Translate

domingo, 1 de julho de 2018

Trump diz que a UE é "tão má" como a China

MAGALHÃES AFONSO01/07/2018 18:13

O presidente dos EUA afirmou ontem que a União Europeia (UE) é “possivelmente tão má como a China” na sua relação comercial com os EUA, apesar de o seu país gastar “uma fortuna na NATO” para proteger os europeus.

“A UE é possivelmente tão má como a China, só que é mais pequena”, disse Donald Traump em entrevista à cadeia de televisão Fox News.

“Tratam-nos muito mal, muito injustamente (...). E apesar disso nós gastamos uma fortuna na NATO para protegê-los”, acrescentou

Estas declarações de Trump acontecem depois de o Governo dos EUA ter anunciado nas últimas semanas taxas alfandegárias sobre importações oriundas quer da China, quer da UE. Em represália, Pequim e Bruxelas adotaram também taxas alfandegárias sobre produtos oriundos dos EUA.

A situação levou, de resto, a China e a UE a rejeitarem o protecionismo comercial de Trump, tendo mesmo proferido, a partir de Pequim, uma declaração conjunta onde afirmam estar disponíveis para evitar que essas práticas “tenham impacto na economia global” ou inclusive que resultem numa “recessão”.

A declaração surgiu depois de terem entrado em vigor novas tarifas aduaneiras no valor de 3,3 mil milhões de dólares aplicadas pela UE a produtos importados dos EUA. Uma medida retaliatória das novas taxas alfandegárias impostas pelos EUA à importações de aço (25%) e alumínio (10%)  de países da UE.

Entretanto Donald Trump ameaçou reforçar tarifas sobre a importação de automóveis produzidos na UE, a 6 de julho entram em vigor nova tarifas aduaneiras aplicadas pelos EUA à importação de bens oriundos da China num montante de 34 mil milhões de dólares e Trump ameaça ainda com novas tarifas sobre 200 mil milhões de dólares de bens chineses.

Madonna estaciona frota de 15 carros em terreno cedido pela Câmara de Lisboa

30/6/2018, 10:42

Como o Museu Nacional de Arte Antiga se recusou a ceder o seu estacionamento a Madonna, a Câmara de Lisboa disponibilizou um terreno para a cantora poder estacionar os seus 15 carros.


A Câmara de Lisboa cedeu as traseiras do Palácio Pombal a Madonna para a cantora poder estacionar a sua frota de carros

MANUEL RIBEIRO/AFP/Getty Images

Autor
Mais sobre

A Câmara de Lisboa cedeu as traseiras do Palácio Pombal, junto à Rua das Janelas Verdes (Lisboa), a Madonna para a estrela pop poder estacionar a sua frota de carros.

A notícia é avançada, este sábado, pelo Expresso. A ideia de colocar as 15 viaturas naquele terreno, contudo, não partiu da autarquia. António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), explica ao semanário que foi ele quem fez essa sugestão ao chefe de gabinete de Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa. Isto porque a Câmara, inicialmente, queria que o museu cedesse o seu espaço de estacionamento à cantora norte-americana, algo que António Filipe Pimentel recusou.

Aliás, foi o diretor quem mostrou o espaço, que pertence à Câmara, após o chefe de gabinete de Medina se ter deslocado ao museu “de urgência, depois de ter visto no Google Maps” o estacionamento do MNAA.

O Expresso não especifica como foi feito o pedido de Madonna à autarquia nem há quanto tempo o terreno é utilizado por Madonna, mas um responsável pela construção de um prédio junto ao palácio, citado pelo semanário, fala em cerca de “seis meses”.

A Câmara de Lisboa esclareceu que a cedência do espaço ocorre “apenas durante um período limitado enquanto decorrerem as obras nos prédios nas Rua das Janelas Verdes”, acrescentando que o mesmo terreno já foi “disponibilizado a outras entidades, nomeadamente ao Ministério da Cultura até dezembo de 2017”. Este acordo entre a autarquia e Madonna, no entanto, não será a custo zero: no fim do empréstimo, será cobrada a verba correspondente à renda, segundo o Expresso.

Fonte da Câmara adiantou ainda ao Diário de Notícias que o acordo foi feito oralmente entre Fernando Medina e Madonna, não existindo nada por escrito.

O Observador tentou contactar os assessores da Câmara de Lisboa para obter mais esclarecimentos, mas até ao momento não teve qualquer resposta.

