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sábado, 31 de março de 2018

País desmembrado

País desmembrado

30/03/2018 by j. manuel cordeiro

(c) jmc

Era um Janeiro frio em Bath, Inglaterra, e procurei um pouco de calor escrevendo um postal aos amigos. Com tantas possibilidades de satisfação instantânea, incluindo a de estarmos em  contacto com quem nos é querido, um postal chegado à caixa de correio traz com ele uma pequena parte de nós que uma fotografia partilhada pelos skypes da modernidade não capturam: aquele breves momentos enquanto compomos uma prosa de ocasião, antecipando o sorriso no destino perante a inspirada lembrança.

Não sabia, porém que a surpresa seria recíproca.

Soube ontem, para minha enorme estupefacção, que o postal tinha acabado de chegar, passados três meses depois de ter sido escrito. Talvez alguém tenha gostado tanto da Abadia de Bath que acabou por adornar o seu posto de trabalho com a minha correspondência. O mais certo, porém, é que lhe tenha acontecido o mesmo que a outras cartas e encomendas que, ultimamente, têm ficado perdidas por entre o caos criado pela diminuição da qualidade do serviço.

Uns correios que já foram exemplares, com entrega garantida no dia seguinte e sem precisarem de envelopes coloridos de azul e outras variantes, estão reduzidos a uma pálida aguarela do que foi uma empresa vibrante. E isto acontece, ironicamente, num momento em que a entrega de encomendas cresce exponencialmente, capaz até, quem sabe, de equilibrar a redução da circulação de cartas. No entanto, a aposta dos CTT foi a criação de um banco, eventualmente por este ser um negócio que pode falir sem que abra falência.

Eis o novo Portugal, nascido da venda de todo o seu valor para pagar os desmandos da banca. Foram privatizações, dizem, para melhorar os serviços e baixar os preços ao consumidor. Aí está, porém, a electricidade e telecomunicações das mais caras na Europa, como constatamos mensalmente pela cartinha chegada à caixa de correio. Esta, note-se, sem meses de atraso.

Um fartar vilanagem

  por estatuadesal

(Maria Teresa Botelho Moniz, in Facebook, 29/03/2018)

cristas_colegios

Bem podiam os senhores dos "colégios privados", com contratos com o Estado no tempo do PSD/CDS, sustentados pelos contribuintes, chiarem e promover todo aquele festival a que assistimos, usando centenas de criancinhas enfiadas em T-shirts amarelas, reivindicando a continuidade do bem bom ...

Porque, está visto, aqueles anos, foram mesmo muito bons para essa gentinha que nos chulou até ao tutano.

Até mete Secretários de Estado da Educação e muita gente em redor na política de pacotilha desses anos. Não digo que estes, os actuais, (afinal, o centrão, até se trata por "tu") sejam melhores , que o não são, mas o PSD em roda livre, e a imoralidade em que se tornou esse partido, hoje, abjecto e letal para o país, a todos os níveis.

Mandaram-nos, emigrar, chamaram-nos piegas e todos os nomes, convenceram-nos que andávamos a gastar, no tempo do Sócrates, acima das nossas posses, porque alguns quiseram imitar os ricos e compraram um plasma a prestações, ou porque tiveram a ousadia de comprar umas gambas para a consoada. E a conversa dessa gente chegou ao miserabilismo total, culpando todas as classes médias, desde a mais baixa à mais melhorada, afinal as classes que pagavam os impostos que aumentaram "brutalmente", para sustentar a corja exploradora e rica, ou aquela que vive de subsídios sem fazer nenhum, e, já agora todo o sistema montado pela classe política, eles próprios, e os amigos do costume.

E, vai-se a ver, e até foi rápido, só foram 30 Milhões que o Ministério Público já contabilizou, que os amigos dos amigos meteram ao bolso, para além de contas bancárias chorudas, dos cruzeiros nas Caraíbas de 25 mil €, das viagens e compras pessoais em artigos de luxo pelo mundo fora, dos jantares de 5 000€, casas, mobiliário, automóveis de alta cilindrada, e por aí fora (Ver notícia aqui). E o Zé, pagava, pagou tudo.

Coitadinhos dos meninos da T-shirt amarela, devem estar a ser vítimas de maus-tratos na escola publica e ter de lidar com todo o tipo de crianças ranhosas, escola onde não praticam equitação, nem esgrima, sem piscinas olímpicas, e, sobretudo, sem custo algum, e estavam muito melhor nas escolas dos amigos dos Relvas e quejandos.

