Translate

sexta-feira, 30 de março de 2018

O garfo do Tavares

Opinião

Francisco Seixas Da Costa

Hoje às 00:01

No final dos anos 70, numa visita de trabalho a Jerusalém, permiti-me comentários de analista sobre o conflito israelo-palestino. Um diplomata local retorquiu-me: "Sem aqui ter nascido, é impossível ter uma noção exata da realidade". Poucos anos depois, numa ida turística a Berlim, ainda em tempo de Guerra Fria, mandei "bitaites" impressionistas sobre a realidade que se projetava no muro. Um berlinense ocidental, com muita memória sofrida, disse-me uma frase idêntica. Um dia, em 2003, em Seul, num almoço com Ban Ki-moon, que me parecia ainda longe de sonhar ser secretário-geral da ONU, fiz juízos de valor sobre as razões no conflito coreano. E lá surgiu de novo a tal máxima. Há dois anos, numa visita à Estónia, procurei desdramatizar, numa conversa com um académico local, a tensão com a Rússia: "Sem aqui ter nascido, é impossível ter uma noção exata da realidade".

Não sei que "exatidão" existia na visão comprometida de todos aqueles meus interlocutores - e tive conversas similares em outros cenários de conflito. Uma coisa tenho por certa: se acaso tivesse falado com quem estava do outro lado da barreira, a narrativa seria contrastante, mas a frase seria porventura a mesma. A cultura emocional modela as razões e, por definição, embota a racionalidade. Mas, na teoria da negociação, também se aprende que as emoções são parte integrante da economia dos conflitos, que nunca se resolvem sem as ter em conta. Por esse motivo, a objetividade do observador distanciado é, as mais das vezes, uma virtude que serve de muito pouco.

Vem isto a talhe de foice, imaginem!, a propósito do Brasil. Há uns tempos, um grande amigo brasileiro, de visita a Lisboa, quis jantar comigo no restaurante Tavares. Perdi o amor à bolsa e verguei-me à memória "ecista" (no Brasil, não há "queirosianos") do local, que também dizia muito ao meu parceiro de refeição. E até lhe apontei a mesa em que tivera lugar uma famosa conversa, embora sem consequências históricas evidentes, entre o antigo presidente Juscelino Kubitschek e o plumitivo conservador Carlos Lacerda. O nosso "papo" ia bom até ao momento em que fiz vir à baila o nome de Lula. O meu amigo tinha sentimentos muito fortes sobre aquela figura. Vi a cara dele ficar encarnada - e não era da pimenta numa qualquer iguaria, nem do calor da sala. Olhando-lhe a mão, vi-o torcer lentamente, com silenciosa fúria, um garfo, até o utensílio ficar em ângulo reto. No instante, percebi que, também ele, me queria dizer, com a sua raiva, que eu não tinha direito a ter uma opinião sobre uma realidade a que não pertencia. Pelo menos, uma opinião diferente da dele...

* EMBAIXADOR

Os símbolos da Páscoa, da Vera Cruz ao coelho, passando pelo ovo

3/4/2015, 11:07101

A Páscoa é uma celebração milenar que precede a morte de Jesus. A sua história está cheia de símbolos, que vale a pena conhecer. E o ovo da Páscoa, vem de onde?

Esta sexta-feira celebra-se a morte de Jesus. Domingo, marca-se a sua ressurreição.

AFP/Getty Images

Autor

A partir do primeiro domingo a seguir ao Carnaval e durante seis semanas, os cristãos preparam as festas solenes para a Páscoa, que dura oito fins de semana. É a época da Quaresma, uma altura de sacrifício, reflexão e de devoção para todos os crentes na Bíblia Sagrada. O Observador explica-lhe a versão bíblica dos factos, a busca pela Vera Cruz e o simbolismo por trás do coelho e dos ovos de chocolate.

A história da Páscoa, segundo a Bíblia Sagrada

MILAN,ITALY - MAY 24: A photo released 24 May 1999 showing Leonardo da Vinci's 'The Last Supper' after restoration in Milan's Santa Maria delle Grazie church. The public will again be abto view the fresco 27 May 1999 after 21 years of restoration works. Some art critics claim the painting has been damaged by the restoration. (Photo by: AFP/Getty Images)

A última ceia

Na última noite antes da celebração da Páscoa, Jesus juntou-se num jantar com os seus discípulos. Esta reunião corresponde à noite de quinta-feira santa. Segundo a Bíblia, Jesus terá sugerido que sabia que um dos seus seguidores mais próximos iria revelar a sua localização aos fariseu: “em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!” e revelou a sua identidade quando entregou a um dos discípulos o único pedaço de pão ensopado em vinho: tratava-se de Judas Iscariotes.

