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sábado, 14 de julho de 2018

Trump pairando sobre os céus de Londres

Novo artigo em Aventar


por A. Pedro Correia

Ao contrário do que muita gente por aqui acha, Trump não é propriamente destituído de inteligência prática e sabe exactamente onde quer chegar.

Trump quer redesenhar a política mundial, nem mais nem menos, e pô-la ao serviço da "America great again" e das grandes corporações privadas, fazendo tábua rasa de organizações humanitárias e/ou garantísticas, género ONU ou UNESCO, e blocos transnacionais como a CE, as quais, na sua concepção, só atrapalham.

A recente cimeira da NATO mostra que Trump pode facilmente ameaçar torpedear uma organização que, além das questões estratégicas, não sirva os interesses da indústria americana e o seu ascendente geoestratégico, neste caso a do armamento.

O mesmo se passa hoje, na visita a Inglaterra. Começou por ameaçar - se não fizerem como "sugiro", faço o acordo com o vosso " inimigo", a CE - e prosseguiu com simpatias do tipo - a vossa primeira-ministra não me ouve - ou - eu sei quem é que dava um bom primeiro-ministro para vocês.

Trump, o homem de negócios, traz para a política entre nações um discurso que prescinde da linguagem e das pinças diplomáticas, arriscando a terra-queimada ou dar o dito pelo não dito, sem problemas de coerência.

Volto ao início: Trump não é destituído de inteligência prática e está habituado a ganhar. Na última semana acumulou vitórias musculadas, resultantes de esticar a corda sem medo que esta se parta.

É perigoso também por isso.

Esta guerra não é comercial

  por estatuadesal

(Francisco Louçã, in Expresso, 13/07/2018)

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Entra Trump na cimeira da NATO e exige aos aliados o pagamento dos 2% prometidos para a defesa, insinuando que há contas atrasadas. Subiu depois para 4%. Para Portugal isso significaria cerca de oito mil milhões por ano (já para conseguir metade o Governo pede financiamento externo). Ao mesmo tempo, o Presidente norte-americano aplica tarifas alfandegárias contra os europeus, como se fossem ameaça para a sua segurança. Entendamo-nos, há aqui uma guerra e não é só comercial. E vai continuar.

O MEU BOTÃO É MAIOR DO QUE O TEU

A estratégia de Trump, alinhavada em tweets e prosápias, tem uma lógica que não deve ser ignorada: afirma o poder militar e político. Desviar recursos de outros países (os tais 4%), mostrando que o meu botão é maior do que o teu, como Trump dizia a Jong-un, é para isso uma política coerente.

Assim, os EUA usam as armas que lhes restam no plano económico, como o dólar, cuja supremacia garante o financiamento da sua dívida nacional, e a capacidade tecnológica e científica de ponta. Mas na produção de massas e mesmo em algumas tecnologias, outras economias já ultrapassaram os EUA e portanto querem o comércio livre. Por isso, aos países europeus, que têm um superavit comercial, Trump exige que paguem as contas da defesa e que restrinjam as suas exportações, e vira-se contra a China com medidas que horrorizam os economistas liberais. Krugman chama a isto a política vudu.

A LEI DA FORÇA

O problema não é novo. Adam Smith, que ganhou os seus pergaminhos estudando a evolução comparada das economias, mostrava com candura que o comércio livre é sempre a vantagem do mais forte: “Quando um homem rico e um homem pobre fazem um negócio, ambos aumentarão a sua riqueza, mas a do homem rico aumentará em proporção maior do que a do homem pobre. Do mesmo modo, quando uma nação rica e uma pobre estabelecem uma relação comercial, a nação rica terá a maior vantagem, e por isso a proibição desse comércio é-lhe mais prejudicial”.