A cantora está a viver no Palácio Ramalhete há vários meses. Muito se especulou sobre a residência da norte-americana, que se mudou para a capital portuguesa no ano passado. E a tarefa de arranjar casa não foi fácil para a estrela pop, que esteve hospedada no Pestana Palace enquanto não se mudava para uma morada fixa em Lisboa.

Inicialmente, falou-se que Madonna se iria mudar para a Quinta do Relógio, um palacete do século XVIII no centro da vila de Sintra, com sete quartos, sete casas de banho, três salas e um grande jardim.

Mexicanos vão a votos em eleições com resultado previsível, ao contrário do futuro do seu país

1/7/2018, 14:27

O esquerdista López Obrador é o favorito para vencer as eleições mexicanas, pondo um fim a décadas de poder do PRI e do PAN. Violência, corrupção e Trump pesam sobre o futuro incerto do México.

PEDRO PARDO/AFP/Getty Images

Autor
Mais sobre

Os mexicanos vão a votos este domingo no México, numas eleições que se prevêem que resultem na eleição de Andrés Manuel López Obrador como Presidente do México. O líder do Morena deixa no ar mais dúvidas do que respostas para o futuro do país, que chega às urnas numa altura em que a corrupção e a violência no México chega a níveis preocupantes.

Durante a longa campanha, que durou três meses, López Obrador prometeu levar o México à sua quarta transformação, sucedendo assim a três momentos históricos daquele país: a independência (1821), a reforma (1854) e a revolução (1920).

As urnas abriram às 8h00 locais (14h00 de Lisboa) e só fecham às 18h00 locais (00h00 de Lisboa). Os primeiros resultados são esperados apenas às 23h00 locais deste domingo (5h00 de segunda-feira de Lisboa).

Ver imagem no Twitter

Ver imagem no Twitter


O fundador e líder do Morena (Movimento Nacional de Regeneração, de esquerda) aparece destacado nas sondagens, com valores que quase tocam nos 50% — o suficiente para ser eleito, já que no México as eleições presidenciais fazem-se a uma só volta. O maior adversário de López Obrador é Ricardo Anaya, do Partido Ação Nacional (PAN, de centro-direia), cujas previsões em torno dos 25% o deixam longe de poder realisticamente ser eleito.

Ao vencer estas eleições, o homem conhecido como AMLO (junção das suas iniciais) deverá tornar-se no primeiro Presidente mexicano a liderar um governo que não pertence nem ao Partido Revolucionário Institucional (PRI, de centro-esquerda e do Presidente cessante, Enrique Peña Nieto) nem ao PAN. López Obrador já tinha concorrido outras duas vezes para Presidente do México: em 2006 perdeu por menos de 250 mil votos contra Felipe Calderón; em 2012 perdeu contra Peña Nieto, por 6,6%. Agora, a vitória parece não fugir-lhe das mãos.

Desta forma, o resultado destas eleições presidenciais e legislativas é praticamente um apontamento quando colocado ao lado daquilo que parece ser a maior dúvida: que futuro sobra para o México depois deste domingo? A campanha de López Obrador tem sido marcada por uma ambiguidade.

Embora prometa o fim daquilo a que chama a “época neoliberal” e de se promover como um opositor do establishment — valendo-lhe de forma recorrente comparações a Hugo Chávez — durante esta campanha procurou ir ao encontro de empresários. Se, de um lado, promete um combate cerrado contra a corrupção, por outro, em dezembro, chegou a sugerir amnistiar alguns dos líderes de cartéis da droga que estão atualmente presos — proposta que retirou depois de ter sido amplamente criticado por ela.

A violência é também uma das principais preocupações neste México que vai agora a votos. Com mais de 26 mil homicídios — a um ritmo cerca de 80 por dia — o ano de 2017 foi um dos mais sangrentos dos últimos 20 anos, quase ultrapassando os 27.199 homicídios registados em 2011. Aqui, o combate ao narcotráfico e também os conflitos entre alguns daqueles grupos criminosos, é o principal responsável. Durante a campanha, também foram mortos 130 políticos.

A nível internacional, López Obrador terá a Norte o seu maior desafio, à medida que Donald Trump fecha a fronteira com o México (impedindo a passagem de emigrantes mexicanos e também de outros países da América Central) e no caso de o Presidente norte-americano cumprir a sua promessa de rever ou cancelar o NAFTA, o tratado de livre-comércio entre os EUA, o México e o Canadá.