O discípulo Judas saiu muito pouco tempo depois carregando uma bolsa com dinheiro. Após deixar alguns conselhos aos seus restantes discípulos, Jesus também saiu. Simão Pedro questionou o seu líder sobre o lugar para onde se dirigia e foi nesta altura que Jesus assumiu: Pedro havia de o negar três vezes antes de amanhecer. Entretanto, deixou também uma mensagem de esperança para os seus seguidores: “não vos deixarei órfãos; Eu voltarei a vós!”.

Monte das Oliveiras

Jesus dirigiu-se então para o Monte das Oliveiras com os seus discípulos e ordenou-lhes que não dormissem, mas que passassem a noite a orar para que “não caiam em tentação”. Depois, afastou-se dos seus seguidores e terá pedido a Deus que afastasse dele “este cálice”. Ouvindo estas palavras, Jeová terá enviado um anjo para junto do seu filho, que estava num grande sofrimento físico. Entretanto, os discípulos haviam adormecido enquanto oravam.

Actors perform the Passion of Christ during Good Friday, in Castro Urdiales, province of Cantabria in northern Spain on April 18, 2014. Living Passion is a representation of the Passion of Christ from the last supper to his crucifixion, death and resurrection.   AFP PHOTO/ CESAR MANSO        (Photo credit should read CESAR MANSO/AFP/Getty Images)

A decisão

Judas revela a identidade de Jesus quando o beija na face. É imediatamente preso no Jardim de Getsemani, de onde os fariseus o levam para confrontar os seus líderes, debaixo de acusações de blasfémia. E os líderes religiosos reafirmam a sentença de morte.

Pôncio Pilatos era o imperador do Governo Romano na Palestina. Cabia-lhe a ele decidir entre a crucificação ou a libertação de Jesus, mas a opinião do povo estava demasiado dividida e Pilatos não queria tomar mais uma decisão que pusesse o seu lugar político em risco. Por isso, o imperador remete a decisão para o rei Herodes, que devolve o caso para Pilatos. Foi então que o público foi consultado: deve Jesus ser morto em vez de Barrabás? O povo disse que sim. E o destino de Jesus foi traçado.

An actor performs the Passion of Christ during Good Friday, in Castro Urdiales, province of Cantabria in northern Spain on April 18, 2014. Living Passion is a representation of the Passion of Christ from the last supper to his crucifixion, death and resurrection.   AFP PHOTO/ CESAR MANSO        (Photo credit should read CESAR MANSO/AFP/Getty Images)

Paixão de Cristo

Jesus é entregue à violência dos soldados romanos e é brutalmente espancado e flagelado. Pilatos trava as agressões e volta a apresentar Jesus ao povo, procurando saber se o sofrimento a que o líder dos cristãos tinha sido submetido era suficiente para castigar os crimes de blasfémia. Não era: “crucifica-o!”, gritou o povo. E Jesus foi apresentado à cruz onde ia entregar a vida por amor ao próximo e para garantir a esperança de renovação humana, de acordo com as crenças cristãs.

Desde o centro de Jerusalém até ao chamado Lugar da Caveira, Jesus foi de novo flagelado continuamente e coroado com espinhos, numa atitude irónica dos romanos pelo facto de os seus seguidores o considerarem “o rei dos judeus”. Foi apedrejado, suportou chicotadas e foi obrigado a carregar às costas a cruz. Uma vez no monte, Jesus foi pregado à cruz nas mãos e nos pés. Pediu água: deram-lhe vinagre. E sucumbiu à morte, perante a agonia dos seus discípulos e da sua família.

A ressurreição

Jesus é sepultado, depois de três dos seus discípulos terem pedido a Pilatos autorização para levar o corpo do seu líder e de o líder dos judeus ter sido envolvido numa toalha de linho. Era sexta-feira.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo e estranhou quando viu a pedra movida. Perplexa, a mulher chamou Simão Pedro e outro discípulo, “o que Jesus amava”, segundo a Bíblia. Disse-lhes que o túmulo estava vazio e que não sabia onde poderia estar o corpo. Quando chegaram ao local, encontraram apenas os panos de linho onde Jesus tinha sido sepultado.

Inconformada, Madalena chorava à entrada da sepultura. Quando voltou a olhar para o local onde estava o corpo do seu Senhor, viu dois anjos. Quando se afastaram, Madalena pode ver de novo Jesus que a reconfortou dizendo que havia ressuscitado e que ia para junto de Deus. Mais tarde, Jesus materializou-se perante os discípulos.

