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domingo, 24 de junho de 2018

A Europa vai ou não acordar para a ameaça chinesa?

23/6/2018, 12:27

A Europa captou 3,2 mil milhões de euros para o investimento na produção de veículos eléctricos. Sete vezes menos do que a China! Um quarto dos empregos na indústria está em risco, se a UE nada fizer.



Baixos custos da mão-de-obra e uma agressiva política de estímulo aos veículos eléctricos permitiram ao gigante asiático captar, só em 2017, 21,7 mil milhões de euros para a produção de veículos eléctricos. No futuro, vamos todos conduzir um carro made in China?

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O mais recente relatório divulgado pela Transport & Environment, organização não-governamental que se dedica à promoção de uma mobilidade mais “verde”, nota que a Europa está a ser largamente ultrapassada pela China, o que é tanto mais grave quanto isso acontece num sector-chave para a economia europeia: a indústria automóvel. A T&E partiu de dados que foram tornados públicos, fez as contas e concluiu que, só no ano passado, a China conseguiu captar 21,7 mil milhões de euros para a produção de veículos eléctricos, enquanto a Europa não foi além dos 3,2 mil milhões. Ou seja, sete vezes menos!

O que está em cima da mesa, nota a ONG, é se a Europa vai ou não acordar para estes números, isto é, se vai ou não adoptar políticas que estimulem a captação de investimento neste domínio, à semelhança daquilo que a China e o estado norte-americano da Califórnia fizeram. Sob pena de ver um quarto dos trabalhadores da indústria automóvel europeia, até 2030, perderem os seus postos de trabalho, se continuar de braços cruzados. Um cenário que colide claramente com a janela de oportunidade aberta pelos veículos eléctricos, na medida em que, ainda segundo a T&E, seria possível criar 200 mil novos empregos em toda a economia da UE, através de uma mudança para veículos de baixas e zero emissões produzidos na Europa.

Há vários estudos e trabalhos que apontam nesse sentido, recorda o organismo, tanto mais que as novas metas fixadas em termos de emissões de CO2 obrigam os construtores a fabricar veículos eléctricos ou com algum tipo de electrificação. A dúvida, portanto, é onde é que eles vão ser produzidos: se em solo europeu, ou se importados da China.

Se a Europa quiser colher os benefícios económicos, de emprego e ambientais da transição para a mobilidade eléctrica, tem de adoptar uma política que encoraje activamente o investimento no fabrico de veículos mais amigos do ambiente aqui na Europa, assim como a China e a Califórnia fizeram”, avisa a T&E.

Este alerta ocorre poucos dias antes do encontro dos ministros do Ambiente da UE, que se vão reunir já na próxima segunda-feira, dia 25 de Junho, para discutir o que é preciso fazer em relação às novas regras para as emissões de CO2 em veículos ligeiros. O objectivo, até 2025, é baixar 20% das emissões.

Políticas fortes podem ajudar a Europa a manter sua liderança global na indústria automóvel. Com metas fracas, é provável que a posição da UE e seu sector-chave sejam usurpados pela China”, antecipa a T&E.

O Grupo Volkswagen, a Daimler (Mercedes e Smart) e a Nissan são os maiores investidores na China, impulsionados por uma agressiva política que obriga os construtores a obter créditos para a produção de veículos eléctricos correspondente a 10% do mercado total de ligeiros de passageiros em 2019 e 12% em 2020. Mais, como o Governo chinês só subsidia a produção se a investigação e desenvolvimento (a propriedade intelectual) forem locais, o know-how que a China garante por esta via e os baixos custos da sua mão-de-obra podem ser “assassinos” para a indústria automóvel europeia. Neste momento, o dragão asiático é o que melhor se posiciona para, também no que toca à produção de veículos eléctricos, vir a ser a fábrica do mundo. Isto embora recentemente tenha alterado as regras do jogo, deixando cair a imposição de os construtores de automóveis terem de criar empresas locais em joint-venture com sócios do país – limitação que continuará até 2020, mas que ainda este ano deverá ser eliminada no caso dos veículos eléctricos.

