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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Eucalyptus belenensis, o eucalipto de Belém

OPINIÃO

A grande novidade com o aparecimento desta nova espécie é que deu origem a uma reviravolta no ambiente lisboeta e nacional.

3 de Janeiro de 2018, 6:25


O eucalipto é uma espécie de árvore cuja característica é procurar alimento onde quer que se encontre, num largo raio em seu redor. O seu objetivo é procurar as alturas. Tem de se erguer acima das outras árvores custe o que custar na Austrália, na Califórnia ou em Castanheira de Pera.

Apareceu há cerca de dois anos uma nova espécie de eucalipto, o eucalyptus belenensis, que rivaliza com as outras seiscentas espécies, sendo a predominante o eucalyptus globulus. Apesar da chegada tardia desta nova espécie, o certo é que refinou as características de todas as outras; numa visão darwiniana dir-se-á que concentrou em si todas as capacidades de se impor seja qual for o tipo de solo.

Em Belém, constava que os solos do palácio eram dados a outro tipo de árvores mais circunspectas e territorialmente circunscritas ao próprio palácio e arredores. A grande novidade com o aparecimento do eucalyptus belenensis é que deu origem a uma reviravolta no ambiente lisboeta e nacional.

O eucalipto de novo tipo está a secar toda a floresta que cobria o país de Norte a Sul. Na verdade, a enfermidade (segundo os serviços florestais) é a infiltração na paisagem política de tal modo que há previsões de asfixia do ambiente político, embora de modo gradual. Isto porque o eucalipto de Belém atrai para si todas as antenas responsáveis por captar a seiva de que se alimentam as diversas árvores que compõem a paisagem política portuguesa.

As mutações genéticas na nova árvore têm efeitos prodigiosos comparáveis às dos humanos; é o caso da espantosa capacidade de aparecer em todo o lado através dos seus múltiplos ramos fluorescentes.

Em contraste com o eucalyptus globulus, que se deixa queimar num instante, o de Belém afirma-se como árvore de presença permanente nos rescaldos dos grandes incêndios e largando grandes sentenças justiceiras acerca do comportamento de outras entidades paisagísticas e traçando o caminho a seguir, inclusive com datas.

O eucalyptus belenensis invade pela sua própria natureza os mais diversos domínios da comunidade a qualquer hora, em qualquer circunstância, sempre com juízos profundos seja sobre qualquer tipo de catástrofe. As catástrofes permitem ao eucalipto secar as lágrimas das vítimas. Está ainda dentro das suas possibilidades apresentar-se em festas de Natal e em jantares de grupos recreativos e culturais, como foi o caso recente do grupo “A Mula Russa”.

Atente-se na sua mobilidade e versatilidade tomando em conta a agenda de um dia pacato: 8h: Ida a um funeral; 9h: Passagem na sede do agrupamento de escuteiros acampados na serra de Sintra; 10h: Inauguração da sede do Clube Columbófilo de Alcântara com largada de pombos-correio a caminho da Síria para juntarem mensagens anti-Assad; 11h: Receção à administração da Autoeuropa; 12h: Visita à comunidade de patolas setentrionais acabados de chegar a Alcochete; 13h: Comentário a propósito da declaração do primeiro-ministro sobre a recuperação de Salvador Sobral; 14h: Passagem numa casa de sandes rápidas sem necessidade de mastigar muito; 14h20: Reunião com o gabinete; 15h: Ida ao Estádio da Luz para ver o jogo; 17h: Deslocação à Cova da Moura para apreciar uma nova cachupa; 18h: Saída rápida para o Guincho para um mergulho; 19h30: Reunião com o adido das questões agrícolas e piscícolas para tratar da queda da quota de captura de ligueirão; 20h30h: Reunião com Santana Lopes; 21h: Reunião com Rui Rio; 21h15: Reunião com Assunção Cristas; 22h: Encontro com António Costa; 23h: Visualização dos telejornais; 24h: Agenda livre por falta de interlocutores e tempo para comentar no dia seguinte as possibilidades de Portugal fornecer pernis de porco à Venezuela. Fim do dia.