Jesus (below) is dragged to the cross during a re-enactment at World Youth Day at Barangaroo in Sydney on July 18, 2008. The "stations of the cross" re-enactment of the last days of Jesus Christ's life, was being held at some of Sydney's most famous sites and had been expected to draw between 350,000 and 450,000 spectators, organisers said.   AFP PHOTO / Greg WOOD (Photo credit should read GREG WOOD/AFP/Getty Images)

A história que a cruz carrega

Sacrifício. Devoção. Derrota. Paixão. A cruz transporta um significado muito vigoroso na cultura cristã, mas foi durante muito tempo remetido para a sombra. Agora, a história por trás da cruz renasceu das cinzas, pelo menos durante breves momentos: em julho de 2013, uma equipa de arqueólogos turcos encontrou um cofre numa igreja com 1350 anos que parece conter uma parte da cruz onde Jesus foi pregado. Segundo a CNN, a descoberta foi conseguida pelo trabalho da historiadora e arqueóloga Gülgün Köroğlu, mas o entusiasmo rapidamente deu lugar à desilusão: o cofre estava afinal vazio.

A cruz de Jesus é um dos símbolos da perseguição que Jesus de Nazaré sofreu antes de morrer, aos 33 anos. Em última instância, é uma insígnia para a fé que é nutrida por 2 mil milhões de pessoas em todo o mundo. Mas será possível encontrar partes da cruz 1982 anos depois da morte de Jesus? Ou os anúncios que são feitos a estas pessoas procuram apenas alimentar uma reconfortante convicção?

Em busca da Vera Cruz

Tudo começou no império romano de Constantino, o primeiro líder a converter-se ao cristianismo e que mandou a mãe, Santa Helena, para a terra santa com a missão de procurar objetos que tenham pertencido a Jesus. Quando a mulher chegou a Jerusalém, encontrou o país ainda devastado pela guerra que os judeus travaram. Depois de derrotar Israel, o imperador romano Adriano levantou um templo pagão por cima do sepulcro de Jesus, o que constituiu um grave insulto aos fiéis do Cristianismo.

Então Helena ordenou a destruição desse templo e começou a procurar relíquias que pudessem pertencer a Jesus de Nazaré. Entretanto, os seus trabalhadores anunciaram a descoberta de três cruzes, em conformidade com os Evangelhos, o que indicou que Jesus foi crucificado entre dois criminosos. O objetivo agora era descobrir qual delas pertencia ao filho de Deus.

O historiador Rufino de Aquileia relatou que Helena levou uma mulher à beira da morte para o local da descoberta, numa experiência para encontrar a Vera Cruz. Pediu então à moribunda que tocasse uma das cruzes e nada aconteceu. Ao tocar a segunda cruz, o seu estado não melhorou. Mas o historiador conta que, ao tocar a terceira cruz, a mulher recuperou. E toda a gente acreditou que aquela seria a Vera Cruz.

Helena dividiu a cruz: uma parte permaneceu em Jerusalém e outra terá sido transportada para a Europa. E uma vez nestas bandas, o que restava da cruz de Jesus foi segmentada em porções tão pequenas que John Calvin, um teólogo francês do século XVI, disse: “se todas as peças pudessem ser encontradas e unidas, formariam um grande navio de carga. E mesmo assim, os Evangelhos testemunham que um único homem conseguiu carregá-la”.

Crucificações: um silêncio ensurdecedor da arqueologia

Não há registos bíblicos do aspeto da cruz, mas haverá forma de o revelar? A ciência debruçou-se sobre esta questão. No século XIX, o arquiteto francês Charles Rohault de Fleury determinou que a Vera Cruz pesaria quase 75 quilogramas e mediria entre três e quatro metros de altura. A haste onde foram pregadas as mãos devia ter dois metros de comprimento. E perante as análises que fez aos pedaços da Vera Cruz a que teve acesso, Fleury concluiu que ela seria feita de madeira de pinheiro.

Ao microscópio foram também analisadas quatro porções e entre dez que pertenciam à Vera Cruz e que vinham acompanhadas por documentos do Império Bizantino. A origem desses pedaços estava nas igrejas mais significativas da Europa: Santa Cruz (Roma, em Itália), Notre Dame (Paris, em França), Catedral de Pisa e de Florença (em Itália). Mas os cientistas descobriram que essas porções eram de madeira de oliveira.

A lacuna de material da época da crucificação de Jesus é uma realidade no trabalho dos arqueólogos. Algo inacreditável, já que o modo como o profeta cristão perdeu a vida não era inédita para aquela altura: houve alturas na história de Jerusalém que 500 pessoas eram mortas pregadas a uma cruz. Na verdade, a primeira – e única – evidência deste modo de punição foi descoberta apenas em 1968, quando um grupo de arqueólogos encontrou um osso de calcanhar de um homem crucificado.

Israel Hershkovitz, do Museu Israelita em Jerusalém e professor de anatomia e arqueologia na Universidade de Tel Aviv, revelou que estas amostras foram encontradas numa zona de enterro de judeus num subúrbio a norte de Jerusalém. E acrescentou que nesse local estava a colina onde os romanos praticavam as crucificações.

