Translate

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Quem tem medo da verdade de Tancos?

  por estatuadesal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Esta história de Tancos cheira a esturro por todos os lados. Primeiro desapareceram as armas. Depois apareceram, por artes mágicas, mais armas do que as roubadas. Agora, afinal, apareceram armas a menos. E, para aumentar a confusão, vem o Vasco Lourenço e diz, preto no branco, que não houve roubo nenhum e foi tudo uma encenação para atacar o Governo (ver aqui).

Isto já não parece um país a sério mas um país de opereta. Como dizia a saudosa Irene Silva numa célebre rábula: "Está tudo grosso, está tudo grosso":

Comentário da Estátua, 23/07/2018)


Há um compreensível desconforto com o facto de se ter percebido que afinal ainda há material roubado em Tancos por aí. A falha de segurança é tal e a forma como isto tem sido dirigido parece ser tão amadora que nos resta a esperança de continuar fora do radar de organizações terroristas para não sofrermos duras consequências do nosso amadorismo. Por razões óbvias as atenções têm estado centradas nas responsabilidades do poder político. Elas existirão, certamente. Mas, a existirem, são as menos preocupantes. Os governantes passam e a estrutura militar fica.

Existe, em Portugal e em quase todo o lado, um enorme pudor em sindicar o funcionamento das Forças Armadas. Perante qualquer coisa que corra mal a tendência é responsabilizar políticos e tratar a hierarquia como mera vítima de falta de meios ou de apoio. Esta cultura de desresponsabilização alimentou, aliás, uma tendência para os militares se colocarem numa posição de superioridade moral e, por vezes, até de superioridade hierárquica. Um clima que retira poder aos políticos sobre a instituição militar e torna mais difícil responsabilizá-los por o que corra mal. Um político só pode ser responsabilizado por o que aconteça nas Forças Armadas se tiver um poder real sobre elas.

As responsabilidades do ministro da Defesa são um problema político, mas a suspeita de que a hierarquia militar está e encobrir qualquer coisa sobre o crime de Tancos à justiça seria um problema de regime

Parece evidente que nos andam a mentir sobre Tancos. A questão é saber se o ministro nos mente ou se a hierarquia militar mente ao ministro. O que soubemos esta semana lança suspeitas sobre o comportamento da instituição militar. É natural que haja desentendimentos entre a Polícia Judiciária e a Polícia Judiciária Militar. Eles existem sempre entre diferentes organismos de investigação e isso será seguramente agravado pelo facto dos militares nunca gostarem de ver qualquer organismo estranho à sua cultura entrar nos seus domínios.

Mas ao sabermos que a PJ tentou colocar um localizador numa viatura de PJM atira o que são fricções naturais entre polícias para outro patamar. Que nos deve preocupar por duas razões: porque corresponde a um comportamento hostil e inaceitável entre dois organismos em que temos de confiar e porque revela que a PJ suspeita que a PJM está a encobrir a verdade de um crime. Podemos e devemos estar atentos ao poder real que o ministro da Defesa tem e como o exerce. Mas isso é um pormenor perante a suspeita de que a hierarquia militar nos está e encobrir qualquer coisa sobre este crime. As responsabilidades do ministro são um problema político, isto seria um problema de regime.

Novo artigo em Aventar Os politólogos estão estupefactos: PS consegue governar mais à Direita do que o PSD

Novo artigo em Aventar


por Ricardo Ferreira Pinto

Podia dar o exemplo da Educação, em que uma imbatível Maria de Lurdes Rodrigues, no que diz respeito ao ataque à Escola Pública em geral e aos professores em particular, é perseguida nos seus feitos pelo actual titular da pasta.
Podia dar o exemplo da Saúde, cujo SNS está pior do que alguma vez esteve - cortesia do Partido que o fundou.
Podia dar ainda o exemplo da Energia - no meio de todas as vergonhas de Pinho e Sócrates, o actual Governo consegue transformar uma dívida da EDP ao Estado numa dívida do Estado à EDP.
Pois, não há dinheiro. Mas para os mesmos de sempre há sempre dinheiro.
Podia dar n exemplos, mas não é preciso. O fim da austeridade é uma treta e a merda é a mesma de sempre. Desde o início mas sobretudo desde que é presidente do Eurogrupo, o ministro dos bilhetes do Benfica mais não faz do que sacar aqui e ali, cativar tudo o que mexe, meter-se com quem tem menos e acobardar-se perante os poderosos. Um corrupto moral que não passa disso mesmo - de um corrupto moral.
Quanto à Esquerda, continuará até ao fim da Legislatura refém do PS. A engolir sapos perante um Governo mortinho por que o façam cair para depois poder governar em maioria absoluta. Perante um Governo que actualmente está mais próximo do PSD do que da Esquerda.
Alguma vez esteve mais longe?