Um século mais tarde, um Presidente norte-americano, o general Ulysses Grant, explicou a um grupo de empresários o que faria o seu país nos séculos seguintes: “Durante séculos a Inglaterra apoiou-se no protecionismo, levou-o a extremos e conseguiu assim resultados satisfatórios. Não há nenhuma dúvida de que foi a este sistema que ficou a dever a sua força atual. Depois de dois séculos, a Inglaterra achou conveniente adotar o comércio livre porque pensa que o protecionismo já não lhe pode oferecer nada. Muito bem, cavalheiros, o meu conhecimento do nosso país leva-me a acreditar que dentro de 200 anos, quando a América tiver tirado da proteção tudo o que esta pode oferecer, também adotaremos o livre comércio”. Bastou meio século. Assim que se tornaram a potência dominante em termos económicos e tecnológicos, e logo depois monetários, os EUA passaram a defender o comércio livre que dominavam. Perdendo hegemonia, voltam ao protecionismo.

A lei é portanto simples: o mais forte defende o comércio livre, o mais fraco resiste. Os EUA procuram agora a guerra comercial porque a sua economia é vulnerável. Assim, esta guerra continuará porque os EUA não voltarão a ter a hegemonia de que beneficiavam até agora. O nosso tempo será de tensão comercial e política.

O PODER DOS FRACOS

Na época dos nossos pais, um economista liberal e defensor do comércio livre, John Keynes, testemunhando perante uma comissão parlamentar nos anos trinta do século passado, reconhecia a evidência que o atormentava: “Tenho muito receio do protecionismo como política de longo prazo, mas nem sempre podemos adotar uma visão de longo prazo (...) a questão, na minha opinião, é até que ponto estamos preparados para arriscar desvantagens de longo prazo para conseguir alguma ajuda na nossa posição imediata”. Ou seja, a dificuldade leva a condicionar o comércio.

A escalada de medidas de Trump contra a China é ilustrativa dessa aflição. Em fevereiro o alvo eram os painéis solares e máquinas de lavar, que valem menos de 10 mil milhões de dólares, em março eram o alumínio e o aço, num total de 46 mil milhões de dólares, em abril a conta subia para 50, em maio para 100 e em junho surgiu a ameaça de atingir os automóveis, no valor de 275 mil milhões. Em julho o alvo duplica. As taxas em vigor desde a última sexta-feira são só o início, mas esta semana a Casa Branca já ameaçou aplicar mais 10% sobre outros 200 mil milhões de dólares de exportações chinesas. Assim, Trump, que parece perdido, só faz o que outros antes dele já defenderam. Só que na história nunca houve uma potência dominante a provocar a guerra comercial. Estamos então a assistir à decadência de uma época. É isso que é perigoso. Trump abre as portas dos infernos.


“Poesia Reunida”, de Manuel Resende

Manuel Resende coligiu na Cotovia a sua poesia de 1983 a 2004, todos os poemas publicados, mais alguns inéditos. São textos de uma cultura, de uma história e de uma revolução que fez esta embrulhada de um país arcaico de repente mergulhado na modernidade, mas também do que se passou nos anos de bruma, depois das desilusões, dos abandonos, da tristeza desses naufrágios nas praias da vida quotidiana. Ou também dos encontros, dos livros, das ideias. Um desses poemas é assim:

Nocturno da Rua da Palma

    Passado tanto tempo, a chamada vida,
Seguimos por essas ruas, vergados à fria bruma,
A nossa verdadeira casa,
Confinados a alguns amigos.
Onde estão as festas de anteontem, os risos e os
espelhos,
Se bem que baratos, retratos feéricos das nossas caras?
Está frio, está frio e, entre amigos,
poucos, vamos
encostando os corpos, que talvez assim se passe o
Inverno.

E o livro levará quem o lê a paragens surpreendentes, do herói do gueto de Varsóvia ao pranto de Bartolomeu, de Rimbaud a Arendt, do Porto, “cidade sem nome”, a Dubrovnik, de Kaváfis (de que M.R. é tradutor) a Ruy Belo e a Adília Lopes, até passando por uma evocação de um aventureiro desconhecido, Raymond Molinier, tudo envolto nessa “oralidade” opressiva que é a dos nossos dias.


