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domingo, 1 de julho de 2018

A propósito do fim do Diário de Notícias

  por estatuadesal

(Pacheco Pereira, in Sábado, 01/07/2018)

JPP

Pacheco Pereira

Os jornais vivem obcecados com os jovens que não lêem jornais e se os lêem é quando deixam de o ser. Enganam-se com a ilusão de que assim estão a conquistar os leitores do futuro, o que é a coisa menos certa que há. No entretanto, perdem os do presente


1. Existe para aí um lugar-comum, muito repetido pelos deslumbrados da tecnologia, que um jornal migrar do papel para os ecrãs é um processo de "modernização" desse órgão de comunicação. Não é. É um empobrecimento, e uma mudança qualitativa que não é líquido que seja para melhor. As vantagens do online surgem noutras áreas, mas não substituem a necessidade do papel.

2. Comecemos por uma evidência que é preciso estar sempre a repetir: não lemos da mesma maneira no papel e no ecrã. Há um valor na dimensão física do espaço em que lemos, em particular para a maioria da população que não vê bem a partir de uma certa idade, porque os nossos sentidos têm limites objectivos, mesmo nos que têm olhos de águia. Não lemos certas coisas, não ouvimos certas coisas, não cheiramos certas coisas e por aí adiante. Há muitos mecanismos de manipulação deste espaço físico que respira melhor com as limitações dos nossos sentidos, como o folhear que o ecrã não reproduz de forma satisfatória, mas há também um tempo de leitura lento que se perde, assim como um encolhimento do espaço visual da página, logo do texto e da sua fluidez.

3. Não é preciso recitar o mantra habitual sobre o modelo de negócios, as mudanças no financiamento pela publicidade, e a crise nas vendas das bancas, porque ela é enganadora ao sugerir-nos apenas estas causas. A crise dos jornais em papel é em primeiro lugar uma crise do tipo e da qualidade do jornalismo, que já vem de antes do aparecimento do mundo da Internet, que vai das direcções aos editores (talvez o elo mais frágil das redacções) e por fim aos jornalistas, em que a precariedade do trabalho faz cobrar um preço em termos de preparação, mas acima de tudo de condição profissional e ética.

4. Esta crise que já vinha antes, mais nítida no jornalismo das rádios e das televisões, com o crescendo do entretenimento, existe também nos jornais e agrava-se com a própria incapacidade de fazer jornais complementares do online, com outros temas, outros mecanismos, outra escrita, com redacções mais pequenas mas mais especializadas e acima de tudo servindo os leitores reais e não os imaginários. Por exemplo, os leitores reais são mais velhos, os jornais vivem obcecados com os jovens que não lêem jornais e se os lêem é quando deixam de o ser. Enganam-se com a ilusão de que assim estão a conquistar os leitores do futuro, o que é a coisa menos certa que há. No entretanto, perdem os do presente.
5. A perda de contacto do actual jornalismo com a realidade é vasta. Há um enorme reducionismo social ao mundo urbano, e, no mundo urbano, a certos fenómenos muito acantonados etária e socialmente. O resto do mundo fica de fora, isso inclui, por exemplo, o mundo do trabalho, dos transportes, da habitação, da educação, da insegurança urbana, do crime. Depois admiram-se que o Correio da Manhã se aguente muito melhor em banca.

6. É muito mais provável que um jornal se dedique a falar do casamento homossexual do que do divórcio, do que se passa nas lojas da moda de arquitectura e nos restaurantes de culto do que do papel dos padres nas aldeias, ou da condição operária ou camponesa. O mundo de Pedrógão foi descoberto por via da tragédia, mas já lá estava antes. Quando os jornais tratam de assuntos não urbanos, nem da agenda restrita da política, da sociedade, da comida ou das festas, a aproximação tende a ser folclórica e "típica" no pior sentido. Há claramente um excesso de espaço para determinadas formas de cultura demasiado na moda e pouco substantiva, sem peso, nem lastro, com um tom muito acrítico nas páginas culturais, cheias de "revelações" e "novidades", que passado um ano ou dois desapareceram. É como com as startups. Devia haver um escrutínio regular do que se apresentou um ou dois anos antes, e aí percebe-se muito bem o critério muito superficial e nalguns casos grupal e de amiguismo das escolhas.