E as mil e tantas escolas privadas, que pertenciam ao mesmo grupo dos quarenta ladrões, construídas em poucos anos, acho até que foram apenas meses, para o efeito do embuste e roubo premeditado e estudado, deixaram de poder continuar a facturar ao Estado e aos contribuintes que não podendo pagar, meteram os filhos nas escolas públicas ou, aqueles que podendo, pagavam e pagam o verdadeiro custo dum colégio privado.

Afinal, era uma burla, uma fraude de aproveitamento de dinheiros públicos, com imensa gente sentada a comer da mesma gamela e ainda fizeram um vendaval, com artifícios e mentiras, esperando virar a opinião pública a seu favor como se razão lhes assistisse.

Párias da pátria.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Pequim ‘’antigo’’

Entre as brumas da memória


Posted: 29 Mar 2018 10:36 PM PDT

Trepei, e muito, para chegar à secção Mutianyu da MURALHA DA CHINA. Vi-a, mas à porta fiz uma vénia respeitosa e dispensei-me de entrar: tal como ir a Meca, há que entrar na Muralha uma vez na vida, a mais não se é obrigado.

Regressei, com prazer à PRAÇA TIANANMEN, o mausoléu de Mao, o Palácio dos Congressos e tudo o resto estão nos mesmos sítios, o que mudou foi que a vi praticamente vazia em 2004 e com magotes e mais magotes de gentes várias desta vez. E retive o silêncio da simpática guia que nos acompanhava com explicações em espanhol: várias vezes interrogada, foi dizendo que dos acontecimentos de 1989 «nada sabia», que nasceu e vivia então na Manchúria, que nada viu, que não se aprende na escola, que há muitos milhões de chineses que nunca ouviram falar desse não assunto. «Não sei nada, não posso saber, não insistam, por favor.»

Na CIDADE PROIBIDA não é fácil tirar fotografias sem dezenas de orientais em exercício de selfies, nem escapar a filas compactas para aceder aos locais mais procurados. Mas continua esplendorosa como sempre.

O Pequim antigo mantém-se igual a si próprio, a humanidade é que vai mudando ao longo dos séculos – e cada vez mais depressa nos tempos que correm. Em 2018, eu vi uma «outra» China.
Muralha da China em Mutianyu:

Praça Tiananmen: Mausoléu de Mao e Palácio dos Congressos:

Cidade Proibida:

Os erros históricos de três filmes que passam sempre na televisão durante a Semana Santa

30/3/2018, 15:55121

"Ben-Hur", "A Paixão de Cristo" e "A Bíblia": os filmes que passam sempre na televisão durante a Semana Santa ensinaram muita coisa. Mas será que todas as histórias estão historicamente corretas?

Diogo Morgado foi Jesus Cristo em 2014

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No Natal, as famílias juntam-se à volta da lareira para assistir aos clássicos que odiamos adorar e que as televisões insistem em repetir todos os anos: “Sozinho em Casa”, “Música no Coração” ou “O Amor Acontece”. É verdade que na Páscoa a tradição cinematográfica é menor; mas isto não impede os canais de televisão de passar os filmes que também já conhecemos de uma ponta a outra. Mais ou menos bíblicos, com mais ou menos catolicismo, mais ou menos factualmente corretos, revemos “Ben-Hur” ou “A Paixão de Cristo” enquanto comemos as tão cristãs amêndoas de chocolate.

Mas será que os filmes da Semana Santa são historicamente corretos? “A Bíblia” – que conta com Diogo Morgado no papel de Jesus Cristo – propõe-se a representar fielmente as histórias e epístolas do livro sagrado. Mas será que as segue à risca? Fomos à procura dos erros históricos de três filmes que passam sempre na televisão durante a semana da Páscoa.

“Ben-Hur”

Este é talvez o maior clássico da Páscoa. Filme de 1959, tem umas retumbantes 3 horas e 44 minutos e venceu uns históricos 11 Óscares. A história de Judah Ben-Hur serve de fio condutor para uma película que não é sobre Jesus Cristo: mas sim sobre o tempo de Jesus Cristo. O filme desenrola-se aproximadamente durante o tempo de vida de Jesus e Judah encontra-o por duas vezes, estando até presente entre a multidão que assiste à sua condenação e que acompanha o caminho até à cruz.