Esquerda pequenina

A ‘Catalyst’ é uma publicação da revista “Jacobin”, uma das mais conhecidas publicações da esquerda norte-americana, com leitores em todo o mundo. A polémica em que se envolveu, com a decisão de afastar Robert Brenner da equipa editorial, tem por isso impacto alargado e revela um espírito censório que se suporia interdito numa esquerda defensora da liberdade de opinião.

Robert Brenner, professor da Universidade da Califórnia, é um dos historiadores económicos internacionalmente mais reconhecidos, como autor de “Economia da Turbulência Global”, um dos livros que anteciparam as contradições da financeirização, e outros trabalhos. É editor da “New Left Review”, a mais destacada revista de pensamento de esquerda na Europa. O seu afastamento é um ato de mesquinhez, que revela muito do espírito de seita que sobrevive em alguns coletivos editoriais e políticos.

Vários intelectuais tomaram posição contra esta forma de censura e anunciaram que se recusariam a colaborar com a publicação nestas condições. Foi o caso de Costas Lapavitsas, da Universidade de Londres, de Mike Davis, também editor da “New Left”, ou de Kim Moody, editor de “Labor Notes”, a revista de referência no sindicalismo norte-americano. Têm razão, os debates de ideias exigem responsabilidade e liberdade.


Johan chorou no tribunal

A Associated Press contou a história: no dia 6 de julho, um miúdo de um ano, Johan, foi presente ao tribunal de Phoenix, no Arizona, Estados Unidos. Foi separado dos pais quando tentavam entrar na fronteira e desde então a criança ficou sob custódia policial. No dia do julgamento foi-lhe garantido um advogado.

O juiz John Richardson confessou que estava “embaraçado por ter que perguntar à criança se compreendia os procedimentos legais”. “Não sei como explicar isto, a não ser que imaginasse que uma criança de um ano pode ter estudado a lei da imigração”, acrescentou o juiz. A agência de informação relata que Johan chorou no tribunal.

Há cerca de três mil crianças ainda presas nos Estados Unidos e separadas dos pais. A Administração Trump mantém uma guerra nos tribunais para impedir a alteração destes procedimentos policiais.

A quinta coluna

por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/07/2018)

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Daniel Oliveira

Augusto Santos Silva nunca apreciou a atual solução governativa. Ela é contraditória com a clivagem política fundamental que acredita existir na Europa e em Portugal: em vez de esquerda contra direita, europeístas contra eurocéticos e moderados contra populistas. Uma visão coerente com o enorme entusiasmo que mostrou com a vitória de Emmanuel Macron, o homem que traiu e enterrou o Partido Socialista Francês. Assim sendo, PCP e BE estão, do seu ponto de vista, no espaço político oposto ao do PS. E PSD e CDS, podendo ser concorrentes, são aliados estratégicos. A ‘geringonça’ é e sempre foi, para Santos Silva, uma fase tática que aceitou por razões igualmente táticas. Mas um solução contranatura.

Numa entrevista à Rádio Renascença, Santos Silva defendeu que a ‘geringonça’ deveria ser reeditada depois das próximas eleições. Mas o compromisso deveria ser maior: entre outras áreas, teria de haver um entendimento sobre a União Europeia. Recordo que, em dezembro do ano passado, Santos Silva disse ao jornal “Die Zeit” que não era “fundamentalmente contra medidas de austeridade”, apenas achava que tinha sido necessário dar “um sinal de recuperação à população”. Ao contrário de Costa, Santos Silva acredita na solução austeritária imposta durante a crise. Não é por isso credível que esteja a defender que o PS faça qualquer tipo de cedências ao PCP e ao BE em política europeia. O que Santos Silva está a dizer é que, para haver um novo entendimento, comunistas e bloquistas têm de passar a defender as vantagens do dogmatismo monetário, a cegueira dos limites orçamentais, e que o combate à inflação tem prioridade face à promoção do emprego, como expressamente exige o dogma do BCE. BE e PCP teriam de se transformar no oposto do que são.