O eucalipto de Belém é tão fluorescente que atrai multidões de jornalistas e similar à da luz em relação aos insectos. Trump irá em breve tuitar que o eucalyptus belenensis é uma prova que não há alterações climáticas, pois a seca se deve a este tipo de árvores.

Por enquanto não se sabe o prazo de vida deste tipo de eucalipto; há quem tema uma longevidade acima da média e, por consequência, se reduza a paisagem política da floresta. O IPMA tem as suas coordenadas viradas para ciclones, anti ciclones e superfícies frontais, sem capacidade para avaliar danos, e daí não haver avisos de perigo seja ele de que cor for.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Advogado

O que é que a Revolução de Outubro fez por nós?

ladroes de bicicletas


O que é que a Revolução de Outubro fez por nós?

Posted: 02 Jan 2018 01:07 PM PST

O jornal Mundus pediu-me um texto com 4000 caracteres sobre o centenário da Revolução de Outubro que se assinalou em 2017. Deixo-o aqui em 2018:
A 25 de outubro de 1917, se seguirmos o calendário juliano então em vigor na Rússia, a 7 de novembro de 1917, se seguirmos o calendário gregoriano, em vigor a ocidente e que foi adotado pela Rússia Soviética em 1918, o chamado Partido Bolchevique, posteriormente Partido Comunista, lidera a tomada do poder em Petrogrado (nome de São Petersburgo desde 1914), capital de um vasto país farto da barbárie imperialista da Primeira Guerra Mundial. O governo provisório, desde o derrube do Czarismo, em fevereiro/março de 1917, insistia em prosseguir a guerra. O início da experiência comunista é incompreensível sem a dupla rejeição da guerra imperialista entre as grandes potências e do socialmente injusto e predador capitalismo, que, segundo Lenine, era a sua base material. Um dos primeiros decretos do novo poder dos sovietes, o da paz, apela, em simultâneo, ao fim das hostilidades, à autodeterminação dos povos e à revolução social.
O historiador Eric Hobsbawm argumentou certeiramente que o século XX é incompreensível sem os efeitos internacionais desta experiência revolucionária: “Até porque ela se revelou a salvadora do capitalismo liberal, tanto ao possibilitar ao Ocidente ganhar a Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha de Hitler como ao fornecer o incentivo para o capitalismo se reformar”. O medo do comunismo foi de facto um “incentivo” para que as elites se conformassem temporariamente com o mal menor da reforma social-democrata do capitalismo, em particular na Europa Ocidental, sobretudo quando o expediente autoritário do nazi-fascismo, que muitas apoiaram, foi derrotado. Num certo sentido, o keynesianismo é filho do medo do colapso, tanto económico quanto político, do capitalismo.
Mas para lá disto, é preciso sublinhar que muito do anti-imperialismo, em geral, e do anticolonialismo e antirracismo, em particular, mais consequentes no século XX, a sul e a oriente, são incompreensíveis sem o apoio do movimento comunista e da URSS, bem como de outros Estados socialistas. Não esqueçamos que as potências ditas liberais, da França à Grã-Bretanha, eram abertamente imperialistas e colonialistas antes e depois das duas Guerras. E que os EUA do incensado, mas segregacionista e racista, Presidente Woodrow Wilson aceitaram que o princípio da autodeterminação dos povos ficasse logo a seguir à Primeira Guerra Mundial basicamente circunscrito aos novos Estados europeus. Nesse, como noutros aspetos, o vilipendiado Lenine, por exemplo, era bem mais progressista.
Do Encontro dos Povos do Oriente, em 1920, promovido pela Internacional Comunista em Baku, e de onde sai um apelo à rebelião anticolonial, dirigido em particular contra a Grã-Bretanha, à Primeira Declaração de Havana, em 1960, onde a jovem revolução cubana, liderada por Fidel Casto, lança um apelo anti-imperialista aos “povos da nossa América”, vitimas da ingerência dos EUA, passando pela Conferência de Bandung, em 1955, onde participa já a China comunista, a revolução social no Terceiro Mundo foi também uma luta pela soberania e independência nacionais.
Apesar da violência muitas vezes criminosa, a experiência soviética de industrialização acelerada constituiu durante muito tempo um exemplo de como, através da planificação, era possível industrializar rapidamente sociedades agrárias e dependentes. Não por acaso, o comunismo foi sobretudo popular, para o bem e para o mal, em sociedades semiperiféricas e periféricas.
Inspirados pelo célebre episódio de A Vida de Brian dos Monty Python, é caso de perguntar já não o que é que os romanos fizeram por nós, mas agora: o que é que a Revolução de Outubro e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, criada em 1922 e extinta em 1991, fizeram por nós? Para lá de terem metido medo aos ricos, obrigando-os a integrar os de baixo nas sociedades capitalistas ocidentais, assim menos limitadamente democráticas, para lá de terem dado o contributo decisivo para a derrota do nazi-fascismo ou para lá de terem ajudado a inscrever o anti-imperialismo e o anticolonialismo nas dinâmicas de um sistema internacional eventualmente menos hierarquizado?
E os seus fracassos, crimes e derrotas, não impedem outra pergunta: será que o mundo ficou melhor depois de 1991?