Mas uma das cenas mais marcantes de “Ben-Hur” é depois do protagonista ser tomado como escravo. Propriedade dos romanos, acaba no fundo de um galeão a remar, em conjunto com dezenas de outros escravos, para levar a embarcação avante. A filmagem irrepreensível e a estética de toda a cena tornam-na uma peça maior do cinema mundial. Mas, historicamente, está incorreta.

Os romanos nunca utilizaram escravos para fazer navegar os galeões. De acordo com o Dicionário Clássico de Oxford, “os navios romanos não eram usados para comércio de escravos e a tripulação era composta por homens livres que recebiam um salário”. Os galeões tinham remadores próprios que eram contratados apenas para esse serviço e os escravos só eram utilizados em caso de grande urgência: e, mesmo aí, eram libertados primeiro.

“A Paixão de Cristo”

Em 2004, o filme realizado por Mel Gibson não agradou a toda a gente: ou melhor, não agradou a quase ninguém. Foi criticado pela extrema e exagerada violência e até se fizeram alegações de anti-semitismo. Ao contrário de em “Ben-Hur”, aqui é Jesus Cristo a figura principal e os últimos dias antes da sua morte são o plano de ação. “A Paixão de Cristo” tem muitas leituras horizontais da Bíblia e os erros começam logo no início.

No princípio do filme, Jesus está a rezar no Jardim do Getsémani. Aparece uma figura um tanto ou quanto andrógina – que é supostamente o Diabo – que lhe atira uma serpente. Jesus pisa-a e este episódio é retratado como uma tentação, principalmente pela referência à serpente, numa alusão ao Génesis e a Adão e Eva. Mas as escrituras não dizem nada sobre Jesus ter sido tentado enquanto orava no Getsémani nem sobre ter encontrado alguém.

Uma das cenas que provocou mais dúvidas nos milhões de curiosos que correram para as salas de cinema é quando fica implícito que Jesus inventou a mesa de jantar. Sim, é isso mesmo. Jesus de Nazaré, que, tal como o pai, aprendeu o ofício de carpinteiro, constrói uma mesa. Maria, a mãe, comenta que é muito alta e que as pessoas terão de comer de pé. Jesus responde: “Eu vou fazer cadeiras”. E Maria atira:“Ninguém se vai habituar a isso”. Pois é, afinal, o filho de Deus também era um inventor. Escusado será dizer que não há qualquer menção a esta “invenção” na Bíblia ou em qualquer documento histórico.

Por fim, a crítica mais vezes tecida a “A Paixão de Cristo” é a extrema e exagerada violência. O episódio da Paixão de Cristo e o seu caminho até ao Calvário são retratados na Bíblia com especial atenção à mensagem e aos atos de solidariedade e amor que acontecem ao longo do percurso: Verónica, Simão, as mulheres. Ao invés disso, Mel Gibson foca-se única e simplesmente na tortura física e leva-a ao extremo, tornando o filme num banho de sangue.

“A Bíblia”

Chegou em 2014 e teve um especial impacto no nosso país porque Jesus era Diogo Morgado. Ou melhor, Diogo Morgado era Jesus. Começou como uma mini-série do canal História mas acabou por ter tanto sucesso que foi adaptado aos cinemas. Jesus Cristo é uma figura central, é certo, mas “A Bíblia” retrata as histórias e epístolas mais importantes do livro sagrado, desde a entrega de Noé até ao Apocalipse de João.

Ainda que o filme tenha recebido vários elogios pela factualidade histórica, existem alguns erros. Um deles está relacionado com os três reis magos: tal como aconteceu com tantas outras coisas, a versão bíblica da chegada dos reis magos a Belém e ao sítio onde Jesus tinha nascido foi adulterada e a história que todos conhecemos não é necessariamente a mais real. De facto, reis magos visitaram o recém-nascido filho de Maria e José; mas a Bíblia nunca indica quantos são. O filme apresenta-nos três e, além disso, coloca-os a chegar em conjunto com os pastores – no livro sagrado, os reis magos perderam-se pelo caminho e chegaram semanas depois de Jesus ter nascido.

