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sábado, 27 de outubro de 2018

Enternecedor

Enternecedor

27/10/2018 by j. manuel cordeiro

O texto de David Dinis aos seus “amigos do Observador (e à Assunção Cristas)” é um exercício de caridade estratégica. Sem rejeitar que não dirigiu um instrumento da direita radical (“projecto”, nas palavras dele), deixa uns recados à trupe de lá.

«Explicar “porque os brasileiros votam em Bolsonaro” [João Marques de Almeida], como tenho visto por aí insistentemente, é normalizar um candidato que é um evidente candidato a ditador. Dar voz a quem diz que “Bolso não é besta” [Filipe Samuel Nunes], argumentar que o problema está na agonia da esquerda brasileira [José Augusto Filho], atirar que há “ódio a quem os desmascara” [José Mendonça da Cruz], irritarem-se contra o “fascistródomo” [Helena Matos] e gritar “Vocês Também Não!” [Rui Ramos], com hashtag e sem espaços, é dar um empurrão ao que Bolsonaro fez na campanha: espalhar o ódio, fazendo uma apologia constante da violência – como fizeram os maiores ditadores da história do século XX, aqueles que vocês tão bem sempre denunciaram nos livros da história.» [David Dinis]

É enternecedor ver David Dinis explicar a João Marques de Almeida, Filipe Samuel Nunes, José Augusto Filho, José Mendonça da Cruz, Helena Matos e a Rui Ramos coisas simples da democracia. Com  um recadinho directo a  Assunção Cristas, explicado-lhe coisas ainda mais simples.

E não, a escolha nem sequer é entre a ditadura e a corrupção. Porque só Lula foi julgado, Dilma ainda não; porque um partido não é todo corrupto se o seu líder o for; porque se fosse assim o que poderíamos dizer que sobrava de qualquer partido, nas mais avançadas democracias do mundo?

Isso, o meu alerta é também recordar-vos que Haddad pode ser o homem que defende o que nenhum de vocês perfilha, mas que ele não é, ao contrário de Lula, sequer acusado de corrupção. E que se vos foi possível defender a presunção de inocência de um jogador de futebol acusado de violação, também terá que vos ser possível dar a mesma presunção de inocência àqueles que vos suscitam a cólera (não importa o nome deles, vocês sabem de quem estou a falar).

Na prática, aquilo que defendo é que, no caso brasileiro, todos deviam fazer como a esquerda francesa fez nas últimas presidenciais, dando claramente o seu voto a Macron contra a ameaça de Le Pen. É onde erra, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso: se nunca há neutralidade no mal, nunca podemos ser neutrais perante ele. É reler a Hannah Arendt, ela explica melhor do que ninguém.

Na teoria (porque sei que os livros vos guiam mais do que as pessoas), o que vos sugiro é que releiam os ensinamentos de Sir Karl Popper, quando nos colocou perante o “paradoxo da tolerância”: uma sociedade aberta não pode tolerar o intolerável, sob pena de se fechar definitivamente.

Meus caros observadores, como bem lembraram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, se é responsabilidade dos partidos e dos sistemas políticos evitar que candidatos a ditadores entrem no jogo democrático e que possam tomar o poder, destruindo o nosso modo de vida, é nossa responsabilidade (enquanto comunicação social) assumir a defesa do mundo livre. E nunca relativizar os inimigos da sociedade aberta. Lembrem-se: quando chegarem cá, eles podem chamar-se Chávez ou Bolsonaro. [David Dinis]

Agora só falta a crónica do Observador, os posts alinhados e os comentários dos soldadinhos de chumbo a bater no ex-chefe por esta fuga à cartilha.

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