Matteo Salvini quer criar uma liga europeia depois do seu triunfo em Itália

ITÁLIA

HÁ UMA HORA

Líder de partido anti-imigração e eurocético quer uma união de partidos semelhantes à Liga em todos os países europeus. E promete governar uma "Itália sem medo" durante "os próximos 30 anos".


Matteo Salvini, líder da Liga

PAOLO MAGNI/EPA

Autores
  • Agência Lusa
Mais sobre

O líder do partido nacionalista de extrema-direita Liga, Matteo Salvini, afirmou este domingo no encontro anual do partido que, depois de alcançado o objetivo de integrar o Governo em Itália, quer criar uma Liga nacionalista europeia em 2019.

O encontro anual do partido, em Pontida, no norte de Itália, é o primeiro desde que Salvini obteve mais de 17% dos votos nas eleições de março e foi chamado a formar um Governo de coligação com o populista Movimento 5 Estrelas, no qual é vice-primeiro-ministro e ministro do Interior.

No discurso que pronunciou perante milhares de apoiantes, Salvini, 45 anos, festejou os resultados do partido, mas disse recusar “conformismos” porque “o objetivo é mudar a Europa” e “dar voz” a todos quantos estão dececionados com as políticas europeias.

“Penso numa Liga de Ligas na Europa, que una todos os movimentos livres, orgulhosos e soberanos que querem defender a sua população, as suas fronteiras, as suas fábricas e o bem-estar dos seus filhos”, disse, à frente de um cenário onde se lia o lema do partido para as últimas eleições, “Os Italianos Primeiro”.

“Só se as ideias da Liga chegarem a França, Alemanha, Espanha, Polónia, Áustria, Hungria, Dinamarca ou Portugal esta Europa terá a esperança de existir”, afirmou.

Salvini prosseguiu afirmando que a vitória em Itália foi “só o princípio” de uma corrida que pretende levar a um “nível continental” a partir de 2019, quando se realizam eleições para o Parlamento Europeu.

No discurso em Pontida, Salvini aproveitou também para falar da situação interna do país, afirmando que a ação do seu partido no poder serve de exemplo para o resto do continente: “Não apenas os italianos, mas também toda a Europa, notaram que há um Governo que fez num mês mais do que os outros governos fizeram em seis anos de sono”, afirmou.

E o líder da Liga deixou uma promessa para o futuro: “Quero governar não por cinco meses ou por cinco anos”, declarou. “A Itália que vamos governar nos próximos 30 anos é uma Itália que não tem medo de nada nem de ninguém.”

A Liga, que chegou ao governo com 17% dos votos em março, é creditada atualmente pelas sondagens com 31,2% das intenções de voto, o que faz do partido o maior de Itália. Por outro lado, numa sondagem recente, realizada em meados de junho pelo instituto Ipsos, 59% dos italianos afirmaram apoiar a política de imigração de Salvini.

Oito novos tratamentos contra o cancro explicados por três oncologistas. O segredo é reduzir e personalizar

01 Julho 2018

Vera Novais

Durante os encontros médicos há sempre notícias sobre avanços promissores. O que podemos ver aplicado num futuro próximo no tratamento do cancro? Perguntámos aos oncologistas que estiveram presentes.

“Não conseguimos vencer a guerra contra o cancro, mas estamos a conseguir vencer algumas batalhas”, diz o oncologista Paulo Cortes. E essas batalhas vencem-se quando se reduz o tempo de tratamento com as mesmas vantagens, mas com menos efeitos secundários, quando se desenvolvem novos tratamentos ou quando se aposta numa medicina personalizada (em que o tratamento é específico do doente). E todos os anos — para não dizer todos os meses — há novidades sobre novas armas e estratégias para usar nestas batalhas.

“A ciência está a evoluir no sentido da personalização dos tratamentos”, diz Gabriela Sousa, médica do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra. Porque não existe — e provavelmente nunca existirá — uma cura universal para o cancro. Não só o cancro do pulmão é diferente do cancro da mama e diferente do melanoma, como cada cancro do pulmão é diferente de pessoa para pessoa. “São doenças diferentes, em pessoas diferentes, com imunidades diferentes”, diz ao Observador Paulo Cortes, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

“Como é que tumores biologicamente iguais se comportam de maneiras diferentes em cada pessoa?”

Gabriela Sousa, médica do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra

Os congressos médicos da especialidade são um bom local de partilha de todos estas descobertas, dos resultados dos ensaios clínicos, da confirmação daquilo que já se sabia ou da apresentação de resultados completamente inesperados. Mas estes congressos falam numa linguagem própria: a linguagem dos médicos e investigadores. O que é que isto significa para os doentes e para as famílias?

