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domingo, 7 de janeiro de 2018

O fogo fátuo do populismo

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por Bruno Santos

Enquanto as urgências do Hospital de Gaia rebentam pelas costuras, com os corredores transformados em unidade de internamento e tempos de espera para doentes urgentes na ordem das 7 horas, a Câmara de Gaia decidiu estourar uma fortuna do dinheiro dos contribuintes para assinalar o Dia de Reis, conhecida tradição republicana e laica que o município diz querer “recuperar”. Essa “recuperação” foi feita ontem com um mega-concerto musical ao qual assistiram cerca de 300 pessoas e com um grande espectáculo de fogo de artifício, ao som dos AC/DC - banda de rock australiana conhecida pela sua produção de música sacra -, para uma beira-rio deserta, conforme se pode ver na imagem.

Vla Nova de Gaia, 7 de Janeiro de 2018. Fogo de artifício lançado a partir da Serra do Pilar e da Ponte Luís I para uma Beira-Rio deserta.

Talvez seja este criterioso gasto de recursos públicos e dos impostos dos contribuintes, desbaratando centenas de milhares de euros em festanças natalícias a que ninguém assiste, que toma o nome de populismo. Talvez aqui resida um dos fundamentos do prestígio crescente de que a “classe política” beneficia entre o povo ignaro, a turba “raivosa” - como a adjectiva a deputada Isabel Moreira - sempre pronta a atacar os partidos políticos e a sua sacrossanta legitimidade representativa. Isto enquanto dois quilómetros acima, nas urgências do Hospital de Gaia, faltam lençóis para cobrir os corpos espalhados em macas pelos corredores.

Entre as Brumas da Memória

Entre as Brumas da Memória

Falam de quê?

Posted: 06 Jan 2018 12:25 PM PST

… futebol, doenças, gatos?…
(Expresso, 06.01.2018)
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A obsessão pela absolvição histórica

Posted: 06 Jan 2018 09:16 AM PST

Mamadou Ba, dirigente do SOS racismo, no Expresso de 06.01.2018:

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Rui Rio: «Agarrem-me que eu não quero ser eleito!»

Posted: 06 Jan 2018 07:56 AM PST

… é o que parece andar por esta cabeça, com afirmações como esta em plena campanha eleitoral.

Rio admite que parte das pensões varie em função da economia.

«Candidato à liderança do PSD lança uma ideia nova: definir um tecto mínimo para as pensões, mas com componente variável associada ao PIB e desemprego.»

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O Pedrógão social

Posted: 06 Jan 2018 03:06 AM PST

«Entrando no terceiro ano do seu Governo, António Costa garantiu este Natal que “o emprego está no centro da nossa capacidade de conquistar o futuro. Não apenas mais, mas melhor emprego. Essa é a prioridade que definimos para o ano de 2018”. Ele sabe que, no país mais desigual da UE, tem pendente um Pedrógão social que nos incendiou as vidas desde, pelo menos, 2010. É numa paisagem de devastação social quotidiana que continuam a viver milhões de portugueses. As muitas expectativas que esta experiência política trouxe (o primeiro Governo desde 1976 que se compromete a reverter uma tendência permanente de 40 anos de precarização do trabalho) têm produzido mais uma sensação de alívio que uma mudança efetiva. Os escombros continuam à mostra. Na sua mensagem de Natal de há dois anos, Costa reconhecia já que "Portugal apenas poderá preparar-se e vencer os desafios do século XXI com mais crescimento, melhor emprego e maior igualdade." O problema é que continuamos a ficar pelo crescimento de que qualquer liberal falaria, e à espera ficamos de "melhor emprego e maior igualdade".

É o que abundantemente mostra o Observatório das Crises e Alternativas do Centro de Estudos Sociais: "a consolidação da recuperação económica" tem revertido a precarização do trabalho. "O peso dos contratos permanentes nos contratos assinados desde 2013 continua a ser diminuto (cerca de 34% dos novos contratos vigentes em outubro de 2017)", e isto depois de, só nos dois últimos anos do governo Passos (2013-15), terem passado de 71,8% para 68% no setor privado. A crise não destruiu apenas contratos precários; com ela se aproveitou para destruir muito emprego que era estável. Além disso, não só a precariedade não recuou, mas ela "é acompanhada por uma degradação da remuneração média dos novos contratos permanentes (837 euros mensais brutos no final do primeiro semestre de 2017)". Nos contratos não permanentes, "o Salário Mínimo Nacional [apresenta-se] crescentemente como a remuneração de referência" (Retoma económica: o lastro chamado precariedade, Barómetro das Crises, n.º 18, 05.01.2018).