7. O papel e o online devem ser genuinamente complementares e não competitivos. Na verdade, há até uma vantagem no online de "libertar" do papel tudo aquilo em que ele é melhor, como, por exemplo, o diferente tempo das notícias, beneficiando e muito aquilo em que o papel é melhor. Mas para isso devia haver redacções complementares trabalhando as notícias de forma diferente. A crise de qualidade do jornalismo é aliás comum aos jornais em papel e ao online, afectando a função e a necessidade dos jornais e dos jornalistas num processo de deterioração dos mecanismos fundamentais de formação da opinião pública numa democracia.
Essa crise é, aliás, um dos aspectos centrais da deterioração dos mecanismos democráticos e por isso é de maior importância cívica, em particular se não queremos ser mandados por governantes autoritários e prepotentes, mesmo que eleitos por esmagadoras maiorias. Por uma razão muito simples, é que a democracia não é apenas o voto, mas o primado da lei e o exercício da opinião, no seu estado mais importante, o da crítica. E sem jornais e jornalismo, sem liberdade académica, sem direitos sociais, sem autonomia pessoal e liberdade, coisas que costumam entrar em crise juntas, a democracia perde-se ou estraga-se muito.

Como a Inteligência Artificial já está a mudar as nossas vidas (leia, ou releia, o artigo premiado do Jornal Económico)

Redação

09:30

O Jornal Económico foi distinguido no Prémio de Jornalismo Económico Universidade Nova de Lisboa/Banco Santander Totta, nesta 12.ª edição de um dos prémios de jornalismo mais prestigiados do país. O jornalista António Sarmento venceu na categoria “Sustentabilidade e Inovação Empresarial” com este artigo, onde aborda o impacto sobre as empresas, a sustentabilidade do Estado Social e a transformação industrial.

Rick Wilking/REUTERS

Um gestor de tecnologias intersetoriais sai do trabalho, entra no carro e coloca-o em modo auto-piloto. O destino é o supermercado mais próximo, onde será saudado por um ‘chatbot’ – um programa que tenta simular um ser humano e responde a mensagens – que lhe irá recomendar os produtos para o jantar com base no histórico de compras. Já em casa, enquanto escolhe um filme para ver, encomenda um pacote de pipocas, que será entregue por um drone em apenas 13 minutos (um sistema já testado pela Amazon).

A Inteligência Artificial (IA) está a entrar pelas nossas casas e a revolucionar a forma como trabalhamos, consumimos e interagimos uns com os outros. O tema foi discutido ontem. O Parlamento Europeu aprovou com 396 votos a favor, 123 contra e 85 abstenções que se devem adotar regras em matéria de robótica e de inteligência artificial que tenham em conta questões como a responsabilidade civil, os princípios éticos relacionados com as suas inúmeras implicações sociais, o impacto sobre o emprego e a proteção da segurança e da privacidade.

Os eurodeputados pediram também à Comissão que considerasse a criação de um estatuto jurídico específico para que os robôs autónomos mais sofisticados possam ser detentores do estatuto de pessoas eletrónicas responsáveis por sanar quaisquer danos que possam causar. Propõem também a aplicação da personalidade eletrónica a casos em que os robôs tomam decisões autónomas ou em que interajam com terceiros de forma independente.

Outra das medidas sugeridas pelo PE é um código de conduta ética para engenheiros de robótica, que convide todos os investigadores e criadores a agir de forma responsável e com consideração absoluta pela necessidade de respeitar a dignidade, a privacidade e a segurança dos seres humanos.

Numa coluna de opinião no jornal “The Guardian”, o cientista britânico Stephen Hawking sublinha que a Inteligência Artificial “irá acelerar a crescente desigualdade económica a nível mundial, fazendo com que só sobrevivam os empregos mais criativos ou de supervisão”. O Jornal Económico consultou especialistas de diversas áreas sobre esta revolução que já está a mudar as nossas vidas. António Bob Santos, economista e assessor para as políticas de inovação da Agência Nacional de Inovação (ANI), considera que “por muito sofisticadas que as tecnologias sejam nunca atingirão a inteligência humana”.