Rio, Negrão e o PSD. Uma semana de contradições

23/6/2018, 16:53

Se a "geringonça" não se entender no OE, não será o PSD a dar a mão ao governo. Antes haja eleições antecipadas. Bancada do PSD revoltada com Rio depois de raspanete via jornais. Negrão por um fio.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Foi uma semana de contradições no PSD de Rui Rio. Começou com as jornadas parlamentares na Guarda, onde ficou claro que a animosidade entre o líder do partido e os deputados ainda não está sarada. Seguiram-se recuos e inflexões discursivas sobre a posição do PSD em relação à guerra do governo com os professores, e muita contra-informação sobre o que fará o PSD na votação do Orçamento do Estado. Terminou com a cereja no topo do bolo: uma desautorização de Rio à direção da bancada parlamentar sobre a votação da redução do imposto sobre combustíveis. O “raspanete” foi dado via jornais e Fernando Negrão nem telefonou a Rui Rio depois de ter visto a notícia. Foi preciso o secretário-geral José Silvano fazer de árbitro, dizendo que Rio e Negrão iriam almoçar juntos nos próximos dias para acertar estratégias.

O almoço deverá acontecer nesta segunda-feira, segundo o Diário de Notícias, com Fernando Negrão a deslocar-se ao Porto preparado para dar um murro na mesa em nome da defesa da autonomia da bancada parlamentar face à direção do partido. “Foi marcado um almoço nos próximos dias e todo este ambiente de alguma tensão vai ficar resolvido e articulado, não tenho qualquer dúvida”, disse na sexta-feira José Silvano à agência Lusa no rescaldo da polémica lançada. Ao que o Observador apurou, a bancada, incluindo a direção da bancada (mais afeta a Rui Rio), ficou revoltada com a desautorização pública dada pelo presidente do partido ao líder parlamentar. Ainda por cima porque foi um raspanete dado em praça pública, via jornais.

Tudo começou quando, esta sexta-feira, uma “fonte da direção” do PSD afirmou à agência Lusa que o partido não tinha gostado de ver a bancada parlamentar decidir, “completamente à revelia”, votar a favor do projeto de lei do CDS que previa a “eliminação do adicional do imposto sobre produtos petrolíferos”. Isto porque o PSD, na pessoa de Rui Rio, não concordava que o Parlamento aprovasse um diploma que viesse a diminuir a receita no Orçamento do Estado, achando que é ao Governo que cabe decidir se precisa de receita ou se pode abdicar dela. Ainda para mais depois de Rui Rio ter ido às jornadas parlamentares, na Guarda, dizer aos deputados que não cabe ao PSD “empurrar o Governo para a irresponsabilidade”, sendo essa a tarefa do PCP e do BE. Ao PSD, nas palavras de Rio, cabe antes apresentar propostas responsáveis e fazer ver que o suposto “milagre económico” do governo é apenas “aldrabice”.

Fonte parlamentar assegura ao Observador que o sentido de voto do PSD sobre as quatro iniciativas relativas à redução do imposto sobre os combustíveis foi decidido em reunião da direção da bancada, tendo sido perguntado explicitamente a Fernando Negrão se a questão estava articulada com o presidente do partido. Negrão terá respondido que tudo estava articulado. Mas algo correu mal pelo caminho. Acontece que Rio e Negrão tinham abordado o tema dos combustíveis há cerca de um mês, tendo decidido que a estratégia do PSD seria, não apresentar um projeto de lei (que tem força vinculativa, se for aprovado), mas sim um projeto de resolução (que se limita a recomendar uma ação ao governo). A ideia era que a recomendação pusesse o ónus no governo mas deixasse claro que o PSD queria garantir o princípio da neutralidade fiscal e não queria pôr em causa a norma-travão, que impede que os partidos legislem sobre qualquer aumento de despesa ou perda de receita a meio do ano orçamental em curso.

O projeto de resolução do PSD foi aprovado, com o voto favorável do CDS e a abstenção do PCP e BE. Mas para ter o voto favorável dos centristas, o PSD teve de dar também o seu voto favorável ao projeto de lei do CDS, mesmo fazendo ressalvas de que teria de ser melhorado na especialidade para não pôr em causa a norma-travão. O projeto de lei do CDS foi, assim, aprovado, não só com o voto a favor do PSD (porque só esse não chegava) mas com a abstenção dos partidos da esquerda mais à esquerda. E Rui Rio não gostou. Problema: os deputados também não gostaram que Rui Rio lhes tivesse mandado aquela alfinetada publicamente, deixando passar uma imagem de desautorização e de fraca autonomia da bancada.

