Divagar e Conversar

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quinta-feira, 21 de julho de 2016

CONSIDERAÇÕES PÓS "BREXIT"


“Não temos que nos fiar de outras potências senão de nós próprios”. 
D. João V 

Palavras sábias, as do nosso Rei Magnânimo, mas que pouco colhem no Portugal contemporâneo…  É o que resulta da nossa sina de sermos relapsos a aprender com a História e a vida.  E também com a geopolítica, ou seja com a influência que a geografia e o “carácter” dos povos têm na determinação das coisas, quer dizer na Política.  A Grã-Bretanha, por vontade expressa nas urnas do seu universo de votantes – que não consta serem propriamente dos menos preparados civicamente – deu o primeiro passo (vinculativo) para a saída de um projeto “comum” europeu, que não se sabe muito bem o que representa, num processo sobre o qual ninguém pôs em causa a sua democraticidade.  
Porém, logo uma multidão (de democratas) veio contestar os resultados…  De imediato, cenários catastróficos se desenharam para o Reino Unido e para o resto do mundo.   Como diria o Mark Twain “a minha morte tem sido grandemente exagerada”…  O Reino Unido, mesmo aparentemente desunido, pode bem com isso.   Alguém acredita que a maior praça financeira da Europa que rivaliza com a “Wall Street” – e apesar de não estar no euro, o Banco de Inglaterra é dono de cerca de 20% do capital do Banco Central Europeu -; a quarta ou quinta potência económica mundial; a maior potência (apesar de muito enfraquecida) militar da Europa; o braço direito dos EUA no planeta; o berço da língua mais falada no mundo (o mandarim não entra nestas contas pois só é falado por chineses e não são todos); a cabeça de uma estrutura tentacular que cobre ¾ do planeta chamada Commonwealth, e terra de uma das culturas políticas, científicas, académicas e artísticas do globo, vai soçobrar por decidir abandonar uma babel política azeda e com mau cheiro, que a geopolítica está, de novo, a fazer cativa da Alemanha?  Alguém acredita, por outro lado, que os restantes países europeus irão sacrificar as suas relações com a Grã-bretanha para obedecer a eventuais sanções rugidas por Bruxelas?  O próprio presidente Obama foi, num gesto que há uns anos seria considerado grotesco e inadmissível (por isso impensável), a Inglaterra fazer campanha pela permanência, não pelos interesses britânicos mas porque – e creio não estar enganado – por necessitar de apoio da UE nas sanções contra a Rússia (um conflito que foi criado e exacerbado pela Casa Branca, não pelo Kremlin, é bom que se diga) e, sobretudo, pelo receio sobre a assinatura do “Transantlantic Trade and Investment Partnership” (TTIP), que anda a ser negociado por baixo da mesa e que irá colocar os países da UE debaixo da pata das multinacionais e da finança americana. 




 A nível da Defesa também nada sairá afetado. A defesa da Europa como tal, a existir, será feita pela NATO, não pela UE, cuja estrutura defensiva é ridícula. Ora os principais elementos da NATO são os EUA, o Canadá e …. a Grã-Bretanha.  Aliás basta ter em conta que a maior base de submarinos nucleares ingleses se encontra na Escócia, para limitar seriamente, quiçá mesmo impedir, qualquer veleidade de independência escocesa…  É certo que a inclusão da Escócia no Reino Unido apenas se deu no princípio do século XVIII, mas estamos em crer que o processo está suficientemente consolidado para ser posto em causa por mais “Sean Conneries” que apareçam.1  Mesmo tendo em conta o estranho hábito, desde então de, na ordem de batalha do “British Army”, os regimentos escoceses aparecerem quase sempre na 1ª linha. É certo que em termos militares isso pode ser considerado uma honra, porém, também eram os mais expostos e, os primeiros a morrerem…  Ninguém disse, todavia, que os ingleses são flor que se cheire e, nós portugueses, conhecêmo-los de ginjeira!  Sem embargo a Espanha e a França (pelo menos) vieram dizer que não admitem conversações diretas entre o governo “regional” da Escócia e Bruxelas. Pudera, a Europa está cheia de Escócias potenciais, a começar na Catalunha…  Em tempos um inefável Presidente da Região Autónoma da Madeira, também mandou o barro à parede da irresponsabilidade, de querer discutir diretamente os apoios comunitários à região, com a burocracia bruxelense…  O País de Gales não parece entrar nesta equação e a Irlanda do Norte pertence a outro campeonato. É possível que os ingleses saiam de lá, quando decidirem sair de Gibraltar…  E já agora, lembrei-me de chamar à colação o princípio da auto-determinação dos povos muito em voga depois da Segunda Guerra Mundial, embora esgrimido conforme as conveniências, não para o pôr em causa, mas para afirmar que corre paredes meias com o direito dos restantes membros de uma unidade política, em não quererem que tal auto determinação ocorra.   Evidência que ainda não tive ocasião de ver escrita ou dita na televisão…  Abro ainda um parêntesis para referir um incrível argumento dos defensores do “não” à saída da legítima (e direi, avisada) decisão tomada: a de que, a maioria dos votantes no “Brexit” são velhos, ao contrário dos novos que votaram pela permanência, pois os jovens é que são o futuro e estão assim a ser prejudicados.  Nunca vi argumento mais escabroso e idiota! Então uma comunidade não tem que ser vista no seu todo? O futuro não é a continuação do passado? Vamos graduar o peso do voto segundo a faixa etária? Quem construiu um país, foram os antepassados ou aqueles que o herdaram e, supostamente o vão continuar? Porque é que não se dá direito de voto aos jovens desde o início da puberdade? Quando se votar numa ida para a guerra, por exemplo, só os que votarem a favor é que vão lutar?

