Paulo Alexandre Amaral - RTP27 Jul, 2018, 11:42 / atualizado em 27 Jul, 2018, 14:01 | Mundo
| Yves Herman, Reuters
O primeiro-ministro húngaro veio esta sexta-feira abrir fogo sobre a Comissão Europeia, não escondendo os seus desejos para o executivo europeu que entrar em funções em maio do próximo ano. Viktor Orban propugna uma nova liderança em Bruxelas que vire a agulha das políticas migratórias e imponha uma abordagem a esta problemática mais dura e restritiva.
Numa entrevista à rádio pública húngara, o primeiro-ministro Orban reiterou a ideia do seu executivo de que a Europa tem neste momento leis demasiado brandas para lidar com os fluxos migratórios do Norte de África.
Para o chefe do governo húngaro de extrema-direita, Bruxelas tem apontado de forma errada aos países que reforçaram a segurança nas suas fronteiras, quando a necessidade da Europa é evitar a entrada de milhões de imigrantes: “Nós precisamos de uma nova Comissão, com uma nova abordagem” a esta questão, declarou Viktor Orban durante uma entrevista à rádio pública da Hungria.
“Precisamos de uma Comissão que depois das eleições europeias não puna os países que protegeram as suas fronteiras, como fez a Hungria”, afirmou o primeiro-ministro.
A Comissão Europeia acusou o executivo húngaro de não cumprir com as normas europeias no que respeita aos pedidos de asilo. Numa nota cheia de ironia, Orban desprezou o facto, comparando o derradeiro ano de mandato desta Comissão ao movimento das pernas de uma rã quando já está morta.
“[As decisões da actual comissão] são como os últimos movimentos das pernas das rãs nas experiências que fazíamos na escola. Já não tem qualquer significado”, sublinhou.
O governante húngaro espera que o novo executivo comunitário apresente uma nova abordagem à questão, um quadro em que sejam punidos os Estados-membros que, em violação das leis existentes, abrem as portas da Europa a milhões de imigrantes.
Castigar ajuda a imigrantes
A Hungria, governada por um executivo de extrema-direita, tem apertado o cerco aos imigrantes que se aproximam das usas fronteiras. Numa primeira fase, procurou assustar os refugiados que procuram passar pelo país, depois virou o seu foco para quem ajudar esses migrantes.
O parlamento aprovou uma lei que criminaliza as ONG que ajudam os refugiados. O partido nacionalista de Orban, que conta com uma maioria de dois-terços, viabilizou essa lei que pode levar à prisão àqueles ajudem os clandestinos a entrar na Hungria. O mesmo regime aplica-se àqueles que lhes prestem apoio jurídico ou providenciem comida e abrigo.

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A medida aprovada de forma esmagadora - 160 votos a favor e apenas 18 contra - põe em causa a ação tanto de cidadãos como das organizações não governamentais de cariz humanitário. No mesmo dia passou no parlamento húngaro uma emenda à Constituição que define que nenhuma população estrangeira pode instalar-se na Hungria.
É uma ideologia que se vem enraizando na mentalidade húngara desde há alguns anos. László Toroczkai, jovem autarca líder da extrema-direita húngara, encarnava já na altura o espírito do país face à crise de refugiados.
Eleito autarca da pequena localidade de Asotthalam pelo Sixty-Four Counties Youth Movement, Toroczkai tinha atrás de si um currículo digno de nota: banido da Sérvia por um ano devido a cenas de pancadaria em 2004; dois anos depois, em 2006, foi banido da Eslováquia por cinco anos por causa de uma série de manifestações.
Em 2015, em plena crise dos refugiados, László Toroczkai mereceu a atenção internacional ao colocar no Youtube um vídeo de desencorajamento à entrada de refugiados na Hungria. A narrativa tratava os refugiados como animais a serem caçados por unidades especiais e brigadas de vigilantes.
Na mesma altura, Budapeste viu-se envolvida numa crise com a Alemanha por causa do fornecimento do arame farpado usado pelas autoridades húngaras para reforçar o controlo das suas fronteiras.
O arame farpado usado no muro de separação da Sérvia, Croácia e Roménia fora adquirido a empresas alemãs que, sabendo da finalidade para que estava a ser adquirido, chegou a recusar o seu fornecimento.
“O arame farpado está desenhado para impedir actos criminosos […] e crianças e adultos em fuga não são criminosos”, alegaram os fabricantes alemães, avisando que aquele arame podia causar lacerações e, consequentemente, alto risco de infecção, razão por que se destinava primordialmente a prisões e instalações militares.
Nesse mesmo ano de 2015, a Hungria tornou-se tristemente famosa pelas imagens de funcionários do governo a alimentarem refugiados atirando-lhes os alimentos como se estivesses a alimentar animais enjaulados ou a gravação que mostrou uma repórter de imagem húngara também conotada com a extrema-direita a pontapear refugiados enquanto captava imagens para o N1TV, canal de televisão com ligações ao partido Jobbik da extrema-direita austríaca.
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