Roger Waters com mulher, filha e irmã de Marielle Franco
Posted: 26 Oct 2018 12:00 PM PDT
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José Cardoso Pires morreu há 20 anos
Posted: 26 Oct 2018 09:30 AM PDT
Morreu em 26 de Outubro de 1998. Vinte anos passam bem mais depressa do que se pensa quando se é jovem, pesam muito quando a vida vai avançando. O Zé continua a fazer-me falta como amigo e dou por mim a imaginar o que escreveria sobre o Portugal de hoje, se ainda fosse vivo. Não estaria certamente muito entusiasmado.
Retomo um belo texto que uma das suas filhas, Ana Cardoso Pires, leu em 10.03.2008 na Biblioteca Nacional, na cerimómia de entrega de parte do espólio do pai àquela instituição.
«Há pouco, sentada no escritório do Zé, em casa da minha mãe, no meio de caixotes e pastas que ele não conheceu, recordava outros escritórios do Zé. Aqueles que ele enchia de fumo; de papéis pelo chão; de chá com limão, de água ou leite gelados; de prolongados silêncios; de ataques de mau génio. Mas sobretudo de memórias.
No escritório do Zé, raramente entravam amigos e copos de uísque. Era um espaço concentracionário, incaracterístico, independente, onde mantinha engaiolados os demónios da escrita, que se empenhava em domar ou provocar, conforme as marés.
O escritório do Zé ainda hoje existe – e ele nem o conheceu na sua localização actual e na versão estaleiro de obras. No entanto, estou certa de que o reconheceria sem hesitações: uma grande janela, por onde entram vozes anónimas em diálogos longínquos, e as estantes transbordando de livros e papéis de muitas memórias.
O escritório do Zé mudou várias vezes de espaço físico. Sempre com o mesmo desprendimento pela qualidade do mobiliário, sucessivamente recauchutado por ele próprio para se adaptar a necessidades de momento. Pormenores. Permanecia o importante: os livros e os papéis de apoio da memória.
Por isso, o que hoje nos traz aqui, a cerimónia a que assistimos, foi o lançamento da primeira pedra do novo escritório do Zé. Agora com estantes novas e aberto a quem o queira conhecer. Através dos livros e papéis da sua memória.
E como nos dias de festa, cantam as nossas almas: p’ró menino José, uma salva de palmas.»
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Cavaco: o único dia em que me pôs feliz
Posted: 26 Oct 2018 06:08 AM PDT
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Posted: 26 Oct 2018 02:47 AM PDT
«Com passos rápidos, mas seguros, o mundo caminha para o regresso à Idade Média. A Inquisição das redes sociais simboliza este tempo em que não se debatem ideias: gritam-se certezas, com o objectivo de calar tudo o resto.
A intolerância vai crescendo no dia-a-dia, nas mensagens de ódio do Twitter, na incapacidade para escutar o que o outro tem a dizer. As pessoas querem respostas rápidas às suas aparentes preocupações. O culpado é o "outro". Não admira também que se caminhe do insulto fácil para um mundo de violência. Que passa da verbal para a física. O que se passou por estes dias nos EUA, as ameaças de Jair Bolsonaro sobre a Folha de S. Paulo, o assassínio de Jamal Khashoggi, são vértices deste "buraco negro" que ameaça a democracia, a cultura e a tolerância. Quando Donald Trump evita condenar explicitamente as ameaças bombistas sobre uma série de figuras democratas nos EUA e, também, sobre a CNN, sabe o que faz. Ele tem sido uma fonte de insultos à CNN, a Obama e a Hillary Clinton. Ou a pessoas de "outra cor", como se viu agora nas suas declarações sobre a marcha de migrantes que está a chegar às portas dos EUA. Com as eleições para a câmara baixa dos EUA a entrar na recta final, há muito em jogo. E os EUA parecem à beira de uma guerra civil entre apoiantes e adversários de Trump. O ódio está a consumir as democracias. E há quem aposte nisso.
Nada disto parece normal. Mas é. Por trás desta retórica de intolerância estão interesses primários. Os de Jair Bolsonaro com os chefes do agro-negócio brasileiro que quer desmatar a Amazónia, com consequências incalculáveis para o planeta, mas com lucros claros para alguns bolsos. Os da família Trump (mas também da Grã-Bretanha ou Espanha) no negócio de venda de armas à Arábia Saudita (o petróleo é aqui algo redundante), que não deixa ver o claro envolvimento do círculo de poder de Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro, no "escândalo Khashoggi". Este é o tempo em que alguns vendem a sua alma por lucro. E depois culpam os outros, com frases musculadas, pelas incertezas em que os povos vivem. O contágio populista está a chegar ao Sul da Europa. Não apenas a Itália, mas também a Espanha (com o Vox) ou a Portugal (onde aprendizes de feiticeiro vão acendendo algumas fogueiras). Os novos bárbaros encostam uma faca à garganta da democracia. Pelo caminho, o antigo guru de Trump, Steve Bannon, instalou-se na Europa para a desagregar, fomentando grupos extremistas de direita para o assalto ao poder. Isto perante a complacência e os erros sistemáticos dos poderes constantes da política europeia. Não admira que os Verdes subam na Alemanha: outros discursos de combate a este extremismo cego são necessários.
Porque esta é uma guerra maior: a do populismo contra a globalização, da barbárie contra a cultura, do grito contra o debate. As novas técnicas eleitorais, baseadas em falsidades e na utilização dos meios digitais, chacinam todo o debate sério. E a cultura das "novas tecnologias" ajudou a esta nova fronteira entre o "nós" e os "outros". Um novo mundo vem aí, uma mistura do que escreveram George Orwell e Aldous Huxley. E não vai ser muito agradável.»


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