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domingo, 13 de maio de 2018

Cientistas portugueses pelo mundo com regresso adiado

De uma ponta à outra do mundo há cientistas portugueses que estudam galáxias, doenças, escritos antigos e fogos florestais, uns com os olhos postos num possível regresso a Portugal, se melhores oportunidades surgirem, outros sem razões para tal.

Cientistas portugueses pelo mundo com regresso adiado

© iStock

Notícias ao Minuto

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ECONOMIA CIÊNCIA

Não se sabe ao certo quantos investigadores portugueses vivem e trabalham no estrangeiro. As estatísticas oficiais cingem-se ao número de bolseiros a desenvolverem projetos científicos temporariamente em instituições estrangeiras, não incluindo os cientistas que, por sua iniciativa, emigraram.

Em abril, de acordo com dados da Fundação para a Ciência e Tecnologia, principal entidade nacional que financia bolsas de formação científica, havia 184 bolseiros com planos de trabalho a decorrerem exclusivamente em laboratórios ou universidades fora de Portugal, a maioria no Reino Unido, a maioria com bolsas de doutoramento.

Num relatório preliminar de fevereiro, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) considerava "particularmente problemática" a falta de informação sobre os doutorados portugueses que trabalham no estrangeiro, propondo o seu registo numa base de dados.

Uma ronda pela plataforma digital GPS da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que coloca os investigadores portugueses no mapa e que totaliza mais de mil pessoas inscritas a título voluntário, permitiu descobrir que se faz ciência com cunho português em todos os continentes (com exceção da Antártida, mas onde Portugal já teve cientistas, na Estação Halley).

Em vésperas do Dia Nacional dos Cientistas, que se comemora na quarta-feira, a Lusa 'deu uma volta ao mundo' pela mão dos investigadores portugueses na diáspora, para perceber o que fazem, o que os motiva a trabalhar no estrangeiro e o que pensam, à distância, da ciência feita em Portugal pelos portugueses.

A opinião é consensual entre a dezena de investigadores contactados, dos Estados Unidos ou Chile à Austrália e Nova Zelândia, passando por Reino Unido, Suécia e Etiópia: os cientistas portugueses são tão bons como os demais, falta-lhes em Portugal oportunidades, trabalho mais bem pago e estável e o reconhecimento por parte das instituições.

David Sobral, astrofísico, está há dois anos e poucos meses no Reino Unido, onde fez o seu doutoramento e onde regressou depois de um contrato de investigador de cinco anos que lhe permitiu trabalhar na Faculdade de Ciências de Lisboa e no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

Mudou-se de 'armas e bagagens' para a Universidade de Lancaster, onde dá aulas e estuda a evolução de galáxias como a Via Láctea, devido "à inevitabilidade de ter de sair de Portugal mais tarde ou mais cedo".

A falta de garantias de emprego levou-o a concorrer a um lugar na universidade britânica, que "estava a criar um novo grupo" de investigação. Ao fim de um mês, contrataram-no.

"A experiência tem sido fantástica", assinala.

Voltar a Portugal, "num futuro mais ou menos longo", só se for para "começar um projeto de raiz, apenas com pessoas com uma mentalidade aberta, ambiciosa e internacional", afirma David Sobral.

Para o responsável pela descoberta da galáxia CR7, a mais brilhante dos primórdios do Universo, a ciência feita em Portugal pelos portugueses "é excelente", apesar da "falta grave de reconhecimento e meritocracia dos mesmos".

A investigadora e professora Graça Almeida, radicada nos Estados Unidos há 26 anos, também diz que a ciência 'made in Portugal' é "tão boa" como a "ciência feita nos melhores centros do mundo".

Os portugueses, assevera, "são únicos na capacidade de resolver problemas, na persistência, na inovação, no 'pensar fora da caixa'".

A especialista em doenças genéticas como a hemofilia questiona como Portugal "paga para treinar cientistas" para depois "não os acolher" e "não integrar os conhecimentos adquiridos".

Graça Almeida foi para a 'terra do Tio Sam' porque "queria muito fazer investigação" e sentia-se "frustrada com a falta de eficácia dos tratamentos" que Portugal dava aos doentes hemofílicos, em particular o Hospital de Santo António, no Porto, onde estava a cumprir o quarto ano de internato em imunoterapia.

Tentou, mas não conseguiu, voltar. As "oportunidades faltaram" e nos Estados Unidos "ofereceram emprego".

"Nunca se diz nunca", mas ao fim de 26 anos, quase tantos quantos os que viveu em Portugal, duvida que regresse ao país.