Não é assim que se demonstra da capacidade alguma de "conquistar o futuro" de que fala Costa. E o Governo sabe disto: há meses, Vieira da Silva, que insiste em "não demonizar os contratos de curta duração [de três-seis meses] que, por vezes, são necessários, principalmente numa economia com mais fatores de sazonalidade", reconhecia que "a dimensão em que eles existem em Portugal é claramente excessiva. [Somos] o segundo ou terceiro país da Europa que tem mais contratos deste tipo”. O ministro "não [se esquecia] que ainda estamos longe do emprego que existia antes da sequência de crises que Portugal viveu" (entrevista DN/TSF, 06.08.2017), e é mesmo importante que não o esqueça porque ele governa "o país da União Europeia onde a diferença entre o grupo dos 10% com salários mais elevados e o grupo dos 10% com salários mais baixos é maior, sendo os dos 10% mais elevados cerca de cinco vezes superiores (a média na UE é 3,5 vezes). Se a comparação for feita entre o grupo dos 1% com salários mais elevados e o grupo dos 10% com salários mais baixos, a diferença aumenta já para 12 vezes".

Os anos da crise e da troika (2010-15) vieram agravar tudo: segundo dados da OIT, "a parte dos salários e ordenados no PIB diminuiu de 36,8% para 34,1%, enquanto a parte do Excedente Bruto de Exploração, que reverte para os patrões, subiu de 41,3% para 43%". Como sublinha Eugénio Rosa, a "inversão destas tendências" verificada no primeiro ano de Governo Costa (2016) foi "pequeníssima" (0,1%). É a relação direta entre precariedade e desigualdade e pobreza que faz com que ele nos prometa "não apenas mais, mas melhor emprego". Só falta é que não se esquive a fazer o que o PS continua a recusar ao fim de dois anos no Governo: revogar "a caducidade automática dos Contratos Coletivos do Trabalho", usada pelos patrões para precarizar o que não ainda não é precário, e repor "nas leis do trabalho o princípio do tratamento mais favorável que", antes da troika e desde Marcelo Caetano, antes mesmo do 25 de Abril, "proibia, a nível dos contratos individuais de trabalho, que os patrões pudessem impor aos trabalhadores condições piores do que as constantes da lei do trabalho" (Eugénio Rosa, A repartição do rendimento entre o Trabalho e o Capital agravou-se em Portugal durante a crise, 02.04.2017). Se não o fizer, o Pedrógão social continuará aí.»

Manuel Loff

Uma quinta-feira como outra qualquer

por vitorcunha

Ela ia todas as quintas-feiras para a sessão de zumba com aquelas calças de yoga que, caso tivesse adquirido identidade de género masculino, lhe apertariam os testículos imaginários ao ponto da castração virtual. Ele vinha, naquela quinta específica, do hospital onde visitou o amigo vítima de maleita decorrente das alterações climáticas. Ela estava grávida de feto em pensão completa em útero alheio e emanava aquele ar de quem solicitaria amamentação de substituição para não estragar as mamas de debate semanal sobre a desigualdade de género da siderurgia. Ele tinha comido um croquete no bar do hospital enquanto leu Zizek sobre a temática do momento, o papel das redes sociais na educação pura-raça de crianças clinicamente sobredotadas. Ela tirou uma selfie do autocarro, entre uma paragem e outra, de pernas escachadas com o indicador a apontar para a costura entre-pernas com hashtag #myVaginaMyChoice; ele olhou, com os joelhos bem juntos, como as senhoras eram ensinadas a sentar no velho mundo, naquele preciso momento, para o activismo de Instagram dela, violando-a com o olho direito.

Não fosse o oprimido muçulmano suicida ter rebentado com o autocarro, ambos chegariam a casa com risco de assistir inadvertidamente ao debate entre Rui Rio e Pedro Santana Lopes. Ainda há quem critique o terrorismo de rosto humano.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Conversando à chuva sobre enigmas

Estátua de Sal

por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Público, 06/01/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro.


[Simplicio, Sagredo e Salviati estão protegidos da chuva num alpendre. Falam. Melhor, conversam, uma arte perdida.]

Simplicio – Viste o debate entre o Alemão e o Menino?

Sagredo – Vi.

Salviati – Vi. Estava a jantar com Aquele que Todos Renegam e Todos Querem Ser. No debate.

Sagredo – Quem?

Salviati – O Camarada Operário Soberano de Todas as Alianças.

Simplicio – Isso é um enigma?

Sagredo – É. Já sabes que Salviati de vez em quando fala assim.

Simplicio – Por quê?

Salviati – Por causa da Santa Inquisição, antes que venha aí a Lei da Rolha.