Sobre a possível destruição de postos de trabalho, o economista acredita que novas oportunidades vão aparecer. “Nos próximos 20 ou 30 anos aparecerão em Portugal mais profissões ligadas às areas do conhecimento como gestor de tecnologias intersetoriais, gestor de redes inteligentes ou gestores de conflitos.”

Em relação ao sistema da segurança social, o economista acredita que este não estará mais fragilizado. “Vejo oportunidades de diversificação de fontes de receita. Agora está dependente dos trabalhadores mas no futuro podem ser aplicadas taxas às indústrias da robotização, o que trará um ‘mix’ de vários sistemas”, defende.

André Barata, filósofo e coordenador do doutoramento de Ciência Política da Universidade da Beira Interior (UNI), partilha de uma opinião semelhante. “Se parte da riqueza de um país não for produzida por trabalho humano, isso não significa que não seja tributada numa economia online”, afirma.

Já Edmundo Alves, investigador do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa, mostra-se preocupado com as consequências para o mercado laboral. “Paralelamente, o progresso tecnológico, cujas vantagens são inegáveis, acarreta também inconvenientes consideráveis para o emprego. As empresas tecnologicamente avançadas tendem a não carecer de grandes contingentes de mão-de-obra e, sendo as mais inovadoras, são as que mais facilmente prescindem do trabalho humano. Daqui decorre que mesmo os que apostaram na formação têm crescentes dificuldades em encontrar uma colocação, expandindo-se a ausência de expectativas às camadas médias, como alertou Stephen Hawking”, refere.

Segundo um relatório publicado pelo Citibank em fevereiro de 2016 em parceria com a Universidade de Oxford, 47% dos empregos nos EUA estão em risco de ser substituídos por máquinas. No Reino Unido, 35% corre o mesmo risco. Na China, as estatísticas apontam para 77%, em contraste com a média da OCDE de 57%.

Dos automóveis à medicina
Passaram 60 anos desde que John McCarthy, cientista de computação e pai da IA, introduziu pela primeira vez este conceito – que foi recentemente debatido na edição deste ano do Fórum Mundial de Davos, onde a sociedade de advogados CMS organizou um fórum de discussão em parceria com a revista alemã “Die Zeit”, que juntou ali vários líderes políticos e empresariais.

A inteligência artificial é um campo vasto, com aplicações em várias áreas. Por exemplo, de acordo com a consultora A.T. Kearney, não demorá muitos anos até os clientes entrarem numa loja, serem saudados por chatbots (um robô que fala) e receberem recomendações de produtos com base no histórico de compras. Também um ramo da IA com base nas redes neurais do cérebro pode permitir aos assistentes inteligentes digitais ajudar a planear férias ou adivinhar os sentimentos dos clientes no que diz respeito a uma marca em particular.

Em termos de cuidados de saúde, a IA pode ajudar, entre muitos outros exemplos, os médicos a identificar tipos de células cancerígenas em qualquer lugar do mundo em tempo real. A organização filantrópica de Mark Zuckerberg e Priscilla Chan anunciou em janeiro deste ano a compra da Meta, uma ‘startup’ de IA, e tecnologia de análise de dados para a indústria da saúde. O objetivo é que seja mais fácil para os cientistas procurarem, lerem e relacionarem os muitos milhões de artigos científicos existentes.

Na indústria automóvel, os carros eléctricos da Tesla têm um modo de auto-piloto e outros fabricantes já demonstraram ter a tecnologia pronta. A Uber tem feito experiências-piloto com carros autónomos nos Estados Unidos. E o Google tem pequenos carros sem volante a circularem em estradas dos EUA. “É um rumo da história que me parece inevitável. Tem de haver uma regulação e uma afinação do comportamento dos carros”, conta o filósofo André Barata.

Por exemplo, a Volkswagen vai contratar mais de mil especialistas em realidade virtual e inteligência artificial para apoiar as equipas na produção inteligente, “big data” e desenvolvimento de software. Também a Ford acredita nos carros autónomos e aplicou uma fatia do orçamento para financiar a empresa de inteligência artificial Argo AI, fundada por antigos funcionários do Google e da Uber.