Tem razão Manuel Alegre quando sublinha a contradição entre a defesa da reedição da ‘geringonça’ e a exigência de que os partidos se entendam naquilo em que estão irremediavelmente distantes. Mas o que Santos Silva pretendeu defender na Renascença não foi a renovação da ‘geringonça’, foi uma negociação que a leve a um beco sem saída e assim a enterre. Santos Silva não quer uma clarificação do PCP e do BE, quer uma clarificação do PS.

Isto é apenas a continuação do debate iniciado no último congresso. Quer provar por dentro o que Assis não conseguiu provar de fora. É, sempre foi, uma espécie de quinta coluna dentro da ‘geringonça’. Só que, enquanto Assis e Sousa Pinto tiveram a coragem de assumir a divergência e por isso ficaram longe da esfera de influência da direção do PS, Santos Silva preferiu agarrar o lugar de ministro, que também deve ao PCP e ao BE. A forma enviesada como combate a ‘geringonça’ é coerente com a forma pouco clara como se comprometeu com esta solução de Governo. Uma e outra, mais do que um perfil político, traçam um perfil de personalidade. António Costa veio desautorizar a tese de que a ‘geringonça’ só se repetirá com um acordo em torno da Europa — que é o mesmo que dizer que não se repetirá.

Não é a primeira vez que Santos Silva se substitui a Costa na definição estratégica do PS. A questão é saber se o faz por autorecriação ou com autorização do primeiro-ministro, que depois tempera a coisa, deixando que fique o recado. Como não tenho qualquer razão para pensar que Santos Silva deixou de estar no núcleo duro do líder, continuo a achar que Costa está a jogar um jogo duplo e perigoso, que tem tudo para correr mal nas próximas eleições.

Onde pára a maioria?

  por estatuadesal

(José Soeiro, in Expresso Diário, 13/07/2018)

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José Soeiro

Desde o seu Congresso, dirigentes do PS e membros do Governo têm-se multiplicado em declarações contraditórias sobre o caminho que pretendem. Nalguns casos, elas são a expressão normal das contradições existentes no próprio Governo e no Partido Socialista, entre os que defendem convictamente a solução política que existe (como Pedro Nuno Santos, por exemplo) e os que, como Santos Silva, por exemplo, anseiam regressar ao lugar de onde verdadeiramente nunca saíram e libertar-se rapidamente de qualquer compromisso com a Esquerda. Se fosse apenas uma troca de declarações, seria interessante mas pouco relevante. Mas este ziguezague é a expressão de uma confusão em torno de escolhas políticas concretas, que aliás põe em causa a consistência e a coerência da atual maioria. Se a ideia do Governo é essa – pô-la em causa, para reconstruir o centrão –, então é uma boa estratégia. Mas seria, sobretudo, uma irresponsabilidade que fosse por esse caminho. Há muitas escolhas para fazer e muitos problemas para resolver.

Um exemplo: a legislação laboral. Independentemente das divergências que sempre existiram entre o Partido Socialista e a Esquerda, tinha sido possível chegar a um acordo, depois de quase dois anos de reuniões de um Grupo de Trabalho, entre Bloco, PS e Governo, com medidas importantes para limitar abusos nos contratos a prazo e no trabalho temporário. Depois, é o que se sabe: à revelia da Esquerda, o Governo acordou com as confederações patronais um conjunto de medidas de sinal contrário para esvaziar e mitigar o que tinha negociado com o Bloco. Acontece que a proposta de lei laboral do Governo ainda não foi votada. Está o PS disponível para, no Parlamento, concertar-se com a Esquerda na especialidade? Está o PS disponível, por exemplo, para anular as normas suscetíveis de serem declaradas inconstitucionais, como o alargamento do período experimental para 180 dias? Para eliminar da proposta o alargamento a todos os sectores de contratos orais sem invocação formal de motivo nem direito a compensação? Ou para garantir que a questão do banco de horas é reenviada para a esfera da negociação coletiva? Está o PS disponível para voltar a negociar à Esquerda, ou vai ser apenas o eco parlamentar das medidas impostas pelos patrões na concertação social?