As análises ao osso deram um nome ao homem que deixou uma pista no caminho em direção à Vera Cruz: Yehohanan teria por volta de 25 anos e terá nascido no seio de uma família com posses, já que não era comum que as famílias menos abastadas pudessem pagar um enterro. A exceção talvez tenha sido o corpo de Jesus, cujo enterro foi financiado por José de Aritmeia.

Quanto à composição da cruz, Hershkovitz não crê que ela fosse feita de madeira de oliveira: esta árvore era demasiado fundamental na alimentação da época para ser desperdiçada nestas punições. Nem a sua robustez era suficiente para suportar o peso de um humano.

Os pedaços de Vera Cruz multiplicaram-se ao longo do tempo. Existem amostras da cruz em Itália, Espanha, França e até na Pensilvânia. E até no site de compras online eBay pode encontrar anúncios que clamam possuir partes da Vera Cruz, acompanhadas inclusivamente com documento a atestar a sua suposta autenticidade.

LEHDE, GERMANY - APRIL 03:  Painted easter eggs in traditional Sorbian motives are pictured on the season opening of the open-air museum Lehde on April 3, 2010 in Lehde, near  Lubbenau, Germany. Easter egg painting is a strong part of Sorbian tradition and visual elements within the painting are meant to ward off evil. Sorbians are a Slavic minority in eastern Germany and many still speak Sorbian, a language closely related to Polish and Czech.  (Photo by Andreas Rentz/Getty Images)

De que toca saiu o Coelho da Páscoa?

Antes de saber a origem da personagem do Coelho da Páscoa enquanto símbolo da celebração moderna desta data, convém começar pela origem etimológica da palavra. É que “Páscoa” vem do latim Pascae e do grego Paska. Mas a origem mais remota vem dos hebreus, onde Pesach significa literalmente “passagem”. A escolha da palavra não é estranha: para os cristãos, a celebração da Páscoa marca a esperança de uma nova vida, um recomeço e a crença tanto na ressurreição, como na segunda vinda de Jesus à Terra.

Mas a Páscoa não é uma festa exclusiva dos cristãos e tem importância para o Judaísmo também. Esta celebração marca a libertação dos judeus, quando saíram de Jerusalém onde estavam aprisionados. Liderados por Moisés, os judeus atravessaram o Mar Vermelho, conforme escrito no livro Êxodo, no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada. Isto aconteceu por volta de 1250 a.C., muito antes da história da morte de Jesus.

Ora, o coelho é símbolo da fertilidade porque se reproduz em grandes quantidades num curto espaço de tempo. É preciso lembrar que a época em que se desenrolaram estes acontecimentos foi marcada por altas taxas de mortalidade. O coelho veio significar o nascimento, a perpetuação da vida, à semelhança dos valores celebrados durante a Páscoa.

O chocolate surge na mesma lógica de renascimento e de esperança. E o facto de vir acompanhado com uma surpresa representa a alegria e a expectativa. A própria forma de ovo vem exprimir a forma primária de vida, o reinício. A união dos dois conceitos terá acontecido na cozinha das pastelarias francesas no século XVIII ou durante a revolução industrial do século XIX.

Nova lei da identidade de género vai permitir mudança nome e sexo aos 16 anos

30/3/2018, 10:45387

A proposta de lei do Governo prevê que os jovens de 16 anos possam mudar de nome e de género. Documento vai ser votado a 6 de abril e PSD deverá dar liberdade de voto aos deputados.

A proposta de lei prevê ainda o fim da necessidade de um relatório clínico para a mudança de sexo

AFP/Getty Images

Autor

A proposta de lei do Governo para a identidade de género prevê que os jovens possam mudar o nome e o género no cartão de cidadão aos 16 anos (ao contrário dos atuais 18), com autorização dos pais, avança a edição desta sexta-feira do Expresso. Além da descida do limiar da idade, o documento prevê o fim da necessidade de um relatório clínico para esta mudança, que sejam proibidas as cirurgias a bebés intersexo ( não ser que estejam em causa motivos de saúde) e que as escolas passem a tratar as crianças e jovens pelo género com que se identificam.

O documento vai ser votado no Parlamento a 6 de abril e conta com os votos favoráveis do PS, Bloco de Esquerda, PEV, PAN e com a abstenção do PCP. Neste cenário, a aprovação da lei fica dependente de apenas um voto, avança o Expresso. Ao contrário do que era esperado, é provável que o PSD não imponha disciplina de voto contra a proposta e que dê liberdade de voto aos deputados. Neste caso, replicando o que aconteceu com a lei da procriação medicamente assistida, é possível que 20 sociais-democratas votem a favor.

A socialista Isabel Moreira disse ao Expresso que esta lei “é uma lei limpa e clara, que nada tem que ver com tratamentos e processos cirúrgicos”. Já Vânia Dias Silva, do CDS defende que “ao 16 anos, os jovens não têm capacidade de decisão definitiva”.