Fusão de humanos com máquinas?
O CEO e fundador da Tesla e da Space X, Elon Musk, conhecido pelas suas ideias futuristas, defendeu, durante uma apresentação no Dubai, que no futuro os seres humanos terão de conetar as suas mentes diretamente às máquinas. Caso contrário, correm o risco de ficar “obsoletos” com a crescente e constante evolução da Inteligência Artificial.

“Com o passar do tempo provavelmente vamos assistir a uma fusão mais próxima entre a inteligência biológica e a inteligência digital”, garante Elon Musk. A ideia do magnata da tecnologia é que as máquinas conseguem processar a informação de uma forma muito mais rápida do que o cérebro humano e a conciliação de forças poderia ser extremamente benéfica para o futuro.
“Nós somos tecnológicos desde há muito tempo. A primeira coisa é não ter receio da ciência. Sobre a tendência de prolongamento tecnológico do nosso corpo é possível que o progresso científico se instale no nosso organismo mas de forma ética”, defende o filósofo André Barata.

A ideia de tornar o homem uma espécie de “ciborgue” permitiria também, nas palavras de Elon Musk, encontrar uma maneira mais eficiente de interagir com as máquinas. No entanto, reconhece que os avanços da IA trouxeram problemas imediatos como a substituição do trabalho humano e afirma que não podemos esperar pela era dos ciborgues para evoluir, até porque enquanto está a ler este texto, as máquinas já leram 3.000.000.000.000.

“As máquinas podem complementar aquilo que o homem faz e até ampliar as competências humanas. É impossível um humano analisar milhões de terabytes de dados, mas com a ajuda das máquinas isso até pode ser um meio de acelerar a resolução dos problemas”, diz o economista António Bob Santos.

Os perigos
Em 2015, algumas das personalidades mais influentes da área da tecnologia juntaram-se para escrever uma carta, alertando para os perigos das armas autónomas. Entre os críticos está o professor Stephen Hawking, o cofundador da Apple, Steve Wozniak, o CEO da SpaceX, Elon Musk, o professor Noam Chomsky ou o chefe do gabinete de IA do Google, Demis Hassabis.
“A tecnologia com Inteligência Artificial chegou a um ponto que o desenvolvimento de tais sistemas – praticamente senão legalmente – é possível em apenas alguns anos, não décadas, e os riscos são grandes: as armas autónomas têm sido descritas como a terceira revolução no armamento, depois da pólvora e das armas nucleares”, pode ler-se na carta, resumindo que “uma corrida ao armamento que funcione através de IA é uma má ideia”.

O investigador Edmundo Alves alerta ainda para “a perda de privacidade”. No entanto, este especialista recorda que as revoluções colocam sempre problemas. E exemplifica: “Quando passámos do transporte de tração animal para os caminhos-de-ferro ou a introdução das máquinas na indústria. A diferença é que esses fenómenos de transição demoraram décadas a ser sentidos. Neste momento, com a IA o impacto sobre as pessoas, o emprego, os salários, o valor do trabalho e o Estado Social são extremamente rápidos”.

Ladrões de Bicicletas


Esqueçam a natalidade

Posted: 30 Jun 2018 06:08 PM PDT

O enfoque crescentemente negativo com que se encara a imigração para a Europa, e em particular os fluxos que partem do continente africano e do médio oriente, sugere que, em termos demográficos, a Europa não tem nenhum problema sério para resolver. Isto é, para lá do desprezo a que são sujeitos, na prática, os proclamados valores europeus do humanismo e da solidariedade, parece que a União Europeia não tem consciência da situação em se encontra, podendo assim dispensar os fluxos de entrada como contributo relevante para o seu rejuvenescimento.

O gráfico aqui em cima, contudo, deveria ser suficiente para perceber que o problema dificilmente se resolve, no médio-longo prazo, através da natalidade. Para que se tenha noção, o saldo natural (nascimentos menos óbitos) aproximou-se de zero em 2016 na UE28, na continuação da linha de queda que se regista, apesar das oscilações, desde meados dos anos sessenta. Mais: desde o início dos anos noventa, é o saldo migratório que mais contribui para o aumento da população, atingindo nos últimos anos valores próximos dos 100% na explicação do saldo demográfico (99% em 2016, quando em 1991 o contributo do saldo migratório não chegava a representar 40%).
O caso português não é menos ilustrativo desta tendência. Com a redução e estagnação do saldo natural desde o início da década de noventa, deve-se à imigração (particularmente relevante nesses anos) o aumento mais expressivo da população. E se ambas as dinâmicas (natural e migratória) entram no negativo a partir de 2011, a melhoria do saldo demográfico que se verifica a partir de 2013 resulta, no essencial, da recuperação do saldo migratório (o único que regressa a valores positivos em 2017). De facto, quando se observa a evolução do saldo natural nos últimos anos, constata-se que não só se mantém negativo como não deu, até agora, qualquer sinal de inversão (estabilizando em torno dos -23 mil).