Outro exemplo: o Serviço Nacional de Saúde. António Arnaut e João Semedo, duas figuras exemplares cuja vida simboliza o compromisso com o SNS público e universal, deram um exemplo de generosidade e de diálogo, propondo em conjunto uma nova Lei de Bases, com o objetivo de salvar o SNS e reverter a sangria de recursos públicos para o negócio privado na saúde. O Governo, que marcou presença na apresentação da proposta, apressou-se a criar uma Comissão presidida por Maria de Belém Roseira para fazer uma outra proposta de Lei de Bases, amiga dos grupos privados (com os quais, de resto, Belém mantém uma relação íntima) , capaz de travar a Lei Arnaut/Semedo. O PS quer mesmo deitar por terra a possibilidade de negociar uma lei à Esquerda, para negociar à Direita uma lei que tenha o apoio de quem descaracterizou o SNS e protege interesses particulares de grupos económicos da área da saúde? É esse o caminho que escolhe?

Os exemplos são muitos. Depois de ter repetido, a propósito de assuntos tão diversos como as carreiras dos professores, as pensões antecipadas, a meta de 1% para a Cultura ou a renovação de equipamento para hospitais que “não há dinheiro”, o Governo descobriu subitamente uma disponibilidade de desembolsar mais 4 mil milhões em despesas militares, para ir de encontro à exigência da NATO e à pressão de Trump de gastar 2% do PIB (do PIB, não é sequer do Orçamento!) em defesa. Num país que dedica à Cultura, por exemplo, 0,1%, ou seja, 20 vezes menos.

Ao longo destes últimos meses, a Esquerda tem estado onde sempre esteve: não cala as suas posições nem abdica das suas propostas sobre cada assunto, mas nunca faltou à maioria para nenhum progresso nem nunca se pôs de lado de nenhum processo negocial. Resta saber se o PS pretende, em cada uma destas matérias, falar com a Esquerda ou faltar à Esquerda.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Sondagem. PS a três pontos da maioria absoluta

  por estatuadesal

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 13/07/2018)

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(Depois de ver hoje o debate do Estado da Nação, o resultado desta sondagem é um balde de água fria para o Negrão, a Cristas, o Magalhães, o Telmo, o Adão e compahia, os quais conseguiram pintar, sem se rirem, que o país está pior que no tempo do governo pafioso onde militaram diligentemente para levar os portugueses à indigência.

O PS está bem onde está e não convém que suba mais para não ter tentações de desvario para a direita, seguindo os cantos da sereia do Assis e do truculento Santos Silva ou do César nos dias pares, já que nos dias ímpares é um "geringoncista" assumido.

Comentário da Estátua, 13/07/2018)


Mesmo com mais contestação nas ruas, com professores em pé de guerra e descontentamento na saúde, o PS consegue subir um ponto percentual nas intenções de voto. A pouco mais de um ano das eleições, António Costa aproxima-se aos poucos da maioria absoluta e recupera da quebra registada no último inquérito Expresso/SIC da Eurosondagem: sobe um ponto percentual para os 42%, quando o PS pode aspirar a governar sozinho se tiver um resultado próximo dos 45% (a meta atingida por Sócrates em 2005), dependendo da distribuição dos votos pelos círculos eleitorais.