Nuno Monteiro Pereira, presidente da competência de Sexologia da Ordem dos Médicos, disse ao mesmo jornal que “o problema dos transexuais é viverem numa sociedade que os rejeita” e deu um parecer positivo à proposta do Governo. Explica que em 2017 cerca de 50 pessoas pediram para fazer a cirurgia de redesignação sexual — a maioria eram pessoas que tinham nascido com o género feminino e que queriam passar para o género masculino. Entre 2012 e 2016, foram feitas 38 cirurgias destas em hospitais públicos. Mas entre 2011 e 2017, houve 375 pessoas que mudaram de género no cartão de cidadão.

Há uma nova imagem da estação espacial em queda. Já foi vista em Espanha

29/3/2018, 17:38702

Tiangong-1, a estação espacial chinesa que vai cair na Terra em breve, foi fotografada na Alemanha. Outras imagens já a mostraram em Espanha e em França. Veículo espacial pode reentrar em Portugal.

Agência Espacial Europeia

Autor

A estação espacial chinesa Tiangong-1 foi fotografada pelo instituto alemão Fraunhofer FHR a uma altitude de 270 quilómetros esta quinta-feira. O veículo espacial está em queda livre para a Terra depois de a Administração Espacial Nacional da China ter perdido controlo da máquina em março do ano passado. Esta é a terceira fotografia da estação espacial a ser divulgado após o Departamento das Nações Unidas para os Assuntos Espaciais ter confirmado a queda iminente de Tiangong-1. A segunda foi captada em Espanha.

Tiangong-1 foi fotografada pelo instituto alemão Fraunhofer FHR a uma altitude de 270 quilómetros esta quinta-feira. Créditos: Fraunhofer FHR / Agência Espacial Europeia

De acordo com a Agência Espacial Europeia, que está a divulgar as imagens, as fotografias foram tiradas pelo sistema Tracking and Imaging Radar Radar, um dos mais poderosos do mundo. O veículo espacial, que está desocupado desde 2013 mas que tem um químico corrosivo a bordo usado como propulsante, está a cair a um ritmo médio de 160 metros por dia. Embora não se saiba a hora nem o local em que Tiangong-1 vai reentrar na Terra, sabe-se que isso vai acontecer algures entre a latitude 42,8ºN e 42,8ºS, com maior probabilidade de cair na linha que passa no norte de Portugal ou na que passa a sul da Austrália.

Tudo indica que a maior parte das peças vai destruir-se ao atravessar a atmosfera por causa das altas temperaturas, do desgaste e da fricção, mas as peças mais resistentes podem chegar até terra. O mais provável é que a maior parte delas venha a cair no oceano porque a maior parte da superfície do planeta é composta por água. As agências já vieram dizer que, em princípio, nenhuma infraestrutura será afetada, mas pedem a toda a gente que não se aproximem de objetos vindos da estação espacial que possa cair em solo por causa do perigo de envenenamento.

A 15 de janeiro de 2016, cerca de nove meses depois das perdas de comunicação entre Tiangong-1 e a agência espacial chinesa, a estação espacial foi vista a passar por cima do sul de Madrid, em Espanha. O observatório de alta tecnologia montado em Puerto de Niefla, no Vale de Alcudia, filmou Tiangong-1 a uma altitude de 280 quilómetros e com recurso a três telescópios controlados remotamente por um astrónomo de serviço em Puertollano, a 35 quilómetros dali. A filmagem foi captada ao longo de um minuto com uma exposição de 10 milissegundos “devido à particular dificuldade de observar um objetivo a uma altitude tão baixa”, explicou a  v.

A passagem da estação Tiangong-1 por cima de Madrid. Créditos: DEIMOS / Agência Espacial Europeia.

Quatro dias antes, a 11 de janeiro, a Agência Espacial Europeia divulgou uma imagem tirada pelo astrofotógrafo francês Alain Figer a 27 de novembro de 2017. A estação espacial tinha sido vista numa estância de ski na região de Hautes-Alpes, no sudeste de França. Tiangong-1 é visível debaixo e à direita do Sol (na perspetiva do fotógrafo) logo por cima do cume do monte Eyssina e foi fotografada com reforço a uma longa exposição de alguns segundos.

Tiangong-1 em França. Créditos: A. Figer

Estado Islâmico. Como Fernanda arrendou um quarto a dois terroristas sem saber

30 Março 2018

Sónia Simões

O ex-polícia marroquino que está preso em Monsanto e que foi formalmente acusado de crimes ligados ao terrorismo viveu em Aveiro num quarto arrendado a uma mulher que desconhecia as suas ligações.