Em defesa do financiamento público para os partidos

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por j. manuel cordeiro

A forma desastrosa como os partidos, por interpostos deputados, procuraram resolver os seus problemas financeiros, trouxe à actualidade a oportunidade de se discutir o financiamento partidário.

Em primeiro lugar, podemos questionar se deve existir financiamento partidário, o que nos leva à identificação das despesas que estes têm. Desde funcionários que tratem da burocracia, à necessidade de promoção dos seus ideais, seja por campanha eleitoral, seja através de debates e outras iniciativas, é óbvio que os partidos têm um custo e este precisa de ser pago. Não havendo democracia sem partidos políticos e tendo estes um custo associado, torna-se claro que o financiamento partidário é uma necessidade.

E que natureza deve este ter? Deverá ser exclusivamente privado, exclusivamente público ou um misto de ambos? Olhando para os casos do CDS no que respeita o seu financiamento, nomeadamente a emissão de milhares de recibos com o valor máximo permitido por lei e tendo destinatários fictícios, tal como Jacinto Leite Capelo Rego, facilmente se compreende que a forma como os partidos se financiam é terreno fértil para a ilegalidade. Neste aspecto, a remoção do limite máximo na angariação de fundos (por parte do partido, já que a título individual continua a existir limite), tal como preconizado pelo presente projecto lei de financiamento partidário, é um enorme incentivo ao aparecimento de esquemas de fraccionamento do financiamento à lá Jacinto Leite Capelo Rego.

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O que é o Estado?

por estatuadesal

(Por Dieter Dillinger, in Facebook, 02/01/2018)

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É a organização pública sustentada pelos contribuintes, cujos dinheiros são limitados.

Já tenho dito que o Estado está bem organizado para situações normais em que a produtividade do trabalho diário é suficiente.

Mas, os contribuintes não possuem meios financeiros para sustentar uma grande retaguarda para situações excepcionais, muitas delas criadas por alguns privados.

Veja-se o caso dos milhões de contos que muita gente tinha e que esperou 16 ANOS para ir ao Banco de Portugal trocar por euros no último dia.. Vimos na televisão gente irritada com a enorme fila de espera, como se o BP tivesse que ter um número adicional de caixas para trocar no último dia de 16 anos.

O mesmo acontece com impostos que muita gente quer pagar no último dia e entope sistemas informáticos e balcões das secções de Finanças.

E o caso dos INCENDIÁRIOS pagos por MANDANTES que, aparentemente, a Justiça não quer conhecer.