Centeno (1): Sai uma sondagem

  por estatuadesal

(João Ramos de Almeida, in Blog Ladrões de Bicicletas, 23/07/2018)

CENTENOX

(Não havia necessidade, parafraseando o Abade dos Remédios. O orçamento, ó Centeno, "é para todos os portugueses", mas não só. É também - e se calhar, sobretudo -, para os bancos, os detentores de dívida pública de Portugal, sejam portugueses ou estrangeiros. Para esses, só de juros, são mais de 7000 milhões de euros.

E bem podias estar calado, porque aqueles que acusas de quererem o céu e a lua, são aqueles que te permitiram ser ministro e, mais ainda, Presidente do Eurogrupo.

Comentário da Estátua, 23/07/2018)


Antes de ir aos casos mais graves, apenas um aspecto anedótico.

Na entrevista que o ministro das Finanças deu ao Público, Mário Centeno refere por diversas vezes que as suas opções estão sustentadas no apoio dos portugueses, através de... estudos de opinião que foram realizados.

Para já, a referência aos estudos de opinião parece ter subjacente a ideia mirífica (e populista) de que é possível contornar o Parlamento e as instituições democráticas representativas - para governar em nome de "todos os portugueses". Essa ideia parte de outra: a de que a pessoa que escolhe as perguntas é aquela que é a mais capaz e competente de interpretar o espírito de "todos os portugueses". E assume assim um poder bem superior a "todos os portugueses": o de impor a sua pergunta.

Geralmente, porque essa pessoa "interpreta" o sentir do povo, tende a não levar a "votos" aquilo que pode ser realmente determinante para "todos os portugueses", quando não haja qualquer referência explícita nos programas partidários. Foi o caso do Tratado de Maastricht, da criação da moeda única - aliás, baseada num frágil estudo de impacto que convinha revisitar... - ou o Tratado Orçamental. Nunca esses tratados foram a votos.

Finalmente, convinha lembrar que a fiabilidade dos estudos de opinião depende muito da forma como as perguntas são feitas. Veja-se o caso já citado noutro post deste blogue, em que, na série britânica Yes, minister, se mostra como se dirigem entrevistas para obter certos resultados.

Centeno fez o mesmo. No estudo de opinião que citou, perguntou-se aos portugueses: "Qual dos três eventos" - gosto muito da palavra eventos - "mais aumentavam a sua auto-estima: ganhar o campeonato europeu de futebol, a saída do Procedimento por Défice Excessivo (PDE) ou ganharmos a Eurovisão". Não se percebe muito bem a escolha do conceito auto-estima, mas tudo bem. A resposta da maioria dos portugueses recaiu evidentemente em... PDE. A conjunção de três palavras pesadas como procedimento, défice e excessivo parece mesmo mau e então se sairmos disso, parece bem mais importante do que "ganharmos" a Eurovisão.

Agora, faça-se outra sondagem: "Qual dos casos lhe parece ser mais importante para si: ganhar como prémio uma tablete de chocolate Regina, beneficiar de um Serviço Nacional de Saúde eficaz ou que o défice orçamental suba umas décimas do PIB?"

Pois é...

Modelos de ‘rating’, o melhor dos dois mundos

Nuno Barradas Esteves, Economista

00:08

A cooperação entre ‘fintechs’ e instituições financeiras permitirá criar modelos de 'rating' mais fiáveis, com melhor capacidade preditiva e enquadrados nas exigências regulatórias.

A revolução digital está em curso no setor financeiro. Contudo, o impacto nos atuais players do setor bancário e segurador não está ainda bem definido. A disrupção digital tem o poder de alterar as regras e a relevância de cada uma das instituições e, simultaneamente, ajudar a criar serviços financeiros melhores e mais económicos, tornando-os ainda mais relevantes na vida de cada um de nós.

No sentido de beneficiar com a alteração do paradigma tecnológico, as instituições financeiras têm sentido a necessidade de sair do seu ecossistema de alguma complacência institucional e de procurar novas formas de incrementar o negócio, penalizadas estruturalmente por um ambiente de baixas taxas de juros e por um conjunto de ativos no seu balanço que não geram retorno, tendo muito delas estabelecido alianças com as emergentes fintechs, as tecnológicas financeiras.