Apontando uma bússola em diferentes direções do mapa-mundo, é possível encontrar ainda investigadores como Pedro Antunes, perito em sistemas de informação e há cinco anos e meio na Nova Zelândia, ou Miguel Cruz, há 13 anos na Austrália, onde trabalha na modelação do comportamento de incêndios florestais mas de onde não pretende sair dadas as "muitas raízes estabelecidas".

Respondendo a um convite do Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, Isabel Boavida está há seis anos na Etiópia, onde coordena a unidade de línguas europeias modernas na Universidade de Adis Abeba.

Em mãos tem a anotação para uma edição bilingue de um opúsculo do cronista renascentista Damião de Góis sobre a Etiópia e um estudo sobre as representações da Etiópia na literatura africana.

O retorno a Portugal não tem data marcada, será "quando chegar a hora de sair", muito embora o país africano seja um dos seus lugares de afeto.

Na Suécia, que "tem uma longa tradição de apoio à investigação científica", Jorge Ruas criou o seu próprio grupo de investigação, no Instituto Karolinska, onde se debruça sobre doenças dos músculos dos ossos. À Lusa afirma perentório que "financiamento estável e robusto é fundamental para arriscar em projetos de longa duração" que podem acabar "em descobertas importantes".

Andreia Pinho, a trabalhar na área do cancro há mais de seis anos em Sydney, na Austrália, onde "a família cresceu de dois para três", com o nascimento de um filho, considera que "as oportunidades em Portugal ainda são escassas e muito dependentes da obtenção de fundos internacionais", com os salários dos investigadores a serem "muito pouco competitivos".

Mantém "o plano de regressar a Portugal", apesar de também ter a nacionalidade australiana, mas, da ideia ao ato, tem de haver "uma oportunidade profissional" que lhe permita, a si e ao marido, "progredir na carreira e manter o estilo de vida" conquistado na Austrália.

"Seria ótimo ver uma iniciativa do Governo destinada a trazer investigadores portugueses conceituados e presentemente a trabalhar no estrangeiro de volta para Portugal", desafia.

Esquerda responde a Costa e não garante aprovação de Orçamento para 2019

12/5/2018, 20:06

O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, avisa Costa e Marcelo que não assinará "de cruz" o próximo Orçamento do Estado. Bloco de Esquerda quer ir "mais além" e discutir tudo "setor a setor".

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

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  • Agência Lusa
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Os parceiros de esquerda do PS não garantem que vão aprovar o Orçamento do Estado para 2019 (OE2019). Depois de António Costa ter dito que se demite caso o OE2019 não seja aprovado, o Bloco de Esquerda, através da líder Catarina Martins, adverte que o documento terá de ser discutido “setor a setor”, enquanto o PCP, através do líder Jerónimo de Sousa, avisa que não assinará “de cruz” e que não existe “nenhum acordo que garanta em abstrato a sua aprovação”.

Jerónimo de Sousa e Catarina Martins reagiam à entrevista do líder do PS, publicada este sábado no DN, em que António Costa admite que sem Orçamento para 2019 a queda do Governo “é inevitável”.

Em Viana do Castelo, Jerónimo de Sousa, afirmou que o partido não assinará “de cruz” o Orçamento do Estado para 2019 e sublinhou que não há nenhuma maioria parlamentar nem nenhum acordo que garanta a aprovação do documento. “A proposta [de Orçamento do Estado] é da responsabilidade do Governo minoritário do PS. Não há nenhuma maioria parlamentar nem nenhum acordo que garanta em abstrato a sua aprovação”, referiu.

Durante uma assembleia da organização distrital do PCP, Jerónimo de Sousa avisou que “o PCP não desperdiçará nenhuma oportunidade para fazer avançar direitos e salários, é isso que temos feito. Mas não peçam ao PCP para assinar de cruz seja o que for” Disse que o PCP “honrará a palavra dada”, mas não está disponível para dar “uma palavra no escuro”. “Não podem pedir ‘assinem lá de cruz’ que depois a gente logo vê”, sublinhou.

O secretário-geral do PCP criticou estas referências ao orçamento para 2019 numa altura em que ainda se está “a meses” de se conhecer a proposta, críticas que estendeu a Marcelo Rebelo de Sousa.  “Há poucos dias, ouvimos o Presidente da República pronunciar-se pela viabilização do Orçamento com um determinismo que surpreende. Segundo o seu raciocínio, o que importa é que ele seja aprovado, não interessa como, nem com que conteúdo nem que ele não exista”, referiu o líder do PCP.