Será com esta postura de “isto não pode voltar a acontecer” que Fernando Negrão se vai dirigir a Rui Rio no almoço de segunda-feira. O episódio desta sexta-feira foi a gota de água na já muito tensa relação entre Rio e a bancada parlamentar, depois de, no início da semana, o presidente do PSD ter sido recebido de forma muito pouco calorosa nas jornadas parlamentares da Guarda. Ao Observador, vários deputados queixaram-se da relação fria que o líder do partido mantém com a bancada, sabendo de antemão que aquela não foi uma bancada escolhida por si mas pelo anterior líder — e que, consequentemente, tem anticorpos. “Não faz nenhum esforço para cativar”, diz um deputado, lembrando que Rio apenas foi às jornadas para a sessão de encerramento e, quando chegou, foi aguardar para uma sala fechada, em vez de “fazer conversa” com os deputados.

No discurso aos deputados, Rio quis evidenciar qual é a sua receita para os próximos meses, na oposição, quer os deputados gostem ou não: ser colaborante com o governo, acutilante nas críticas e sério nas propostas. “Esta foi a receita que eu, desde que estou na vida pública, sempre apliquei. Até à data deu resultado, pode haver um dia em que não dará. E fi-lo sempre contra ventos e mares”, disse. A ideia é passar uma imagem de político-sério — uma imagem de que, à partida, a classe política não goza, e os deputados, em particular, muito menos. Para isso, Rio obrigou Fernando Negrão a fazer marcha-atrás no seu discurso inicial sobre as reivindicações salariais dos professores, assumindo para este tema a mesma postura que tinha para o tema dos combustíveis: se o governo prometeu, deve cumprir, se não cumpre é porque não há milagre económico, e é isso que deve explicar aos portugueses, pedindo desculpa.

Em todo o caso, um dos highlights que ficou do discurso de Rio na Guarda, sublinhado por vários deputados, foi a admissão de um cenário de derrota eleitoral — disse-o duas vezes durante o discurso de quase 40 minutos. E isso foi outra coisa que os deputados não gostaram de ouvir.

PSD vai mesmo votar contra Orçamento do Estado

Outra contradição que marcou a semana social-democrata foi a postura do PSD no debate orçamental que vai arrancar depois do verão. A questão que se põe, perante a posição “colaborante” assumida por Rui Rio face ao governo de António Costa, é saber se o PSD admite dar a mão ao governo na aprovação do Orçamento do Estado para 2019 caso as negociações à esquerda falhem.

Fernando Negrão, justamente à margem das jornadas parlamentares, começou por admitir esse cenário ao Observador. O líder parlamentar disse que o mais provável era a geringonça manter-se unida na hora H, mas não deu como garantido o voto contra dos sociais-democratas por não conhecer ainda o documento. O passo seguinte surgiu pela voz de Silva Peneda, um dos ministros-sombra escolhidos por Rui Rio para o Conselho Estratégico nacional. Em entrevista ao Público e Renascença, Silva Peneda defendeu que o PSD devia negociar com Costa caso falhasse o entendimento à esquerda porque era a favor da “estabilidade dos mandatos”.

As declarações do ministro-sombra de Rio para a área da Solidariedade, contudo, não caíram bem no partido. Rui Rio, questionado sobre elas durante uma conferência de imprensa no Porto, começou por dizer que não estava “minimamente zangado com Silva Peneda” e que se recusava recusa a “liderar um partido em que as pessoas não possam falar com sinceridade”, mas acabaria a dizer que dificilmente o PS irá apresentar um orçamento que vá ao encontro dos interesses do PSD.

Também o vice-presidente do partido Salvador Malheiro afirmou na sexta-feira que a posição do PSD sobre o OE 2019 estava “longe de ser” a posição de José Silva Peneda. “Naturalmente que não representa a posição oficial do PSD, é a posição de uma referência da social-democracia, que falou a título individual. A posição do PSD está longe de ser essa veiculada pelo dr. Silva Peneda”, disse Salvador Malheiro em declarações à Lusa.