O Observador falou com três oncologistas portugueses que estiveram na reunião anual da Associação Americana de Oncologia Clínica — 2018 ASCO Annual Meeting —, que reuniu mais de 30 mil participantes, para perceber o que de mais importante se discutiu nesta reunião e que impacto pode ter na prática clínica.

Estimativa da incidência de cancro e mortalidade causada pela doença. O cancro da mama e da próstata têm incidências altas, mas têm taxas de cura na ordem dos 70%. Apenas 40% dos cancros são preveníveis, mas deixar de fumar é a principal causa de cancro que se pode prevenir — WHO

Como evitar a quimioterapia nas doentes com cancro da mama?

Ouvirmos dizer que a quimioterapia pode ser evitada em 70% das mulheres com cancro da mama são boas notícias, mas devem ser explicadas, porque não se referem a todos os tipos de cancro, nem as medidas vão ser aplicadas em toda a parte. É verdade que o estudo que chegou a estas conclusões foi feito com o tipo de cancro da mama mais frequente, ainda assim refere-se apenas a um tipo de cancro da mama: precoce, hormono-dependente, sem nódulos axilares e HER2-negativo.

A grande vantagem deste trabalho em relação a estudos anteriores, explica Paulo Cortes, é que este se trata de um estudo prospetivo, e não retrospetivo, ou seja, um estudo controlado que acompanha os doentes ao longo do tempo, e não um estudo baseado em dados do passado. “A aplicabilidade prática é imediata”, garante o médico.

Os resultados foram baseados num teste genómico ao cancro da mama — Oncotype DX — que identificou 21 genes e vai beneficiar sobretudo quem tem acesso a este tipo de testes. “Nos Estados Unidos este tipo de teste genómico é pedido a todas as mulheres com cancro da mama hormono-dependente”, disse Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro de Cancro Champalimaud. “Mas na Europa só se pede um teste genómico quando há dúvidas se a pessoa precisa de fazer quimioterapia.” A investigadora explica porquê: nos Estados Unidos, as seguradoras comparticipam estes testes, mas na Europa não. Cada teste genómico Oncotype DX custa 3.600 euros por doente, lembra Gabriela Sousa.

“Em Portugal, e em muitos países da Europa, os testes não são reembolsados nem pelas seguradoras, nem pela maioria dos sistemas de saúde.” Mas deviam, na opinião da médica. A esperança é que estes resultados sirvam de pressão para que passe a haver comparticipação. Paulo Cortes reforça que agora “temos dados de evidência científica de qualidade”, que se traduzem em “poupanças de recursos”.

“Na Europa só se pede um teste genético quando há dúvidas se a pessoa precisa de fazer quimioterapia.”

Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro de Cancro Champalimaud

Para Fátima Cardoso, os resultados são particularmente importantes para quem usa Oncotype DX e não sabe o que fazer com os casos de risco médio de recidiva (o risco de o cancro voltar a aparecer). Mas na Europa “não vai mudar o que se faz na prática”, afirma a médica, responsável pelas recomendações europeias para o cancro da mama (precoce e avançado).

Para decidir se um doente precisa de fazer quimioterapia para evitar recidivas avaliam-se as características do tumor — o tipo de tumor, grau de diferenciação das células, resposta a outros tratamentos — e o doente (como a idade e o estado de saúde geral). Se o risco é baixo, a terapia hormonal pode ser suficiente. Quando o risco é alto, a quimioterapia é fortemente aconselhada. Quando o risco é médio, podem surgir algumas dúvidas sobre que tratamento fazer, dúvidas essas que os testes genéticos podem ajudar a resolver.

“Já estávamos à espera do TailorX [Trial Assigning Individualised Options for Treatment] há muito tempo”, disse Fátima Cardoso, sobre o estudo agora apresentado. Este trabalho veio reforçar os resultados que a equipa da investigadora já tinha publicado em 2016 na revista The New England Journal of Medicine. Na altura, a equipa validou o teste Mammaprint com ensaios clínicos e verificou que 46% das mulheres, com cancro da mama em estádio inicial, que são classificadas como doentes de alto risco pelos métodos tradicionais poderiam evitar fazer quimioterapia.

As vantagens de evitar quimioterapia são claras, para o doente e para a sociedade. Por um lado, o doente evita todos os efeitos secundários da quimioterapia, como cansaço, náuseas, vómitos, queda de cabelo e, mais tarde, o risco de problemas cardíacos e outros tumores. Por outro, evitam-se os custos indiretos, como as faltas do doente ao trabalho ou os profissionais de saúde que deixam de estar alocados a esse tratamento.