Catarina Martins pede OE que “vá mais além”

Também a líder do BE, Catarina Martins, disse esperar que o próximo Orçamento do Estado cumpra o acordado em 2015 e “que vá mais além, aproveitando o crescimento económico para responder a quem mais precisa”. Em declarações aos jornalistas à margem da conferência sobre “O envelhecimento em Portugal e a sociedade portuguesa no futuro”, promovida pelo Centro Comunitário da Gafanha do Carmo, em Ílhavo, Catarina Martins garantiu que “não há este ano nenhuma novidade em relação aos anos anteriores” e que o BE fará “como tem feito todos os anos, uma negociação setor a setor” do Orçamento do Estado para 2019.

Uma negociação que, disse, “é sempre complicada e tem sempre as suas dificuldades, para recuperar rendimentos do trabalho, salários e pensões, combater as desigualdades”. Segundo a líder do BE, o acordo firmado em 2015 “está escrito e tem medidas” e algumas “têm de ser implementadas no último Orçamento do Estado.

“Nós temos um caderno de encargos claro sobre várias medidas e estamos à espera que neste Orçamento do Estado se dê resposta a elas. O que assinámos em 2015 tem de ser cumprido. Para além disso, que ninguém põe em causa, temos feito todos os anos uma negociação para perceber onde é que se pode ir mais longe do que o acordado”, afirmou.

A líder do Bloco salientou ainda que “o país não ficou parado e há outras questões a que é preciso responder” e que, com a economia a crescer, “há hoje disponibilidade para responder melhor a problemas que o país tem, onde 2,4 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza”.

“Temos divergências que já eram conhecidas. O PS, BE e PCP têm posições diferentes sobre várias matérias, mas assinámos acordos que têm a base da negociação dos orçamentos do Estado a cada ano e é isso que temos feito. Este ano estamos para negociar o Orçamento, um trabalho que é difícil, mas que terá de ter a mesma disponibilidade dos anos anteriores dos vários partidos e do governo para ser possível”, concluiu.

Dr ACtivism, o homem que invadiu o palco para gritar por “liberdade”

12/5/2018, 22:24

Durante a atuação do Reino Unido, um homem subiu ao palco, roubou o microfone e pediu "liberdade". Foi retirado por seguranças e a performance prosseguiu. País decidiu que não vai atuar segunda vez.



O momento em que a atuação do Reino Unido foi interrompida por um espectador a invadir o palco

AFP/Getty Images

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A final da Eurovisão decorria sem percalços até que um homem invadiu o palco durante a atuação de SuRie, a concorrente do Reino Unido. O fã correu em direção à cantora e retirou-lhe o microfone. Segundo a BBC, terá dito, em inglês: “Nazis da imprensa do Reino Unido, nós queremos liberdade”. Não demorou mais do que alguns segundos até ter ser arrastado para fora do palco por um segurança. SuRie, que ficou durante alguns momentos sem microfone, aplaudiu a prontidão com que a equipa de segurança atuou.

Manu Little Monster @manulitlmonster

This is the moment. Anyone knows what he said? #Eurovision

20:59 - 12 de mai de 2018

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De acordo com quem assistiu à cena, junto à frente de palco, o homem foi levado para uma sala por seguranças e polícias. Perante o incidente, a realização da dirigiu o foco para a plateia, voltando ao palco quando a cantora já tinha recuperado o microfone e voltado a cantar. Não é ainda conhecida a identidade do homem ou os motivos que o levaram a interromper o espetáculo, mas organização informou que o fã foi entretanto detido.

No Twitter, foram vários os fãs que comentaram a invasão do palco durante a atuação da concorrente britânica. “Respeito pela Surie que manteve a postura apesar da interrupção”, escreveu uma utilizadora. Um utilizador frisou que a cantora “respondeu da melhor maneira possível” e que soube lidar bem com a situação. A escritora britânica J.K. Rowling, que está a acompanhar atentamento o evento em direto e a comentá-lo na rede social, escreveu: “Aquele é o pior pesadelo de todas as pessoas que já estiveram em cima do palco e deve ter sido assustador, mas que pro, que recuperação”.

J.K. Rowling

@jk_rowling

That was everyone who's ever been on stage's worst nightmare and it must have been scary, but what a pro, what a recovery @surieofficial #Eurovision

20:58 - 12 de mai de 2018

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Homem que invadiu o palco é filósofo, DJ e MC

De acordo com o jornal britânico The Sun, o homem que invadiu o palco é conhecido por Dr ACtivism e apresenta-se como filósofo, ativista, DJ e MC. Esta não terá sido a primeira vez que invadiu um palco. Em abril de 2017, terá invadido também a edição britânica do The Voice, tendo depois alegado que os seguranças do programa televisivo quase lhe partiram o pescoço. Já este ano, parece que repetiu a proeza nos National Television Awards. Além da mesma t-shirt, o invasor usava, nessa noite, o mesmo lenço na cabeça. Segundo o mesmo jornal, Dr ACtivism já terá escrito um livro com o título The Workings of The U.K State Mafia, palavras que podem facilmente ler-se na t-shirt preta que vestia quando entrou no palco da Eurovisão.

