Opinião
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É fácil fazer o elogio de pessoas incomuns quando morrem. Difícil é olhar para o legado das suas vidas e dar-lhe sentido e continuidade. Depois de 81 anos repletos de histórias e incidentes, e de 60 de serviço militar e serviço público, John McCain deixou ainda aos norte-americanos uma carta em que recorda as causas que o mobilizaram. Com uma expressão inabalável de confiança na capacidade construtiva do país pelo qual se bateu.
Há um contexto muito particular nestes "tempos complicados" em que o senador do Arizona escreve e se refere aos muros e ao risco de deixar que as diferenças se sobreponham aos ideais da liberdade e do respeito pela dignidade de todas as pessoas. Não admira o tom exacerbado e o patriotismo que atravessa de forma inequívoca a despedida.
Podemos olhar a carta de McCain com o distanciamento de quem não faz parte dos compatriotas destinatários. Mais ainda porque o atual posicionamento geopolítico dos Estados Unidos nos merece pouco respeito, porque conhecemos as tentações imperialistas norte-americanas ou ainda porque frequentemente diabolizamos o Partido Republicano.
Tendemos a simplificar leituras e não há heróis absolutos. A biografia de John McCain está carregada de erros e contradições. Mas está também cheia de frontalidade e de coragem. Num momento em que vivemos, a nível mundial, uma crise de lideranças e de princípios éticos, nunca é demasiado olhar para políticos respeitados e inspiradores.
De resto, uma das passagens mais simples da carta de John McCain é a que recoloca no devido lugar aquilo que deve ser central: o amor à vida e a gratidão por cada experiência, aventura e amizade. "Adorei cada pedaço de vida." A política e a ética são, cada uma no devido plano, formas de orientar a ação tendo sempre presente a centralidade da vida. Simples. Assim deveria ser.
* SUBDIRETORA
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