Uma das áreas que se mostra mais apelativa e na qual o equilíbrio cooperativo pode ser mais produtivo é o ramo dos modelos de rating. Estes algoritmos permitem avaliar a capacidade que um devedor tem de cumprir os compromissos assumidos com os credores, fornecendo uma medida do risco de incumprimento. Estas medidas têm, em regra, a forma de uma notação dada segundo uma escala, que no caso da Standard & Poors, por exemplo, começa na notação AAA (risco mínimo) até D (incumprimento), sendo as notações abaixo de BBB- consideradas altamente especulativas ou de risco elevado.

A construção dos modelos de rating interno de cada uma das instituições financeiras é alimentada por um conjunto de informação histórica quantitativa e qualitativa, destacando-se as demonstrações financeiras publicadas anualmente pelas entidades (IES), o reporte da centralização de responsabilidades do crédito do Banco de Portugal e estudos sobre a dinâmica setorial.

Estes modelos, apesar de sólidos, revelam ainda alguma incapacidade em prever incumprimentos futuros, obrigando as instituições financeiras a atuar num contexto reativo e não proativo, com as consequências negativas daí decorrentes.

O valor acrescentado pelas tecnológicas financeiras reside na utilização em simultâneo dos conceitos de Inteligência Artificial (IA), Machine Learning (ML) e Econometria, no sentido de incrementar a capacidade preditiva dos modelos de rating internos das instituições financeiras, permitindo-lhes assim reduzir a taxa de incumprimento e potenciar a aceitação de novos empréstimos.

As tecnológicas financeiras com uma estrutura de decisão mais ágil e uma maior permeabilidade a novos conceitos têm demonstrado excelentes resultados na perceção do risco individual das empresas, contribuindo desta forma para uma otimização do risco do portefólio das instituições financeiras.

Ainda que ambas detenham propostas de valor diferenciadas – as fintechs oferecem inovação e tecnologia disruptiva, ao passo que as instituições financeiras detêm um elevado know-how do setor e uma maior capacidade financeira –, é da confluência do melhor dos dois mundos que se poderá criar modelos de rating mais fiáveis, com uma melhor capacidade preditiva e enquadrados nas exigências regulatórias, possibilitando uma gestão mais eficiente dos recursos.

Portugal na origem da carta de condução eletrónica global

Jorge Alcobia, CEO da Multicert

20 Jul 2018

Esta é uma carta de condução que pode ser utilizada em qualquer parte do mundo, numa era em que se circula globalmente mais do nunca.

A carta de condução poderá vir a ser o primeiro documento de identificação eletrónico disponibilizado em smartphones interoperável e reconhecido globalmente em todos os países do mundo. Esse é o objetivo do grupo de trabalho, criado pela International Organization for Standardization (ISO), que juntou em Lisboa, no final de junho, 41 peritos de todo o mundo, entre empresas tecnológicas globais (como os dos principais motores de pesquisa e os principais fabricantes de smartphones a nível mundial) e entidades públicas com competência na emissão de documentos de identificação.

Uma carta de condução eletrónica é consideravelmente mais segura que a tradicional carta em formato físico, por várias razões. Desde logo, é impossível de forjar porque utiliza mecanismos criptográficos que protegem a integridade e autenticidade dos dados, em tudo semelhantes aos utilizados noutros documentos eletrónicos a que já estamos habituados, como o Cartão de Cidadão ou o Passaporte Eletrónico. Por consequência, o processo de validação é significativamente mais simples e preciso, minimizando ou mesmo eliminando o fator humano.

A grande vantagem da carta eletrónica é que os dados pessoais contidos estão protegidos e apenas são disponibilizados os estritamente necessários após consentimento do titular. Por exemplo, nos produtos de venda controlado, será possível limitar a informação a uma asserção eletrónica do tipo “titular é maior de 18 anos”, em vez de partilhar a data de nascimento e outros elementos biográficos.

Há também uma significativa redução de tempo e de custos com os processos de emissão e de expedição de cartas. Finalmente, esta é uma carta de condução que pode ser utilizada em qualquer parte do mundo, numa era em que se circula globalmente mais do nunca, e que pode ser guardada no smartphone, fatores que são muito valorizados pelas novas gerações.

Na sequência da reunião agora realizada em Portugal, foi revista uma primeira versão publicada da especificação, esperando-se a publicação de uma segunda versão no final do terceiro trimestre deste ano, esperando-se que já no início de 2019 haja a emissão do novo documento em formato eletrónico em alguns países.

Nesse sentido, a aprovação da norma ISO, que deverá acontecer no próximo ano, vai garantir a interoperabilidade das cartas de condução eletrónicas em todo o mundo. A tecnológica portuguesa Multicert participa no projeto desde o seu arranque.