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sábado, 1 de setembro de 2018

Morte política, esquerda e direita

  por estatuadesal

(José Preto, 01/09/2018)

esquerda

Rio sempre me pareceu um quadro técnico bancário, tão grotesco como qualquer outro, homem fora do seu sítio e das coordenadas de intervenção proporcionada à sua preparação e ao que foi revelando da sua sensibilidade.

Surpreendeu-me ao mobilizar Elina Fraga e Mónica Quintela. São advogadas em quem confio. Gente que lança ao estado dos aparelhos de justiça um olhar realista e lúcido e que, por isso, tem dos problemas da sociedade portuguesa uma aproximação sensata, face à já indisfarçável situação de emergência social. Creio que Rio desencadeou com isto - e sem o notar imediatamente - combates à medida do alarme que suscitou.

A Rio falta ainda muita coisa. Rio tem de distanciar-se dos seus hábitos intelectuais de técnico bancário e deve - se acaso quiser ir a algum lado – ponderar a situação aflitiva da classe média, ameaçada, entre mil outras coisas, por um surto único de especulação imobiliária que, antes de atingir a sua inevitável crise de bolha financeira, ameaça a consumação da completa descaracterização das nossas cidades e a expulsão das suas populações. Ainda ontem um amigo me fazia notar os prédios comprados, recuperados e fechados em desafio – que não pode deixar de ter réplica – aos limites sociais da propriedade. O imobiliário, se não interviermos imediatamente, terá apenas função especulativa a preços sociais difíceis de calcular. E não sei como chamar à gestão do património imobiliário público que estimula estas circunstâncias e propicia o aproveitamento delas.

Entre os campos queimados e as cidades alvo de apropriação pelos especuladores internacionais, pergunto-me como pode a população completamente desarmada estar tão calma, pesando sobre ela, como pesa, uma tão clara ameaça de morte. Nem os clubes desportivos lhe deixarão. (Sim, é esse o problema e não outro; e a intransigência da oposição deve estar à medida do problema).

Impressiona-me também que a direita dos gangs prefira tentar destruir o que foi seu principal partido a aceitar Rio. Isso significa que a aposta fundamental foi bem feita. Voluntária ou involuntariamente. Consciente ou inconscientemente. Rio tem aberto o caminho da direita que falta. A que recusa a mera instrumentalidade do Homem. A que preserva a Nação como projecto comum. A que olha o Estado como instrumento primeiro de solidariedade do corpo nacional e primeiro instrumento de defesa da comunidade. Essa Direita falou pela última vez com Sá Carneiro, Barrilaro Ruas e Gonçalo Ribeiro Telles, lembrou a sua existência, esporadicamente, com Adriano Moreira, mas não tem corpo militante organizado e eficaz, que responda ao eco social das suas posições. Conseguirá Rio perceber a importância do que tem nas mãos? Dir-se-ia que não. Pelas parvoíces dos seus velhos hábitos largadas sobre o serviço nacional de saúde, por exemplo, dir-se-ia que não. Mas era bem importante que o entendesse.

À esquerda não estamos muito melhor. O Leninismo calou-se, no essencial. Deixou até criminalizar o seu discurso político referencial sem reacção visível. O PCP parece esgotar-se nos hábitos do funcionalismo sindical. A esquerda radical do individualismo solidarista – o liberalismo radical de esquerda – também não tem milícia consistente entre nós. Embora haja núcleos interessantes de anarquistas. E embora o PCTP- MRPP tenha retomado a sua marcha natural de resistência, abandonando a “aura” social de excentricidade consentida a que o tinha circunscrito a figura pessoalmente estimável de Garcia Pereira, tal como a imprensa (falida) a havia aceitado já e a vinha gerindo, até à expressão terminante de rejeição dos representantes da legitimidade histórica do partido. O PCTP- MRPP não quis ser uma curiosidade do sistema politico, com sedes fechadas e circunscrita às intervenções públicas de uma “primeira figura” fazendo papel de “tipo giro a dizer umas coisas”. Talvez Garcia Pereira tivesse, ele próprio, podido recusar esse papel. Aparentemente terá pensado que aquilo que dizia seria suficiente para tanto. Não foi. Não, pelo menos, do ponto de vista dos seus companheiros de quarenta ou cinquenta anos de militância (se bem percebi).

Fazem-nos falta as esquerdas de posições aceradas. Presença radical. Problematizante. Polemizante. Assediante, mesmo. Não creio até que a comunidade nacional, nesta fase, possa sobreviver sem isso. A rua tem de voltar ao calendário político. A rua tem de voltar a gritar. Há coisas bem mais importantes do que os direitos dos gatinhos capados com que a “nova esquerda” se tem ocupado, conseguindo mesmo punir o abandono de animais de companhia, sem lograr sequer opor-se à exurbanização de populações inteiras, ou ao despejo de milhares de famílias.

E faz-nos falta a decência de direita. Aquela que consegue permanecer fiel a critérios de acção e conduta. Fiel à Lei e ao Direito e que, mesmo à custa do paternalismo que impacienta muitas vezes, consegue cumprir as suas funções e preservar a tranquilidade e os direitos. ..

É preciso varrer estas corjas agressivamente parasitárias do sistema político, com a mesma prontidão com que esta gente se precipita para fora do PSD. (Que economia de esforço). E dava realmente jeito que Rio entendesse o que está a acontecer-lhe. Porque se não o perceber ninguém conseguirá explicar-lho.

Rio deixou de me fazer rir.

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