], pôs fim à Parceria Trans-Pacífico e renegociou o Acordo de livre-comércio da América do Norte. Simultaneamente, instaurou direitos alfandegários elevadíssimos sobre os automóveis alemães e a maior parte dos produtos chineses. Ele completou o conjunto com uma reforma fiscal encorajando o repatriamento dos capitais. Esta política permitiu já melhorar a balança comercial e relançar o emprego.

O dispositivo está agora completo no plano militar, económico e diplomático. Cada parte está articulada uma com a outra. Cada um sabe o que deve fazer.

A força principal desta nova Grande Estratégia é que ela não foi compreendida pelas elites do resto do mundo. Washington dispõe, pois, do efeito de surpresa, reforçado pela comunicação deliberadamente caótica de Donald Trump. Se observamos os factos, e não os tweets presidenciais, constata-se o avanço dos Estados Unidos após o duplo período de incerteza dos Presidentes Clinton et Obama.

NOTAS:

[1] O Governo de continuidade é uma instância norte-americana criada pelo Presidente Eisenhower durante a Guerra Fria e sempre vigente. Ela tem por finalidade assegurar a continuidade do Estado em caso de ausência do Executivo, quer dizer de morte do presidente, do vice-presidente e dos presidentes das assembleias durante uma guerra nuclear. A sua composição exacta é em princípio secreta muito embora disponha de meios muito importantes.

[2] Esta estratégia foi popularizada pelo assistente de Cebrowski, Thomas Barnett. The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

[3] “Mike Pompeo Address at CERAWeek”, by Mike Pompeo, Voltaire Network, 12 March 2019.

[4] Ontem à noite, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu um aviso contra qualquer forma de comércio de petróleo com o Irão ou com a Síria: “Sanctions Risks Related to Petroleum Shipments involving Iran and Syria”, Voltaire Network, 25 March 2019.

[5] Death by China, Peter Navarro, Pearson, 2011. Crouching Tiger: What China’s Militarism Means for the World, Prometheus Books, 2015.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Francisco Seixas da Costa é um javardo

Novo artigo em Aventar


por Ricardo Ferreira Pinto


Francisco Seixas da Costa até nem parecia ser um mau embaixador. Mas é - sejamos claros! - um javardo. Deixemo-nos de eufemismos. E os políticos que se revêem no seu estilo são isso mesmo - uns javardos.
Para além de javardo, é cobarde. Atira a pedra e esconde a mão. Não gostou que lhe respondessem à letra no Twitter, vai daí fez-se de calimero (como se os primeiros insultos não tivessem partido dele) e a seguir bloqueou a sua conta.
Para além de javardo, não sabe escrever. Revêem-se escreve-se com dois e. Com um e, fica revêm-se - se não sabe o que significa, pergunte ao seu colega Jorge Ritto.
Quando penso em Francisco Seixas da Costa, penso num dos coveiros da Linha do Tua. A mando de Sócrates e de Mexia, prestou junto do ICOMOS um trabalho essencial para a construção da barragem e para a destruição de uma das mais belas linhas férreas do mundo. Espero que tenha sido recompensado em conformidade.
Entretanto, muito atento ao fenómeno futebolístico, ficamos a saber por si que os adeptos do FC Porto são javardos e que todos os sportinguistas apoiantes de Bruno de Carvalho também o são. De fora da sanha javarda de Francisco Seixas da Costa fica Luís Filipe Vieira. Pelos vistos, o discurso por ele proferido na Assembleia Geral do Benfica há pouco tempo - «Não comprámos o filho da puta de um resultado», «Jorge Mendes não tem um caralho de um jogador, caralho» ou «Isso é merda» - não é suficiente para ser apelidado de javardo. Pois é, senhor embaixador, o respeitinho é muito bonito.

Entre as brumas da memória


Ladrar contra o Brexit

Posted: 31 Mar 2019 12:45 PM PDT

Estão à deriva, mas não perderam a ironia.

«Todas as formas legais de lutar contra o Brexit são bem-vindas, alegam os defensores da manutenção do Reino Unido na União Europeia. Por isso, lembraram-se de mais esta: cães com consciência política. Porque, alega o movimento Wooferendum, os animais de estimação não foram ouvidos no processo. A ideia está carregada de ironia, claro, até porque o que pretendem é sensibilizar a opinião pública. O resultado superou as expectativas.»

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É isto que Bolsonaro quer «festejar»

Posted: 31 Mar 2019 11:43 AM PDT

### O maior acervo online sobre a história da ditadura no Brasil.

### Paulo Coelho: fui torturado pela ditadura do Brasil. É isso que Jair Bolsonaro que celebrar?

E, no entanto:

Tribunal suspende medida cautelar: golpe que instituiu ditadura pode ser celebrado.

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Sem comentários

Posted: 31 Mar 2019 07:30 AM PDT

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A Zippy, o Brunei e os sagrados corações

Posted: 31 Mar 2019 02:27 AM PDT

«No mesmo mundo em que nesta semana o Brunei muda a lei para começar a lapidar até à morte homossexuais e adúlteras, no Facebook português assistimos a uma flash mob na página da marca de roupa Zippy por causa do lançamento de uma linha ungendered, ou seja, "sem género", para crianças, com acusações de "agenda LGBTI", "erotização das crianças", "ativismo radical", "tentativa de mudar a biologia" (juro) e desmaios perante a hipótese de "pôr meninos a usar saias" (não sendo o caso da coleção, estranha-se que gente que se arroga "da família" não tenha em casa fotografias de antepassados; basta recuar umas décadas para constatar que neste mesmo hemisfério e país - obviamente noutros, e sem ser preciso lembrar os padres, há homens que usam saia diariamente - meninas e meninos usavam vestidos e não consta que tenha havido drama por isso).