Desengane-se pois quem considera, na Europa ou aqui, que tudo se resolve com o aumento da natalidade. Ou quem acha que esse aumento passa por despejar dinheiro sobre a questão (ainda por cima de forma iníqua, como propôs recentemente o PSD). Se levar à prática os valores humanistas que se apregoam não é razão suficiente para acolher a imigração que chega de forma dramática às portas da Europa, encarem-se então esses fluxos como um contributo indispensável para salvar a demografia europeia e resolver, mesmo que egoisticamente, um problema europeu.

Domenico Losurdo

Posted: 30 Jun 2018 02:31 PM PDT


A ideologia e a historiografia ocidental parecem querer resumir o balanço de um século dramático em uma historieta edificante, que pode ser assim sintetizada: no início do século XX, uma moça fascinante e virtuosa (a senhorita Democracia) é agredida, primeiro por um bruto (o senhor Comunismo) e depois por outro (o senhor Nazi-fascismo); aproveitando também os contrastes entre os dois e através de complexos eventos, a moça consegue enfim libertar-se da terrível ameaça; tornando-se nesse meio tempo mais madura, mas sem perder o seu fascínio, a senhorita Democracia pode agora coroar o seu sonho de amor mediante o casamento com o senhor Capitalismo; cercada pelo respeito e admiração geral, o feliz e inseparável casal adora levar a sua vida entre Washington e Nova Iorque, entre a Casa Branca e Wall Street. Estando assim as coisas, não é mais permitido ter qualquer dúvida: o comunismo é o inimigo implacável da democracia, a qual pôde consolidar-se e desenvolver-se apenas depois de tê-lo derrotado. Todavia, esta historieta edificante nada tem a ver com a história real.
Excerto inicial do artigo “Revolução de Outubro e democracia do Mundo”, da autoria de Domenico Losurdo, filósofo e historiador italiano. Losurdo faleceu anteontem aos 77 anos. A melhor forma de homenagear este grande autor marxista é lê-lo e usá-lo. Para quem nunca o fez, este artigo pode ser um bom sítio para começar. Infelizmente, não creio que haja qualquer obra sua editada em Portugal, em linha com grande parte do que há de mais vital nesta tradição, em geral, e nos seus veios mais críticos do chamado marxismo ocidental, em particular.
Para quem, como eu, tem dificuldade com o italiano, a obra de Losurdo está disponível em castelhano (Viejo Topo), em inglês (Verso) ou em português do Brasil (Boitempo). Por coincidência, na passada quarta-feira, fizemos-lhe uma homenagem no lançamento do livro mais ‘losurdiano’, no método, na erudição e em várias das suas conclusões, que eu conheço em Portugal, o Manual de Sociologia Política da autoria de João Carlos Graça.
Para alguma editora interessada, eu recomendaria começar pela tradução de duas obras de Losurdo: Liberalismo – uma contra-história e Luta de Classes – uma história política e filosófica. Por aqui, o primeiro livro já foi usado por Alexandre Abreu e o segundo por mim. E já nem falo da ascensão da China, onde Losurdo tem também uma visão relativamente rara nos meios da esquerda ocidental, coerente com o resto de uma obra em contra-corrente. Só conheço outro autor, por sinal italiano, com o mesmo tipo de olhar sobre esta complexa formação social: o economista político Giovanni Arrighi, infelizmente também já falecido.
Depois de se ler Losurdo, a história que se conta do liberalismo não pode ser a mesma. É-se compelido a concluir que o inacreditável à vontade com que gente que se diz de esquerda usa a fórmula “democracia liberal” é apenas o produto da sua submissão a uma poderosa ideologia, a que esquece como o liberalismo foi céptico em relação à democracia, ao poder do povo, ao longo da sua história cheia de “cláusulas de exclusão” elitistas e anti-democráticas e de uma imbricação mais longa e profunda do que se reconhece com o patriarcado, o racismo, o colonialismo ou o imperialismo. Depois de se ler Losurdo, passa a ser muito mais difícil excluir da luta de classes a dimensão da luta anti-colonial pela independência nacional. Depois de se ver a filosofia a trabalhar numa obra monumental de reinterpretação da história contemporânea, resgatando-a dos vencedores dos anos noventa, a Revolução de Outubro passa a ler lida sobretudo pelos seus efeitos externos emancipadores.
Se mais não houvesse, e há muito mais na leitura critica, comparativa e contextualizada das ideias enquanto forças materiais, associadas a determinados grupos sociais, isto bastava para afirmar que Losurdo merece ser tão lido por cá quanto o é por outros lados. Isto não quer dizer, naturalmente, que todas as suas análises históricas devam ser subscritas.
Seja como for, tivesse a linha de Losurdo tido mais influência política em Itália e talvez a esquerda desse país não se tivesse transformado na ruína actual.
Vai fazer falta.