Os testes genéticos e genómicos podem ajudar a escolher os melhores tratamentos?

Teste genético vs genómico

Um teste genómico pretende analisar os genes do tumor, enquanto o teste genético se refere à análise dos genes da pessoa (doente ou não).

Paulo Cortes considera que a análise dos genes das células tumorais e dos doentes, e a interação com o microbioma, “tem tido um grande desenvolvimento e tem-se mostrado muito promissora”. Estas análises identificam alterações genéticas que podem, potencialmente, ser alvos terapêuticos para os medicamentos. É preciso é que esses fármacos estejam disponíveis. E é isso que faz Fátima Cardoso olhar de uma forma mais cautelosa para a possibilidade de estes testes ajudarem a escolher os tratamentos. “Ainda não existem medicamentos para todas as alterações que possam ser identificadas pelos testes genéticos ou genómicos.”

O presidente da SPO concorda que os testes genéticos não são solução para tudo, mas estes testes podem ajudar a selecionar que doentes podem beneficiar da imunoterapia e que tipo de resposta podem ter, por exemplo. “É uma revolução a começar. Estamos a dar os primeiros passos e precisa de ser integrada com calma, mas é irreversível.”

Identificar os genes de uma pessoa tornou-se relativamente fácil. Saber o que fazer com os resultados nem tanto — chemicalbilly/Getty Images/iStockphoto

Por enquanto, as recomendações europeias e norte-americanas dizem que este tipo de testes não deve ser usado, só nos ensaios clínicos. O problema é que há muitos testes genéticos disponíveis sem controlo nem regulamentação, alerta a Fátima Cardoso. E as pessoas chegam à consulta com o resultado dos testes à espera de uma solução. “Primeiro, é preciso perceber, entre todas as alterações do tumor, quais são realmente importantes, quais as que potenciam a malignidade do tumor. Em seguida é necessário desenvolver medicamentos que consigam chegar a esses alvos”, refere a investigadora para reforçar o longo percurso que ainda é preciso fazer.

Como melhorar a monitorização dos tratamentos?

Ainda sobre os testes genéticos, Gabriela Sousa não vê vantagens em generalizar este tipo de testes genéticos. A oncologista prefere falar de outra possibilidade: as biópsias líquidas, que analisam os nossos fluídos corporais (sangue, urina ou ar expirado) à procura de proteínas tumorais que possam ajudar a detetar a doença antes de esta se manifestar. “Ainda estamos longe da prática clínica, porque envolve tecnologia muito cara”, diz. Em estudo está, por exemplo, a possibilidade de usar biópsias líquidas para monitorizar a evolução dos tratamentos.

A especialista em tumores urológicos (rim, próstata, bexiga, testículos) dá como exemplo o carcinoma da próstata resistente à castração. Existem seis fármacos aprovados para o tratamento destes doentes, mas nem todos os tratamentos são igualmente eficazes com todos os doentes. “A biópsia líquida permite-nos perceber quais é que podemos eliminar à partida.”

Mas as biópsias líquidas não são a única hipótese de monitorizar os tratamentos e também aqui podem haver melhorias. Durante o encontro, um grupo de investigadores mostrou que um método de diagnóstico, que já existe em Portugal (PET PSMA), usado em doentes que foram sujeitos a cirurgia ou quimioterapia, era mais eficaz a detetar metástases e conseguia fazê-lo mais cedo. Isto permite que os doentes iniciem ou mudem de tratamento mais cedo também, explica Paulo Cortes.



Estimativa da incidência de cancro nas mulheres, em 2012. A incidência de cancro nas mulheres portuguesas é inferior à dos homens (ver gráfico seguinte).

WHO

2 fotos

A imunoterapia é solução para todos os problemas de cancro?

Sobre a imunoterapia, Fátima Cardoso apressa-se a dizer que “não é uma panaceia” e “não vai dar a cura para o cancro”. “É uma nova arma que estamos a aprender a usar, mas só funciona com alguns tipos de cancro.” Além disso, precisa de ser coadjuvada com radioterapia ou quimioterapia.

Paulo Cortes concorda que não é um tratamento universal, mas defende que a imunoterapia representa uma mudança de paradigma, porque é uma abordagem transversal a vários tumores, em vez de ser uma abordagem confinada a cada tipo de tumor. “Têm-se falado muito de imunoterapia e com justiça, porque tem feito uma enorme diferença para alguns tipos de tumores e tem tido boas respostas em tumores de fases avançadas”, diz o oncologista.