A coincidência destes dois acontecimentos é tanto mais interessante quando a mob que ataca a marca de roupa o faz na perspetiva da vitimização, alegando que a existência daquela coleção é um sinal de uma "ofensiva" - a terrível ofensiva daquilo a que chamam "ideologia de género" e que, já se sabe, "quer destruir a família". Não é demais sublinhar que num mundo em que a verdadeira ideologia de género - aquela que visa impor rígidos papéis de género a raparigas e rapazes e uma única orientação sexual, a hetero - literal e ostensivamente mata, existem almas a, sem pudor, atribuir a quem combate essa ditadura intuitos persecutórios e exterminadores.

Há mesmo alguém, entre aquelas dezenas de comentários furibundos, que escreve: "Não nos vão impedir de pensar como Deus."

Esta extraordinária frase, que mereceria por si só uma monografia, tem tanto de potencial cómico como mortífero. Se o comum é que quem crê na existência de uma divindade lhe atribua, para além de omnisciência, uma autoridade indisputada e total sobre tudo, aqui vemo-nos perante a arrogância de se dizer que não só se conhece o pensamento da divindade como que se é seu legítimo intérprete - e portanto agente, ou mão de deus. Tal qual os governantes do Brunei ao decretarem a morte - e a morte pela multidão, pública, lenta e o mais dolorosa possível - a todos os que infrinjam aquilo que ditam ser contrário ao "pensamento de Deus".

É portanto esse "pensamento divino" que determina quais as "condutas sexuais corretas", logo "naturais". E é por serem errados e portanto antinaturais, e terem de sofrer por isso, mas também por constituírem uma espécie de potencial contaminante dos "corretos" que os homossexuais e as adúlteras têm de ser apedrejados até morrer; porque a forma horrível e espetacular como serão exterminados, simbolizando a repugnância castigadora da divindade, deve ser um exemplo para todos. Claro que, perante este raciocínio, ocorre perguntar: se há os "naturais" e os "não naturais", de onde vêm, senão da "natureza", os segundos, e porque é que é preciso fazer deles exemplo? Será que quem o faz acredita que se não assustar os "naturais" eles se convertem ao "não natural"?

Deste lado do mundo, a perspetiva que anima a pequena multidão de arremessadores de pedras à marca de roupa é igualmente paradoxal: não basta que, num mercado com múltipla oferta, não comprem para os seus filhos, sobrinhos e netos; a linha de roupa tem de ser exterminada porque é um exemplo perverso, um contaminante, um vírus, um perigo à solta. Não se pode deixar aquela roupa existir e é mesmo preciso exigir à marca abjuração, de baraço ao pescoço: "Um pedido de desculpas e defenderem publicamente a família matriz judaico-cristã no mínimo", reclama uma das comentadoras.

O paradoxo é totalmente exposto neste outro comentário: "As crianças nascem rapazes e raparigas, e não vai ser uma moda estapafúrdia que vai mudar a biologia, a ciência e a evolução antropológica do ser humano." De facto, do ponto de vista de quem considera que tudo é regido por um ente superior e que existe uma separação intransponível, biológica e divinamente determinada entre raparigas e rapazes, não faz o menor sentido achar que "uma moda estapafúrdia" mude alguma coisa. Que raio de deus ou natureza se deixaria derrotar por calções e T-shirts coloridos ou um logo com um arco-íris? Que deus ou natureza precisa de um índex de roupa, de lapidações e de terror, de toda uma máquina repressiva e excludente ou seja, de cultura -, para se impor?

Nem de propósito, nesta mesma semana um colégio católico, o do Sagrado Coração de Maria, anunciou no Facebook um ciclo de debates para alunos do secundário com quatro perguntas. Todas merecem análise, mas o espaço e o tema implicam relevar esta: "Será que nascemos geneticamente gays ou é algo que resulta de uma conjuntura externa?"

Devido à polémica, o post foi retirado; o colégio veio depois explicar que as perguntas tinham sido formuladas de "forma extremada" com base em "problemáticas de atualidade". Ora os únicos círculos em que a origem da homossexualidade é uma "problemática", e "de atualidade", são aqueles nos quais, precisamente, a homossexualidade é problemática e portanto há quem se preocupe em perceber de onde vem e porquê - e como, claro, pode ser "debelada" ou "curada". Sem se dar conta de que fazer esta pergunta expõe a verdadeira dúvida: "Será que nascemos geneticamente heterossexuais ou é algo que resulta de uma conjuntura externa?" Porque é isso que realmente esquenta estas cabeças, ou jamais se preocupariam com linhas de roupa ou ações de educação para a igualdade protagonizadas por jovens LGBTI nas escolas. O seu terror é que se deixarem as crianças em paz - se lhes derem liberdade e as deixarem pensar pelas suas cabeças - elas sejam o que quiserem. É o que se chama, creio, uma crise de fé.»

Fernanda Câncio