Ronaldo e o final do Mundial aos 33 anos que levanta mais dúvidas do que certezas sobre o futuro

01 Julho 2018

Bruno Roseiro

O futuro de Ronaldo é preto e branco? O Tuttosport diz que sim, como hipótese para a Juventus. Certo é que, na Seleção e no clube, o avançado vai agora decidir o rumo para os últimos anos da carreira.

Enviado especial do Observador à Rússia (em Sochi)

Olhando para a capa do Tuttosport deste domingo, poderíamos dizer de olhos quase fechados que o futuro de Cristiano Ronaldo era branco e preto. De acordo com a publicação italiana, a Juventus estará apostada em garantir o jogador que, curiosamente, apontou um dos melhores golos da carreira em Turim (de tal forma que os próprios adeptos da Vecchia Signora se levantaram a aplaudir, num gesto que foi agradecido pelo avançado), contando com as dificuldades que estarão a existir com a renovação de contrato com o Real Madrid (a última proposta teria sido de 30 milhões de euros por época) e com a presença de Jorge Mendes, “o Tom Cruise dos agentes”, para intermediar o negócio financiado pela poderosa Fiat Chrysler Automobiles. “Ronaldo-Juve: que história!”, titular o jornal desportivo. No entanto, o futuro do capitão nacional é tudo menos branco e preto, no sentido literal — e as próprias palavras do jogador após o jogo com o Uruguai mostram essas dúvidas.

“Agora não é o momento de falar do futuro, treinador, jogadores, de um ciclo da Seleção. Mas tenho a certeza que a Seleção Nacional continuará a ser uma das melhores do mundo, com grandes jogadores, um grupo jovem, com ambição enorme. Estou confiante, estou contente porque sei que a Seleção vai estar sempre na máxima força”, comentou na zona das flashes (na zona mista acabou por não prestar declarações). “Estou muito orgulhoso de representar esta Seleção como capitão. Desfrutei desta competição com todas as pessoas envolvidas neste fantástico trabalho. Batemo-nos bem, apesar de hoje ser um dia triste. Queria dar uma alegria aos portugueses por nos terem apoiado do início até ao fim, tanto aqui na Rússia como nas praças. Temos de pensar neste momento. A competição foi boa a nível coletivo. Estou orgulhoso do meu trabalho, dos meus colegas e da equipa técnica. O balanço que fica não é brilhante mas Portugal é uma excelente Seleção e vai continuar”, completou.