O Estado não possui um exército de reserva para vigiar as florestas nem um serviço de bombeiros adicional para os dois a três meses de verão e que durante nove meses do ano não fazem nada, tal como não possui agora maternidades em que nem uma criança chega a nascer por semana ou escolas com menos de 10 alunos e, por vezes, um por ano de escolaridade.

O Estado, dizem, abandona o interior, mas, nós, os contribuintes, não temos dinheiro para sustentar um segundo Estado de funcionários apenas para que haja mais gente no interior. O Estado sai em último lugar depois daqueles que podiam ser os fornecedores dos Continentes, Pingo Doce, etc. terem deixado a agricultura porque os grandes milionários não pagam o seu trabalho de modo a terem as contas equilibradas.

A falta desse Estado de Reserva é criticado pelo presidente Marcelo e é referida pela Cristas e gente do PPD como "colapso do Estado".

Mas, se a Justiça não colaborar, vai ter de haver uma imensa Guarda Florestal já constituída e que recebeu recentemente quase uma centenas de viaturas especiais novas para patrulharem a floresta e que terão de multar todos os proprietários de casas e terrenos e concessionários de estradas que não respeitem a lei. Só assim, o custo desta Guarda não será exorbitante.

Sim, espero que nem Marcelo nem a Oposição estejam à espera que essa Guarda seja gratuita.

Sim, senhor Presidente, podem oferecer-lhe um pastel de nata ou um rissol de camarão, mas ninguém vai oferecer ao Estado uma grande Guarda Florestal nem mais unidades de bombeiros sapadores, principalmente agora que os bombeiros voluntários estão a sair dessa atividade porque V. Exa, a Justiça e a Oposição os tratou tão mal e até querem levá-los a Tribunal por não terem apagado os quase 300 fogos por dia que os INCENDIÁRIOS atearam no verão do ano passado.

O Senhor Presidente da República deve ser mais JURISTA e considerar em primeiro lugar aqueles, os INCENDIÁRIOS, que atearam os FOGOS e só depois o pessoal do INEM, da PROTEÇÂO CIVIL e dos BOMBEIROS que não atearam nenhum fogo e chegaram a trabalhar 72 horas seguidas, descansando extenuados um pouco tempo deitados no meio das estradas.

V. Exa Sr. Presidente não estudou química, mas não é preciso ter frequentado a Faculdade de Ciências para saber que NADA ARDE por ignição expontânea. Não são os eucaliptos que ardem, mas sim os garrafões de gasolina que foram postos nas suas imediações.

Podcasts – Governo Sombra

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por j. manuel cordeiro

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Governo Sombra (RSS; sítio do programa) é um programa semanal da TSF e TVI com João Miguel Tavares, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e coordenação de Carlos Vaz Marques, onde se discute a actualidade politica de uma forma menos ortodoxa. Já aqui, no Aventar, foram destacados alguns episódios, mas não podia deixar de incluir este podcast nesta série. E o último episódio de 2017 é um bom pretexto para este fim.

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Arnaldo Matos foi o convidado desta edição, o que a tornou particularmente interessante por diversas razões. Independentemente se se concorde ou não com o seu discurso, é refrescante ouvir alguém falar dos conceitos no seu sentido original, como por exemplo do socialismo e do marxismo, em vez da habitual balada do socialismo, seja por parte dos partidos que assim se designam, seja por parte dos restantes que, da mesma forma, vivem do Estado.

Outro aspecto merecedor de atenção, foi Arnaldo Matos, à boleia do caso Sócrates, ter dado uma valente coça a João Miguel Tavares no que respeita direitos humanos, sem que este tenha percebido o que estava em causa. E era uma coisa simples: primeiro acusa-se e depois é que se prende. (Uma nota para os distraídos: visitai os meus posts do tempo de Sócrates para perceberem que não estou a vestir a pele de guarda pretoriana.)

Por fim, sendo um programa de humor, é preciso não o esquecer, teve graça e foi um momento de boa disposição.