De acordo com o semanário Expresso, a ideia de Rio é, de facto, contrária à de Silva Peneda. “Seria suicídio político” aprovar um Orçamento do PS no atual quadro parlamentar, disse fonte da direção do PSD aquele jornal, garantindo que Rio prefere um cenário de eleições antecipadas caso a “geringonça” rompa durante a discussão orçamental — cenário em que não acredita verdadeiramente — do que dar a mão ao governo apenas para aguentar mais uns meses até às eleições de outubro de 2019. A verdade é que o próprio Marcelo Rebelo de Sousa, e inclusive o próprio António Costa, já fez saber que se o último Orçamento da legislatura não for aprovado por via da “geringonça”, a atual solução governativa cai por terra.

Para já, as questões do PSD são internas e Rui Rio tem de olhar para dentro. O almoço de segunda-feira com Fernando Negrão é o primeiro passo para, como disse José Silvano, “acertarem estratégias”. A hora de olhar para António Costa ainda não chegou.

sábado, 23 de junho de 2018

Diz-me com quem andas

  por estatuadesal

(Alexandre Abreu, in Expresso, 23/06/2018)

abreu

(Por muitos malabarismos de retórica que se tentem, o PS fez uma opção nas leis laborais que indicia o caminho por onde quer seguir: estar em acordo com os patrões e com a UGT "amarela" - que até os cortes do tempo da troika assinou -, e em desacordo com os seus parceiros de Governo, sem os quais nunca chegaria ao poder nesta legislatura. Esses são os factos, tudo o resto é conversa da treta para enganar os mais incautos e consolar os mais fiéis.

Comentário da Estátua, 23-06-2018)


Mais do que para a evolução do emprego e desemprego, que dependem principalmente da evolução da procura, a legislação laboral é fundamental para determinar a relação de poder entre trabalhadores e empregadores. Por essa via, é fundamental para determinar a repartição funcional do rendimento: do valor criado na economia, quanto vai para uns e para outros. A precariedade dos vínculos laborais, a par da redução das indemnizações por despedimento e das limitações ao acesso e duração do subsídio de desemprego, aumenta a ameaça e as consequências do despedimento do ponto de vista dos trabalhadores, desequilibrando a relação de poder a favor dos empregadores e pressionando em baixa os salários. Daí que a parte dos salários no rendimento nacional tenha caído tão significativamente no período do Governo da direita e de intervenção da troika, de 57 para 52 por cento entre 2010 e 2015, segundo a AMECO. Daí, também, que a questão da reversão das medidas relativas à legislação laboral tomadas pelo Governo anterior seja uma questão tão fundamental para os partidos à esquerda do PS e seja anátema para a direita.

É neste contexto, e com esta bitola, que deve ser avaliado o recente pacote laboral proposto pelo Governo e levado a aprovação pela concertação social. É que se este pacote reverte algumas medidas anteriores mais gravosas, não deixa de introduzir novos mecanismos suscetíveis de facilitar adicionalmente a precariedade, como a extensão do período experimental e o alargamento dos famigerados contratos verbais, ao mesmo tempo que introduz cláusulas de exceção de última hora em aspetos como a taxa de rotatividade ou as limitações ao trabalho temporário. É significativo que este Governo, que é minoritário, não procure reunir nesta matéria o acordo da maioria parlamentar de que depende, antes procurando o acordo dos representantes patronais e da UGT, que consegue a proeza de estar mais uma vez do lado oposto ao dos interesses que diz defender.

Como é significativo que, mesmo na configuração parlamentar inédita que caracteriza esta legislatura, não seja possível repor a relação de poder anterior ao Governo da direita. A política envolve fazer escolhas. Nesta matéria, o Governo está a dizer que não contem com ele para fazer as escolhas que permitiriam valorizar os salários e repor mais equilíbrio no mercado de trabalho. Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

O CDS sai caro

  por estatuadesal

(Francisco Louçã, in Expresso, 23/06/2018)

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A voragem de preços, depois dos vistos gold de Portas e da lei das rendas de Cristas, tem um ganhador: o sector imobiliário. Mas tem um preço para a sociedade


Em 2006 começou a transformação do mercado imobiliário, mas foi com Assunção Cristas que a nova lei do arrendamento mudou as nossas cidades. Sábios, os governantes de direita permitiram então cinco anos de transição, para que o efeito caísse sobre o Governo seguinte e ficasse esquecida no nevoeiro a responsabilidade original. Mas o resultado é claro: para os comerciantes, a renegociação das rendas ou o despejo passaram a ser o destino imediato, para os inquilinos é a rua. O CDS fez o seu papel, deu a luz verde a um poder social, os fundos imobiliários, para devastarem as cidades.