Os melhores resultados para a imunoterapia têm sido encontrados nos tumores que têm mais mutações genéticas, como o melanoma ou alguns subtipos de cancro do pulmão, nomeadamente cancro do pulmão de células não-pequenas. Neste encontro, não houve novidades em relação ao tratamento do melanoma, conta o especialista neste tipo de tumor, mas os estudos apresentados tornaram mais sólidos os conhecimentos existentes. Já no caso do cancro do pulmão, além dos trabalhos que consolidam os conhecimentos prévios, houve também novidades: os cancros do pulmão de células escamosas e de pequenas células podem beneficiar de tratamentos de imunoterapia. Por enquanto, é preciso esperar por mais estudos que confirmem estes resultados.

Em oposição, a imunoterapia não tem mostrado grandes resultados com o cancro da mama, lembra Fátima Cardoso. “Talvez com o cancro da mama triplo negativo [quando o cancro da mama não é hormono-dependente nem HER2-positivo] venha a ter um papel importante.” Este subtipo de cancro da mama tem, pelo menos, sete subgrupos identificados e ainda não existe tratamento específico para nenhum deles.

Em relação ao caso de Judy Perkins, uma norte-americana que foi sujeita a uma nova técnica de imunoterapia para tratar um cancro da mama metastático, Fátima Cardoso não vê razão para ter sido publicado na Nature Medicine. “A doente não está curada, está em remissão completa. A doença não é visível, mas não desapareceu”, lembra a médica. “Já tive doentes, a fazer só hormonoterapia, em remissão completa durante quatro ou cinco anos, mas, eventualmente, a doença regressa.” Deste caso, a investigadora retira aquilo que se pode aprender com as pessoas que tiveram resultados excecionais para ajudar a tratar os outros doentes.

“A doente não está curada, está em remissão completa. A doença não é visível, mas não desapareceu.”

Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro de Cancro Champalimaud

Fátima Cardoso lembra que todos os anos 1,7 milhões de mulheres são diagnosticadas pela primeira vez com cancro da mama. A técnica usada é específica para cada pessoa, o que implica que demore muito tempo, custe muito dinheiro e que seja logisticamente difícil de aplicar. Para a investigadora, é muito difícil que se venha a tornar um tratamento corrente.

Judy Perkins era um caso incurável, a quem os médicos tinham previsto três meses de vida. São estes casos, os incuráveis pelos meios de tratamentos disponíveis, que são convidados a participar nos ensaios clínicos com tratamentos inovadores. Só se os medicamentos se mostrarem eficazes e seguros, pode o ensaio ser alargado a outros doentes. “Não podemos alterar o tratamento de um cancro potencialmente curável com um tratamento experimental”, justifica a médica.

Conseguimos aumentar a esperança de vida em doentes com cancro do pâncreas?

Nos encontros médicos, tanto podem ser anunciados tratamentos inovadores, como serem apresentados mais dados que confirmem estudos anteriores ou pequenas alterações que podem mudar as práticas clínicas. Um dos exemplos para este último caso foi referido por Paulo Cortes e diz respeito ao cancro do pâncreas, “um tumor muito difícil de tratar”.

Quando o cancro do pâncreas é identificado numa fase inicial — quando ainda está localizado no órgão e não tem metástases — é removido cirurgicamente. Por vezes, a cirurgia consegue remover o tumor na totalidade, mas nem sempre isso acontece. Às vezes, ficam algumas células para trás, que podem dar origem a um novo tumor.Um tratamento convencional de quimioterapia, com gemcitabine, depois da cirurgia aumenta o tempo de sobrevida dos doentes quando comparado com a cirurgia só por si. Mas agora há uma nova proposta.

“Temos de escolher os doentes que têm melhores condições para o fazer, porque é muito agressivo.”

Paulo Cortes, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia

Um ensaio clínico de fase III mostrou que se estes doentes fossem submetidos a um tratamento de quimioterapia normalmente usado com doentes metastáticos — Folfirinox — viviam em média mais 21,6 meses (contra 12,8 meses com o tratamento convencional) e ficavam livres de cancro mais nove meses do que quem fez o tratamento convencional, com gemcitabine. A desvantagem é que esta quimioterapia é mais agressiva e tem mais efeitos secundários que o tratamento convencional. Logo, não poderá ser usada com todos os doentes, esclarece Paulo Cortes.