Sagredo – Já não te lembras? Houve uma proposta do Menino para haver uma Lei da Rolha, mas não passou…

Salviati – … mas como isto está vai acabar por passar.

Simplicio – E valeu tudo? Até tirar olhos?

Sagredo – A comunicação social, essa grande simplificadora, acha que foi um combate de boxe. Mas não foi. Eles não sabem o que é um combate de boxe. Foi mau de um lado, mas bastante meigo do outro. Ainda há quem não entenda que em certos combates ou não se vai lá, ou se se vai é para valer. Não há murros pela metade.

Simplicio – É a tua regra Salviati?

Salviati – É. Mas tenho outra regra antes dessa. Chamemos-lhe uma regra preventiva, filha da elegância, mãe do juízo.

Simplicio – Elegância? Para aqui chamada?

Salviati – Sim. Sempre nos podemos comportar como um lorde inglês, como aqueles que estão a organizar as cartas de um antepassado e chega o mordomo e diz “sua senhoria, a Inglaterra entrou em guerra, já mandei fazer as malas”. E um ano depois está a saltar de paraquedas na Sérvia para apoiar o Tito contra os alemães. Ele, oficial, junto com o mordomo, cabo. Aconteceu.

Sagredo – Isso não há cá. Voltemos à regra.

Salviati – A regra foi feita por George Bernard Shaw…“I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.”

Sagredo – Já agora podes mandar junto o link do George Bernard Shaw para a Wikipedia, pelo menos para um deles, o que confunde os Concertos.

Simplicio – E depois, o que é que ficou?

Salviati – Muito pouco. Ao Menino não lhe disseram que quem vai a eleições não é o Outro, o Fantasma, a Sombra, aquele que em 2005 lhe chamou o “portador do caos”, mas o Alemão…

Sagredo – … e o Alemão esqueceu-se da longa lista de “trapalhadas”. Da sesta, da incubadora, da tentativa de calar o nosso gentil Presidente dos Afectos que falava na televisão, – sempre a Lei da Rolha, - da fabulosa entrevista ao Frankfurter Allgemeine

Salviati – Oh memória! "o Governo português abdica do rumo de poupança" (…) este "é o momento" para corrigir a política de austeridade dos últimos dois anos.”. Política de austeridade, de quem? Manuela Ferreira Leite. E uma conferência de imprensa eleitoralista com Mexia, ministro das Obras Públicas, - lembram-se?, - sobre o anúncio de travessias do Tejo que ainda não se sabia onde nem como eram…

Sagrado – … se por cima, se por baixo. E a incubadora com um bebé que entrou num discurso de Estado…

Simplicio – … de quê?

Salviati – … de Estado. Pobre Estado. E a Secretaria de Estado que foi de charrete, e o “caso Chaves”, a gota de água. Na verdade, havia um tsunami atrás da gota de água, visto que o CDS já andava a dizer a Sampaio que talvez fosse retirar o apoio “àquilo”.

Sagredo – É, a perda da honra da boa governação, que era apanágio da instituição. E depois o “homem também chora…menina morena. Também deseja colo”(…)  “precisa de carinho, precisa de ternura”.

Salviati – O Alemão devia ter passado o vídeo, chegava para ganhar o debate com um imenso ridículo a abater-se sobre todos nós…

Simplicio – Depois queixa-te de que ele quer a Lei da Rolha… De facto, isso é mortífero.

Sagredo – E o que está lá a fazer a “menina morena”? Mas que está, está. Até eu já estou envergonhado. Quero ir para a Islândia.

Simplicio – Também eu, simples homem da escola aristotélica, me envergonho. Mas houve coisas sérias?

Salviati – Muito poucas. E aqui a culpa é mais do Alemão, porque é dele e não do Menino que quer colo que se esperava mais.

Sagredo – Mas não sei que vírus terrível castrou o debate…

Salviati – O Passos foi o vírus. Conseguiu uma grande vitória póstuma: impedir os que podiam falar, de falar. Acabaram todos por se atolar no pior vício da instituição, o medo de discutir de forma franca e aberta o que se passou nos últimos anos. Caiu-lhes um raio em cima e nem sequer olham para a nuvem escura. Daí o ódio à Sombra.

Sagredo – Mas o Menino não queria fazer um partido com a Sombra já Passos era Presidente?

Salviati – Queria. Em data que se conhece, num local que se conhece, pelos lados da Lapa. O Menino dizia que estava “enojado” com a transumância da Senhora para o Passos, e que era melhor fazer um novo partido para concorrer  com a instituição e foi a Sombra que lhe disse que não. E a mesma proposta foi feita a outros. Não adianta desmentir.

Simplicio – Não era o Partido Social Liberal?