Partilhe

Disseram-lhe que seria uma pessoa honesta e que estaria em Aveiro para estudar línguas. Fernanda, 72 anos, com uma apertada reforma de 340 euros e um quarto livre, decidiu abrir-lhe a porta a troco de 100 euros por mês. Por pena, até lhe lavava a roupa. Só mais tarde descobriu pela polícia que o homem que acolheu em casa se dedicava a angariar jovens em Portugal para integrarem as fileiras do Estado Islâmico (EI).

O arrendamento começou em 2014. Salim, como se identificou, foi-lhe recomendado por um amigo que acumula as funções de oficial de justiça com as de agente imobiliário. À PJ este amigo disse que provavelmente Salim respondeu aos anúncios de alojamento que publica na internet, como tantos outros estudantes em Aveiro. E que assim o recomendou. Salim aparentava ser um homem de 45 anos. Educado, disse estar naquela cidade para estudar línguas, que era tradutor, mas que precisaria de duas camas no quarto.

Fernanda, 72 anos, arrendou um quarto na sua casa a dois homens que pensava estarem a estudar línguas em Aveiro. Só quando foi chamada pela polícia percebeu que podiam ter ligações a uma organização terrorista.

Como Fernanda não dispunha de duas camas, o hóspede contentou-se com dois colchões no chão. O segundo colchão viria a servir mais tarde para um outro amigo, mais novo, que se juntou a ele. Só quando a PJ descobriu a verdadeira identidade desta dupla percebeu tratar-se de Abdesselam Tazi, 64 anos, atualmente preso na cadeia de Monsanto e de Hicham El Hanafi, 26 anos, entretanto detido em Marselha (França) por suspeitas de estar a planear um ataque terrorista naquele país.

A PJ apercebeu-se da presença destes suspeitos em território nacional um ano depois de eles terem arrendado um quarto a Fernanda. Ainda fizeram vigilâncias à casa da mulher, já reformada, mas como não encontraram ninguém “suspeito” acabaram por entrar em contacto com a proprietária da casa. Do depoimento que prestou às autoridades, e que consta no processo que o Observador consultou, percebe-se que Fernanda desconhecia que os homens que albergou em casa a troco de 100 euros estivessem ligados a qualquer atividade criminosa.

Fernanda contou que os dois homens tinham acesso a toda a casa. Que por vezes o mais velho estudava na mesa da cozinha e que até consultava um dicionário em português. Tinham um computador e, mais tarde, ela até arranjou ligação à internet. A mulher desconhece como ganhavam dinheiro, mas nalguns atrasos pontuais na renda Salim dizia que estava à espera que lhe enviassem dinheiro de Marrocos. Salim, que afinal é Abdesselam Tazi, falava em português, mas também dominava o francês e o inglês.

Eram os dois hóspedes que compravam os seus alimentos e que cozinhavam e diziam que queriam ficar em Portugal porque era um “país calmo”. Diziam a Fernanda que queriam arranjar mulher, mas ela nunca lhes conheceu uma namorada. Segundo ela, ambos falavam muito em Alá, “que diziam ser o Deus deles “e tentavam convencê-la a acompanhá-los à igreja”. “Diziam para não pedir nada a Jesus mas a Alá, com as mãos viradas para cima”, recordou Fernanda.

À noite era frequente irem às compras, jogar futebol, ao pião ou fazer caminhadas em Aveiro. Fernanda chegou a acompanhá-los algumas vezes em passeios pelo Fórum Aveiro. Nunca se apercebeu de qualquer comportamento que os pudesse ligar ao terrorismo mas, na verdade, também nunca percebeu em que instituição estavam alegadamente a estudar línguas.

A senhoria contou às autoridades que era normal Salim se ausentar por alguns dias. Ele dizia que ia visitar amigos ao Porto ou a Coimbra. Chegou mesmo a falar na visita a um filho. Numa dessas ausências, Fernanda chegou a trancar a porta do quarto até ao seu regresso. Nesse episódio, recordou, Salim acabou por regressar a casa “aflito” porque se tinha esquecido de algo. Explicou que estava com pressa, que tinha um táxi à espera e que iria apanhar o avião no Porto. Ela não sabe para onde.

Abdesselam Tazi, 64 anos, está preso na cadeia de Monsanto e foi agora formalmemte acusado de vários crimes relacionados com terrorismo. É suspeito de recrutar outros marroquinos para integrarem as fileiras do Estado Islâmico. Um deles terá sido Hicham El Hanafi, 26 anos, que partilhou com ele quarto em Aveiro e que acabou detido em 2016 em França, por suspeitas de estar a preparar um ataque terrorista.