“Provavelmente vamos passar a usar”, disse o médico, sobre o tratamento que já é feito em Portugal para doentes em estado avançado. “Mas temos de escolher os doentes que têm melhores condições para o fazer, porque é muito agressivo.”

Um dos problemas do cancro do pâncreas é que é difícil de detetar precocemente, mas novidades nesta área não houve, diz o oncologista. “Houve um estudo há uns anos, que envolvia genómica, mas os resultados ainda são muito preliminares.”

Steve Jobs, fundador da Apple, removeu o tumor pancreático em 2004. Em outubro de 2011, morreu devido à doença — Getty Images

É possível evitar a remoção do rim em caso de cancro?

As alterações de tratamento, sobretudo aquelas que mostram os mesmos resultados sujeitando os doentes a menos intervenções, são sempre opções a considerar. Gabriela Sousa e Paulo Cortes destacam um ensaio clínico que mostrou que os doentes com cancro do rim metastático, podiam não ter vantagens em remover cirurgicamente o órgão afetado antes de fazerem o tratamento com os antiangiogénicos.

Quando o tumor é precoce e localizado, é sempre feita a remoção do rim doente. Mas a remoção do órgão quando já existem metástases no corpo pode não trazer vantagens. A hipótese dos investigadores que apresentaram o estudo era que fosse suficiente fazer o tratamento com sunitinib, um medicamento que controla a produção de novos vasos sanguíneos, essencial à sobrevivência do cancro.

No ensaio clínico de fase III apresentado, os investigadores verificaramque os doentes com cancro de rim metastático que fizeram só tratamento com sunitinib não tiveram menos tempo de vida após o tratamento, quando comparados com os doentes que fizeram cirurgia antes do tratamento.

Há dois tipos de vantagens, para os doentes, que não fizeram a cirurgia. Por um lado, podem começar a medicação mais cedo — quatro a seis semanas mais cedo, por exemplo —, o que é importante numa situação em que o cancro pode evoluir tão rapidamente que inviabiliza o início tardio do tratamento. Por outro lado, o doente que não faz a cirurgia evita todas as complicações associadas a esta intervenção, como infeções, hemorragias, embolismos pulmonares ou problemas cardíacos.



Estimativa da mortalidade devido ao cancro, nas mulheres, em 2012. De forma geral, a mortalidade nas mulheres é inferior à dos homens (ver gráfico seguinte).

WHO

2 fotos

Podemos prevenir as metástases ósseas, fraturas e recidivas com um único medicamento?

As mulheres em pós-menopausa são um grupo de risco para a osteoporose e fraturas. Um risco que se agrava no caso de mulheres que tiveram cancro da mama hormono-dependente e estão a fazer tratamento com uma classe de medicamentos chamada de inibidores de aromatase. O medicamento denosumab (dentro da classe das imunoterapias) é usado para tratar metástases ósseas e já se tinha mostrado eficaz na prevenção de fraturas. Com a vantagem de não ser revelar tóxico para as doentes. Agora, os investigadores mostraram que, nestas doentes, também previne o aparecimento de recidivas.

“Não previne as recidivas em 100% dos casos mas diminui-as de uma forma significativa e sobretudo as metástases ósseas.”, afirma Fátima Cardoso. Não foram identificadas “metástases locais ou distantes, cancro da mama na segunda mama, carcinoma secundário ou morte por outras causas”, referiu o autor do estudo Michael Gnant, investigador na Universidade Médica de Viena (Áustria).

Esta diminuição das recidivas é um efeito inesperado e acaba por funcionar como um prevenção secundária, um benefício adicional. Mas as conclusões definitivas sobre sobrevivência só poderão ser feitas após o final da experiência que ainda está a decorrer. Ainda assim, o médico David Cameron, médico na Universidade de Edimburgo (Reino Unido), não se deixou convencer. O médico não achou que fossem claros os benefícios em relação aos bifosfonatos que já são usados para prevenir os efeitos secundários dos tratamentos com os inibidores de aromatase.

“Não previne em 100% dos casos e é mais nas metástases ósseas, mas globalmente diminui as recidivas.”

Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro de Cancro Champalimaud

Estes resultados têm implicações clínicas diretas, afirma a médica. “Já estávamos a usar um medicamento da mesma família, mas com uma injeção endovenosa [diretamente na circulação sanguínea]. Este tem a vantagem de ser subcutâneo, ser mais potente e ter menos efeitos secundários.”