Salviati – Não. Foi muito depois disso.

Sagredo – Por isso a Sombra deve estar a sorrir de ironia, com tanto esquecimento conveniente, com tanta concordância tímida com o que ele disse, mesmo que só sussurrada. Que a instituição está desfeita e a perder papel, que houve “excessos” nos anos da Carruagem de Três Cavalos, que se perdeu a “consciência social”, etc., etc. Até o Menino o diz.

Salviati – Dizem, mas não “produzem”. Não há na vida política do nosso Pobre País, nenhuma instituição que melhor reúna a pompa da não-discussão por cima com a fervorosa intriga por baixo. O baixo agora são as “redes”…

Simplicio – … onde proliferam os homens eternamente “jovens” sem currículo a não ser uns teewts a pretender ser engraçados. Até eu, simples homem, sei que é que está a dar.

Sagredo – Isto não vai acabar bem. É pena, porque a instituição faz falta.

Simplicio – Mas não é a Sombra que tem a biblioteca de um bruxo? Pede-lhe uns bruxedos.

Sagredo – Ele responde torto e diz que não é preciso. Que já viu muita coisa, e que a regra é que não é preciso nenhuma invocação a um demónio para os  transformar em sapos…

Salviati – … ele diz que eles normalmente fazem isso a si próprios, sem necessidade de qualquer Demónio.

AS DIRECTAS DO PS E AS ELEIÇÕES NO PSD

Estátua de Sal

por estatuadesal

(In Blog O Jumento, 06/01/2018)

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O PS escolheu o seu líder abrindo o direito de voto aos seus simpatizantes, o PSD optou por limitar a escolha aos inscritos no partido. Se no PS os candidatos tentaram mobilizar os simpatizantes da sua área, a verdade é que muitos simpatizantes se dirigiram às mesas de voto por sua própria iniciativa. No PSD o processo está limitado à “arregimentação” de militantes pelos caciques que apoiam cada um dos candidatos, ganha aquele que conseguir pagar a quota de mais militantes adormecidos ou que conseguiu inscrever mais novos militantes dentro do prazo estatutário. Quando Santana Lopes pediu mais tempo, por partir atrasado, estava mais preocupado com a possibilidade de pagar mais quotas ou inscrever mais falsos militantes.

Os modelos de eleição geram processos muito diferentes quer nos truques, nas motivações dos eleitores e nos temas dos debates. Há ainda um outro aspecto importante: no PSD quem ainda manda no aparelho, são as lideranças locais e distritais eleitas no tempo de Passos, têm um peso determinante na escolha do próximo líder. Isso explica as manifestações de vassalagem dos dois candidatos em relação a Passos Coelho e, no caso de Rui Rio, até à Maria Luís Albuquerque.

A prazo a situação é ainda mais ridícula, teremos um novo líder mas as estruturas controladas por Passos Coelho escolherão a maioria dos candidatos a deputados nas próximas legislativas. Antes disso será a máquina de Passos Coelho a escolher a maioria dos delegados ao próximo congresso. Em vez de um congresso para projetar o próximo líder e mostrar no que ele é melhor e diferente do antecessor, teremos uma romaria de homenagem a Passos Coelho.

O modelo de escolha no PSD leva a que os candidatos em vez de explicarem porque serão melhores do que o líder caído devido aos maus resultados eleitorais, degladiam-se tentando demonstrar que são mais próximos e se identificam com o líder que eles próprios ajudaram a expulsar, um porque sempre o criticou, o outro porque lhe tirou o tapete nas autárquicas de Lisboa.

Os militantes e simpatizantes do PS escolheram o líder que consideraram ter o melhor projecto para o país ou com o qual se identificavam mais. No PSD os candidatos debatem quem é que no passado foi mais fiel ao PSD, ganha aquele que nunca apareceu em iniciativas que não fossem do líder do PSD. Aparecer ao lado de um militar que ajudou a fazer o 25 de Abril e que depois mais se bateu pela democracia é equivalente a parecer ao lado de um traficante de droga, só porque esse militar ousou criticar uma personagem como Passos Coelho.

As directas no PS nem sempre foram um modelo de virtudes, os ataques pessoais dirigidos durante a campanha, com alguns apoiantes de Seguro e o próprio Seguro a fazer insinuações, não poupando mesmo os autarcas. No PSD os candidatos tentam dar lições de cortesia, mas a verdade é que o debate entre os dois apenas serviu para escolher o que tinha mais jeito para dar golpes baixos. O mais incrível é que alguns dos comentadores mais sérios do país consideraram Santana um grande vencedor só porque é mais sujo nos ataques. Triste sorte a de um partido cujo líder se afirma desta forma.