Vencedora do Festival Eurovisão e PM de Israel anunciam que Jerusalém acolhe edição de 2019

A vencedora da 63ª edição do Festival Eurovisão da Canção, a israelita Netta, disse que em 2019 o concurso será em Jerusalém. Netanyahu disse o mesmo, mas a organização não confirma.

MIGUEL A. LOPES/EPA

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  • Agência Lusa
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A vencedora da 63.ª edição do Festival Eurovisão da Canção, a israelita Netta, disse hoje que em 2019 o concurso será em Jerusalém, algo que o primeiro-ministro do país também afirmou, embora a organização não confirma.

“Para o ano em Jerusalém!”, afirmou Netta no palco da Altice Arena, em Lisboa, momentos depois de se ter sagrado vencedora do concurso. Entretanto, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, através da sua conta oficial na rede social Twitter, disse o mesmo.

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Benjamin Netanyahu

@netanyahu

נטע, את כפרה אמיתית. הבאת הרבה כבוד למדינת ישראל! לשנה הבאה בירושלים!

23:46 - 12 de mai de 2018

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“No próximo ano em Jerusalém”, lê-se numa publicação partilhada pouco depois das 00h00 de hoje, acompanhada de um vídeo com a consagração de Netta.

No entanto, no final da conferência de imprensa com a vencedora, o supervisor executivo do Festival Eurovisão da Canção, Jon Ola Sand, disse que ainda “não foi definida cidade nem data”.

“Vamos a Israel em breve para discutir a próxima edição. Divirtam-se que em breve começa o trabalho a sério”, afirmou, dirigindo-se ao chefe de delegação de Israel, a quem entregou uma “‘pasta de boas-vindas’ com informação inicial”.

Israel venceu no sábado à noite a 63ª edição do concurso, com a cantora Netta e o tema “Toy”, sendo por isso o país anfitrião da próxima edição.

Jon Ola Sand deslocou-se também à conferência de imprensa para entregar um troféu a Netta. “Ouvi dizer que se partiu e trouxe um novo”, disse à vencedora, congratulando-a, bem como “a toda a equipa”.

Israel acolheu o Festival Eurovisão da Canção em 1979 e em 1999, por ter vencido nos anos anteriores.

Em 1980, embora tenha vencido em 1979, o país declinou a oportunidade de organizar o concurso pela segunda vez seguida, acabando por passar para a Holanda.

Os israelitas comemoram na segunda-feira 70 anos do nascimento do Estado de Israel, proclamado em 14 de maio de 1948, pelo presidente do Conselho nacional judaico, David Ben Gourion, na sequência do fim do mandato britânico na Palestina.

Sete décadas depois, o Estado judaico celebra a sua fundação com um novo alento, enquanto permanecem bloqueadas as conversações de paz internacionais para um acordo global e que deveriam implicar uma solução de dois Estados, judeu e palestiniano, que conviveriam lado a lado e com capital cada um numa das duas partes de Jerusalém.

No final de dezembro, os Estados Unidos do Presidente Donald Trump, principal aliado de Isarel, decidiram reconhecer Jerusalém como capital indissolúvel do Estado hebraico, originando fortes protestos entre os palestinianos e a reprovação internacional.

A transferência da embaixada norte-americana de Telavive para a “cidade eterna” está prevista para 14 de maio.

Eurovisão, um epílogo

13/5/2018, 1:28

Depois dos píncaros, caímos pelo Olimpo abaixo. A Eurovisão, versão Lisboa, pôs as coisas no devido lugar, consagrou um favorito e deixou poucas saudades.

A israelita Netta venceu com "Toy", uma das canções favoritas das casas de apostas

Getty Images

Autor
  • Pedro Vieira
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Verdade seja dita, até 2017 ninguém poderia sequer sonhar com uma edição da Eurovisão organizada em Lisboa, com o Pavilhão Atlântico (sim, estou a evitar o product placement) a servir de palco carregado de robôs, de luzes, fogo cuspido e lantejoulas endemoninhadas. O que é facto é que a aposta arriscada de pessoas como Gonçalo Reis, Daniel Deusdado e Nuno Artur Silva, que resolveram redesenhar o evento a nível local, acabou por transformar a participação portuguesa do ano passado numa espécie de cisne negro, de evento único e improvável, com um desenlace de sonho, entre festejos do Benfica, o centenário de Fátima com direito a Papa e os irmãos Sobral a sentarem-se no iron throne de Kiev, com uma canção plena de sobriedade.