Pouco antes de a PJ ter a informação da sua presença e das suas funções em Portugal, em junho de 2015, Salim saiu de casa sorrateiramente durante a madrugada. O amigo estava nessa altura a trabalhar no Algarve, segundo contaram. Fernanda estava a dormir quando ouviu a porta bater. Foi a correr ver o que se passava e ainda encontrou Salim nas escadas, de mochila às costas e um saco em cada mão. “Então vai embora sem se despedir e sem me devolver a chave?”, terá perguntado. O marroquino, agora acusado de crimes ligados ao terrorismo, disse que não queria acordá-la e que levaria a chave porque teria que regressar para buscar alguns bens que ali deixara. Fernanda não permitiu que ele fosse embora com as chaves. E ele aceitou.

Pouco depois deste depoimento, a PJ acabou por colocar os telefones de Fernanda sob escuta. Salim chegou a contactá-la várias vezes por causa da correspondência que recebia ali em casa. À polícia, Fernanda contou que era ela quem lavava a roupa dos dois marroquinos. Disse que tinha “pena” de ambos. Que Salim andava sempre muito “bem vestido”, de fato, mas que muitas vezes lhe trazia roupa para lavar parecida com “a dos padres”.

Quem é Abdesselam Tazi?

Também conhecido por “Salim Adam”, Abdesselem Tazi tem 64 anos e foi polícia em Marrocos. A polícia acredita que chegou a Portugal a 23 de setembro de 2013, vindo da Guiné, num voo para o qual usou uma identidade falsa. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras descobriu-o e acabou por detê-lo. Tazi acabaria por pedir asilo ao Estado português, alegando ser politicamente perseguido em Marrocos. Nessa semana, Tazi ficou no Centro de Instalação Temporária de Lisboa. A 1 de outubro foi-lhe concedido o pedido de asilo e foi levado para o Centro de Acolhimento para refugiados da Bobadela, em Sacavém.

Durante esse mês, segundo revelaram algumas funcionárias do Centro ao Ministério Público, Tazi revelou-se um “senhor, uma pessoa muito digna, muito calmo”, explicou uma das técnicas. Mas, para as autoridades, aquele foi o local usado para recrutar jovens para integrarem o Estado Islâmico. O suspeito acabaria, depois, para passar para a tutela da Segurança Social de Aveiro, tendo ficado num centro social até arrendar um quarto a Fernanda.

Segundo o despacho de acusação agora proferido, o arguido apresentava-se em público com uma “postura ortodoxa/fundamentalista, dedicada ao Islão, com fortes sinais de radicalismo islâmico e de defesa do silabismo Jihadista violento”. Crenças que, ainda de acordo com o Ministério Público, o levaram a aderir à organização terrorista designada por ISIL, também conhecido como o autoproclamado “Estado Islâmico” ou pelo acrónimo Daesh. Assim, o arguido começou a dedicar-se ao recrutamento de jovens marroquinos para integrarem a luta jihadista na Síria, assim como possíveis ataques terroristas na Europa.

Os dois suspeitos tinham também residência na Alemanha, onde Tazi foi detido e depois extraditado para Portugal. Por cá foi o país da Europa escolhido para pedirem asilo e obterem autorização de residência, para depois poderem viajar pela Europa.

As autoridades chegaram a ter o suspeito debaixo de olho e a fazer vigilâncias, mas sem indícios suficientes para o deter, acabariam por perdê-lo de vista. O suspeito chegou a entrar e a sair de Portugal diversas vezes. E até foram feitas várias buscas em locais onde Tazi pernoitou (alguns deles foram pensões em Aveiro e no norte do País), em que se apreenderam diversos documentos em árabe. Foram também colocados vários telemóveis sob escuta. As autoridades apuraram que, em 2011, Tazi tinha estado na Turquia, que não estava referenciado na lista de terroristas designados pela ONU, pelo que passou a usar a organização terrorista a partir de Portugal. E concluíram que tinha como funções “auxiliar e financiar a deslocação de cidadãos marroquinos para a Europa e em obter meios de financiamento para a causa jihadista”, descreve a acusação.

Tazi dava assim apoio logístico a jovens marroquinos para que eles conseguissem asilo político em Portugal e depois tentava convencê-los a integrarem a luta jihadista. Durante a estadia nos países onde pediam asilo (que não terá sido apenas Portugal), era Tazi quem pagava as despesas de alojamento e alimentação dos jovens “dando início ao processo de doutrinação”. As autoridades identificaram uma dezena de marroquinos que terão recebido ensinamentos do agora recluso da cadeia de Monsanto, a maior parte passou pelo centro da Bobadela.

As autoridades portuguesas, através da cooperação internacional, perceberam que o suspeito passou pela Alemanha, Reino Unido, França, Brasil, Holanda, Espanha e que voltou a Portugal. Mas foi na Alemanha que acabou detido a 1 de julho de 2016 por fraude informática, por causa da utilização de cartões de crédito. Aliás, segundo o Ministério Público, o suspeito tinha residência na Alemanha. Como o crime pelo qual foi detido devolve-lo-ia à liberdade pouco depois, as autoridades apressaram-se em emitir um mandado de detenção europeu.