A Grã - Bretanha formou-se, em 1707, pelo Ato de União, que juntou a Inglaterra à Escócia; Mais tarde, outro ato semelhante, em 1800, agregou a Irlanda. Quando esta se tornou a República da Irlanda, em 1922, a Irlanda do Norte permaneceu sob a jurisdição do Reino Unido, razão pela qual, desde 1927, se passou a chamar Reino Unido da Grã – Bretanha e Irlanda do Norte. A Rainha Ana (1665 – 1714) foi a primeira rainha da GB. O País de Gales, conquistado em 1282, foi incorporado definitivamente, na Inglaterra, em 1535.

Eis o cúmulo de outro erro generalizado do nosso tempo e do politicamente correto, a de que todas as opiniões são respeitáveis!  Por isso a Grã-Bretanha, ou até a Inglaterra, se quiserem, pode bem com a bravata que por aí vai e que tenderá a diluir-se rapidamente.   Para os poderes instalados em Bruxelas - uma ilha num país artificial chamado Bélgica - e por isso não podia ter sido melhor escolhido para capital de um artificialismo maior – é que a coisa pode ter consequências sérias. A tendência é para se partir tudo e a estratégia a seguir nem vai ser a dos pequenos passos – não há tempo para isso – mas sim a da fuga em frente. O que, por sua vez, irá despertar cada vez mais oposição da generalidade dos povos e dos estados - nações. Os “burocratas” de Bruxelas e seus tentáculos nos diferentes países não vão conseguir suster os conflitos que irão surgir por todo o lado: terrorismo, emigração descontrolada, tensões raciais, separatismos, descontrolo económico e ditadura/escravatura financeira.   A única coisa que pode melhorar é o combate à emigração pois os problemas estão mesmo a sair fora de controlo e apesar da feroz censura, imposta ao conhecimento do que verdadeiramente se passa, a catástrofe onde estamos metidos já não pode ser iludida. 
Deste modo há sinais de forte contestação, na Hungria, na Dinamarca, na Áustria, na Noruega, na Polónia, na França, na Holanda e em França. A Itália e Finlândia estão com problemas económicos e financeiros gravíssimos e a Espanha está a desagregar-se. Até na Alemanha passou a existir um movimento que pretende a separação da Baviera e a Suíça e a Islândia, deixaram de querer ouvir falar na UE.
Vai ser difícil manter as fronteiras como estão…    
O conflito criado com a Rússia tenderá a passar apenas para o âmbito da NATO; a defesa do Cristianismo irá ser feita pela Igreja Ortodoxa, pois Roma está em processo de rendição acelerada; a guerra surda com a China, vai centrar-se no Extremo Oriente com os EUA, o Japão e a Coreia, com os russos e os iranianos a meterem “farpas” e “cunhas” e o “recife” indonésio/australiano a ver se fica de fora.
  