Olhamos para o futuro de Ronaldo na Seleção Nacional, sobretudo a possibilidade de participar no próximo Mundial, e é algo incerto. Olhamos para o futuro de Ronaldo no Real Madrid, sobretudo a possibilidade de renovar contrato, e é algo incerto. No meio de tanta incerteza, a única coisa que parece ganhar alguma forma é mesmo a possibilidade de ganhar a sexta Bola de Ouro, pelo menos se continuarem a existir os mesmo “critérios” na escolha: até no ano da vitória da Espanha de Xavi ou Iniesta no Mundial de 2010 ou do triunfo da Alemanha de Neuer e Kroos em 2014, o triunfo (seja ele mais ou menos justo) acabou sempre por tocar ao português ou a Messi. Entre os dois, os pratos da balança estavam mais inclinados para o número 7, que acabou a vencer a terceira Champions consecutiva (depois de já ter ganho a Supertaça Europeia e a Supertaça de Espanha), perante a dobradinha nacional do argentino no Barcelona. Nomes com Neymar, Mbappé ou Cavani, mediante consigam ou não ir avançando na Rússia, serão sempre hipótese mas, com estas “regras”, Ronaldo parte na frente.

A confirmar-se, e muito em resumo, aquele que poderá tornar-se, no final de 2018, o jogador de sempre com mais troféus de Melhor Jogador do Ano, tendo já 33 anos, vai de férias a deixar o mundo em suspenso com as decisões que pode tomar.

De um lado, a idade. Do outro, o querer ser bater recordes

“Tem muito para dar ao futebol. Há uma nova competição em setembro [Taça das Nações], uma prova nova e obviamente que queremos que esteja connosco, para ajudar os mais novos a crescer. A equipa tem muitos jovens e é importante ter o capitão presente. E ele sempre disse ‘sim’ nestas horas”, comentou Fernando Santos após a derrota com o Uruguai.

Se recuarmos uns meses e refletirmos um pouco nas entrevistas que o selecionador foi dando antes da convocatória para o Mundial da Rússia, ficou a clara ideia de que, caso Danilo estivesse em condições físicas para ser chamado, a hipótese de levar apenas três centrais para a competição era não só válida como provável. Ou seja, deveriam integrar os 23 eleitos Bruno Alves, com 36 anos; Pepe, com 35; e J0sé Fonte, com 34. O jovem Rúben Dias, que se afirmou este ano no Benfica mas que fez apenas 20 encontros, acabou por entrar na lista, mas se existe uma questão premente em termos de Seleção tem a ver com a renovação que o eixo central recuado sofrerá a breve prazo.No entanto, a presença ou não de Ronaldo pesa mais.

Olhando para elementos como Raphael Guerreiro, Ricardo Pereira, William Carvalho, João Mário, Bruno Fernandes, Gelson Martins, Gonçalo Guedes, André Silva ou Bernardo Silva, Portugal já tem jogadores jovens e com potencial para fazerem um longo percurso na Seleção Nacional atualmente. E nos Sub-21 vemos também que o futuro estará assegurado. No entanto, até razões desportivas à parte, percebe-se que falta aquilo que o capitão é hoje, tendo Pepe como fiel escudeiro: um líder da equipa, um timoneiro nos bons e nos maus momentos, uma fonte de inspiração para que todos elevem o patamar onde se encontram. É verdade que Ronaldo é o melhor do mundo, aquele que como mais nenhum consegue virar ou resolver um jogo sozinho como aconteceu agora com Espanha e Marrocos, mas é também um exemplo para todos os outros.

Aos 33 anos, o madeirense vive cada encontro com a mesma paixão que tinha há década e meia, quando vestiu pela primeira vez a camisola principal de Portugal. Ainda tem reações extemporâneas, como os protestos após um lance na área do Uruguai nos descontos onde se pediu uma mão que parece ter existido, de Rui Patrício, mas tem uma postura diferente, mais adulta. Há muitos anos que Ronaldo é respeitado pelo que joga, há alguns anos que Ronaldo ganhou o respeito pelo que faz em campo. Os génios nunca têm prazo de validade mas, pela primeira vez, o capitão deixou em aberto o seu futuro também na Seleção, mesmo que não se coloque essa continuidade em causa a breve prazo. Existe a clara noção de que alguns elementos que estão agora nas opções de Fernando Santos ainda precisam de algum tempo para crescerem e atingirem o estatuto de líderes, um pilar fundamental para o sucesso, pelo que a presença do avançado seria a melhor forma de enquadrar o caminho. Além disso, há outro fator fundamental a ter em conta: a vontade que o número 7 tem de bater recordes. Se chegasse ao Mundial do Qatar, em 2022, arriscava-se a deixar alguns registos que poderiam não mais voltar a ser batidos. E isso também pesa.