Como é um medicamento destinado ao tratamento de metástases ósseas, seja qual for a origem — o cancro da próstata e do pulmão originam muitas metástases deste tipo, por exemplo —, abre-se aqui uma porta à investigação sobre os efeitos de proteção secundária que pode ser nestes casos.

E se o tratamento do cancro da mama poder ser mais curto?

O cancro da mama do subtipo HER2-positivo é dos cancros de mama mais agressivos, mas também é daqueles cujo tratamento tem mais sucesso. Está bem identificado que o gene HER2, quando mutado, leva a uma produção anormal da proteína HER2 na superfície das células. Conhecendo qual o alvo potencial de um tratamento, mais fácil é encontrar o fármaco que o combata. E assim foi.

“O HER2-positivo costumava ser dos cancros da mama mais agressivos, mas desde que existem tratamentos dirigidos passou a ser dos que melhor sabemos tratar”, conta Fátima Cardoso.

O tratamento está bem identificado, mas é caro. Em Portugal, são 30 mil euros por ano (o período de tratamento recomendado), suportados pelo Serviço Nacional de Saúde ou pelas seguradoras, refere Fátima Cardoso. “Um dos 10 medicamentos em que o Estado português gasta mais dinheiro”, acrescenta Gabriela Sousa. O que justifica o interesse do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido em financiar um estudo que pretendia avaliar se o tratamento feito por um período de tempo mais curto era igualmente eficaz.

“Um dos 10 medicamentos em que o Estado português gasta mais dinheiro.”

Gabriela Sousa, médica do Serviço de Oncologia Médica do Instituto Português de Oncologia de Coimbra

O ensaio clínico de fase III envolveu mais de quatro mil mulheres com cancro da mama HER2-positivo em fase inicial e o objetivo era avaliar se seis meses de tratamento com trastuzumab tinham resultados equivalentes ao tratamento feito durante um ano. E a conclusão dos investigadores é que sim. Com a vantagem de que os efeitos secundários, nomeadamente a nível cardíaco, foram menos frequentes e mais rápidos de resolver nas doentes que fizeram apenas seis meses de tratamento.

O que são medicamentos biossimilares?

À semelhança do que acontece com os medicamentos genéricos, os biossimilares podem aparecer no mercado depois de a patente da molécula original ter expirado.

Num e noutro caso, os medicamentos (genéricos ou biossimilares) são mais fáceis de produzir do que os originais. No entanto, no caso dos biossimilares, a produção continua a ter alguma complexidade porque se tratam de medicamentos biológicos.

Os biossimilares e os seus originais são anticorpos monoclonaisproduzidos com recurso a linhas celulares. Para poderem ser aprovados pelas agências do medicamento norte-americana (FDA) e europeia (EMA), os biossimilares são sujeitos a critérios mais exigentes e a controlos de qualidade maiores do que os medicamentos genéricos.

Além dos benefícios para o doente, os benefícios para os serviços de saúde são claros: com o mesmo dinheiro conseguem tratar dois doentes. Isto é particularmente importante para os países de rendimento médio, nota a médica, que desta forma poderão cumprir a recomendação da Organização Mundial de Saúde que incluiu o trastuzumab na lista dos medicamentos essenciais que todos os países devem ter para servir, pelo menos, 80% dos doentes que precisam. Fátima Cardoso alerta, no entanto, que para os países de rendimento mais baixo esta medida ainda não será suficiente. Nestes casos, os biossimilares poderão ser a solução porque são cerca de 20 a 30% mais baratos que o medicamento original. Ainda assim, a médica considera que deviam ser ainda mais baratos. “Era preciso, no mínimo, 50% de redução de preço. A competição vai acabar por conseguir isso.”

Se isto vai alterar a prática feita em Portugal e na Europa? “Para os doentes com um bom prognóstico, talvez”, diz a médica, mas sobre os restantes doentes tem mais dúvidas. “Este é o primeiro estudo neste sentido”, diz Paulo Cortes, que não vê, para já, a possibilidade de redução do tratamento. “Mas é bom olharmos e pensarmos nesta hipótese”, continua lembrando que não vai ser para todos os doentes.

“Quem escreve as recomendações europeias para o cancro da mama sou eu. Ainda vou precisar de falar com muitos colegas e ainda vai demorar algum tempo até se poder alterar as recomendações europeias”, diz Fátima Cardoso. A oncologista acredita que ainda vai haver muita discussão à volta destes resultados até que todos os médicos se sintam confortáveis em fazer o tratamento por menos tempo. “Haverá pessoas que têm receio de fazer um tratamento mais curto.”