Conjugada com a pressão turística e com as operações de investimento imobiliário, esta legislação abriu as comportas de uma expulsão rápida das populações dos bairros históricos. O resultado é um tsunami: na freguesia de Santa Maria Maior, em torno da Sé de Lisboa, em quatro anos, a população reduziu-se para pouco mais de metade. Na Cedofeita, Santo Ildefonso e Sé, no Porto, o mesmo. Os negócios atingem os arrendatários mais antigos, os pobres, os idosos, os que são expulsos para criar o negócio do alojamento local.

Os municípios

O impulso à reabilitação para o aluguer turístico e à hotelização das grandes cidades tem sido promovido pelos municípios, embora alguns presidentes façam as contas à redução do número de eleitores e temam o resultado. Mas os turistas são negócios por todo o lado: nas esplanadas, nos restaurantes, no complemento salarial que é o aluguer da casa, nos hotéis, nos transportes, nas praças e nos eventos culturais. Os turistas são importados mas contam como exportação, pagam imposto e não levam devolução. Mas têm um preço: o metro quadrado está a 10 mil euros no centro de Lisboa, e estes preços arrastam todos os outros, a começar pelos quartos dos estudantes e a continuar nos alugueres comerciais. A expulsão dos idosos tem ainda outra consequência mais invisível: é que os seus netos ficam também do outro lado da barreira da cidade apartheid. A cidade não é para novos, não é para velhos e não é para comerciantes, a não ser que sejam marcas de prestígio.

A preparação foi meticulosa e tem uma impressão digital. Foi a lei Cristas, mas foi também outra invenção, os vistos gold, também criados por um ministro do CDS, Paulo Portas. Feitas agora as contas, sabe-se que, dos mais de 5700 vistos, só nove beneficiários criaram emprego. Chamar-lhes investimento quando se trata de aplicações de fundos em imobiliário, para comprar um visto que abre a porta da Europa, é mais revelador de habilidade linguística do que de estratégia económica. Trata-se simplesmente de Portugal, como outros países, vender o passe de entrada para a área da UE.

A vida não volta para trás

Esta voragem de preços, promovida pelos vistos gold e pela lei das rendas, tem um ganhador: o sector imobiliário, as suas empresas e os seus intermediários. Tem um preço para a sociedade: as cidades passam a ser mundos diferentes daqueles em que crescemos. Por isso, se pensa que o CDS é só os mil milhões dos submarinos, faça melhor as contas: aquele partido é muito caro, sobretudo para si, inquilino que vai ser despejado, para a sua filha, que já não pode comprar uma casa, ou para os seus netos, que nem pensar em alugar um quarto quando forem para a universidade. E se quiser um dia pensar num caso exemplar e revelador de interesse económico associado à sua representação política, lembre-se do que se está a passar nas cidades à sua frente.


A síndrome da paixão da educação

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É tudo uma embrulhada. Começa pelas contas: o gasto com a contagem do tempo de serviço dos professores seria de 90,2 milhões de euros este ano, dizia o Governo, agora é de 37 milhões, corrige o mesmo Governo. Mas não respire fundo, para o próximo ano a conta estava errada mas não por excesso, era por defeito, duplique o número. É tudo um bocado nas costas do envelope, mas é assim que vai o debate acerca do congelamento das progressões das professoras e professores. E depois vem a política, o voto do Parlamento e a declaração de compromisso assinada entre o ministro e os sindicatos previam a reposição no contexto da sustentabilidade das contas públicas, só que o Governo explica agora que se esqueceu de traduzir isto para português: é que a sustentabilidade impede a reposição, ponto final.