Prolongar uma era ou abrir uma nova antes da etapa final?

Não é a primeira vez que chegamos a esta altura de férias/início de uma nova temporada e o futuro de Cristiano Ronaldo no Real Madrid está em dúvida. Nem sequer a segunda. No entanto, todos os momentos têm o seu contexto e o deste ano é especial, numa espécie de “fica ou racha” que, a acontecer, só poderá ser mesmo no timing que estamos a atravessar.

Foi percetível que as declarações do avançado após a conquista da terceira Liga dos Campeões consecutiva não foram bem aceites por parte dos responsáveis merengues, que consideraram não ser o momento adequado para as mesmas. Logo nessa noite e sobretudo no dia seguinte, o próprio jogador mudou um pouco o seu discurso, colocando o enfoque total no triunfo histórico que tinha sido conseguido e no agradecimento aos adeptos do clube numa época que não correu bem a nível de Campeonato. As coisas ficaram apaziguadas, mas os problemas que nessa altura existiam não perderam a sua atualidade.

Muito se falou e especulou sobre a situação de Cristiano Ronaldo na capital espanhola. Sobre o apoio maior ou menos em relação aos problemas que enfrentou com o Fisco espanhol, sobre o facto de ter ficado muito distante em termos dos mais bem pagos do mundo depois da transferência de Neymar para o PSG e da renovação de Messi com o Barcelona, sobre a suposta promessa de revisão contratual que teria sido feita mas nunca cumprida. Uma coisa parece ser certa: há duas equipas com ambições na Liga dos Campeões mas que acabam sempre por ficar na praia, PSG e Juventus, capazes de cometer uma loucura e avançar para a contratação do capitão nacional; por seu turno, o avançado sabe também que ficar no Real Madrid significa terminar por lá a carreira ao mais alto nível, mesmo que depois possa ainda experimentar uma liga fora da Europa.

Esta é a decisão que o Real Madrid, que continua com Neymar debaixo de olho como bandeira de uma nova era, e Cristiano Ronaldo, que poderia estar disposto a aceitar o desafio de tentar voltar a ser campeão europeu por uma terceira equipa depois do que já tinha alcançado pelo Manchester United, terão de tomar nas próximas semanas. Hoje, o avançado já tem planificações e ritmos ao longo de uma temporada diferentes, como se percebeu na gestão que Zidane foi fazendo ao longo da época, mas mantém intactas as qualidades que fizeram dele cinco vezes o melhor do mundo e a principal referência a nível de receitas vindas de contratos publicitários. E viu-se bem isso no Mundial: bastava tocar na bola ou aparecer nos ecrãs gigantes dos estádios de Sochi, Moscovo ou Saransk para tudo mudar. Quem assistiu diria que é algo que não tem preço. Mas tem. E resta saber se quem se aproximará do mesmo será o conjunto merengue ou um dos seus competidores estrangeiros pela Champions.

A dualidade moral é…

Novo artigo em Aventar


por j. manuel cordeiro

... sentir-se chocado por alguém usar uma foto de uma criança qualquer para ilustrar o que Trump fez aos filhos dos imigrantes ilegais mas não escrever uma linha sobre as acções de Trump propriamente ditas.

Dizem esses que é por isto que as pessoas desconfiam da comunicação social, como se por trás destas imagens não estivesse uma realidade cruel. Chutam para canto, também, afirmando que é uma lei de Obama. Pouco lhes importa que a realidade seja outra, tendo-lhes bastado um site alt-right publicar um vídeo com tais afirmações para virem gritar para a praça pública.

Na verdade, pouco importa se a lei é de Obama ou não. O que interessa é quem é que a está a aplicar e como - o diabo está nos detalhes e o "como" faz muita diferença. Sendo uma lei miserável, importa também explicar porque é não tinha sido corrigida, especialmente quando Trump tinha uma maioria no Congresso para o fazer. Chutar para o Obama, perdão, para canto, é uma forma de menorizar o que está a ser feito. Mas quanto a isso, silêncio. O problema está em algum idiota ter dado o flanco ao usar uma imagem que não é das crianças separadas e enjauladas.

Não faltam materiais que essa gente gente pudesse comentar, mas aquelas duas fotografias.... meu deus!

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