Ao mesmo tempo, Costa vê os seus parceiros de esquerda — com quem tem mantido agora um nível mais alto de tensão política — com pequenas perdas de eleitorado. Tendo em conta estes resultados, nem o Bloco (com 7,9%) nem a CDU (com 7,3%) capitalizaram com a dramatização política das últimas semanas. Nem os professores parecem ter reunido as simpatias do resto do eleitorado, nem a crise nas leis laborais levou mais gente a querer dar o seu voto aos partidos de esquerda. Resumindo: os últimos episódios da “crise na geringonça” parecem afetar mais o BE e o PCP do que o PS.

Conclusão: se as eleições fossem hoje, mantinha-se como alta probabilidade a necessidade de ter pelo menos um parceiro para viabilizar um Governo.

Se à esquerda Costa ganha vantagem, o PSD perde pela segunda vez consecutiva. Rui Rio tinha começado bem neste estudo de opinião (com um impulso de 1,5 pontos percentuais em março, logo depois de chegar à liderança), mas desbaratou de forma consecutiva nos últimos quatro meses essa tendência: perdeu 0,7 pontos percentuais este bimestre (e tinha recuado 0,4 no estudo anterior).

O líder social-democrata melhora na popularidade (tem 10,9% de aprovação), mas António Costa também continua a crescer na avaliação dos inquiridos e está a milhas do social-democrata (34,2% de saldo positivo).

Ou seja, Rui Rio não descola nem ganha embalagem para o ano eleitoral que se avizinha e começa a deixar que se cristalize a ideia de que não conseguirá vencer eleições. O próprio líder do PSD, aliás, raramente tem procurado contrariar a ideia de que não vencerá as legislativas.

A quebra do PSD, no entanto, é proporcional à tendência de crescimento do CDS, que subiu meio ponto percentual no conjunto das duas últimas sondagens, para os 7,5%. Assunção Cristas lançou no seu congresso a ideia de que iria competir pela liderança da direita, mas os resultados continuam a ser insuficientes para chegar aos quase 12% das legislativas de 2011. Ainda há muito caminho a fazer, se o calendário eleitoral se mantiver estável.


FICHA TÉCNICA

ESTUDO DE OPINIÃO EFETUADO PELA EUROSONDAGEM S.A. PARA O EXPRESSO E SIC, DE 4 A 11 DE JULHO DE 2018. ENTREVISTAS TELEFÓNICAS, REALIZADAS POR ENTREVISTADORES SELECIONADOS E SUPERVISIONADOS. O UNIVERSO É A POPULAÇÃO COM 18 ANOS OU MAIS, RESIDENTE EM PORTUGAL CONTINENTAL E HABITANDO LARES COM TELEFONE DA REDE FIXA. A AMOSTRA FOI ESTRATIFICADA POR REGIÃO: NORTE (20%) — A.M. DO PORTO (13,7%); CENTRO (29,8% — A.M. DE LISBOA (26,6%) E SUL (9,9%), NUM TOTAL DE 1011 ENTREVISTAS VALIDADAS. FORAM EFETUADAS 1169 TENTATIVAS DE ENTREVISTAS E 158 (13,5%) NÃO ACEITARAM COLABORAR NESTE ESTUDO. A ESCOLHA DO LAR FOI ALEATÓRIA NAS LISTAS TELEFÓNICAS E O ENTREVISTADO, EM CADA AGREGADO FAMILIAR, O ELEMENTO QUE FEZ ANOS HÁ MENOS TEMPO, E DESTA FORMA RESULTOU, EM TERMOS DE SEXO: FEMININO — 51,5%; MASCULINO — 48,5% E, NO QUE CONCERNE À FAIXA ETÁRIA, DOS 18 AOS 30 ANOS — 16,8%; DOS 31 AOS 59 — 52,4%; COM 60 ANOS OU MAIS — 30,8%. O ERRO MÁXIMO DA AMOSTRA É DE 3,08%, PARA UM GRAU DE PROBABILIDADE DE 95%. UM EXEMPLAR DESTE ESTUDO DE OPINIÃO ESTÁ DEPOSITADO NA ENTIDADE REGULADORA PARA A COMUNICAÇÃO SOCIAL.