Outra das falhas histórias é a representação da captura de João Batista. No filme, João é preso e morto por estar a dizer a uma multidão que um Messias chegou para salvar o povo judeu da opressão dos romanos. Na Bíblia, João Batista é detido depois de gritar a quatro ventos que o rei Herodes traiu a mulher com a esposa do irmão – mas nunca executado.

Por fim, um simples problema de localização: quando Jesus é tentado pelo Diabo no deserto, é levado para o pináculo de um templo e incentivado a saltar. Em “A Bíblia”, é-lhe pedido o mesmo, mas num penhasco.

O sermão da PSP aos ladrões

RELIGIÃO

30/3/2018, 4:18118

O sermão policial do Porto não é a prova de uma qualquer invasão religiosa do Estado, mas, ao contrário, um sinal de como a ideia de religião ainda não recuperou da sua degradação laicista.

Tanto quanto sei, nenhum dos nossos grandes pregadores, nem Santo António, nem o Padre António Vieira, pregaram aos ladrões. Aos peixes, sim. Mas aos ladrões, não. Foi preciso, ao fim de muitos séculos, um engenhoso agente da Polícia de Segurança Pública do Porto para os ladrões poderem finalmente disfrutar da distinção concedida aos peixes. O sermão foi filmado, como hoje parece que acontece a quase tudo, e passou logo às redes sociais, como também é costume com tudo o que é filmado. Mas acontece que não estamos no século XII, nem no século XVII. O Estado actual tem superstições, mas não tem religião. Por isso, o comando da PSP decidiu proceder ao proverbial inquérito. O polícia já notou entretanto que não tentara converter ninguém. Fora apenas um ardil (“estratégia”) para forçar os ladrões a revelar o esconderijo dos objectos furtados.

Não sabemos se o estratagema impressionou os detidos. Mas alarmou as redes sociais, sobretudo as rondas da noite do velho laicismo. Sem razão. A PSP do Porto não é um foco de missionação. O que se passou na esquadra correspondeu muito bem à ideia que da religião faziam as elites mais secularistas do século XIX, depois das revoluções liberais. Havia quem quisesse simplesmente substituir a religião pela ciência, mas até alguns livre-pensadores, por mais urticária que lhes suscitasse o clero, eram capazes de valorizar as velhas crenças como instrumento para inspirar temor e reverência. Sabiam que nem toda a população conseguiria chegar à moral apenas por via da “razão”. Isso era para os cavalheiros ilustrados. Os outros – pobres, crianças e, claro, mulheres – precisavam supostamente do estímulo do sobrenatural para se portarem bem, como terá pressentido o polícia portuense.

O sermão policial não é, portanto, prova de uma qualquer invasão religiosa do Estado, como temeram os fariseus do secularismo, mas, ao contrário, um sinal de como a ideia de religião ainda não recuperou da sua degradação laicista desde o século XIX. Tolerada como simples disciplina social para espíritos considerados fracos, a religião foi logicamente imaginada como uma ausência de dúvidas, uma anestesia para as incertezas (o “ópio do povo”). Por isso, a palavra religião é utilizada hoje para descrever tudo aquilo que é vivido ou em que se acredita com excesso e cegueira, sem admitir discussão, como o clubismo do futebol. Como se a religião consistisse necessariamente em fanatismo ou sectarismo. Não por acaso, aliás, o polícia pregador teve de desmentir que pertencesse a alguma “seita”.

É verdade que muitos regimes religiosos tiveram — e têm — aspectos de ritualismo e de intolerância. Isso, porém, também aconteceu — e acontece — com muitos regimes laicistas. No entanto, uma tradição religiosa como o cristianismo incluiu igualmente dúvida, análise e debate. Não foi só “inquisição”, como queria a mais ingénua propaganda anti-clerical. A religião, até na medida em que remetia para a revelação divina e a transcendência da humanidade, sugeriu sempre interrogação, mistério e perplexidade. Sim, foi consolação e conforto, mas foi também a via para algumas das mais desassombradas reflexões sobre o mal e os limites da humanidade, sem as ilusões das ideologias do progresso sobre a possibilidade de restaurar o paraíso terrestre por mera vontade humana. Na época contemporânea, parece termos perdido essa noção. Mas num tempo em que Boa Páscoa tende a significar apenas boas férias, não devemos esperar que a religião, sobretudo numa esquadra de polícia, signifique mais do que uma “estratégia” para recuperar objectos furtados.