Duas ou Três Coisas
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Nicolas Hulot, ecologista famoso e ministro estrela do presidente Macron, abandonou o Governo com estrondo, frustrado por não conseguir implementar as medidas ambientais previstas, uma das grandes bandeiras da campanha eleitoral que anunciava uma economia mais verde. Cinco ministros já deixaram o Governo em desacordo com as políticas seguidas, sobretudo por não cumprirem os compromissos assumidos. No caso da saída do titular do Ministério da Transição Ecológica e Solidária, designação auspiciosa que contém em si um programa de radical mudança, o presidente Macron fez a costumeira declaração de que nunca se fez tanto em tão pouco tempo e considerou Hulot um homem livre cuja liberdade respeitava. Por outras palavras, Hulot não é um político e, por isso, ignora a política como arte do compromisso, jogo de tabuleiro em que se movem interesses mais ou menos particulares.
Mais do que a questão ambiental, o caso Hulot conduz-nos ao interior de um certo discurso político europeu, aparentemente centrado no pragmatismo, com expressões muito distintas e, ao mesmo tempo, traços comuns. O movimento "Em Marcha" de Macron constituiu-se como emaranhado de tendências em que quase tudo cabia e daí o seu sucesso, mas também a dificuldade de satisfazer todos os interesses, o que explica a queda de popularidade.
Ainda que muito diferente, o Governo italiano é, do mesmo modo, um aglomerado multiforme unido sobretudo pelo que rejeita. Traço comum é a posição anti-imigração, que levou a uma escalada do confronto com a União Europeia, tendo o líder da Liga do Norte e ministro da Administração Interna, Matteo Salvini, ameaçado suspender as transferências para o orçamento europeu. Salvini reuniu esta semana com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, caindo nos braços um do outro para declararem a sua comum visão anti-imigrantes e, sobretudo, ameaçarem que um novo modelo de Europa está a chegar.
Esquecemos muitas vezes que o projeto europeu se ergueu depois de duas guerras mundiais e devastadores conflitos ao longo de séculos. A União Europeia é um projeto de paz e liberdade, que permitiu prosperidade e visão do futuro. Vivemos num mundo complexo com múltiplos desafios e ameaças a que melhor responderemos como um bloco geopolítico em vez de fechados entre fronteiras. As próximas eleições europeias são decisivas para as nossas vidas e das gerações futuras. Não apaguemos a memória.
*Professora universitária
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