O suspeito acabou por ser entregue a Portugal em março de 2017, onde no processo que corria contra ele constavam já vários documentos que provavam que falsificou documentos com identidades furtadas para conseguir financiamentos junto de instituições de crédito. Um dos lesados, que o suspeito tinha conhecido num centro social de Aveiro, chegou a ser contactado por Tazi para que lhes arranjassem mulheres com quem casassem.

Abdesselem Tazi, que ficou em prisão preventiva em março de 2017, é agora acusado de um crime de adesão a organização terrorista internacional, um crime de falsificação com vista ao terrorismo, quatro crimes de uso de documento falso com vista ao financiamento de terrorismo, um crime de recrutamento para terrorismo e um crime de financiamento do terrorismo.

Quando foi presente a tribunal remeteu-se ao silêncio. Mas, meses depois, mandou várias cartas da cadeia do Monsanto para jornais e entidades (governantes, juízes, procuradores e responsáveis da PJ). Diz que tudo não passa de uma “mentira” orquestrada por três marroquinos a quem recusou esconder droga, que não é terrorista e pede a libertação. O juiz de instrução, Carlos Alexandre, entendeu então ouvi-lo, por considerar que se calhar já estaria disponível para prestar esclarecimentos. No entanto o arguido “limitou-se a negar, de forma inconsistente, a prática dos factos de cuja prática já se encontra indiciado”, lê-se num relatório do Ministério Público que consta no processo e assinado em maio de 2017.

Quem é Hicham El Hanafi?

Hicham El Hanafi chegou a Portugal no mesmo voo que Tazi e, segundo as autoridades, seguindo a sua estratégia de pedir asilo, acabou por ser igualmente recebido no centro da Bobadela ao mesmo tempo que Tazi. Depois foi viver com ele para casa de Fernanda e dizia chamar-se “Xan”. Antes de chegar a Portugal, Hanafi “levava uma vida normal” em Fez, Marrocos. Trabalhava na restauração, divertia-se e até bebia bebidas alcoólicas. Só em 2013, quando conheceu Tazi, começou a seguir os preceitos religiosos islâmicos aceitando viajar com ele para a Europa. O Ministério Público acredita que este processo de doutrinação foi o primeiro passo para arrancar com um plano de recrutamento que o levaria a passar dois meses na Síria para aprender a combater.

“Hanafi foi instruído pela organização terrorista para regressar à Europa para recrutar novos combatentes e para exercer a Jihad, uma vez que falava várias línguas europeias”, lê-se no despacho de acusação.

Hicham El Hanafi, 26 anos, foi recrutado e doutrinado por Tazi, ex-polícia marroquino, e chegou a passar dois meses na Síria para aprender a combater. Tentar levar toda a família consigo. O pai e o irmão são testemunhas no processo. Está preso em França e a investigação que corre em Portugal contra ele será feita num processo à parte.

As autoridades apuraram que Tazi e Hanafi chegaram a estar juntos em Paris, em 2014, como atestam fotografias apreendidas durante a investigação. E nas vigilâncias captaram vários momentos em que estão os dois juntos. “O arguido Abdesselam Tazi, juntamente com Hicham El Hanafi, visitavam” pessoas no Centro Português de Refugiados, na Bobadela, e procuravam convencê-las de que teriam “uma vida melhor” caso aderissem ao Daesh.

Hanafi chegou a tentar recrutar o próprio irmão, que também pediu asilo em Portugal. Prometeu-lhe um ordenado de 1800 dólares por mês caso integrasse as fileiras do exército “Foreign Fighters” para combater pela organização terrorista do Estado Islâmico. Mas ele recusou. Disse, depois, à polícia, que ele tinha tentado recrutar toda a família. Que os pais e irmãos chegaram a viajar para a Síria, mas só o pai e um dos irmãos regressaram a Marrocos.

O pai de ambos acabaria por ser ouvido por carta rogatória em Marrocos, explicando que essa viagem se deveu à festa de casamento de Hanafi. E que, por questões familiares, acabaria por chatear-se com a esposa e regressar a Marrocos, não mais tendo tido contacto com a família.

Em julho de 2016 Hanafi acabaria por ser detido em França por suspeitas de estar a preparar um ataque terrorista. Foi apanhado a comprar armas. Em Portugal, apesar de ser suspeito neste inquérito, as autoridades decidiram que, enquanto não recebem as respostas das cartas rogatórias enviadas a outros países, não iam avançar com a acusação. Hanafi será investigado num inquérito à parte com outros suspeitos com quem se relacionavam e que também estão na mira das autoridades, entre eles Abderramane Bazouz, Addesselam Anbaoui.