Há várias leituras políticas possíveis. Uma é que os sindicatos tomaram uma posição moderada, aceitando um plano de reposição em seis anos, o que significa que os professores aceitam um sacrifício. Outra é que o Governo deu sinais, compromissados e assinados, de querer conversar, mas afinal recusa negociar. Eleitoral e politicamente, este risco só é aceite pelo Governo se calcular que a demonstração de autoridade antissindical vale mais do que o voto dos sacrificados.

Mas há um problema mais de fundo: como é que foram retirados estes direitos legais? Foi em nome do argumento de uma situação de exceção. Repare bem, a lei não foi mudada. Quem ensina tem a mesma carreira. Só que se impôs a noção de que há um estado de sítio que permite anular o valor das leis por uma regra orçamental. Ora, a suspensão da legalidade em nome do direito de exceção tem imensas consequências para a vida democrática: onde para esse direito de ilegalizar as leis? Pelos vistos, para Tiago Brandão Rodrigues, esse estado de sítio eterniza-se.

Note que há quem venha dizer agora que tudo isto é um amofinamento e que o melhor era mesmo alterar a lei que regula a carreira dos professores. É uma confissão gritante de que se dão conta de que estão a atuar contra a lei.

Ou seja, em Portugal, como noutros países, passamos a ter duas legalidades: a legalidade da lei e a legalidade da situação de exceção, em que o argumento da oportunidade política ou orçamental, instrumentalizável porque definido por um Governo, se sobrepõe ao conceito de direitos universais, estatuídos independentemente do alvedrio do governante. Numa legalidade temos lei, noutra temos arbítrio. Se é assim que vivemos, por favor, não me venham com a do Estado de direito, porque isso já passou.


Memórias de mulheres valentes

Foram publicados recentemente dois livros notáveis de memórias sobre a luta contra a ditadura por mulheres que partilham vidas empolgantes na resistência ao fascismo português. “A Noite Mais Longa de Todas as Noites, 1926-1974”, de Helena Pato, e “Memórias de Uma Falsificadora — A Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal”, de Margarida Tengarrinha, ambos nas Edições Colibri, são retratos notáveis de um tempo ainda recente.

Não sei se deva perguntar se ainda se pode escrever fascismo e luta contra o fascismo ou se, como é moda bem-pensante, estas palavras devem ser censuradas, como as noções de colonialismo e racismo. Admito que são “irritantes”, para citar a linguagem cerimonial. Mas, se quem me lê não levar a mal, será mesmo de fascismo que escreverei para situar estes dois livros.

Margarida e Helena contam-nos a sua história no aparelho clandestino do PCP. Margarida foi casada com José Dias Coe­lho, como ela também pintor, como ela funcionário do partido desde 1955, que foi assassinado na rua em 1961 por uma brigada da PIDE. Chama-se a si própria, com carinho, “uma falsificadora”, porque foi mobilizada para a preparação de documentos falsos para os quadros clandestinos. Trabalhou com Cunhal, esteve na rádio Portugal Livre, depois da revolução foi deputada. E continua a ser pintora, se a ler descobrirá a sua alegria de viver. Helena esteve envolvida em lutas estudantis, viveu no exílio, esteve em Moscovo, foi presa em Portugal, foi animadora da CDE, uma oposição legal que a ditadura não tolerava, foi uma das fundadoras de movimentos de mulheres, fez parte do renascimento do sindicalismo das professoras e professores.

Nos dois livros encontra-se mais do que uma história política: lemos apontamentos sobre o que foi a vida quotidiana naqueles anos de meia-noite do século, como se conheciam as pessoas, como se cruzavam, como viviam, o que pensavam. Lemos o medo e a coragem, a resistência e essa vitória extraordinária, que ainda faz o nosso tempo, que foi o derrube da ditadura. Deve-se a muita gente, mas certamente também a estas duas mulheres.

O pequeno chora, o grande rosna

  por estatuadesal

(José Pacheco Pereira, in Público, 23/06/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Há argumentos utilitários a favor da imigração: uma economia que cresce precisa de imigrantes. Como os EUA. Há um segundo argumento utilitário: os países com uma demografia deprimida precisam dos filhos dos imigrantes. Como Portugal. Nestes casos, abrir as portas à imigração não é favor nenhum.