O Médio Oriente é uma pólvora de barril, perdão, um barril de pólvora, para todo o mundo e não há cordão sanitário que o arrefeça.  Havia um tipo chamado Afonso de Albuquerque, que sabia lidar com eles todos, mas jaz frio e arrefece há 500 anos, “ de mal com os homens por amor d’El Rei e mal com El Rei por amor aos homens”. Esta última frase do emérito cavaleiro de Santiago é tão verdadeira, que o Estado e a esmagadora maioria da Nação Portuguesa se “esqueceram” dele, quando o ano passado devia ter evocado o seu exemplo, nos cinco séculos do seu passamento!  A América Central e Sul não há maneira de estabilizar e ganhar alguma maioridade, dominada que está pelo capital do Norte do Continente e mergulhada no descalabro imoral da corrupção e dos negócios ilícitos (a que a droga não é o menor) e minada por afloramentos de pensamento e guerrilha marxista, serôdia, que a atravessa transversalmente.  No meio disto tudo, o quintal à beira mar plantado entretém-se com futebol e novelas de moralidade duvidosa, deslizou para o chico-espertismo dos negócios “sem regras” (vulgo corrupção), anestesiando (comprando) o comum do cidadão com distribuição a esmo de cartões de plástico; créditos mal parados; empréstimos para endividamento galopante e escravo – fazendo-se crer que o mundo é cor  de rosa, desde que aderimos à CEE!  A generalidade da população entrou no jogo, pois cada vez tem acesso a menos conhecimento (e julga o contrário); gosta que lhes mintam e até vota em tipos que sabem que não prestam, mas fazem obra…  Está na natureza das coisas e dos homens e não é fácil ser prior numa freguesia destas.  Só “a dor cura”, parece a única forma que ainda resulta: uma fatalidade que nos persegue…
Portugal não tem estratégia, como país, desde 1976 (não consideramos o interregno de 1974/6).  
O Estado Português desistiu de si e deixou-se ir… 
Como se não bastasse ainda aparecem umas resmas de adiantados mentais que em vez de se entreterem a brincar com a "pilinha", ainda tentam inventar problemas onde nunca houve.  
Entrar para a CEE na altura em que entrámos, não sendo a única opção foi, possivelmente, uma opção inevitável. Mas a maneira como nos comportámos depois de entrar, não teve nada de inevitável, foi apenas incompetente e anti nacional.   Hoje estamos de mãos e pés atados, não temos opções estratégicas pelo simples facto de termos dissipado todo o nosso Poder Nacional e de, mais grave ainda, estarmos cativos de uma dívida impagável.  Por isso nós não agimos, só reagimos, tarde e mal. 
O país tem de sair do euro e da UE, caso ela se encaminhe para o federalismo – pois isso representaria o nosso desaparecimento – mas não o podemos fazer já, temos que ser inteligentes e patriotas (e não apenas quando joga a seleção de futebol) e preparar a nossa saída.   
Para isso é mister criar “capacidades” e ter uma política nacional portuguesa e várias estratégias que se lhe adaptem.   Pedir um referendo agora, é idiota por precipitado: a lavagem ao cérebro da população portuguesa foi muito grande, se agora houvesse um referendo o sim ganhava. Não se pode correr esse risco.  As coisas vão ter que, infelizmente vir de fora para dentro, como quando se deu a revolta da Catalunha, em 1640.   Temos é que estar preparados para aproveitar as oportunidades.   Por tudo isto o “Brexit foi para nós um bálsamo. A nossa relação com a Grã-Bretanha não está em causa (e não devemos embarcar em parvoíces que Bruxelas intente); devemos até ajudá-la (à GB) a reconstruir a EFTA.   
Precisamos da Velha Albion para podermos ter algum sucesso na defesa da nossa ZEE e sobretudo na aprovação da extensão da Plataforma Continental (que, ou me engano muito, ou está a patinar) e nada devemos recear relativamente aos nossos emigrantes no Reino Unido, eles não são mal vistos e não causam problemas. Além disso temos a moeda de troca dos 50.000 que vivem no Algarve (o que já é um exagero!).  
A mais antiga aliança política e militar existente no mundo, fundada e mantida pela sageza dos nossos antepassados, está em vigor e ainda poderá servir para muita coisa.
Ao contrário das mui mal avisadas visões e decisões contemporâneas que, em todo o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, nem uma única vez, se lhe referem.  Haja Deus!  


20 de Julho de 2016 
José João Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador