quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Obama, Trump, Bibi e o “suicídio de Israel”

 

(Jorge Almeida Fernandes, in Público, 01/01/2017)
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No dia 23, o Conselho de Segurança aprovou uma resolução condenando a política de colonização de Israel, que torna impossível a solução “dois Estados”, ou seja, a criação de um Estado palestiniano. Foi o último acto de Barack Obama na política internacional, um marco na política americana e, ao mesmo tempo, revelador das tensões entre a Casa Branca e o Presidente eleito, Donald Trump, nesta agitada fase de transição. O secretário de Estado, John Kerry, diz que Washington quer salvar Israel de si mesmo e travar a sua corrida para um suicídio a prazo.
Os Estados Unidos não vetaram a resolução, abstiveram-se, fazendo-a aprovar por 14 votos contra zero. Foi uma opção inédita, a menos de um mês do fim do mandato de Obama, e com efeitos que não são apenas simbólicos. Provocou uma frenética reacção do primeiro-ministro israelita, Bibi Netanyahu, mas este suspendeu logo a seguir uma expansão dos colonatos em Jerusalém Oriental.
Olhemos os antecedentes imediatos. Foi o Egipto que tomou a iniciativa. Perante a ameaça, Netanyahu pediu ajuda a Trump. Este telefonou ao Presidente egípcio, marechal Sissi, pedindo-lhe que retirasse o texto. Sissi, que depende da ajuda americana, cedeu, para que a iniciativa fosse retomada por outros quatro países, encabeçados pela Nova Zelândia. Os altos-funcionários da Casa Branca ficaram estupefactos, com Bibi e, sobretudo, com Trump.
Até agora, o Presidente eleito dedicou-se a reescrever a política externa americana a “golpes de tweet”. Não é esta a tradição americana, embora haja um precedente, o de Richard Nixon em 1968. Mas Trump foi mais longe: tentou anular uma decisão do Presidente em exercício. E reincidiu, dias depois, numa outra mensagem: “Aguenta-te, Israel, 20 de Janeiro está perto.”
Trump também abriu a porta para Vladimir Putin humilhar Obama. Moscovo tinha anunciado a expulsão de diplomatas americanos em resposta à expulsão de espiões russos, retaliação pela intromissão de Moscovo nas eleições americanas, o que indignou Trump. Putin anunciou na sexta-feira que não haveria expulsões, ficando à espera de Trump. Quis dizer: Obama já não conta.
As transições envolvem sempre um risco — vazio de poder, motivo de inacção, ou duplo poder, fonte de conflito. Prevêem-se cenas edificantes até 20 de Janeiro, data em que Trump terá a legitimidade presidencial e começará a espectacular demolição das políticas de Obama e anteriores administrações. Mas não poderá alterar a resolução do Conselho de Segurança, que ficará como um marco na política internacional e americana.
Porquê a decisão de Obama em fim de mandato? Ele enunciou a sua política sobre o conflito israelo-palestiniano em dois discursos de 2011. Mas não lançou nenhuma iniciativa diplomática espectacular. As dos seus antecessores traduziram-se em fracassos. Fez pressões durante oito anos. Mas este nunca foi um dossier prioritário.
Obama terá pretendido deixar um legado: a comunidade internacional, através do Conselho de Segurança, condena os colonatos, o que terá consequências políticas. Será um legado tardio. Não o fez um ano antes para não prejudicar a campanha de Hillary Clinton — que de resto discordaria da resolução e da abstenção americana.
De qualquer forma, a decisão de Obama corresponde à política tradicional dos dois grandes partidos americanos desde 1993. E entravará a política israelita de Trump na medida em que deu uma caução internacional à solução “dois Estados”.

Bennett e Bibi

Naftali Bennett, ministro da Educação e líder carismático da extrema-direita israelita, vê na eleição de Trump a grande oportunidade para anexar a Cisjordânia nos próximos quatro anos. “A era do Estado palestiniano acabou.”
A vitória de Trump é uma boa notícia para Netanyahu, mas uma notícia perigosa. Porquê? Porque diminui o seu controlo sobre os extremistas. Bibi sempre foi um nacionalista, mas como político é um táctico oportunista, mestre no jogo duplo com moderados e radicais. Nunca teve uma estratégia sobre o futuro de Israel. A sua arte é sobreviver. Em 2009, após a eleição de Obama, fez uma prudente viragem ao centro e até um discurso em que defendeu “a paz através da solução dois Estados”. No segundo mandato de Obama, optou por uma aliança de extrema-direita.
Quando tem de navegar entre as preferências dos seus aliados internacionais e israelitas, Netanyahu utiliza a pressão americana para travar os sionistas messiânicos. A Casa Branca serve-lhe de escudo contra a crescente pressão dos colonos e extremistas. Se estes têm a percepção de que podem contar com a “luz verde” de Trump, vão aumentar a pressão e romper a crítica margem de manobra de Bibi.
Por outro lado, Trump será um aliado imprevisível. “[Netanyahu] deve lembrar-se de que no mundo de Trump só há Trump”, escreve Nahum Barnea, o mais destacado editorialista israelita. Se nomeou embaixador David Friedman, defensor dos colonos e adepto de transferir a embaixada americana para Jerusalém, Trump pode amanhã, pelos seus próprios interesses políticos, fazer exigências desagradáveis a Israel.

O sionismo messiânico

O tempo joga aparentemente a favor de Israel e da política dos “factos consumados”. Há mais de 600 mil colonos em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia, muitos deles “nativos”, já lá nascidos. Mas, a prazo, joga contra Israel. Primeiro por razões demográficas: em 2020, a população árabe de Israel e da Cisjordânia poderá ultrapassar a judaica.
Que fazer nesse caso? “Se não houver dois Estados, haverá um; e, se só houver um, ele será árabe”, explicou o romancista Amos Oz. “A alternativa é entre uma ditadura de judeus fundamentalistas ou um único país em mãos árabes que mataria o sonho sionista.” A colonização inviabiliza dia a dia a solução “dois Estados”, na medida em que deixará aos palestinianos um território residual, um gueto, ou um Estado binacional que reservaria aos judeus os direitos políticos, apenas reconhecendo aos árabes direitos individuais.
Outro fenómeno é “a morte do Velho Israel” do sionismo secular. “Israel — pelo menos na sua visão secular e progressista que outrora seduziu a imaginação do mundo — acabou”, escreve Aluf Benn, director do diário Haaretz.
O sionismo secular está a ser desafiado por um sionismo messiânico que põe em causa a natureza da Israel. O sionismo foi um movimento nacional laico e democrático. Os messiânicos querem “o renascimento do reino histórico de Israel”. Declara Bennett que “o sionismo laico esgotou o seu papel histórico” e que ele está pronto para receber o testemunho. “Aproxima-se o dia em que seremos nós a dirigir o país.” Não são a maioria. São os mais enérgicos.
É nisto que John Kerry estaria a pensar no seu discurso. Mas não está nas mãos do americanos salvar Israel de si mesmo. Só os israelitas o poderão fazer.
 
Ovar, 4 de janeiro de 2017
Álvaro Teixeira