Há um conjunto de percepções realistas sobre a imigração: a imigração é tanto mais integrada quanto um determinado país tem o elevador social a funcionar e existe grande mobilidade social. Foi o caso dos EUA, que permitiu um melting pot imperfeito, mas mais eficaz do que o europeu. Os imigrantes integram-se no mercado de trabalho sem parecer afectar os nacionais, educam os seus filhos, prosperam e querem ser os novos nacionais. Foi o caso dos EUA, permitindo, por exemplo, ao boat people do Vietname, prosperar na sociedade americana a partir de uma situação de absoluta miséria. Na Europa, de há muito não é assim, e o desastre do upgrade político da Europa começou com o “canalizador polaco”. A crise financeira de 2008 coincidiu com o afluxo de refugiados e a xenofobia cresceu na Europa.

Há um outro aspecto complicado da imigração que atinge mais a Europa do que os EUA: a alteridade cultural exacerbada pelo fundamentalismo tornou muito difícil acontecer o que de há muito acontecia nos EUA — era-se italiano e americano com o mesmo fervor, era-se árabe e americano com o mesmo fervor. Os novos imigrantes queriam ser americanos, mesmo mantendo os seus costumes e tradições, fossem palestinianos, coreanos, filipinos ou portugueses. Nem sempre tudo corria bem, houve variações temporais, em certos locais era mais complicada a integração, noutros a integração era rápida. Na Europa, os turcos na Alemanha, os marroquinos em Espanha e os argelinos (da geração pós-guerra da independência) em França desejavam ser alemães, espanhóis ou franceses por razões utilitárias, mas não se sentiam como tais. Em Inglaterra, as coisas eram menos lineares devido à tradição do Império. As diferenças culturais e religiosas acentuaram uma fractura que se tem alargado com o risco terrorista, mas também com o comportamento muitas vezes ostensivo de certas franjas da imigração muçulmana em matérias como, por exemplo, a situação das mulheres.

Há um argumento moral a favor da imigração: os que estão em melhores condições devem ajudar os que têm mais necessidade. Esta é uma essência do que chamamos “civilização”. A riqueza torna-se obscena quando à sua porta está a miséria. Merecem aquilo que um conto de Poe simbolicamente retrata na Máscara da Morte Vermelha: não há sítio para fugir, “And Darkness and Decay and the Red Death held illimitable dominion over all”.

Há na Europa um ainda maior argumento moral, mais do que um argumento, uma obrigação: muitos dos imigrantes que fogem das guerras e da violência fogem de guerras que os europeus irresponsavelmente desencadearam na Líbia e na Síria.

O que se está a passar nos EUA com Trump, a sua “base” e o partido de Trump, que antes se chamava “republicano”, é uma violação flagrante e inaceitável dos direitos humanos, fazendo tudo para que se torne um exemplo de violência e brutalidade contra os “infectos dos imigrantes”.

Se o resto dos países democráticos, e com uma réstia de respeito pelos valores humanistas, tivessem uma coisa que vem aos pares e que tem o nome de um fruto vermelho e que não são os morangos, que não são um fruto, punham o bruto em quarentena, e nem rainha, nem Marcelo, nem ninguém lhe iam apertar a mão e tratavam dos assuntos comuns por via de um qualquer estagiário no serviço diplomático.

Do mesmo modo, o que se está a passar na Europa, em particular na Hungria, Itália e Áustria, e nalguns dos seus aliados menores, não pode ser aceitável pelo resto da Europa que ainda mantém pelo menos o lip service aos direitos humanos. A recente legislação da Hungria deveria implicar a expulsão da União e um movimento, em primeiro lugar, húngaro e, depois, europeu de desobediência cívica, indo lá ajudar os imigrantes.

Não tomem a sério o que se está a passar e, a prazo, a serpente sairá do ovo. Uma serpente moderna, que se sabe manobrar nas redes sociais, e mover-se na televisão, que encontrará primeiro numa franja de imbecis, e depois em gente que adora o poder e que será cada vez mais sofisticada no mal, uma corte de defensores, como já se percebe nos EUA

Por cá ainda estamos na fase dos imbecis, mas há uma corte invisível que namora as mesmas ideias de poder e de exclusão, de frieza e de autoridade, em nome do que for preciso. Não, não há progresso na história. Ou a gente defende a fina película da civilização ou os brutos que adoram a força a partem por todo o lado.