Um ano volvido, a responsabilidade e os nervos passaram dos ombros dos manos Salvador e Luísa para as costas da televisão pública, a braços com uma mega-operação logística e financeira. E se em termos de televisão pura e dura pudemos todos testemunhar o desembaraço a roçar o brilhantismo das emissões durante a semana — duas semi-finais e o desenlace dramático desta noite — no que diz respeito a finanças, muito se falou sobre os milhões de euros que a RTP teve de desembolsar para levar o azeite a bom porto. De tal forma que, muito provavelmente, o canal público terá de recuar na negociação dos direitos da Champions League e de repensar a estratégia na área da ficção de produção portuguesa. Mas nestes casos a fronteira entre despesa e investimento é muito ténue, até porque há um retorno para o país e para os cofres das finanças que é difícil de mensurar; um retorno que se adivinha muito positivo, graças ao impacto que este certame (pelava-me por usar a palavra certame numa crónica) tem no mundo inteiro. Porque organizar uma edição da Eurovisão é , no essencial, viajar à boleia de uma gigantesca campanha de publicidade em benefício do país organizador, que inevitavelmente irá potenciar receitas turísticas e impostos indirectos, visibilidade sem par e até imensas sinergias (conferir uso da palavra certame). Adiante.

Depois da conjugação quase surrealista de factores em 2017, o Futebol Clube do Porto voltou ao seu lugar natural de campeão nacional de futebol. O Papa Francisco não deu um ar da sua graça, sendo substituído pelo Fernando “Macaco” Madureira nas reportagens sobre peregrinos a caminho de Fátima. E a canção portuguesa despistou-se no palco, nos mentideros dos júris e no televoto. Tudo normal, portanto. Repare, caro leitor. Eu sinto um certo conforto neste regresso à normalidade, porque às vezes a mudança é uma estafa física e sobretudo emocional. Não era possível continuarmos a amar pelos dois. Ou por outros quaisquer. Razão pela qual o nosso “Jardim” se eclipsou entre coreografias arrojadas, pirotecnia e vozes sem tino, sem que ninguém desse pela sua falta. Resultado: 39 pontos e último lugar na classificação. Até o Rui Bandeira fez melhor em 1999, numa final curiosamente organizada por Israel. Depois de subirmos aos píncaros, esta lanterna vermelha dói um pouco, até porque recebemos toda a gente com simpatia e denodo, mas pronto, faz parte do jogo. E do ADN português na Eurovisão.

Quanto ao concurso, o kitsch voltou a ser rei e senhor, mais piromania, menos piromania, com a diferença de que desta vez a estratégia low-finão resultou. Desculpa, Salvador, mas por vezes a música é mesmo só fogo-de- artifício. E a vitória da israelita Netta é disso exemplo. Pelo meio também houve uma comandita de vikings pela paz, um Nosferatu ucraniano (que infelizmente abandonou o registo mudo), uma espécie de hip-hop checo capaz de arrepiar o cabelo impecável de Milan Kundera, uma actuação burlesca e Eurovisão-vintage pelos moldavos, um norueguês apaixonado pelo air violin e pela air guitar, e até uma invasão inédita de palco, que ia arruinando o desempenho e a reputação do Reino Unido. Uma espécie de Brexit, digamos, mas sem Nigel Farage, o que até abona a favor da invasão. No final, venceu “Toy”, uma das canções favoritas das casas de apostas, e oriunda de um país com muitos pergaminhos no festival. Afinal, esta foi a quarta vez que Israel venceu, depois da dobradinha 78/79 e do sucesso mais ou menos inesperado de Dana International há 20 anos.

Uma coisa é certa: Salvador pôde contar com um ocaso eurovisivo de gabarito, graças ao dueto com Caetano Veloso, e o investimento dos famosos milhões mostrou-se plenamente justificado quando pusemos os olhos na voz de Mayra Andrade. É muito provável que esse tenha sido o melhor momento musical da noite, embora a Eurovisão tenha pouco a ver com isso. Em 2019, a caravana de fãs, lantejoulas e canções no limite do audível segue rumo ao Negev. Por cá fica o deserto de pontos e a saudade boa de uma aposta certa. Olha, como se diz na terra dos manos Sobral, estamos todos de parabéns.